Em
que dia Jesus nasceu segundo os evangelhos e como se convencionou a data de 25
de dezembro?
Poderia
ter sido 13 de abril. Ou em 14 de outubro. Ou 3 de julho...
Também
é provável que, se o monge medieval encarregado de determinar a data de seu
nascimento não tivesse calculado mal, estaríamos alguns anos na frente agora.
É
impossível saber ao certo em que data Jesus de Nazaré nasceu.
A única
fonte que os historiadores têm para reconstruir sua vida são os evangelhos,
escritos décadas depois de sua morte por pessoas que nunca o conheceram em vida
e que eram propagandistas da fé em Jesus como messias.
Sua
história vem de segunda, terceira ou quinta mão, narrada por cristãos de
primeira geração interessados, segundo historiadores, na morte e ressurreição
de Jesus, não tanto em seu nascimento.
Os
textos dos evangelistas, no entanto, fornecem pistas para situar Jesus — sobre
cuja existência como personagem histórico há amplo consenso entre os
pesquisadores — em um momento específico da história.
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As fontes
As
principais fontes, explica o historiador espanhol Javier Alonso à BBC News
Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, são os Evangelhos de Mateus e
Lucas, escritos aproximadamente por volta dos anos 80-90 d.C..
Enquanto
os textos mais antigos do Novo Testamento, como o Evangelho de Marcos e as sete
cartas do Apóstolo Paulo de Tarso consideradas autênticas, não fazem menção de
sua juventude, os Evangelhos de Mateus e Lucas incluem o que é conhecido como a
"relatos da infância" de Jesus.
"O
problema é que, do ponto de vista cronológico, eles são incompatíveis",
diz Alonso, que também é filólogo bíblico e semítico.
Marcos
afirma que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande, pouco antes de
sua morte.
"Como
agora sabemos que Herodes morreu em 4 a.C., conforme o Evangelho de Mateus,
Jesus deve ter nascido em 4, 5, 6 ou 7 a.C."
Possivelmente
eles perceberam a incoerência de que Jesus nasceu vários anos antes de Cristo,
ou seja, dele mesmo. Mas paciência, chegaremos lá.
Lucas,
porém, não fala de Herodes, mas relaciona o nascimento de Jesus ao censo de
Quirino. Segundo seu relato, Maria e José, os pais de Jesus, tiveram que viajar
da Galileia a Belém para poderem se registrar no censo.
O
evangelista assegura que se trata do relato feito por Públio Sulpício Quirino,
governador romano da Síria, que naquela época incluía a Judeia, e que o casal
teve que viajar para lá, apesar do avançado estado de gravidez de Maria, porque
era o lugar de nascimento de José.
O censo
existiu, como testemunha o historiador Flavio Josefo, o que nos permite
atribuir-lhe uma data: o ano 6 d.C.
"Ou
seja, há uma diferença de pelo menos dez anos entre Mateus e Lucas",
argumenta Alonso.
A tudo
isso devemos acrescentar mais uma circunstância: a possibilidade de que esses
capítulos, Mateus 1 e 2, e Lucas 1 e 2, tenham sido acrescentados aos
respectivos evangelhos uma vez que já estavam circulando, explica à BBC News
Mundo Antonio Piñero, professor emérito de Filologia Grega da Universidade
Complutense de Madrid, na Espanha, cujo estudo se concentrou na língua e na
literatura do cristianismo primitivo.
"Sabemos
que foram adicionados porque os personagens do evangelho posterior, de Mateus 3
e Lucas 3, não fazem ideia do que aconteceu nos capítulos anteriores, e até há
dados contraditórios", argumenta Piñero, que garante que os historiadores
situam a redação desses relatos no início do século 2.
Portanto,
é possível que, quando o nascimento e a infância de Jesus foram escritos, mais
de 60 anos tenham se passado desde sua morte.
Até
então, aponta Piñero, estima-se que havia cerca de 3 mil cristãos no mundo,
espalhados, aliás, em diferentes comunidades.
Então,
qual relato está mais próximo da realidade, Mateus ou Lucas?
Para
determinar isso, os historiadores estudaram as outras âncoras históricas que
aparecem nos Evangelhos, especialmente uma figura central na vida de Jesus:
Pôncio Pilatos.
Sabe-se
que Jesus morreu durante o governo do prefeito Pôncio Pilatos, ocorrido de 26 a
36 d.C., e que começou a pregar no 15º ano do imperador Tibério, explica
Alonso.
"Se
prestarmos atenção em Mateus, e Jesus nascer no ano 4 a.C., faz sentido. Ele
morreria no ano 30 e teria, talvez, 34 anos", argumenta o historiador.
No
entanto, se ouvirmos Lucas, a conta não fecha.
"Por
datas, o que faz sentido é Mateus, ou seja, que Jesus nasceu aproximadamente em
4 a.C., nos últimos anos de Herodes, o Grande", diz Javier Alonso.
"Por
outro lado, o censo de Quirino não faz sentido, e entende-se que Lucas o usou
como desculpa para deslocar algumas pessoas que são de Nazaré, no norte de
Israel, para Belém, que é onde o messias tem que nascer, mas nada mais. É um
artifício literário."
Piñero
concorda que se trata de um recurso profético: "Uma vez que se acredita
que Jesus é o messias, concorda-se com a profecia de Miquéias, capítulo 5:1, a
de que o messias virá de Belém, cidade onde nasceu Davi".
A
profecia, que estava no Antigo Testamento, é então cumprida se Jesus nascer em
Belém.
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Existem mais fontes?
A
resposta é não.
Os
Evangelhos oferecem outras âncoras cronológicas que permitem situar Jesus no
tempo, mas não há outros textos onde a sua vida tenha sido registrada.
Flavio
Josefo, o historiador judeu-romano do século 1, "menciona Jesus em sua
'História dos Judeus', que escreveu por volta do ano 95, mas o faz de maneira
geral, não menciona seu nascimento", explica Piñero.
"Você
poderia saber o dia em que o imperador Augusto nasceu, mas não o de um pregador
galileu, ninguém saberia. E, na realidade, as fontes que temos não foram
escritas até muito mais tarde", acrescenta Alonso.
E por
que os primeiros cristãos não se interessaram pela infância de Jesus?
Como é
que Paulo não contou nada sobre os primeiros anos de sua existência?
Por que
Marcos, que escreveu o primeiro Evangelho cerca de 40 anos após a morte de
Jesus, não menciona seu nascimento?
Segundo
Piñero, deve-se levar em conta que, para os primeiros cristãos, a mensagem de
Jesus era de que a chegada do Reino de Deus era "iminente".
Não era
algo que aconteceria no futuro, no fim dos tempos ou após o julgamento final.
Por
isso, não havia interesse em relembrar momentos ou fatos específicos dos
ensinamentos de seu profeta.
"Para
o cristianismo primitivo, a chegada do Reino era muito iminente, então, por que
se preocupar?", diz o acadêmico.
No
entanto, como os contemporâneos de Jesus morreram e as gerações seguintes
perceberam que o Reino dos céus não viria, surgiu a necessidade de escrever o
que se sabia sobre ele para transmiti-lo às gerações seguintes.
"O
nascimento de Jesus na religião cristã primitiva não tem importância porque a
mensagem original é que Jesus morre pelos pecados da humanidade e ressuscita. E
isso é o triunfo sobre a morte. Tudo o mais é decorativo", argumenta o
historiador.
Mas,
com o aumento de sua popularidade, surge a necessidade de conhecer mais sobre o
personagem, para preencher as lacunas da biografia que não estão disponíveis.
"É
por isso que o cristianismo escreve a biografia de Jesus ao contrário. Os
textos mais antigos referem-se à morte e à ressurreição. Depois começam a falar
da sua vida pública, dos três anos de pregação. E os dois textos que falam do
nascimento são os mais recentes, os de Mateus e Lucas."
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O Monge Dionísio
Assim,
se a evidência histórica nos aproxima do ano 4 a.C., de onde vem a data do ano
1?
Aqui,
um monge bizantino do século 5, Dionísio, o Magro, entra em cena.
Como
explica Piñero, Dionísio, estando em Roma por volta do ano 497, foi
comissionado pelo Papa para determinar a data da Páscoa a fim de entrar em
acordo com as igrejas orientais.
E, uma
vez que a data da Páscoa foi definida, ele foi convidado a descobrir exatamente
quando Jesus nasceu.
Dionísio
era cronógrafo, ou seja, estudava cronografia a partir dos textos da época.
"Ele
não tinha as fontes que um historiador tem hoje, então fez como Deus o fez
entender, e errou", argumenta Alonso.
O monge
determinou que Jesus nasceu 753 anos após a fundação de Roma, anotando 754 como
o ano 1 da era cristã.
Essa
forma de contar os anos foi imposta ao longo do tempo e, com ela, o erro da
data de nascimento de Jesus.
Naquela
época, no mundo romano, o tempo era medido pelo número de anos do imperador
(por exemplo, o ano 5 de Tibério, ou o ano 4 de Nero) e, em algumas cidades,
pela data de sua fundação, como o caso de Roma.
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E 25 de dezembro?
Dionísio
não teve nada a ver com isso, porque a data foi estabelecida antes dele.
Trata-se,
explica Piñero, de uma "invenção cristã": o imperador Teodósio Magno
estabeleceu o cristianismo como religião exclusiva do Império Romano após o ano
380 "e quando a Igreja passa de perseguida a perseguidora, trata de
assimilar dentro Cristianismo tanto quanto possível do paganismo."
Em 25
de dezembro, o império celebrava o festival do "sol invicto", o dia
em que Zeus, o sol, derrotou a escuridão.
Nem
mais nem menos que o solstício de inverno, momento em que os dias começam a
ficar mais longos.
O
solstício é no dia 21, "mas os antigos o celebravam no dia 25 porque era a
data em que já se notava que o "sol invencível", ou seja, Zeus,
estava vencendo as trevas.
E quem
era o sol invencível? Bem, Jesus. É por isso que essa data é cristianizada e
está determinado que o nascimento de Jesus foi em 25 de dezembro", explica
Piñero.
Nesse
mês também os romanos celebravam a Saturnália, festa dedicada ao deus Saturno
"em que se penduravam guirlandas, se distribuíam presentes e até havia
árvores como a nossa no Natal.
"Assim,
copiam-se datas, substituem-se datas e muitos vezes costumes", acrescenta
Alonso.
Portanto,
foi só a partir do século 4 que o nascimento de Jesus começa a ser celebrado.
E
quando a data se torna relevante como feriado cristão?
A arte
pode servir de pista, explica o historiador: na igreja de San Vitale em
Ravenna, do século 6, da época do imperador Justiniano, "já existem
imagens, por exemplo, da adoração dos Reis, pelo que se dá importância a
episódios nos evangelhos relacionados ao nascimento de Jesus".
Se a
data que celebramos não é realmente aquela em que Jesus nasceu, que outros
dados sobre seu nascimento os historiadores dão como certo?
Piñero
considera que, como os capítulos de Mateus e Lucas nos quais se fala da
infância de Jesus são tão diferentes entre si, "a ponto de parecer que
falam de duas pessoas diferentes", presumivelmente poderíamos considerar
no que coincidem como suposto fato histórico.
Basicamente,
que seus pais se chamavam Maria e José, que era uma família muito religiosa, e
que Jesus era galileu.
Mas
Alonso discorda: "Parecem dois textos quase mitológicos", conclui
ele.
Fonte:
BBC News Mundo

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