O
pior diagnóstico em saúde mental
Leandro
tinha 15 anos quando estava em sua quarta internação em um hospital
psiquiátrico; a última por determinação da Justiça e, segundo ele, feita a seu
pedido.
Morador
de uma cidade pequena, não tinha notícias da mãe. Do pai, nunca soube. Morava
com a avó, que, ao longo de um período de mais de quatro meses, foi visitá-lo
apenas uma vez na instituição.
Já não
frequentava a escola havia alguns anos e precisava trabalhar para se alimentar.
Antes da internação, fazia a limpeza de uma barraca de pastel, com o acordo de
que, ao final do dia, receberia alguns pastéis e um troco para comprar pão.
Ocorre que, antes disso, foi chamado para atuar como olheiro do tráfico de
drogas, o que lhe rendia algum dinheiro a mais; em certo momento, ele se
envolveu em problemas e a consequência foi ter sido jurado de morte. Por isso,
procurou a Vara da Justiça que conhecia para pedir que fosse colocado em um
hospital psiquiátrico, lugar onde já estivera antes em outras três internações.
Leandro não queria morrer.
Em sua
quarta internação na instituição, ele fazia questão de cumprimentar e conhecer
os adultos internados, chamados de “moradores” por estarem ali havia muitos
anos. Dizia que era bom já ir fazendo amizades, pois sabia que ficaria ali por
muito tempo. Um menino de 15 anos.
Certo
dia, pouco antes do início da reunião de equipe da ala em que estava internado,
entrou na sala onde já se encontravam todos os profissionais e encarnou um
personagem: uma brincadeira em que ele seria um funcionário do hospital
psiquiátrico. Falando de si mesmo na terceira pessoa do singular, pegou seu
prontuário e anunciou que naquele dia seria discutido um “caso muito difícil e
que dá muito trabalho”, o caso do Leandro. Começou fazendo um relato sobre a
instituição e, em seguida, iniciou a discussão de caso, imitando os
profissionais do hospital psiquiátrico. Alguns levavam à sério, outros riam.
Daí Leandro afirma que não havia e, com toda a seriedade do mundo, declarou:
“Ele é um insócio-lata”. Algum profissional arriscou perguntar o que seria aquele
diagnóstico, e ele respondeu: um insócio-lata é um vira-lata humano. Alguém que
está vagando a esmo, que ninguém quer e que não tem condições de viver em
sociedade.
Ninguém
mais riu.
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O risco de um diagnóstico psiquiátrico
Não é
de hoje que a patologização da vida vem sendo denunciada. Desde pelo menos
2017, o movimento social pela Despatologização da Vida vem alertando e
debatendo os problemas da ampla atribuição de diagnósticos psiquiátricos a
experiências próprias da vida. Crianças distraídas tornam-se crianças com
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Crianças que se indignam
passam a ser lidas como expressando um Transtorno Opositivo Desafiador. E assim
por diante. Mais recentemente, passaram a compor esse debate as discussões
sobre a patologização de sofrimentos sociais.
As
consequências disso são muitas. A primeira é a óbvia medicalização da vida. Em
uma lógica simplista de problema–solução, uma vez identificada uma situação
como problema e categorizada como doença, a resposta tende a ser a prescrição
de medicação.
Outra
consequência, menos falada, mas muito impactante, é reconhecida em uma
perspectiva histórica: a atribuição de um diagnóstico psiquiátrico pode dar
início a uma carreira de psiquiatrização da vida. A partir do momento em que um
diagnóstico desse tipo é estabelecido, além de os gestos e sofrimentos – apenas
humanos – passarem a ser lidos e explicados a partir de um código de doença, a
pessoa adentra um circuito de serviços, relações e vocabulários da instituição
psiquiátrica que a reiteram em um lugar previamente definido. Este lugar é o de
alguém identificado como um desviante da norma social, sendo o desvio
codificado como doença mental.
Se a
pessoa será vista unicamente a partir de um diagnóstico, tendo sua totalidade
reduzida a ele, ou se o diagnóstico será apenas uma parte de sua experiência
ampla de vida, isso se relaciona, entre outras coisas, ao seu poder de contrato
na sociedade. Para as pessoas que desviam das rígidas normas sociais
representadas pela eficiência e pela produtividade – como nos ensina Franco
Basaglia – e que possuem baixo ou nulo poder de contrato social, o lugar
reservado é o da segregação social em uma instituição asilar, confirmada pelo
poder da ciência.
Aliás,
este é um paradoxo da instituição psiquiátrica: com base no julgamento de que a
pessoa é um “risco para si ou para outros”, justifica-se tantas vezes pelo
poder da psiquiatria uma internação em hospital psiquiátrico, quando o próprio
diagnóstico pode se tornar um risco, ao dar início a uma carreira de
psiquiatrização da vida e de exclusão social.
O risco
de um diagnóstico psiquiátrico é o de fazer a pessoa adentrar em um circuito
que, ao invés de produzir saídas para ampliação de cidadania e das
possibilidades de vida, a reitera em um lugar em que todos os seus gestos –
todo o seu passado — são explicados em termos de uma doença, criando
impeditivos para projetos futuros.
O
risco, no limite, é fazer alguém crer que não reste outro caminho, que não o da
exclusão social; que não há outro jeito que não o de ter a si atribuído um
diagnóstico fatal: o de se tornar um insócio-lata.
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O que se deseja no desejo por um diagnóstico psiquiátrico?
Com
base em reflexões críticas, mas também na experiência de acompanhar inúmeras
histórias de vida como a de Leandro, trabalhadores vêm se preocupando com a
patologização e têm denunciado a consequente medicalização da vida. O debate
sobre a patologização da vida não é outro que não o da psiquiatrização da vida.
Ainda
assim, é urgente explorar uma contradição visível a olho nu: há, certamente, um
aumento no número de diagnósticos psiquiátricos atribuídos, como mostram
diversos dados; mas também tem ocorrido um movimento crescente de pessoas em
busca de diagnósticos.
Por
quê?
Essa
pergunta, antes de demandar uma resposta imediata, abre espaço para outras
indagações igualmente urgentes sobre percursos pessoais e coletivos. O que as
pessoas desejam ao receber um diagnóstico de ansiedade, depressão, transtorno
do espectro autista, entre outros? O que imaginam – ou mesmo o que é possível
obter – quando um diagnóstico psiquiátrico lhes é atribuído? Quais são as
demandas e necessidades reais das pessoas que buscam um diagnóstico
psiquiátrico? E o que a demanda – e, por vezes, a celebração nas redes sociais
– de um diagnóstico psiquiátrico nos diz sobre a sociedade?
O que
isso nos revela sobre os rumos do poder da psiquiatria enquanto instituição?
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Psiquiatria difusa
Franco
Rotelli não poderia ter sido mais direto ao afirmar: “Faz-se necessário repetir
algo para nós óbvio, mas desconhecido para muitos: a instituição que colocamos
em questão nos últimos vinte anos não foi o manicômio, mas a loucura”. Isso
significa colocar em questão o “conjunto de aparatos científicos, legislativos,
administrativos, de códigos de referência cultural e de relações de poder
estruturados em torno de um objeto bem preciso: ‘a doença’, à qual se sobrepõe,
no manicômio, o objeto ‘periculosidade’”.
É
preciso repetir que a instituição negada por Franco Basaglia (e a violência por
ele denunciada) não se reduz ao hospital psiquiátrico nem a práticas como
isolamento e contenção. A instituição a ser negada é a instituição
psiquiátrica, e a violência denunciada é a do estatuto da razão, da
categorização e da redução dos modos de ser e de se expressar no mundo a um
objeto, um dito transtorno mental, instituindo relações não
mais entre pessoas, mas com alguém apenas objetificado em uma doença e anulado
das relações sociais.
Os
ensinamentos da perspectiva teórico-prática da desinstitucionalização oferecem
suporte para refletir sobre as questões apresentadas e impõem uma tarefa: não
reproduzir o paradigma psiquiátrico. De tempos em tempos circula nas redes
sociais e em rodas de conversa a ideia de que o aumento do número de
diagnósticos configuraria uma nova forma de “manicômios invisíveis”, bem como a
noção de que “práticas manicomiais” estariam sendo realizadas em serviços de
saúde mental substitutivos ao modelo asilar. É recomendável cautela com ambas
as afirmações, pois, ao tentar formular uma crítica justa, acabam por desviar a
atenção do alvo real: condena-se o manicômio e salva-se a psiquiatria – esta
psiquiatria que reduz a experiência humana.
Por
isso interessa aqui juntar estas duas pontas que, por vezes, parecem distantes:
a da exclusão social e a da patologização da vida.
Assim
como a patologização da vida é atribuível à instituição psiquiátrica, quando
serviços de saúde mental abertos e de base territorial realizam práticas não
alinhadas às suas diretrizes e objetivos, o que se observa não é meramente a
reprodução da instituição asilar, mas da instituição psiquiátrica: um modo
específico de se relacionar com as pessoas, baseado na redução do sujeito a um
objeto, invalidando-o e anulando-o das relações.
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Apenas humanos
Talvez
estejamos diante de um novo fenômeno – o de uma psiquiatria difusa – e, mais do
que nunca, será necessário manter atenção aos “códigos de referência cultural e
de relações de poder” que sustentam práticas de etiquetamento das pessoas em
todos os locais.
Em
especial em relação às pessoas que detém maior poder de contrato social, é
preciso muito mais responsabilidade no anúncio público da conquista do desejo
de um diagnóstico psiquiátrico, reconhecendo que isto reforça uma cultura de
psiquiatrização da vida e que, se para uns isso pode significar uma identidade,
direitos ou até mesmo privilégios, para outros isso é caminho para se tornar um
vira-lata humano.
Fonte:
Por Cláudia Braga, para a coluna Cuidar das pessoas, cuidar das cidades, em
Outra Saúde

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