segunda-feira, 12 de janeiro de 2026


 

Amanda Audi: Venezuela - militares apontam grupos armados e pressão migratória como riscos para o Brasil

Após o sequestro de Nicolás Maduro, não há notícias de grandes conflitos internos na Venezuela. O país, no entanto, tem uma ampla rede de grupos paramilitares armados que ainda não se sabe se responderão totalmente ao governo interino. Além disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descartou novas operações militares caso o país não colabore com os seus planos de obter o controle do petróleo venezuelano.

<><> Por que isso importa?

  • O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem declarado reiteradamente o objetivo de interferir na política e na economia da América do Sul, o que pode gerar conflitos militares.
  • Brasil conta com uma fronteira de cerca 3 mil quilômetros com a Venezuela.

Esses fatores tensionam qualquer tentativa de estabilização da Venezuela no longo prazo e colocam o Brasil em uma posição inédita há décadas: ser vizinho de uma zona de instabilidade militar, com risco de ser impactado por ela.

Especialistas militares e civis ouvidos pela Agência Pública afirmam que a chance de o Brasil ser envolvido em uma guerra ou conflito armado de grandes proporções é baixa. No entanto, eles destacam cenários que podem pressionar a capacidade operacional militar do país e colocar em risco a sua soberania.

Nesta quinta-feira, 8 de janeiro, o governo brasileiro autorizou o aumento do efetivo da Força Nacional de Segurança Pública em Boa Vista, capital de Roraima, e na cidade fronteiriça Pacaraima pelos próximos 90 dias, com possibilidade do prazo ser estendido. A decisão foi tomada mesmo após o ministro da Defesa, José Múcio, dizer no sábado, dia 3 de janeiro, quando o ataque à Venezuela foi divulgado, que a situação na fronteira estava “tranquila” e que não havia necessidade de aumentar o efetivo brasileiro no local. 

“Os riscos à segurança do Brasil são indiretos, mas ainda assim relevantes”, afirma Guilherme Casarões, cientista político mestre em Relações Internacionais e professor da Fundação Getúlio Vargas. Para ele, o primeiro desafio diz respeito ao precedente que se abre com a deposição forçada de Maduro. Após a ação, Trump já estendeu ameaças a Cuba e Colômbia. “Ainda que o Brasil seja menos suscetível a intervenções desta natureza, a instabilidade produzida no continente gera custos ao nosso país”, afirma.

“Também há riscos sobre o aumento da presença militar norte-americana no mar do Caribe, no Atlântico Sul e em território venezuelano. Essa presença vai de encontro aos interesses brasileiros e altera profundamente a dinâmica regional”, continua.

O maior problema, porém, é decorrente de uma possível conflagração interna na Venezuela, que pode aumentar fluxos migratórios para o Brasil e, a depender da atuação sobre o narcotráfico, intensificar atividades ilegais na fronteira.

Brasil e Venezuela dividem uma fronteira de quase 3 mil quilômetros nos estados de Amazonas e Roraima. Boa parte da região é de difícil acesso na floresta amazônica, mas há trechos de vegetação baixa, onde foram criadas trilhas clandestinas para circulação de pessoas e quase sem fiscalização.

Desde 2014, cerca de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram seu país de origem, segundo o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Destes, cerca de 732 mil estão no Brasil – configurando o maior contingente de imigrantes vivendo no país. Mas o Brasil ainda é o quarto destino mais buscado pelos venezuelanos, atrás de Colômbia (2,8 milhões), Peru (1,9 milhão) e Estados Unidos (quase 1 milhão).

Desde o sequestro de Maduro pelas forças norte-americanas não houve alterações significativas no fluxo da fronteira brasileira, que se mantém com níveis parecidos aos de dezembro do ano passado. Mas, se houver um aumento, o Estado brasileiro deverá aumentar o efetivo da Operação Acolhida, a ação humanitária do governo que acolhe refugiados venezuelanos. 

Para o coronel Carlos Eduardo de Franciscis Ramos, pró-reitor de Pesquisa e Graduação da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), o Brasil criou um modelo bem-sucedido com a Operação Acolhida, que pode ser ampliado em caso de necessidade. “O Brasil tem um modelo com certa elasticidade, com capacidade instalada que suporta eventual aumento, desde que não seja absurdo”, afirma.

<><> Grupos armados atuam na região da fronteira

Para as fontes consultadas, existe o risco de as milícias venezuelanas se aliarem a outros grupos armados da América do Sul como revide à política dos Estados Unidos e utilizarem a floresta amazônica como esconderijo – um dos únicos lugares do mundo com trechos que ainda hoje são difíceis de monitoramento por satélite.

Um desses grupos é o Exército de Libertação Nacional (ELN), que atua na Colômbia e na fronteira com a Venezuela e apoiava o regime de Nicolás Maduro. Os governos dos EUA e da Colômbia já acusaram o ex-líder venezuelano de dar refúgio e até treinamento militar para militantes do grupo. Logo após a captura de Maduro, o ELN divulgou um comunicado chamando “os povos e nações do continente a rejeitar a agressão americana, a defender a soberania nacional e a unidade e resistência popular”.

Também há a presença de facções dissidentes das extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Suspeita-se que o ex-número dois da guerrilha, Iván Márquez, tenha formado o seu próprio grupo armado após a assinatura do acordo de paz com o governo colombiano em 2016, e adentrado o território venezuelano.

“Se os Estados Unidos tentarem avançar para áreas do sul da Venezuela, irão enfrentar forte resistência de organizações que sabem se misturar às comunidades locais, usando-as como escudos humanos”, disse Bram Ebus, fundador da Amazon Underworld, que investiga o crime na Amazônia, ao Financial Times.

Os grupos paramilitares venezuelanos, conhecidos como coletivos, mantêm influência em periferias e bairros pobres porque fazem a distribuição de benefícios sociais do governo, mas não fazem parte do regime oficialmente. Essa posição lhes garante autonomia operacional, e ainda não está claro como se dará a relação destes grupos com a nova presidente Delcy Rodríguez e com as milícias colombianas.

“Os grupos se aliarem e se esconderem em território brasileiro é uma situação perfeitamente possível. A fronteira é permeável. E aí o Brasil teria que agir para proteger a sua soberania. Já passamos por algo parecido há mais de 30 anos com a Operação Traíra”, disse à Pública um militar com posição de comando que atua na região amazônica e pediu para não se identificar.

O episódio ficou conhecido como Operação Traíra foi marcante para o Exército brasileiro. Em 1991, um destacamento que estava próximo ao rio Traíra, na divisa com a Colômbia, foi atacado por guerrilheiros envolvidos com garimpo ilegal na região, e resultou na morte de três brasileiros. Em resposta, as Forças Armadas mobilizaram 400 homens, que mataram pelo menos sete colombianos. 

Os militares ouvidos pela Pública concordam que o Brasil está preparado para lidar com embates pontuais com grupos pequenos ou conflitos localizados. Porém, o cenário se complica se houver um grande escalonamento da violência, pois, segundo eles, os investimentos com defesa e treinamento de pessoal seriam insuficientes.“Os gastos com Defesa no Brasil são de cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o padrão de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) era de 3,5%, e recentemente passou a 5% do PIB”, disse um dos oficiais sob anonimato.

Para o coronel Ramos, o Brasil não é um alvo fácil de ser conquistado na visão clássica. “O Brasil tem histórico de diplomacia, mas precisa ter capacidade de se articular, se impor e se defender. O poder atual é relativo se comparado com grandes potências, mas ainda é relevante. A gente consegue evoluir o contingente de 350 mil para 1 milhão de militares de forma rápida, e pode chegar a 3 ou 4 milhões de forma escalonada”, diz.

“O Brasil também tem dimensões continentais, que o colocam como um objetivo difícil de alcançar, o que é muito diferente de Israel, Líbano e até da Venezuela, que é do tamanho de Minas Gerais”, continua. “A influência pode ser de forma econômica, como houve com as sanções. Não precisa ser militar”, conclui.

¨      Muito além de esquerda x direita: venezuelana relata medo em Caracas e incerteza após ataque dos EUA

Silêncio. Aos poucos, estabelecimentos reabrem e tentam voltar para a normalidade. Esse clima é motivado pelo medo e pela incerteza do que acontecerá daqui para frente. É assim que tem estado as ruas em Caracas, capital da Venezuela, na primeira semana após o ataque do governo dos Estados Unidos ao país para captura do então líder, Nicolás Maduro. O relato é de Gabriela Mesones Rojo, venezuelana que atua como jornalista independente no país. 

A interrupção do mandato de Maduro foi comemorada por muitos dos venezuelanos que moram no exterior. “Suas celebrações têm sido barulhenta. No entanto, aqui na Venezuela, quase não houve comemoração. Isso não significa necessariamente que as pessoas desaprovem [a captura de Maduro]. Significa que as pessoas estão com medo. Há muita incerteza sobre o que vai acontecer”.

Nos últimos dias, confirmou-se que Delcy Rodríguez seguirá como presidente interina da Venezuela. O mandato inicial será de 90 dias. Integrante do núcleo duro do chavismo, ela ocupava o posto de vice-presidente desde junho de 2018. Em paralelo, Donald Trump rejeitou a possibilidade de novas eleições na Venezuela nos próximos 30 dias. O que se sabe é que o plano anunciado dos EUA para a Venezuela inclui três fases: estabilização, recuperação e transição.

Para os venezuelanos, as perguntas são muitas: “Como será o governo de Rodríguez? Como será a repressão? O que acontecerá com os presos políticos? Essas perguntas têm feito com que as pessoas permaneçam em segurança, fiquem em casa e sejam o mais silenciosas possível”, aponta Gabriela.

Segundo ela, a Venezuela enfrenta uma das maiores ondas de repressão de sua história moderna desde as últimas eleições presidenciais, em 2024. Em eleição questionada por sua integridade, Maduro foi reeleito com 51% dos votos. 

“O medo, o silêncio e a ausência de grandes manifestações, celebrações ou protestos políticos nas ruas são, na verdade, bem comuns durante o último ano”, explica.

<><> ‘Além de esquerda e direita’

A discussão tem sido grande em torno da legitimidade do ato do governo de Donald Trump, de como tudo se enquadra no direito internacional e como essa movimentação abre precedentes perigosos para outras possíveis interferências em outros países da América Latina pelo 'bem querer' dos EUA.

Enquanto a mídia internacional foca nisso, a jornalista diz achar que está sendo veiculado pouco contexto sobre a situação política e social da Venezuela nos últimos anos.

“Há apenas um breve lembrete. Estamos em uma emergência humanitária desde 2014. Nas eleições de 2024, Maduro se autoproclamou presidente sem apresentar qualquer prova de ter vencido a eleição. Houve uma enorme repressão. Mais de 400 meios de comunicação fecharam nos últimos 20 anos. Temos a maior crise de refugiados da região. Quase 8 milhões de pessoas deixaram o país, o que representa um pouco mais de 20% da população. O contexto venezuelano é complexo. É cheio de nuances”, aponta.

Além disso, ela critica a perspectiva ideológica em torno da situação venezuelana. “Não acredito necessariamente que seja uma situação de esquerda versus direita, especialmente quando se trata de analisar a situação na Venezuela, considerando Maduro como um líder de esquerda e Maria Corina como uma líder de direita. Não acho que os venezuelanos vejam ou abordem a situação dessa forma”, explica.

María Corina Machado ganhou o Nobel da Paz em 2025 e é a oposição de Maduro. Mesmo sem o apoio de Trump para assumir a liderança da Venezuela, ela declarou em entrevista à Fox News que planeja retornar a Caracas. "Vamos trazer o Estado de direito, vamos abrir os mercados e garantir segurança para os investimentos estrangeiros", acrescentou.

O que Gabriela espera, agora, é uma transição democrática, mas reconhece que não será uma tarefa fácil. Para ela, a situação não se resume apenas em remover Maduro do poder, pois ele “tem um sistema grande e muito sólido, um sistema muito autoritário que depende muito da repressão e de estratégias de repressão”. Por isso, ele fora da Venezuela não é a garantia da mudança.

“O principal que espero é que nossos líderes políticos eleitos da oposição tenham voz ativa. Como isso vai se desenrolar? Qual será o resultado? Claro, ainda não sabemos. Mas acredito que seja importante termos um processo que garanta que o país não mergulhe no caos e, em segundo lugar, que o país faça uso adequado de nossos mecanismos para garantir os valores democráticos”, finaliza a jornalista.

<><> EUA x Venezuela

Maduro é acusado de conspiração para o narcoterrorismo, para o tráfico de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, além de conspiração para a posse de armas de uso restrito destinadas ao narcotráfico, conforme aponta o Departamento de Justiça norte-americano. O governo retirou uma das acusações principais contra o líder venezuelano, a de que ele seria supostamente o chefe do grupo de narcotraficantes Cartel de los Soles. Sua captura, como aponta os EUA, foi por esses motivos.

Maduro e a esposa, Cilia Flores, se declararam inocentes diante da Justiça dos Estados Unidos. Em sua fala, o líder venezuelano afirmou ser um “prisioneiro de guerra”. “Eu sou inocente. Sou um homem decente. Sou um presidente”, afirmou. Agora uma nova audiência foi marcada para 17 de março, quando o casal deve prestar depoimento.

Para Trump, a operação foi 'tecnicamente perfeita' por não ter resultado em nenhuma morte entre as forças norte-americanas, nem perda de equipamentos. Já do outro lado foi diferente.. O que foi divulgado, até o momento, é que 32 cubanos, 23 militares venezuelanos e dois civis perderam a vida no ataque dos EUA ao país.

Três dias após a captura de Maduro, Trump afirmou que o governo interino da Venezuela concordou em enviar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo “de alta qualidade” ao país. O líder norte-americano disse ainda que o produto será vendido a preço de mercado e que o lucro da operação será controlado por ele “para garantir que seja usado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. Em entrevista nesta quarta-feira, dia 7, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, pontuou ainda que o governo americano quer controlar a venda do petróleo venezuelano "indefinidamente" e "depositar o dinheiro em contas controladas pelos EUA".

Apesar das interferências que seguem, governo norte-americano tem frisado ter se tratado de uma operação militar e não uma ocupação à Venezuela.

Até o momento, a situação não afetou diretamente os brasileiros. Especialistas ouvidos pelo Terra apontam que se tratou de um ataque muito grave, violento, e que remonta à política internacional do século 19 -- mas que mesmo assim, por enquanto, os impactos seguem pequenos ao que diz respeito ao Brasil. Também avaliam o risco de guerra como “particularmente baixo”, considerando que Trump entrou neste último mandato com o objetivo de ser o presidente dos Estados Unidos que mais acabou com guerras.

O que pode mudar o cenário, como apontam, é caso se inicie uma nova crise humanitária na Venezuela, que pode gerar um aumento do fluxo migratório para o Brasil e uma consequente sobrecarga no sistema de saúde e de outros sistemas brasileiros de seguridade social. Mas não veem isso acontecendo no momento.

Por mais que as movimentações na fronteira da Venezuela com Roraima sigam "calmas" após o ataque, o Ministério da Saúde enviou equipes da Força Nacional do Sistema Único de Saúde a Roraima para avaliar a estrutura da rede de saúde, a disponibilidade de profissionais, vacinas e outros insumos na fronteira com a Venezuela.

 

Fonte: Agencia Pública/Portal Terra

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