Santa
Catarina: A identidade branca como política de Estado
O
projeto aprovado não é um equívoco técnico nem um debate legítimo sobre
políticas públicas. É uma tomada de posição política clara em defesa da
preservação de privilégios raciais historicamente construídos neste estado...
Santa
Catarina voltou ao centro do debate nacional ao aprovar, na Assembleia
Legislativa, um projeto que extingue as cotas raciais nas universidades
estaduais e ainda prevê punições financeiras às instituições que insistirem em
mantê-las. A medida, que aguarda sanção do governador, é apresentada por seus
defensores como defesa da igualdade e do mérito. Mas, observada à luz da
história e da formação social do estado, revela outra coisa. Não se trata de
neutralidade, modernização ou justiça. Trata-se de uma escolha política
consciente, que reafirma uma tradição catarinense de proteção de privilégios
raciais, agora atualizada sob a linguagem técnica da legalidade e da eficiência
administrativa.
Falo
como alguém branco, nascido e formado em Santa Catarina. Não falo por culpa
moral nem por virtude individual, mas por responsabilidade histórica. O projeto
aprovado não é um equívoco técnico nem um debate legítimo sobre políticas
públicas: trata-se de uma tomada de posição política clara em defesa da
preservação de privilégios raciais historicamente construídos neste estado.
O fim
das cotas raciais para grupos historicamente marginalizados – e não para os
brancos – não me prejudica diretamente. Pelo contrário, preserva uma ordem que
sempre me foi favorável. É justamente por isso que é preciso nomear o que está
em jogo.
É tendo
consciência do apagamento racial e social, da maior facilidade de acesso às
oportunidades e do reconhecimento dos benefícios que atravessam a minha
identidade enquanto trabalhador branco que escrevo este texto, indignado diante
de um projeto político que insiste em manter o acesso ao conhecimento, ao poder
e à mobilidade social racialmente delimitados.
Quando
uma maioria de deputados, sobretudo homens, brancos e católicos, decide atacar
as cotas raciais, não está lidando com abstrações identitárias, mas retirando
direitos concretos de pessoas concretas. Segundo o Censo 2022 do IBGE, Santa
Catarina tem 1.772.896 pessoas negras, sendo 309.908 pretas e 1.462.988 pardas,
o que corresponde a 23,29% da população do estado. Além disso, vivem em Santa
Catarina 21.773 pessoas indígenas, pertencentes a povos historicamente
violentados e ainda hoje excluídos do acesso pleno a direitos. São, portanto,
quase 1,8 milhão de pessoas negras e mais de 20 mil indígenas diretamente
afetados por uma decisão política que reafirma a exclusão no acesso ao ensino
superior público.
Santa
Catarina gosta de se apresentar como terra do trabalho, do mérito e da
eficiência. Essa narrativa, repetida à exaustão, esconde um dado fundamental. O
Estado catarinense nunca foi neutro racialmente. Ao contrário. Desde o final do
século dezenove, investiu pesadamente em políticas públicas de cotas para
brancos de incentivo à imigração europeia, distribuição de terras, crédito,
infraestrutura e proteção institucional para colonos brancos, enquanto negava
sistematicamente esses mesmos recursos à população negra recém liberta e aos
povos indígenas.
Não
houve acaso nem simples dinâmica econômica. Houve projeto. Um projeto explícito
de branqueamento populacional, de ocupação territorial racializada e de
produção de uma identidade regional assentada na exclusão. Enquanto famílias
europeias brancas recebiam terras, apoio estatal e reconhecimento simbólico,
pessoas negras eram empurradas para o trabalho precarizado, expulsas de áreas
centrais, criminalizadas e mantidas fora da escolarização formal. Esse é o
ponto de partida real da chamada meritocracia catarinense.
A
população indígena em Santa Catarina carrega até hoje as marcas de um genocídio
que nunca foi devidamente reconhecido nem reparado. No estado a violência
contra os povos indígenas não é capítulo encerrado, mas estrutura permanente.
Xokleng Laklanõ, Kaingang e Guarani seguem enfrentando os efeitos de um
processo histórico de expropriação territorial e apagamento institucional que
sustentou a colonização do estado. Dos massacres sofridos pelos Xokleng no Vale
do Itajaí à expulsão dos Kaingang no Oeste e aos conflitos fundiários vividos
pelos Guarani no litoral, o que se mantém é a negação contínua do direito ao
território e à existência plena. As disputas atuais, como a luta Xokleng que
chegou ao debate nacional sobre o marco temporal, evidenciam que o Estado ainda
opera segundo a lógica de escolher quem pode permanecer e quem deve ser
removido. Ignorar essa história ao atacar políticas afirmativas é reafirmar o
mesmo projeto de exclusão que moldou Santa Catarina desde sua origem.
Há
ainda uma ausência gritante no debate público sobre a memória deliberadamente
apagada do caboclo. Figura central na formação social do estado, o caboclo de
Santa Catarina foi sistematicamente deslegitimado como sujeito histórico. Nem
europeu suficiente para ser celebrado pela narrativa do progresso, nem indígena
reconhecido como povo originário com direitos assegurados, o caboclo foi
tratado como obstáculo ao desenvolvimento. Sua existência foi associada à
preguiça, ao atraso e à desordem, enquanto políticas públicas e projetos de
modernização avançavam sobre seus territórios, sua cultura e seus modos de
vida.
A
Guerra do Contestado é o episódio mais brutal dessa exclusão. Ali, o Estado
brasileiro decidiu exterminar física e simbolicamente populações caboclas em
nome da ordem, da propriedade privada e do capital estrangeiro. Após a guerra,
o que se seguiu não foi reparação, mas silenciamento. Terras foram entregues a
empresas e colonos europeus, enquanto os sobreviventes caboclos foram
empurrados para a marginalização, sem acesso à terra, à escola ou ao
reconhecimento.
É nesse
contexto que as cotas raciais surgem, mais de um século depois, como uma
tentativa mínima de correção histórica. Não criam privilégios. Tentam mitigar
desigualdades produzidas pelo próprio Estado. Ao proibi-las, a Assembleia
Legislativa catarinense não está defendendo igualdade. Está reafirmando uma
desigualdade já existente e profundamente naturalizada. E o que o estado faz,
por meio do seu legislativo, é proteger o que sempre protegeu, a identidade
branca em detrimento da marginalização das populações negras e indígenas que
foram historicamente exploradas socialmente, economicamente e politicamente.
Em
Santa Catarina, o debate racial inaugurou também uma clivagem interna entre o
branco e o branquíssimo. Embora o estado seja marcado por uma maioria branca,
essa branquitude nunca foi homogênea nem igualmente valorizada. Ao longo da
formação social catarinense, estabeleceram-se hierarquizações internas entre
europeus considerados mais desejáveis e outros classificados como inferiores ou
menos civilizados. Italianos, açorianos, caboclos embranquecidos e outros
grupos foram, em diferentes momentos, alvo de estigmatização, controle social e
exploração do trabalho, ainda que permanecessem situados acima da população
negra e indígena na escala racial construída pelo Estado.
Essa
lógica produziu uma espécie de sistema de castas raciais à brasileira, no qual
a proximidade com o ideal do branco europeu do Norte definiu acesso a terra,
prestígio, escolarização e poder político. Mesmo grupos brancos que sofreram
discriminação foram progressivamente incorporados à branquitude dominante à
medida que se distanciavam simbolicamente de negros e indígenas. O resultado
foi a reprodução de uma estrutura racial profundamente desigual, sustentada não
apenas pela exclusão direta, mas pela promessa de ascensão simbólica dentro da
própria branquitude.
É nesse
terreno que se atualiza hoje a resistência às políticas afirmativas: não como
defesa abstrata da igualdade, mas como medo de fissura em uma hierarquia racial
que sempre organizou quem pode avançar e quem deve permanecer no limite, a
partir de um olhar profundamente etnocêntrico. O que vemos hoje em Santa
Catarina é a atualização desses mesmos mecanismos. O discurso contra as cotas
mobiliza a ideia de mérito, legalidade e igualdade abstrata, enquanto preserva
silenciosamente o salário racial em um tecido social profundamente
hierarquizado. Mesmo quando isso significa restringir o acesso à universidade
pública, um bem coletivo, a parcelas da população que historicamente já foram
excluídas dela.
Não é
coincidência que pesquisas eleitorais revelam recortes raciais persistentes no
apoio a projetos políticos no estado, com uma maioria que vota em candidatos
homens, brancos e conservadores.
A
resistência às políticas redistributivas e afirmativas para pessoas negras e
indígenas em Santa Catarina não é apenas ideológica. É racialmente estruturada.
E os representantes políticos do estado, em sua maioria, quando atacam as
políticas afirmativas para pessoas que não são brancas, representam também a
mobilização de uma maioria também branca que luta para proteger o racismo e os
benefícios raciais construídos às custas da exploração racial.
A
defesa contemporânea da identidade branca não se dá mais, na maioria das vezes,
por declarações abertamente racistas, mas por meio de um ressentimento racial
acomodado em um discurso de meritocracia e de zelo institucional, político,
histórico e social pela memória de um pioneirismo branco, europeu e
higienizado. Quando setores brancos passaram a perceber que a universidade
pública deixava de ser um espaço quase exclusivo de reprodução de si mesmos,
ela se tornou alvo. Não por acaso, foi no momento após a instituição da
política afirmativa de cotas nas universidades que movimentos extremistas
passaram a ocupar corredores, vigiar professores, denunciar conteúdos críticos
e atacar políticas de diversidade. O incômodo nunca foi com a qualidade do
ensino, mas com a quebra de uma fronteira racial historicamente protegida.
A
presença negra e indígena nas universidades brasileiras produziu uma
transformação profunda e mensurável. As políticas de cotas ampliaram o acesso,
diversificaram agendas de ensino, pesquisa e extensão e romperam silêncios
históricos e colocaram em circulação saberes antes sistematicamente
deslegitimados. Dados reiterados mostram aumento de permanência, conclusão de
cursos e produção científica entre estudantes cotistas. Mais do que números,
houve uma revolução simbólica. A universidade deixou de ser apenas espaço de
reprodução da elite branca e passou a refletir, ainda que de forma incompleta,
a sociedade brasileira, que é de maioria negra.
Negar
esse processo não é ignorância. É uma escolha política. Ao atacar cotas
raciais, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina se declara, ainda que não o
admita, defensora de uma política de ação afirmativa para brancos. Porque negar
a necessidade de políticas específicas para pessoas negras e indígenas
significa defender que as oportunidades existentes continuem sendo apropriadas
majoritariamente por quem sempre teve acesso a elas. Significa naturalizar uma
desigualdade produzida historicamente pelo próprio Estado e proteger as
oportunidades às populações brancas em Santa Catarina. O projeto aprovado não é
neutro, nem técnico, nem moderno. É uma reação política à democratização do
acesso ao conhecimento.
A
universidade pública não é um espaço abstrato. Ela reflete a sociedade que a
produz. Extinguir cotas raciais em Santa Catarina não é um gesto de
modernização nem de justiça. É a reafirmação de um passado que nunca foi
superado. Um passado em que o Estado escolheu quem merecia futuro e quem
deveria permanecer à margem.
Fonte: Por Marlon Ricardo de Amorim, no Le Monde

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