sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

João Filho: Quanto mais se investiga a Lava Jato, pior fica para Sergio Moro

Sergio Moro comemorou a aprovação do PL da Dosimetria na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Ele explicou, em pronunciamento, que o texto aprovado corrigiu o grande erro da versão da Câmara e restringiu a redução de pena exclusivamente aos golpistas do 8 de janeiro.

“Nós nos posicionamos em favor de corrigir esse erro e restringir os benefícios apenas aos condenados do 8 de janeiro, sejam manifestantes, seja [Jair] Bolsonaro, sejam os generais”, disse o paladino da ética na política, sem o menor pudor em deixar claro que o projeto foi feito sob medida para salvar os criminosos do seu grupo político.

Enquanto juiz, Moro usou os tribunais para abrir o caminho para a eleição de Bolsonaro. Hoje, como senador, ele atua como advogado dos bolsonaristas que lideraram uma tentativa de golpe de estado. Não há novidade aqui. As credenciais democráticas e morais de Moro são largamente conhecidas. Mas quanto mais se investiga o passado da Lava Jato, mais esqueletos vão aparecendo no armário do senador.

Pouco antes de ele festejar a diminuição de pena para os seus criminosos de estimação, a Polícia Federal comprovou mais uma ilegalidade na sua vasta carreira de ilegalidades.

A partir de busca e apreensão feita na 13ª Vara Federal de Curitiba — a vara da Lava Jato — feita no início deste mês, os investigadores descobriram que o então juiz grampeou ilegalmente diversas autoridades com foro privilegiado através de delatores chantageados. Para se ter uma ideia da gravidade da coisa, esta é a primeira vez na história que a PF faz busca e apreensão em uma vara judicial.

O método lavajatista não chega a ser uma novidade, mas agora surgiram documentos, relatórios de inteligência e gravações em áudio e vídeo obtidas ilegalmente. Essas provas documentais corroboram as denúncias de que colaboradores e delatores foram usados pela Lava Jato para vigiar autoridades com prerrogativa de foro, fora da alçada de Moro e sem autorização de tribunais superiores.

A jornalista Daniela Lima teve acesso à parte dessas provas. Entre elas, há uma conversa gravada entre o empresário e ex-deputado estadual Tony Garcia e o então presidente do Tribunal de Contas do Paraná, Heinz Herwig.

O áudio capturado confirma a denúncia de Garcia de que ele teria sido orientado por Moro a gravar autoridades de forma clandestina. Há, também, outras gravações envolvendo desembargadores do famoso TRF-4, a instância superior que endossou de forma absoluta todas as maluquices jurídicas da Lava Jato.

Um vídeo apreendido pela PF atesta a existência da chamada “festa da cueca” — denunciada há anos por Tony Garcia — realizada em um hotel de luxo em Curitiba com diversos magistrados do TRF-4 e garotas de programa. Segundo os registros encontrados, um dos desembargadores, “com medo de que as fitas das festas vazassem, contou para a mulher que foi filmado pelado”.

Esse mesmo desembargador participou do julgamento dos processos da Lava Jato. Isso significa que Sergio Moro tinha em suas mãos o poder de acabar com o casamento de magistrados de uma instância superior — a mesma que era responsável por revisar e julgar o seu trabalho nebuloso na Lava Jato. Em um dos áudios, o desembargador “contou que estava pelado em uma festa”. Ele sabia que foi filmado e temia que as imagens viessem a público.

Tudo isso esteve guardado até hoje nas gavetas da vara lavajatista. Segundo colaboradores da operação, o então juiz usava esses registros para chantagear os desembargadores e garantir a manutenção de condenações de investigados. Tudo nesse caso remete ao modus operandi das máfias. Eis o poderoso chefão de Curitiba!

Ao Brasil Paralelo — aquele tablóide de extrema direita que vive num Brasil paralelo —, o senador afirmou: “Essa matéria é requentada e já saiu em 2023, portanto não há nenhuma novidade. (…) “A mesma matéria divulgada hoje foi divulgada há anos atrás por uma jornalista [Daniela Lima] que é considerada porta-voz do PT.”

Fazer-se de louco é uma especialidade de Moro. Não há matéria requentada, e Daniela Lima é uma jornalista competente, que está muito longe de ser porta-voz do PT. As denúncias são antigas, mas agora a PF encontrou provas que as confirmam. A novidade é que até as denúncias que pareciam pouco críveis, como a “festa da cueca”, estão calçadas por vídeos e áudios irrefutáveis.

Em nota, o senador insiste em dizer que “o fato ocorreu em 2005, há 20 anos”, indicando que os seus crimes já teriam prescrito. Ocorre que, segundo Daniela Lima, a PF trabalha com a hipótese de crime continuado, porque todos esses documentos foram omitidos da justiça durante esses 20 anos. O atual juiz da vara, por exemplo, se recusou a enviá-los para o STF. Ao que parece, tempos difíceis estão por vir para o senador.

O que não é novidade é o método lavajatista. Já se sabia que Moro fazia espionagem, como ficou evidente quando grampeou ilegalmente uma conversa entre Lula e a então presidenta Dilma Rousseff e os advogados do Lula.

Moro seguiu os passos de John Edgard Hoover, o chefão do FBI, que usou a máquina do estado para espionar adversários políticos em nome do combate à corrupção. Hoover tinha tanta informação nas mãos que se tornou um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos.

Esse é o mesmo caminho que Moro tentou trilhar. Foi assim que virou ministro e, mais recentemente, senador. Ele é responsável pela maior farsa jurídica da história da República e também por pavimentar a ascensão do bolsonarismo ao poder. Que o seu destino seja o mesmo de Jair.

•        Moro e Globo: Aliança que condenou Lula sem provas ataca Moraes para salvar “herói” da Lava Jato. Por Antonio Mello

nde muitos veem apenas coincidências, outros preferem fazer relações. Na mesma semana em que a Polícia Federal encontrou provas de crimes do ex-juiz, atual senador Sérgio Moro, jornalistas das Organizações Globo concentram artilharia pesada contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

A partir de uma matéria da jornalista lavajatista Malu Gaspar contra Moraes, cheia de insinuações, mas sem provas ou fato concreto, ao estilo Lava Jato,  Carlos Sardenberg e o presidente da Academia Brasileira de Letras (morre mais uma vez Machado de Assis) Merval Pereira passaram a exigir aquilo que é o oposto do que a Justiça determina: que o “acusado” Alexandre de Moraes apresente provas de que não fez nada de errado, quando o ônus da prova é do acusador.

Gaspar insinua que Moraes procurou o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo com o intuito de favorecer o Banco Master, o que mostra que ou a conversa nunca houve ou o ministro Moraes não está com nada:pouco depois houve a intervenção do BC no Master e prisão de seu principal acionista Daniel Vorcaro.

Mais importante ainda: Moraes e Galípolo emitiram notas confirmando que se encontraram, mas o objeto da conversa solicitada pelo ministro foi a lei Magnitsky aplicada pelo governo do presidente dos EUA Donald Trump inicialmente contra Moraes e depois estendida a sua mulher.

Nada disso sacia o apetite do jornalismo lavajatista que continua à procura de um triplex de Moraes para chamar de seu.

<><> O caso Moro

Paralelamente, um outro fato que deveria provocar escândalo surgiu, mas manchetes da turma lavajatista ignoraram solenemente: foram encontradas provas de crime de Sérgio Moro, escritas e assinadas pelo ex-juiz, numa investigação da Polícia Federal a partir de documentos que foram objeto de busca e apreensão na 13ª Vara de Curitiba, aquela onde Moro reinou como imperador.

De acordo com o material apreendido pela PF, as escutas mostram que delatores eram utilizados para monitorar autoridades fora do alcance legal de Moro, com o objetivo de produzir material de pressão. Entre os alvos estava o presidente do TCE-PR Heinz Herwig.

A gravação ilegal envolvendo Heinz Herwig ocorreu em fevereiro de 2005. Cinco meses depois, segundo os documentos apreendidos, Moro repetiu o crime e determinou formalmente que o delator repetisse a tentativa de escuta. Em despacho de julho daquele ano, o então juiz escreveu:

“Considerando os termos do acordo, reputa este Juízo conveniente tentativas de reuniões, com escuta ambiental, com Roberto Bertholdo, Michel Saliba e novamente com Heinz, visto que as gravações até o momento são insatisfatórias para os fins pretendidos”.

Não foi a primeira nem a última ilegalidade de Sérgio Moro com uso de grampeamento ilegal de autoridades.

Em março de 2016, o presidente Lula estava grampeado pela Lava Jato.

As mensagens obtidas pelo Intercept mostram que o assunto foi discutido com o juiz, que pediu relatórios com transcrições dos diálogos considerados mais relevantes. Em 15 de março, na véspera da nomeação de Lula, a polícia anexou aos autos da investigação três relatórios e 44 arquivos de áudio.

Lula aceitou o convite de Dilma na manhã do dia 16. Enquanto os dois conversavam no Palácio da Alvorada, procuradores se reuniram com Moro em Curitiba para discutir o levantamento do sigilo, e Deltan, que estava em Brasília, foi à Procuradoria-Geral da República obter aval para a iniciativa.

Moro mandou interromper a escuta telefônica às 11h12, depois que a imprensa confirmou a nomeação de Lula. Num despacho sucinto, o juiz disse que o grampo se tornara desnecessário após as buscas realizadas duas semanas antes, quando Lula fora levado à força pela PF para depor em São Paulo.

A demora das operadoras de telefonia para executar a ordem de Moro em 16 de março permitiu que os investigadores continuassem escutando as conversas de Lula por cinco horas. Com o sistema usado pela PF, as ligações são desviadas automaticamente para os computadores da polícia pelas operadoras.

A primeira pessoa com quem o ex-presidente falou após o encontro com Dilma foi sua assessora Clara Ant, segundo as anotações feitas pelos agentes na escuta. Lula confirmou sua nomeação como ministro, mas indicou que estava desconfortável com a situação.

“Diz que acabou de se foder. LILS diz que ficaram discutindo até meia-noite. LILS tem mais incerteza do que certeza. LILS diz que não tem como escapar ‘dela'”, resumiu o agente que estava na escuta, identificando Lula sempre pelas iniciais de seu nome completo.

Os registros obtidos pela Folha mostram que o ex-presidente manifestou o mesmo incômodo ao falar com seu advogado Cristiano Zanin Martins, o ex-ministro Franklin Martins, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, e dois jornalistas de sua confiança. [Folha]

<><>  Moro sabia de tudo

Ainda assim, sabendo que o objetivo de Lula era tentar salvar o mandato de Dilma e não ser salvo por ela, Moro decidiu divulgar o áudio duplamente ilegal de Lula com a então presidenta Dilma, apresentado com uma edição no Jornal Nacional de que Lula queria o cargo para fugir de Moro. Grampo ilegal, porque a Justiça havia determinado a suspensão das escutas e aquela foi feita depois de vencido o prazo. E ilegal também porque Dilma tinha prerrogativa de foro e não estava ao alcance de Moro, que deveria subir o processo para instância superior.

Sérgio Moro, o herói das Organizações Globo, que não resistiria a meia hora de jornalismo sério e imparcial sobre suas atitudes e decisões, foi homenageado como Personalidade do Ano, e deve grande parte do alcance da Lava Jato ao trabalho incessante das Organizações Globo em todos os seus veículos, em especial o principal telejornal do país, o Jornal Nacional, acusando Lula de corrupção, sem provas mas com abundante convicção.

Agora, quando começa o desmonte de Moro, quando vai ficar claro para o país quem era o bandido, a Globo arma sua artilharia lavajatista contra o ministro Alexandre de Moraes como uma forma de desviar o escândalo da primeira prova cabal das ilegalidades de Moro.

Aproxima-se o momento em que Sérgio Moro e sua parceira de crimes prestarão contas à Justiça e ao povo brasileiro.

 

Fonte: The Intercept/Revista Fórum

 

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