segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

'Trans de direita' mira 2026, vira alvo de críticas e segue Bolsonaro apesar de histórico homofóbico

Sophia Barclay, 25, se diz convencida de uma coisa. "A direita não só vai votar em mim, como me fará a travesti mais votada do Brasil."

Na semana passada, a influenciadora anunciou nas redes sociais sua pré-candidatura a deputada pelo Novo-SP. Na foto, ela aparece com punho erguido e broche com a bandeira do Brasil no blazer.

A casa digital caiu. A publicação acumulou mais de 120 mil curtidas, mas também detonou uma enxurrada de críticas.

Sophia passou a ser acusada de incoerência por se apresentar como "trans de direita" num campo associado à oposição a direitos da população trans, como o acesso a políticas de saúde específicas, o reconhecimento da identidade de gênero e o combate à discriminação.

As reações vieram de todos os lados. Progressistas afirmaram que a direita brasileira tem histórico em renegar pessoas como ela, Sophia, o que tornaria contraditória sua aposta eleitoral nesse espectro ideológico. Setores conservadores também caíram em cima, questionando sua identidade e dizendo que ela "não representa a direita".

A maioria dos comentários negativos vem da esquerda, ironizando seu posicionamento. São pontuações na linha "devo me referir a você com quais pronomes, pelos da esquerda ou da direita?", ou a insinuação de que ela seria como uma árvore que apoia o desmatamento, uma barata a favor do inseticida.

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Defensores também estão por ali. Um homem se diz "gay de direita" e simpático a uma candidatura trans com lastro conservador. Alguns seguidores sugerem que Sophia pode ser uma contraposição a Erika Hilton (PSOL-SP), que em 2022 se tornou, junto com Duda Salabert (PDT-MG), a primeira deputada trans do país.

Sophia já se referiu a Erika como uma "Shakira da Shopee" interessada em tomar o espaço de "mulheres biológicas". Uma de suas bandeiras também vai na contramão do movimento trans: criminalizar a ideia da "criança trans".

A pauta LGBTQIA+, a pré-candidata diz à Folha de S. Paulo, "foi sequestrada ideologicamente" e virou arma política. "Muitas vezes ela deixa de representar pessoas reais para servir a interesses de grupos e narrativas que não admitem divergência. Defendo direitos individuais, não militância identitária nem imposições culturais."

Inclemente com a esquerda, Sophia é mais cuidadosa quando fala de pares ideológicos. Diz que adoraria trocar uma ideia com o deputado Nikolas Ferreira (PL-SP), com reincidentes ataques à comunidade trans. Em episódio simbólico, que lhe rendeu condenação na Justiça, ele usou peruca loira no Dia da Mulher de 2023 para, em discurso no Congresso, afirmar que "as mulheres estão perdendo espaço para homens que se sentem mulheres".

A influenciadora diz que sua luta "nunca foi para obrigar ninguém a pensar como eu, mas para garantir que possamos conviver em uma sociedade onde o respeito exista, mesmo nas diferenças". Quanto a Nikolas, "jovem com uma visão exemplar", quer conversar em breve com ele, "porque acredito no diálogo como ferramenta para avançar".

Sophia nasceu em Guarulhos (SP) e diz que cresceu "num ambiente familiar desestruturado, marcado por conflitos, agressões físicas e psicológicas". Saiu de casa aos 15 anos "em busca de paz e da possibilidade de ser feliz, especialmente por enfrentar perseguições dentro do próprio lar".

Batizada na Congregação Cristã do Brasil, denominação evangélica de perfil bem conservador, ela diz que a fé "teve um papel importante na minha formação". Não se sente constrangida pela igreja, que separa fisicamente, em seus cultos, homens e mulheres. Sophia se senta na ala feminina.

A transição de gênero aconteceu em 2021, durante a pandemia. Diz que para ela sempre foi claro "que a prostituição não era o único caminho possível para mulheres trans". Conta que trabalhou vendendo chips na rua, em telemarketing e, por fim, como influenciadora digital.

Na internet expôs "uma vivência dolorosa": foi vítima de abuso sexual na infância, "infelizmente desacreditada por parte da minha família materna".

Outro relato que a projetou: ter dito que se relacionou com o jogador Neymar e o surfista Pedro Scooby juntos. Processada, acabou retirando o que disse. "Na época, fui induzida a dizer aqueles absurdos pelo meu antigo empresário. Eu era uma pessoa facilmente influenciável", diz a influenciadora.

A carreira política só recentemente a atraiu. Optou pela direita por crer que esse polo "oferece caminhos mais sólidos para desenvolvimento, autonomia e dignidade, sem transformar o cidadão em dependente do Estado".

A simpatia por Jair Bolsonaro (PL) veio só após a eleição de 2022, na qual votou nulo para presidente. "Estava estudando política e formando meus próprios pensamentos, sem seguir manadas ou narrativas prontas." Então optou pelo bolsonarismo.

"Passei a apoiar, sim, o Bolsonaro. Ele me fez acordar, me fez enxergar com mais clareza o cenário político e institucional que estamos vivendo. Acredito na inocência dele. Bolsonaro é um exemplo de presidente que governava para todos, sem rótulos, sem dividir a população."

Bolsonaro, que já disse que daria "um couro" no filho que começasse "a ficar assim meio gayzinho", e que para ele só existe "homem e mulher", virou uma bússola para Sophia Barclay. "Hoje sigo seus princípios e sua postura como referência política."

•        Crimes contra a população LGBTQIAPN+ disparam no governo Zema

Minas Gerais enfrenta, desde o primeiro mandato do governo Romeu Zema (Novo), uma escalada da violência contra a população LGBTQIAPN+. O cenário contrasta com uma baixa execução orçamentária e ausência de políticas públicas estruturantes para enfrentar o problema vivenciado pela comunidade.

Dados obtidos pelo Estado de Minas via Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que, enquanto os registros oficiais de crimes motivados por preconceito cresceram 53% desde o início da atual gestão, políticas de proteção seguem sem orçamento próprio e ações voltadas ao grupo são classificadas como “pontuais”.

O Painel LGBTQIA+Fobia, plataforma administrada pelo próprio governo para mensurar crimes contra o grupo, expõe a curva ascendente. Antes de Zema assumir, o estado registrou 356 casos do tipo em 2018. Foram 363 ocorrências em 2019, no primeiro ano da atual gestão, ainda em seu mandato inicial; 567 em 2023, o maior número da série histórica, justamente no primeiro ano após a reeleição; e 546 registros contabilizados em 2024.

Em 2025, até outubro, o painel contabilizava 543 registros de causas presumidas de LGBTQIAPN+fobia, superior ao computado no mesmo período do ano passado, quando 467 casos estavam contabilizados. O ritmo indica que esse volume tende a superar o total do ano passado, sobretudo porque ainda restam dois meses para serem incorporados às estatísticas.

Apesar da curva ascendente da violência, os dados obtidos pelo Estado de Minas revelam um vácuo estrutural de políticas públicas no mesmo período em que os ataques se intensificaram. Um dos exemplos mais emblemáticos é o “Plano de Enfrentamento à Transfobia no Sistema Socioeducativo”, anunciado em 2021 e que, quase quatro anos depois, permanece classificado como “em andamento” e “para consulta pública”, sem previsão de implementação.

A reportagem procurou o Governo de Minas para questionar se há alguma estimativa para o lançamento do programa, mas não foi informado uma data.

<><> Políticas públicas

Embora a Secretaria de Desenvolvimento Social apresente, ano a ano, uma lista de iniciativas e programas voltados à população LGBTQIAPN+, sendo duas ações em 2019, cinco em 2020, outras cinco em 2021, quatro em 2022, seis em 2023, quatro em 2024 e mais quatro previstas para 2025, a maior parte delas se concentra em capacitações, campanhas e medidas administrativas. São projetos que, apesar de contribuírem para qualificar servidores e organizar trabalhos internos, permanecem restritos ao bastidor e pouco chegam à ponta, onde estão as pessoas mais vulneráveis.

A maioria das ações se resume à criação de comitês, resoluções, grupos de trabalho, planos ainda em discussão e cursos oferecidos em plataforma on-line. Quase nada, porém, se traduz em serviços diretos de proteção, amparo ou acompanhamento a vítimas.

Apesar das fragilidades, no conjunto das iniciativas apresentadas pelo governo, algumas ações têm impacto mais direto na vida da população LGBTQIA+. A conversão do Presídio Jason Soares Albergaria em uma unidade exclusiva para gays, travestis e transexuais é uma das medidas mais concretas. Também se destaca a inclusão de nome social, identidade de gênero e orientação sexual nos registros de ocorrência.

Na área formativa, o governo destaca a oferta recorrente do curso “Formação em Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e Identidade de Gênero”, que certificou 3.214 participantes entre 2016 e 2023. Outra frente é o curso “População LGBT: Direitos e Garantias”, desenvolvido em parceria com a Polícia Civil, com três mil vagas oferecidas em 2023 e outras três mil previstas para 2024, somando seis mil alunos capacitados.

Ao Estado de Minas, o presidente do Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais (Cellos-MG), Maicon Chaves, classifica as atuais medidas do governo Zema como insuficientes diante da escalada da violência.

“Cursos e campanhas, isoladamente, não protegem ninguém. Minas precisa assumir responsabilidade política e orçamentária, algo que não tem feito. Enquanto o Estado insistir em respostas tímidas, sem recursos e desconectadas da realidade dos territórios, Minas continuará sendo um lugar onde pessoas LGBTQIA+ continuarão vulnerabilizadas”, diz.

Para Chaves, o governo precisa investir em centros de referência regionais, atendimento psicossocial e protocolos obrigatórios na segurança pública.

“A insistência em capacitações e campanhas, sem criar redes de acolhimento, apoio jurídico, atendimento psicossocial e proteção territorial, nos mantém presos a um ciclo de violência e abandono. É uma política que educa agentes públicos, mas deixa as pessoas LGBTQIA+ sem portas para bater quando sofrem violência”, afirma.

<><> Fora do Orçamento

A deputada estadual Bella Gonçalves (Psol), presidente da Comissão de Direitos Humanos na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), avalia que o estado vive um cenário de desproteção institucional da população LGBTQIAPN+. Segundo ela, Minas não tem orçamento dedicado ao tema, tampouco políticas capazes de responder ao aumento da violência registrado nos últimos anos.

Segundo ela, a violência contra grupos vulneráveis tem crescido de forma significativa em Minas, impulsionada, em sua visão, por discursos da direita que transformaram essa população em “alvos prioritários”. “Elas (pessoas LGBT) foram escolhidas como inimigas número um pela direita, e isso reverbera em violência na sociedade”, diz.

No material obtido pela reportagem, a Secretaria de Desenvolvimento Social informa que não há qualquer rubrica específica voltada às políticas de diversidade. Questionada sobre o orçamento destinado às iniciativas, a pasta responde que “não houve execução orçamentária” ou que “não é necessário destinar recurso, por se tratar de ação pontual”.

Bella avalia que o governo Romeu Zema trata a pauta da diversidade como tabu, especialmente na educação, área que, segundo ela, tem sido alvo de iniciativas que desencorajam o debate sobre inclusão e fomentam perseguições a profissionais da rede.

“Ao invés de promover inclusão, o governo persegue professores e escolas. Na saúde, não há qualquer aporte para construção de acolhimentos ambulatoriais LGBT. O próprio protocolo estadual existe, mas nunca foi difundido, não foi levado para capacitação nos centros de saúde”, afirma.

O presidente da Cellos também critica a ausência de execução orçamentária específica para a área nos últimos anos. Define a situação como uma “escolha política” que leva a desproteção institucionalizada. “Quando o governo trata nossa pauta como irrelevante, a mensagem enviada à sociedade é evidente: vidas LGBTQIA+ não são prioridade”.

“Um governo que anuncia estruturas administrativas, mas não entrega serviços, é um governo que finge atuar, mas nos abandona. A política LGBTQIA+ de Minas Gerais hoje não enfrenta a violência, apenas produz documentos sobre ela”, completa.

Projetos parados

No Legislativo, a deputada Bella Gonçalves diz ter mais de 10 projetos voltados à comunidade parados na Comissão de Constituição e Justiça. Atribui a estagnação à mobilização da base governista.

Ela afirma que, mesmo diante das resistências, há “alguns respiros” no estado, fruto de ações do legislativo ou da articulação com políticas federais.

A deputada destaca, por exemplo, a abertura de ambulatórios trans em Betim (Região Metropolitana de BH) e Ouro Preto (Região Central), viabilizados por emendas impositivas.

Outro avanço citado foi a adoção de cotas para pessoas trans na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), medida aprovada pela universidade com autonomia própria.

 

Fonte: Folhapress

 

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