Como
microssessões de exercício podem ajudar a viver mais
Todos
nós sabemos que a solução para ter uma vida longa e saudável é comer bem e
fazer exercícios.
Mas,
para isso, será que é preciso se esgotar ao máximo na academia ou caminhar 10
mil passos por dia?
Na
verdade, as próprias atividades diárias, se praticadas com mais rigor e
energia, podem atingir enormes benefícios. Como correr pela escada, andar a
passos firmes pela casa ou brincar com seus filhos ou animais de estimação.
Se você
acompanhou os avanços da ciência do exercício nos últimos três anos, talvez
tenha se deparado com uma nova expressão: atividade física vigorosa
intermitente de baixa intensidade (Vilpa, na sigla em inglês).
Ela é
descrita por diversos apelidos: "microssessões de atividade" é um
deles.
Esta é
a última palavra para solucionar um antigo problema: qual a melhor forma de
convencer os mais relutantes a passar menos tempo sentados e se movimentar
mais?
Na
última década, o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT, na sigla em
inglês) passou a ser um exercício popular entre as pessoas que não têm tempo de
ir para a academia.
O HIIT
consiste em forçar o corpo até o limite em breves impulsos explosivos, seja
correndo, andando de bicicleta ou praticando exercícios físicos como
agachamentos ou polichinelos.
Já se
demonstrou que esta técnica melhora o controle do açúcar e do colesterol no
sangue, da pressão arterial e da gordura corporal.
Vilpa é
uma forma reduzida de HIIT, segundo o professor de medicina do esporte e
exercícios Mark Hamer, do University College de Londres. Trata-se simplesmente
de cumprir com as atividades diárias com um pouco mais de disposição, para
aumentar os batimentos cardíacos por um ou dois minutos de cada vez.
Hamer
explica que a ideia de Vilpa surgiu pela primeira vez quando ele e seus colegas
analisavam dados de movimento coletados por dispositivos vestíveis no pulso de
pessoas que não faziam exercícios formais.
Os
cientistas observaram que, embora não praticassem esportes nem frequentassem
academias, alguns indivíduos praticam níveis consideráveis de atividade física,
simplesmente levando sua vida diária. Seus movimentos variam de rápidas sessões
de caminhada ao irem e voltarem do trabalho até subir escadas.
"Grande
parte deste movimento é acumulado em sessões muito curtas", ele conta.
"Isso levou ao conceito de microssessões."
Para
sua surpresa, Hamer e seus colegas encontraram correlação entre essas
microssessões de movimento e benefícios à saúde.
Um
estudo de 2022 utilizou dados de 25.241 pessoas no Reino Unido. Hamer e
cientistas da Universidade de Sydney, na Austrália, concluíram que três ou
quatro sessões de Vilpa de apenas um minuto por dia são suficientes para
reduzir em 40% o risco de morte prematura por todas as causas e em 49% o risco
de morte por doenças cardiovasculares, em comparação com pessoas que faziam
poucos movimentos.
Um
estudo mais recente também concluiu que pouco mais de quatro minutos de Vilpa
por dia podem compensar alguns dos riscos do estilo de vida sedentário para a
saúde cardíaca.
"Fazendo
suas atividades diárias em rápidas sessões de intensidade mais alta, várias
vezes ao longo do dia, as pessoas ainda conseguem obter benefícios à saúde para
reduzir o risco de doenças crônicas", explica o pesquisador em
pós-doutorado Matthew Ahmadi, da Universidade de Sydney.
"Vilpa
pode também ajudar a afastar a fragilidade, o que passa a ser muito importante
à medida que envelhecemos", segundo ele.
Ahmadi
descreve essas descobertas como incríveis.
Pesquisas
demonstram que a maior parte dos adultos britânicos com mais de 40 anos de
idade não pratica esportes, nem exercícios regulares. Muitas vezes, isso se
deve a restrições de tempo ou outras dificuldades.
Esta
conclusão reflete uma preocupante tendência global. A Organização Mundial da
Saúde (OMS) indica que cerca de 1,8 bilhão de adultos apresentam risco de
contrair doenças porque não praticam atividade física suficiente.
"Todos
nós sabemos que a atividade física é boa para a nossa saúde, mas muitos de nós
não praticamos exercícios suficientes", afirma a professora de medicina
comportamental Amanda Daley, da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.
"Existem
muitas razões para isso e a mais comum é a falta de tempo", explica ela.
"A
técnica de praticar atividade física com microexercícios [ou Vilpa] exige
apenas alguns minutos do tempo das pessoas, algumas vezes por dia ao longo da
semana, fazendo com que ela seja muito fácil, acessível e barata."
Vilpa
demonstra que, simplesmente ajustando seu dia para poder correr para pegar o
ônibus, andar vigorosamente pela casa ao fazer as tarefas ou fazer o trabalho
doméstico ou jardinagem com um pouco mais de energia pode fazer diferença
significativa em relação às suas condições de saúde.
Acrescente
a isso começar a gastar mais energia brincando com seus filhos e animais de
estimação. Tudo isso são exemplos de Vilpa no dia a dia.
"Temos
diferentes oportunidades de praticar atividade moderada a vigorosa, não
necessariamente através do exercício formal ou com equipamento de ginástica
especializado", explica Ahmadi.
"Se
você sair para caminhar, acrescentar curtos períodos andando mais rápido pode
ser uma forma fácil de praticar Vilpa."
Pesquisas
demonstram que as pessoas reagem positivamente a esta ideia, o que destaca os
benefícios deste tipo de atividade que, até pouco tempo atrás, não era
considerada favorável à saúde.
Pesquisadores
como Ahmadi e o cardiologista Shigenori Ito, do Hospital Sankuro, no Japão,
afirmam que o conceito de Vilpa pode ser usado como forma de aumentar a
resistência, praticando atividades como carregar sacolas de compras pesadas
todos os dias e trabalhar os músculos das pernas e juntas, subindo rapidamente
um lance de escada.
A ideia
das microssessões de atividade se encaixa claramente em uma nova doutrina que
os pesquisadores de exercícios pretendem incentivar: a de que, quando o assunto
é atividade física, fazer alguma coisa é melhor do que nada.
Segundo
a organização NCD Alliance, que pretende combater o aumento constante de
doenças crônicas ou não contagiosas em todo o mundo, até cinco milhões de
mortes poderiam ser evitadas todos os anos se mais pessoas praticassem
atividade física suficiente.
"Globalmente,
nosso estilo de vida está se tornando muito mais sedentário", afirma a
executiva-chefe da NCD Alliance, Katie Dain.
"Resumidamente
falando, mais pessoas ficam sentadas no escritório e muitas das nossas cidades
são mais projetadas para os carros do que para os seres humanos."
Combater
isso não é fácil.
O
Japão, por exemplo, está se tornando uma nação cada vez mais sedentária. A
própria realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020 aparentemente fez
pouca diferença, o que é motivo de preocupação para os médicos, como Ito.
"O
sedentarismo é um dos principais fatores de risco cardiovascular, ao lado da
hipertensão, do fumo e do diabetes", segundo ele.
Por
isso, os pesquisadores vêm buscando fazer com que os objetivos de atividade
física sejam menos intimidadores.
Muitas
pessoas conhecem a recomendação de dar 10 mil passos por dia, mas as
descobertas científicas mais recentes mostram que podemos colher benefícios
para a nossa saúde caminhando muito menos, todos os dias.
Um dos
maiores estudos de contagem de passos já realizado concluiu que 2.517 a 2.735
passos por dia são suficientes para reduzir o risco de doenças cardiovasculares
em 11%, em comparação com 2 mil passos diários.
Outro
estudo revelou que qualquer número acima de 2,2 mil passos por dia reduz o
risco de doenças cardíacas e morte prematura.
"Alguma
coisa é melhor do que nada", afirma a professora Rana Hinman, do
Departamento de Fisioterapia da Universidade de Melbourne, na Austrália.
"Mesmo
pessoas com dores crônicas nas juntas, que sofrem de condições como
osteoartrite e são frequentemente inativas, podem conseguir benefícios com
pouca atividade."
As
microssessões de atividade física são uma forma de atingir este objetivo.
Pesquisas
indicam, por exemplo, que apenas três a quatro minutos de Vilpa todos os dias
podem reduzir o risco de câncer em 17-18%. Um motivo está provavelmente
relacionado aos conhecidos efeitos anti-inflamatórios do exercício.
A
inflamação faz parte da reação imunológica natural do corpo e nos ajuda a
evitar doenças, mas seu excesso está relacionado a condições como doenças
cardíacas, diabetes tipo 2 e obesidade.
Hamer
também destaca que o processo fisiológico de contrações musculares gera uma
série de reações bioquímicas importantes para o metabolismo de gorduras e
glicose pelo nosso corpo.
"É
por isso que qualquer tipo de movimento ainda trará benefícios para pessoas
sedentárias, especialmente se elas conseguirem aumentar seus batimentos
cardíacos e estimular o coração, os pulmões e a circulação", segundo ele.
Novos
conhecimentos poderão surgir no futuro. Os pesquisadores têm interesse em
examinar se os microssessões podem ajudar a melhorar a saúde de pessoas que
sofrem de doenças crônicas e talvez tenham dificuldade de realizar exercícios
estruturados de outra forma.
Hamer
também deseja saber se incentivar as pessoas a praticar mais microssessões de
atividade pode servir de ponto de partida para ajudá-las a atingir 150 minutos
de atividade física moderada por semana, que é o padrão-ouro para a boa saúde,
segundo as orientações de saúde pública.
"Se
conseguirmos fazer com que a maioria da população faça algumas microssessões de
exercício, isso será muito mais poderoso do que se algumas pessoas seguirem as
orientações", explica ele.
Por
isso, se você estiver preocupado por não ir à academia há algum tempo, talvez
seja aconselhável praticar um pouco de Vilpa.
Seja
subindo as escadas em vez do elevador, acelerando o passo na próxima vez em que
sair para fazer compras, brincando mais com o cachorro no jardim ou passando o
aspirador com um pouco mais de força, existem ações simples que podemos fazer
todos os dias para ajudar a nos livrar de doenças e até a prolongar a nossa
vida.
Fonte:
BBC Future

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