Nem
com o VAR o palmeirense Toffoli ressuscitará o Banco Master
O gênio
saiu da lâmpada mágica quando Aladim a esfregou. Era ficção. Na real, ninguém
foi capaz de devolver o gênio à lâmpada mágica ou à garrafa. Nem nos devaneios
de quem esvaziou várias delas seguidas. Os momentos passam e as ocasiões
propícias se evaporam. Isso se aplica à dupla tentativa de ressuscitar o falido
Banco Master, de Daniel Vorcaro, que sofreu intervenção do Banco Central em 18
de dezembro e começou a ser liquidado em seguida. Isto porque foram descobertas
fraudes de créditos no valor de R$ 12,2 bilhões, motivo pelo qual o BC vetou,
em 3 de setembro, a compra de 49% das ações ordinárias do Master (58% do total)
pelo Banco Regional de Brasília, o banco do Distrito Federal governado pelo
advogado Ibaneis Rocha (MDB-DF).
No dia
20 de dezembro, o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jhonatan
Pereira de Jesus, ex-deputado federal pelo Republicanos (RR), pediu explicações
ao Banco Central em 72 horas e ameaçou suspender a liquidação do Banco Master.
A decisão, individual, causou surpresa entre os demais membros do TCU, já que
não havia recursos públicos na União envolvidos na transação. Ademais, com a
corte em recesso, o plenário do Tribunal só voltaria a se reunir em meados de
janeiro. Em função dos feriados do fim de ano, a notificação do TCU só chegou
ao BC na segunda-feira, 22 de dezembro, e o novo prazo é o fim da manhã de 30
de dezembro.
Mais
perplexidade causou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Antônio
Dias Toffoli, de convocar para a mesma terça-feira, 30 de dezembro, uma
acareação (em vídeo) entre o presidente do Master, Daniel Vorcaro, o
ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de Fiscalização do
Banco Central, Aílton de Aquino Santos. A estranheza, no mercado financeiro e
no Banco Central, prende-se ao fato de quem examinou e vetou a operação entre o
BRB e o Master (proposta em maio) foi o diretor de Organização do Sistema
Financeiro, Renato Dias Brito Gomes. O mandato de Gomes se encerraria em 31 de
dezembro, mas o presidente Lula antecipou a exoneração nesta semana. A
acareação, como parte de inquérito conduzido pela Polícia Federal, reuniria os
acusados de fraude, de um lado, e o órgão fiscalizador, de outro.
O Banco
Master surgiu com negócios em Minas Gerais e na Bahia, e tinha grande
influência junto a políticos do “Centrão” (sobretudo PP e União Brasil). O
banco fugia aos padrões do mercado na captação de recursos ao oferecer
rendimentos de até 140% dos juros dos CDIs (certificados de depósitos
interbancário, a taxa média dos CDBs negociados diariamente no mercado). A
captação era agressiva e se valia das comissões de colocação (garantidas na
largada) oferecida a grandes “players” do mercado, como XP, Nu (bank) e
BTG-Pactual. Os repassadores de investimento “vendiam” os CDBs como seguros,
citando a garantia de até R$ 250 mil por titular pelo Fundo Garantidor de
Crédito (FGC), que é bancado pelos grandes bancos mediante transferências de
custos aos próprios investidores. A agressividade do Master indica que há mais
de R$ 61 bilhões a serem honrados pelo FGC.
Em
2024, quando a escalada dos juros da Selic levou o Master a ter problemas de
captação e elevar a margem frente ao CDI de 120% para 140%, o senador piauiense
Ciro Nogueira, presidente do PP, chegou a propor o aumento do teto de proteção
do FGC para R$ 1 milhão, mas foi demovido pelos grandes bancos. Nem por isso
diminuíram as campanhas e ofertas de comissões por fora para a colocação de
CDBs e letras financeiras (isentas de IR e com o mesmo teto do FGC) junto a
fundos de pensão de funcionários públicos de estados e municípios. Por
coincidência, os fundos de pensão que mais carregaram papéis do Master e correm
risco de calote, por excederem o teto do FGC, são dos estados do Rio de Janeiro
(com quase R$ 2 bilhões aplicados) e do Amapá (R$ 400 milhões), ambos
governados por políticos do União. No caso do Amapá, o gestor do fundo de
pensão foi indicado pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre
(União-AP). Municípios de São Paulo e Amazonas também estão carregados de
papéis sem garantia do Master.
A
radiografia do Banco Master revela uma instituição financeira de difícil
avaliação do patrimônio. Os ativos, segundo a própria auditoria da KPMG, no
balanço de junho de 2025, eram de complexa mensuração por serem formados por
títulos de precatórios judiciais (mais de R$ 10 bilhões) e ativos de empresas
de baixa liquidez. Uma delas, a Ambipar, entrou em ruidosa recuperação
judicial. Havia um emaranhado de instituições vinculadas (como o Will Bank) e
fundos de investimento de grande patrimônio, em valor de registro, mas com
papéis de baixa liquidez e cotações irregulares. Quando a fusão entre o Master
e o BRB estava sob exame do Banco Central, alguns ativos do Master começaram a
ser vendidos. O BTG-Pactual, de André Esteves, era um dos interessados e ficou
com parte das ações do Master na Light. Outras transações foram interrompidas e
interessados inconformados foram pressionar o STF e o TCU.
Uma
hipotética reviravolta para o Master voltar a operar é considerada inviável por
9 entre 10 banqueiros (a exceção é o próprio Vorcaro). Na volta ao mercado,
mesmo com outra placa, o novo banco dificilmente conseguiria levantar recursos.
Se fosse tentar emitir letras financeiras, por exemplo, não seria fácil
encontrar investidores institucionais que comprassem os papéis – sem a
cobertura do FGC. Se quisesse vender CDBs no mercado, não encontraria
plataformas de distribuição dispostas a colocar os papéis do ex-Master. Não há
ingênuos, só grandes interesses em salvar alguns milhões. Houve problemas assim
com o espanhol BBVA quando a parceria com o Econômico (ACM era interessado) foi
desfeita nos anos 90.
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As suspeitas sobre o STF
A
credibilidade e a segurança são pedras angulares no mercado de capitais. Assim
como cristal, quando um cálice trinca, a unidade tem de ser descartada. Mais
sério, no entanto, são os arranhões que as relações do Master com o mundo
político produziram na credibilidade do Supremo Tribunal Federal. Juízes foram
palestrar promiscuamente em seminários com largo patrocínio do banco em
questão. [é uma situação que se repete nas agências reguladoras]. Como não há
vedação legal à atuação de parentes de juízes, desembargadores e ministros do
Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal na advocacia
privada, há situações conflitantes na ética. Lembro do passado, quando os
filhos do saudoso Evandro Lins e Silva já advogavam, e alguns casos recentes: a
ex-mulher de Gilmar Mendes (estão separados há um mês), Guiomar Mendes,
dirigiu, por várias décadas, o escritório do advogado Sérgio Bermudes em
Brasília, uma das maiores bancas de advocacia do país, que tinha como clientes
o Banco Nacional e grandes empresas com contencioso no STJ e no STF. Os filhos
do ministro Luiz Fux montaram, há dois anos, um escritório de advocacia na Rua
Barão da Torre, em frente à Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, no Rio, no
qual o pai terá lugar quando se aposentar, em abril de 2028.
Mas há
situações que podem arranhar a credibilidade dos membros do Supremo, sobretudo
quando os julgamentos dos acusados pelas tramas golpistas contra o Estado
Democrático de Direito estão no fim, com grande ressentimento dos
bolsonaristas. O presidente do STF, Edson Fachin, quer um código de conduta
para os tribunais superiores.
O
ministro do STF, Antônio Dias Toffoli, em cujas mãos foi parar, por sorteio,
como relator, a “Operação Compliance” da Polícia Federal, que investiga as
possíveis fraudes entre o Master e o BRB referentes à troca de cessão de
créditos, determinou sigilo sobre o caso na primeira semana de dezembro. O
ministro recebeu os autos da Justiça Federal a pedido da defesa de Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master, depois que a PF apreendeu, em um dos endereços
do banqueiro, um envelope com o nome do deputado federal João Carlos Bacelar
(PL-BA). O STF é o tribunal responsável por processar e julgar parlamentares.
Antes, a defesa de Vorcaro tentou tirar o caso da primeira instância da Justiça
Federal, que decretou a sua prisão preventiva.
Até aí
tudo estaria correto.
Levantou
suspeitas o fato de que o ministro, palmeirense convicto, viajou, de São Paulo
para Lima (Peru), no fim de novembro, no avião particular de seu amigo, o
empresário palmeirense Luiz Oswaldo Pastore, para assistir, no sábado 29 de
novembro, à final da Taça Libertadores entre o Palmeiras e o Flamengo. O jogo,
como se sabe, terminou com vitória do Rubro-Negro por 1 X 0 e o tetracampeonato
de um time brasileiro na competição sul-americana.
O que
deu dor de cabeça ao ministro do STF foi a revelação, pelo jornalista Lauro
Jardim, de “O Globo”, confirmada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, de que, no
mesmo voo, estava o advogado Augusto Arruda Botelho, ex-secretário nacional de
Justiça. Todos palmeirenses, pegaram carona no jatinho para assistir à final da
Libertadores em Lima, no Peru. Botelho é advogado do diretor de “compliance” do
Banco Master, Luiz Antônio Bull, que chegou a ser preso na “Operação Compliance
Zero” e agora está em liberdade provisória, com tornozeleira eletrônica.
É
verdade que o processo ainda não havia sido distribuído ao gabinete de Toffoli
quando os dois embarcaram rumo ao Peru. A distribuição foi feita por sorteio
entre os ministros do STF. Mas tão logo retomou o expediente no STF, em 2 de
dezembro, e foi sorteado relator, Toffoli determinou sigilo nas investigações.
A acareação de terça-feira próxima é resultado dos desdobramentos do processo.
Mas Toffoli jura que só trataram de amenidades futebolísticas nas cinco horas
de voo (otimista) para Lima e no retorno (depressivo) a São Paulo.
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O Master e a família Moraes
Por
artimanhas outras, em janeiro de 2024, há dois anos, portanto, o escritório de
advocacia Barci de Moraes, comandado por Viviani Barci de Moraes, mulher do
ministro-relator do processo da trama golpista no STF, Alexandre de Moraes,
celebrou um contrato milionário com o ascendente Banco Master, de Daniel
Vorcaro, pelo qual ela e os filhos, que tocam as atividades, receberiam R$ 3,6
milhões mensais. A duração seria até o começo de 2027. Cumprido até o final,
renderia R$ 130 milhões à banca. Com a intervenção do Banco Central, o contrato
foi interrompido, mas teria rendido R$ 79 milhões em 22 meses.
Acontece
que a partir do fim fevereiro deste ano, quando os três Poderes da República
brasileira voltaram a operar integralmente, e o governo Trump completava 40
dias, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho 03 do ex-presidente
Jair Messias Bolsonaro, declarou nas redes sociais que estava se licenciando
para trabalhar nos Estados Unidos junto ao governo Trump para interferir a
favor de seu pai e demais acusados na trama golpista. Num primeiro momento, a
versão vendida pelo filho 03 e pelo economista Paulo Figueiredo, neto do último
ditador brasileiro, o general João Figueiredo, de que o Brasil não era
democrático e promovia uma “caça às bruxas” aos golpistas bolsonaristas, chegou
a convencer parte do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Em junho, o
presidente Donald Trump ameaçou o governo brasileiro pelas redes sociais, e
exigiu a IMEDIATA (escreveu com letras garrafais) suspensão do julgamento no
TSF, além de impor altas tarifas alfandegárias às exportações brasileiras.
Em
agosto, houve uma escalada, com tarifas de até 50% nos produtos brasileiros
exportados para os EUA, e sanções da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de
Moraes, sua esposa e filhos e mais sete ministros do SFT. As sanções da
Magnitsky poderiam atingir o sistema bancário, a começar pelo Banco do Brasil,
por onde recebem os ministros do STF. E preocuparam todo o mercado financeiro,
motivando forte queda das ações dos bancos de agosto até meados de setembro.
Houve a natural preocupação do ministro Moraes (o alvo principal da Magnitsky)
de avaliar o impacto da lei sobre o mercado financeiro e a economia brasileira.
Daí as consultas frequentes ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Mas
justamente depois da decretação da intervenção no Banco Master e liquidação de
algumas de suas empresas, em decorrência da abertura de diálogo entre o
presidente Donald Trump com o presidente Lula quando da Assembleia Geral da
ONU, em 15 de setembro, foram sendo removidas as barreiras tarifárias contra
produtos brasileiros nos EUA. As negociações prosseguem com perspectiva de
baixa nas tarifas sobre café, carne, peixes e frutas, além de madeiras
serradas, no começo de 2026. Mas o mais importante foi a retirada, em 12 de
dezembro, dos nomes do ministro Alexandre de Moraes e de sua mulher, Viviani,
da lista de sanções. Dias depois, na sessão de 18 de dezembro, a Mesa da Câmara
dos Deputados cassou o mandato de Eduardo Bolsonaro por excesso de faltas.
Como
não podia deixar de ser, além do mandato, diante da dupla ou tripla derrota –
Eduardo perdeu no tarifaço, o julgamento prosseguiu levando o pai à prisão por
27 anos e três meses, e as sanções contra os Moraes foram revogadas pelo
governo Trump -; o filho 03 começou a incentivar uma campanha para intrigar
tanto o ministro Alexandre de Moraes quanto o presidente do Banco Central,
insinuando, por meios diversos (há também quem veja digitais de André Esteves
na intriga) que Moraes pressionava o Banco Central pelo Banco Master, embora as
duas autoridades garantam que nunca trataram sobre nada além dos impactos da
Magnistiky. De certa forma, a acareação determinada por Toffoli, mesmo que
esdrúxula, vai ajudar a clarear a situação e pôr parcialmente os pingos nos is.
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Um fim de ano melancólico para os Bolsonaro
Graças
a uma operação de hérnia inguinal, no dia 25, com internação na véspera
autorizada por Alexandre Moraes, Jair Messias Bolsonaro evitou passar a noite
de Natal da cadeia da Polícia Federal, em Brasília, embora estivesse sob
custódia da PF e tornozeleira eletrônica no Copa Star.
Para
aumentar os dissabores do fim de ano, a família teve a confirmação,
sexta-feira, 26 de dezembro, pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA), de que o Brasil
sofreu uma tentativa de golpe de Estado em 2022/23 liderada por Jair Bolsonaro
e seus aliados. Bolsonaro se reuniu em fevereiro com o relator do documento,
Pedro Vaca Villarreal, e esperava ver no relatório reparos à atuação do Supremo
Tribunal Federal. Pois o relatório destaca o papel fundamental do STF nas
investigações, que estão levando às condenações da grande maioria dos
envolvidos.
Tendo
indicado seu filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como o candidato do
PL à Presidência em 2026, o clã Bolsonaro ganhou algum alento com a boa
repercussão – até aqui – da candidatura do senador em outubro de 2026.
Entretanto, o clã não perde a oportunidade de perder uma oportunidade.
Com a
prisão do ex-diretor geral da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, em
meio à fuga rocambolesca a partir pro Paraguai, onde foi detido e entregue à
Polícia Federal, o ministro Alexandre de Moraes determinou, nesse sábado (27),
a prisão preventiva domiciliar de outros 10 réus do núcleo 2 da trama golpista,
antes que tentem imitar Vasques, condenado a 24 anos - mas cuja sentença ainda
não transitou em julgado (ainda cabem recursos ao STF).
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Pé-de-chinelo
Cassado
por faltar às sessões da Câmara ao tramar nos Estados Unidos contra o Brasil,
com a imposição de tarifas e a Lei Magnitsky que geraram mais de US$ 7 bilhões
de prejuízos às exportações e ao sistema financeiro, o filho 03 resolveu
ressuscitar o veio nacionalista da família – que bateu continência para a
bandeira americana na Avenida Paulista e louvou o tarifaço e as sanções
financeiras aos bancos brasileiros – tão logo foi veiculada a mensagem de Ano
Novo das Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres.
Falar
em patriotismo, lembrando a bandeirinha do Brasil em algumas tiragens do
passado, além de anacrônico, chega a ser cômico, antes de ser trágico, partindo
de quem tanto atuou contra o país em 2025.
Fonte:
Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB

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