Amanda
Audi: Venezuela - militares apontam grupos armados e pressão migratória como
riscos para o Brasil
Após o
sequestro de Nicolás Maduro, não há notícias de grandes conflitos internos na
Venezuela. O país, no entanto, tem uma ampla rede de grupos paramilitares
armados que ainda não se sabe se responderão totalmente ao governo interino.
Além disso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descartou novas
operações militares caso o país não colabore com os seus planos de obter o
controle do petróleo venezuelano.
<><>
Por que isso importa?
- O presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, tem declarado reiteradamente o objetivo de
interferir na política e na economia da América do Sul, o que pode gerar
conflitos militares.
- Brasil conta com
uma fronteira de cerca 3 mil quilômetros com a Venezuela.
Esses
fatores tensionam qualquer tentativa de estabilização da Venezuela no longo
prazo e colocam o Brasil em uma posição inédita há décadas: ser vizinho de uma
zona de instabilidade militar, com risco de ser impactado por ela.
Especialistas
militares e civis ouvidos pela Agência Pública afirmam que a chance
de o Brasil ser envolvido em uma guerra ou conflito armado de grandes
proporções é baixa. No entanto, eles destacam cenários que podem pressionar a
capacidade operacional militar do país e colocar em risco a sua soberania.
Nesta
quinta-feira, 8 de janeiro, o governo brasileiro autorizou o aumento do
efetivo da Força Nacional de Segurança Pública em Boa Vista, capital de
Roraima, e na cidade fronteiriça Pacaraima pelos próximos 90 dias, com
possibilidade do prazo ser estendido. A decisão foi tomada mesmo após o
ministro da Defesa, José Múcio, dizer no sábado, dia 3 de janeiro, quando o
ataque à Venezuela foi divulgado, que a situação na fronteira estava
“tranquila” e que não havia necessidade de aumentar o efetivo brasileiro no
local.
“Os
riscos à segurança do Brasil são indiretos, mas ainda assim relevantes”, afirma
Guilherme Casarões, cientista político mestre em Relações Internacionais e
professor da Fundação Getúlio Vargas. Para ele, o primeiro desafio diz respeito
ao precedente que se abre com a deposição forçada de Maduro. Após a ação, Trump
já estendeu ameaças a Cuba e Colômbia. “Ainda que o Brasil seja menos
suscetível a intervenções desta natureza, a instabilidade produzida no
continente gera custos ao nosso país”, afirma.
“Também
há riscos sobre o aumento da presença militar norte-americana no mar do Caribe,
no Atlântico Sul e em território venezuelano. Essa presença vai de encontro aos
interesses brasileiros e altera profundamente a dinâmica regional”, continua.
O maior
problema, porém, é decorrente de uma possível conflagração interna na
Venezuela, que pode aumentar fluxos migratórios para o Brasil e, a depender da
atuação sobre o narcotráfico, intensificar atividades ilegais na fronteira.
Brasil
e Venezuela dividem uma fronteira de quase 3 mil quilômetros nos estados de
Amazonas e Roraima. Boa parte da região é de difícil acesso na floresta
amazônica, mas há trechos de vegetação baixa, onde foram criadas trilhas clandestinas para circulação
de pessoas e quase sem fiscalização.
Desde
2014, cerca de 7,9 milhões de venezuelanos deixaram seu país de origem, segundo
o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
Destes, cerca de 732 mil estão no Brasil – configurando o maior contingente de
imigrantes vivendo no país. Mas o Brasil ainda é o quarto destino mais buscado
pelos venezuelanos, atrás de Colômbia (2,8 milhões), Peru (1,9 milhão) e
Estados Unidos (quase 1 milhão).
Desde o
sequestro de Maduro pelas forças norte-americanas não houve alterações
significativas no fluxo da fronteira brasileira, que se mantém com níveis
parecidos aos de dezembro do ano passado. Mas, se houver um aumento, o Estado
brasileiro deverá aumentar o efetivo da Operação Acolhida, a ação humanitária
do governo que acolhe refugiados venezuelanos.
Para o
coronel Carlos Eduardo de Franciscis Ramos, pró-reitor de Pesquisa e Graduação
da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), o Brasil criou um
modelo bem-sucedido com a Operação Acolhida, que pode ser ampliado em caso de
necessidade. “O Brasil tem um modelo com certa elasticidade, com
capacidade instalada que suporta eventual aumento, desde que não seja absurdo”,
afirma.
<><>
Grupos armados atuam na região da fronteira
Para as
fontes consultadas, existe o risco de as milícias venezuelanas se aliarem a
outros grupos armados da América do Sul como revide à política dos Estados
Unidos e utilizarem a floresta amazônica como esconderijo – um dos únicos
lugares do mundo com trechos que ainda hoje são difíceis de monitoramento por
satélite.
Um
desses grupos é o Exército de Libertação Nacional (ELN), que atua na Colômbia e
na fronteira com a Venezuela e apoiava o regime de Nicolás Maduro. Os governos
dos EUA e da Colômbia já acusaram o ex-líder venezuelano de dar refúgio e até
treinamento militar para militantes do grupo. Logo após a captura de Maduro, o
ELN divulgou um comunicado chamando “os
povos e nações do continente a rejeitar a agressão americana, a defender a
soberania nacional e a unidade e resistência popular”.
Também
há a presença de facções dissidentes das extintas Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc). Suspeita-se que o ex-número dois da
guerrilha, Iván Márquez, tenha formado o seu próprio grupo armado após a
assinatura do acordo de paz com o governo colombiano em 2016, e adentrado o
território venezuelano.
“Se os
Estados Unidos tentarem avançar para áreas do sul da Venezuela, irão enfrentar
forte resistência de organizações que sabem se misturar às comunidades locais,
usando-as como escudos humanos”, disse Bram Ebus, fundador da Amazon
Underworld, que investiga o crime na Amazônia, ao Financial Times.
Os
grupos paramilitares venezuelanos, conhecidos como coletivos, mantêm influência
em periferias e bairros pobres porque fazem a distribuição de benefícios
sociais do governo, mas não fazem parte do regime oficialmente. Essa posição
lhes garante autonomia operacional, e ainda não está claro como se dará a
relação destes grupos com a nova presidente Delcy Rodríguez e com as milícias
colombianas.
“Os
grupos se aliarem e se esconderem em território brasileiro é uma situação
perfeitamente possível. A fronteira é permeável. E aí o Brasil teria que agir
para proteger a sua soberania. Já passamos por algo parecido há mais de 30
anos com a Operação Traíra”, disse à Pública um militar com posição
de comando que atua na região amazônica e pediu para não se identificar.
O
episódio ficou conhecido como Operação Traíra foi marcante para o Exército
brasileiro. Em 1991, um destacamento que estava próximo ao rio Traíra, na
divisa com a Colômbia, foi atacado por guerrilheiros envolvidos com garimpo
ilegal na região, e resultou na morte de três brasileiros. Em resposta, as
Forças Armadas mobilizaram 400 homens, que mataram pelo menos sete
colombianos.
Os
militares ouvidos pela Pública concordam que o Brasil está preparado
para lidar com embates pontuais com grupos pequenos ou conflitos localizados.
Porém, o cenário se complica se houver um grande escalonamento da violência,
pois, segundo eles, os investimentos com defesa e treinamento de pessoal seriam
insuficientes.“Os gastos com Defesa no Brasil são de cerca de 1% do Produto
Interno Bruto (PIB), enquanto o padrão de países da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan) era de 3,5%, e recentemente passou a 5% do PIB”, disse
um dos oficiais sob anonimato.
Para o
coronel Ramos, o Brasil não é um alvo fácil de ser conquistado na visão
clássica. “O Brasil tem histórico de diplomacia, mas precisa ter capacidade de
se articular, se impor e se defender. O poder atual é relativo se comparado com
grandes potências, mas ainda é relevante. A gente consegue evoluir o
contingente de 350 mil para 1 milhão de militares de forma rápida, e pode
chegar a 3 ou 4 milhões de forma escalonada”, diz.
“O
Brasil também tem dimensões continentais, que o colocam como um objetivo
difícil de alcançar, o que é muito diferente de Israel, Líbano e até da
Venezuela, que é do tamanho de Minas Gerais”, continua. “A influência pode ser
de forma econômica, como houve com as sanções. Não precisa ser militar”,
conclui.
¨
Muito além de esquerda x direita: venezuelana relata medo
em Caracas e incerteza após ataque dos EUA
Silêncio.
Aos poucos, estabelecimentos reabrem e tentam voltar para a normalidade. Esse
clima é motivado pelo medo e pela incerteza do que acontecerá daqui para
frente. É assim que tem estado as ruas em Caracas, capital da Venezuela, na
primeira semana após o ataque do governo dos Estados Unidos ao país para
captura do então líder, Nicolás Maduro. O relato é de Gabriela Mesones Rojo,
venezuelana que atua como jornalista independente no país.
A
interrupção do mandato de Maduro foi comemorada por muitos dos venezuelanos que
moram no exterior. “Suas celebrações têm sido barulhenta. No entanto, aqui na
Venezuela, quase não houve comemoração. Isso não significa necessariamente que
as pessoas desaprovem [a captura de Maduro]. Significa que as pessoas estão com
medo. Há muita incerteza sobre o que vai acontecer”.
Nos
últimos dias, confirmou-se que Delcy Rodríguez seguirá como
presidente interina da Venezuela. O mandato inicial será de 90
dias. Integrante do núcleo duro do chavismo, ela ocupava o posto de
vice-presidente desde junho de 2018. Em paralelo, Donald Trump rejeitou a
possibilidade de novas eleições na Venezuela nos próximos 30 dias. O que se
sabe é que o plano anunciado dos EUA para a Venezuela inclui três fases:
estabilização, recuperação e transição.
Para os
venezuelanos, as perguntas são muitas: “Como será o governo de Rodríguez? Como
será a repressão? O que acontecerá com os presos políticos? Essas perguntas têm
feito com que as pessoas permaneçam em segurança, fiquem em casa e sejam o mais
silenciosas possível”, aponta Gabriela.
Segundo
ela, a Venezuela enfrenta uma das maiores ondas de repressão de sua história
moderna desde as últimas eleições presidenciais, em 2024. Em eleição
questionada por sua integridade, Maduro foi reeleito com 51% dos votos.
“O
medo, o silêncio e a ausência de grandes manifestações, celebrações ou
protestos políticos nas ruas são, na verdade, bem comuns durante o último ano”,
explica.
<><>
‘Além de esquerda e direita’
A
discussão tem sido grande em torno da legitimidade do ato do governo de Donald
Trump, de como tudo se enquadra no direito internacional e como essa
movimentação abre precedentes perigosos para outras possíveis interferências em
outros países da América Latina pelo 'bem querer' dos EUA.
Enquanto
a mídia internacional foca nisso, a jornalista diz achar que está sendo
veiculado pouco contexto sobre a situação política e social da Venezuela nos
últimos anos.
“Há
apenas um breve lembrete. Estamos em uma emergência humanitária desde 2014. Nas
eleições de 2024, Maduro se autoproclamou presidente sem apresentar qualquer
prova de ter vencido a eleição. Houve uma enorme repressão. Mais de 400 meios
de comunicação fecharam nos últimos 20 anos. Temos a maior crise de refugiados
da região. Quase 8 milhões de pessoas deixaram o país, o que representa um
pouco mais de 20% da população. O contexto venezuelano é complexo. É cheio de
nuances”, aponta.
Além
disso, ela critica a perspectiva ideológica em torno da situação venezuelana.
“Não acredito necessariamente que seja uma situação de esquerda versus direita,
especialmente quando se trata de analisar a situação na Venezuela, considerando
Maduro como um líder de esquerda e Maria Corina como uma líder de direita. Não
acho que os venezuelanos vejam ou abordem a situação dessa forma”, explica.
María
Corina Machado ganhou o Nobel da Paz em 2025 e é a oposição de Maduro. Mesmo
sem o apoio de Trump para assumir a liderança da Venezuela, ela declarou em
entrevista à Fox News que planeja retornar a Caracas. "Vamos trazer o
Estado de direito, vamos abrir os mercados e garantir segurança para os
investimentos estrangeiros", acrescentou.
O que
Gabriela espera, agora, é uma transição democrática, mas reconhece que não será
uma tarefa fácil. Para ela, a situação não se resume apenas em remover Maduro
do poder, pois ele “tem um sistema grande e muito sólido, um sistema muito
autoritário que depende muito da repressão e de estratégias de repressão”. Por
isso, ele fora da Venezuela não é a garantia da mudança.
“O
principal que espero é que nossos líderes políticos eleitos da oposição tenham
voz ativa. Como isso vai se desenrolar? Qual será o resultado? Claro, ainda não
sabemos. Mas acredito que seja importante termos um processo que garanta que o
país não mergulhe no caos e, em segundo lugar, que o país faça uso adequado de
nossos mecanismos para garantir os valores democráticos”, finaliza a
jornalista.
<><>
EUA x Venezuela
Maduro
é acusado de conspiração para o narcoterrorismo, para o tráfico de cocaína,
posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, além de conspiração para a
posse de armas de uso restrito destinadas ao narcotráfico, conforme aponta o
Departamento de Justiça norte-americano. O governo retirou uma das
acusações principais contra o líder venezuelano, a de que ele seria
supostamente o chefe do grupo de narcotraficantes Cartel de los
Soles. Sua captura, como aponta os EUA, foi por esses motivos.
Maduro
e a esposa, Cilia Flores, se declararam inocentes diante da Justiça dos Estados
Unidos. Em sua fala, o líder venezuelano afirmou ser um “prisioneiro de
guerra”. “Eu sou inocente. Sou um homem decente. Sou um presidente”, afirmou.
Agora uma nova audiência foi marcada para 17 de março, quando o casal deve
prestar depoimento.
Para
Trump, a operação foi 'tecnicamente perfeita' por não ter resultado
em nenhuma morte entre as forças norte-americanas, nem perda de equipamentos.
Já do outro lado foi diferente.. O que foi divulgado, até o momento, é
que 32 cubanos, 23 militares venezuelanos e dois civis perderam a
vida no ataque dos EUA ao país.
Três
dias após a captura de Maduro, Trump afirmou que o governo interino da
Venezuela concordou em enviar entre 30 e 50 milhões de barris
de petróleo “de alta qualidade” ao país. O líder norte-americano
disse ainda que o produto será vendido a preço de mercado e que o lucro da
operação será controlado por ele “para garantir que seja usado em
benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. Em entrevista nesta
quarta-feira, dia 7, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright,
pontuou ainda que o governo americano quer controlar a venda do petróleo
venezuelano "indefinidamente" e "depositar o dinheiro em contas
controladas pelos EUA".
Apesar
das interferências que seguem, governo norte-americano tem frisado ter se
tratado de uma operação militar e não uma ocupação à Venezuela.
Até o
momento, a situação não afetou diretamente os brasileiros. Especialistas
ouvidos pelo Terra apontam que se tratou de um ataque muito grave,
violento, e que remonta à política internacional do século 19 -- mas que mesmo
assim, por enquanto, os impactos seguem pequenos ao que diz respeito ao Brasil.
Também avaliam o risco de guerra como “particularmente baixo”, considerando que
Trump entrou neste último mandato com o objetivo de ser o presidente dos
Estados Unidos que mais acabou com guerras.
O que
pode mudar o cenário, como apontam, é caso se inicie uma nova crise humanitária
na Venezuela, que pode gerar um aumento do fluxo migratório para o Brasil e uma
consequente sobrecarga no sistema de saúde e de outros sistemas brasileiros de
seguridade social. Mas não veem isso acontecendo no momento.
Por
mais que as movimentações na fronteira da Venezuela com Roraima sigam
"calmas" após o ataque, o Ministério da Saúde enviou equipes da
Força Nacional do Sistema Único de Saúde a Roraima para avaliar a estrutura da
rede de saúde, a disponibilidade de profissionais, vacinas e outros insumos na
fronteira com a Venezuela.
Fonte:
Agencia Pública/Portal Terra

Nenhum comentário:
Postar um comentário