As
brigas e disputas que dividem republicanos no coração do trumpismo
Em uma
reunião de gabinete na Casa Branca, na primeira semana de dezembro, o
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, percorreu com o
olhar a longa sala ocupada por seus principais assessores, integrantes do
governo e auxiliares, e fez uma previsão.
O
próximo candidato do Partido Republicano à Presidência "provavelmente está
sentado aqui", disse Trump.
"Podem
ser algumas pessoas sentadas à essa mesa", acrescentou, insinuando
possíveis disputas internas em seu partido em 2028.
Apesar
de uma emenda constitucional limitá-lo a dois mandatos de quatro anos, seus
apoiadores entoaram "mais quatro anos" em um comício realizado no
início de dezembro, na Pensilvânia (EUA).
Trump
afirmou na ocasião que os três anos finais de seu segundo mandato equivalem a
uma "eternidade".
Mas, na
reunião de gabinete recente, ao discutir as perspectivas para a indicação
republicana à Presidência em 2028, foi direto: "Não serei eu".
A
próxima eleição presidencial pode parecer distante, mas as próprias
especulações de Trump — e certas tensões dentro de sua coalizão — indicam que a
disputa para sucedê-lo e definir o futuro do movimento Make America Great Again (Maga, na sigla
em inglês, ou "Tornar a América grande novamente", em tradução livre)
após Trump já está em pleno andamento.
Nas
eleições locais em novembro, o Partido Republicano perdeu apoio entre eleitores
de minorias e da classe trabalhadora que ajudaram Trump a reconquistar a Casa
Branca em 2024.
Integrantes
de sua equipe entraram em conflito sobre políticas. E alguns, sobretudo a
congressista Marjorie Taylor Greene, se afastaram de sua órbita, acusando o
presidente de ter perdido contato com os americanos que lhe deram poder.
Houve
especulações, em setores da imprensa internacional e também nos EUA, sobre
fissuras na base do Maga.
Em
meados de dezembro, uma manchete do jornal americano The Washington Post
perguntava: "Líderes do Maga alertam Trump de que sua base está se
afastando. Ele vai ouvir?"
Os
sinais de alerta estão aí. Embora Trump seja conhecido há muito tempo por estar
em sintonia com sua base, os próximos meses vão impor uma série de desafios ao
presidente e ao seu movimento. Está em jogo nada menos que seu legado político.
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De Vance a Rubio: um time de rivais?
Tudo
eram sorrisos e conversas sobre conquistas presidenciais históricas dentro do
ambiente acolhedor da sala do gabinete recém-redecorada de Trump, adornada com
dourados, naquele início de dezembro.
Mas os
aspirantes à Presidência que Trump pode ter tido em mente ao olhar ao redor da
mesa dão pistas de quão difícil pode ser impedir que seu movimento Maga comece
a se fragmentar.
O vice
americano, J.D. Vance, estava sentado de frente para o presidente.
Como
companheiro de chapa desde 2024, ele é amplamente considerado o sucessor mais
provável de Trump, o favorito dos filhos do presidente e de bilionários
libertários
O
secretário de Estado Marco Rubio estava imediatamente à direita do presidente.
O
ex-senador da Flórida, que disputou com Trump a indicação republicana em 2016,
passou os últimos dez anos passando por uma transformação e alinhando-se ao
Maga.
Rubio
abandonou o apoio anterior à liberalização da política migratória e a postura
dura em relação à Rússia, adotando em seu lugar a política externa America
First (América primeiro, em tradução livre) de Trump.
Ainda
assim, se há alguém próximo à velha guarda republicana com influência no
partido de Trump, Rubio lidera a lista.
Depois,
há o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., cujo ceticismo em relação às
vacinas e a agenda "Make America Healthy Again" (Tornar a América
saudável novamente, em tradução livre) provocaram abalos na burocracia de saúde
dos Estados Unidos; ele estava sentado duas cadeiras depois de Rubio.
Democrata
que se tornou independente e depois republicano, Kennedy Jr. encarna de forma
viva os estranhos alinhamentos ideológicos que Trump construiu em sua
trajetória até a reeleição no ano passado.
Por
fim, Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, estava acomodada em um canto
da mesa.
Embora
a ex-governadora de Dakota do Sul (no centro-norte dos EUA) não seja vista como
uma candidata presidencial de peso, sua defesa de uma aplicação agressiva das
leis migratórias, incluindo um recente apelo por uma proibição total de viagens
a "todo maldito país que vem inundando nossa nação com assassinos,
parasitas e viciados em benefícios", fez dela um rosto proeminente das
políticas do governo.
Cada um
deles pode acreditar que, se decidir concorrer, poderá se tornar o herdeiro
político de Trump e assumir o comando do movimento que remodelou a política
americana na última década.
Mas,
parafraseando Benjamin Franklin (1706–1790) no nascimento da democracia
americana, quem vencer a indicação republicana terá recebido uma coalizão
vencedora, desde que consiga mantê-la unida.
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O império republicano transformado
Nada
disso, claro, é garantido, nem é certo que a próxima geração de líderes do Maga
venha do círculo mais próximo do presidente.
Trump
chegou à Casa Branca como um outsider político — uma espécie
de estranho ao sistema político. O próximo líder republicano pode seguir
caminho semelhante.
"Vai
caber ao próximo presidente republicano que suceder Trump se diferenciar",
afirmou o ex-deputado republicano Rodney Davis, de Illinois (EUA), hoje na
Câmara de Comércio dos EUA.
"Mas,
ao mesmo tempo, é preciso não se afastar demais, porque foi claramente Donald
Trump [quem] se elegeu presidente duas vezes."
Quando
a eleição presidencial de novembro de 2028 chegar, os eleitores americanos
talvez nem queiram alguém como Trump.
Pesquisas
de opinião indicam que o presidente pode não ser mais tão popular quanto já
foi.
Um
levantamento do instituto de pesquisas e opinião pública YouGov, divulgado no
início de dezembro de 2025, mostrou que o presidente tinha aprovação líquida
("saldo" entre avaliações positivas e negativas) negativa em 14
pontos, ante resultado positivo em 6 pontos quando voltou ao cargo em janeiro.
Há
ainda preocupações com a economia e com seus esforços incessantes para ampliar
os limites do poder presidencial.
A
liderança do movimento de Trump ainda representa, no entanto, as chaves do
império republicano, mesmo que esse império tenha mudado drasticamente nos
últimos anos.
"Acho
que a coalizão republicana se tornou fundamentalmente diferente nas últimas
décadas", afirmou Davis, que exerceu mandato no Congresso de 2013 a 2023.
"A coalizão republicana que existia quando Ronald Reagan foi eleito não é
mais a mesma."
Nos
anos 1980, disse Laura K. Field, autora de Furious Minds: The Making of
the Maga New Right (Mentes Furiosas: A Criação da Nova Direita Maga,
em tradução livre), a coalizão de Reagan era uma fusão de defesa do livre
mercado, conservadorismo cultural, anticomunismo e política externa
internacionalista.
O
partido de Trump, prossegue Field, talvez tenha sido descrito de forma mais
precisa por Michael Anton, conselheiro de longa data de Trump e atual
integrante do Departamento de Estado, em um ensaio publicado em 2016 em defesa
da eleição de Trump.
Em
contraste com a era Reagan, seus princípios centrais incluem "fronteiras
seguras, nacionalismo econômico e uma política externa 'América
primeiro'".
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'Republicanos normais' versus 'provocadores radicais'
No
início deste mês, o instituto conservador Manhattan Institute divulgou uma
ampla pesquisa com eleitores republicanos, lançando mais luz sobre a composição
da coalizão de Trump.
O
levantamento indica que 65% do atual Partido Republicano são o que o estudo
chama de "republicanos centrais", aqueles que apoiam candidatos
presidenciais do partido desde pelo menos 2016.
(Se já
estavam vivos nos anos 1980, eles devem ter votado em Reagan.)
Por
outro lado, 29% são classificados pelo instituto como "republicanos
recém-chegados". É justamente entre esses novos republicanos que surge o
principal desafio à durabilidade da coalizão de Trump.
Pouco
mais da metade afirmou que "definitivamente" apoiaria um republicano
nas eleições legislativas de meio de mandato do próximo ano.
Segundo
a pesquisa, os recém-chegados são mais jovens, mais diversos e mais propensos a
adotar posições que rompem com a ortodoxia conservadora tradicional.
Tendem
a ter visões relativamente mais à esquerda sobre política econômica, a ser mais
liberais em temas migratórios e sociais e, por exemplo, a demonstrar maior
simpatia pela China ou posições mais críticas em relação a Israel.
"Grande
parte do debate sobre o futuro da direita está sendo conduzida pelas vozes mais
sonoras e mais estranhas da internet, e não pelos eleitores que de fato compõem
a maior parte da coalizão republicana", diz Jesse Arm, vice-presidente de
relações externas do Manhattan Institute.
Talvez
não surpreenda que os chamados eleitores republicanos recém-chegados sejam
significativamente menos favoráveis a alguns dos possíveis herdeiros de Trump.
Enquanto
70% dos republicanos centrais têm avaliação positiva de Rubio e 80% de Vance,
pouco mais de 50% dos recém-chegados compartilha dessa avaliação positiva sobre
qualquer um dos dois.
Outros
resultados podem ser ainda mais preocupantes para os republicanos.
Mais da
metade dos recém-chegados acredita que o uso de violência na política americana
"é justificável às vezes", ante apenas 20% entre os republicanos
centrais.
A
pesquisa também sugere que esses republicanos recém-chegados tendem a ser mais
tolerantes a discursos racistas ou antissemitas e mais propensos ao pensamento
conspiratório, sobre temas como o pouso na Lua, o 11 de Setembro e as vacinas.
Trump
conseguiu atrair esses eleitores para sua coalizão. A questão é se ele e seus
herdeiros políticos conseguirão mantê-los ali, ou se sequer desejam fazê-lo.
"O
principal ponto não é que esses eleitores vão 'definir' o Partido Republicano
no pós-Trump, mas que futuros líderes republicanos terão de traçar linhas
claras sobre quem define a agenda", argumenta Arm, do Manhattan Institute.
"O
coração do partido continua sendo os republicanos normais, não os edgelords (provocadores
radicais, em tradução livre) que tanto a imprensa quanto a direita dissidente,
de forma curiosa, insistem em promover."
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Conflitos nas fileiras conservadoras
As
divisões reveladas pela pesquisa do Manhattan Institute ajudam a explicar
algumas das fricções mais marcantes dentro da coalizão de Trump nos últimos
meses.
O
embate entre Trump e a congressista Marjorie Taylor Greene, que culminou na
renúncia dela ao Congresso, começou com o apoio da congressista à divulgação
integral dos arquivos do governo ligados ao caso de tráfico sexual de menores de
idade envolvendo Jeffrey Epstein, há anos fonte de teorias conspiratórias no
meio conservador.
A
disputa, no entanto, se ampliou para críticas à política de Trump no Oriente
Médio e acusações de que o presidente falhou no enfrentamento ao custo de vida
elevado e às preocupações com a saúde da população americana de baixa renda.
Antes
disso, uma divisão de grande repercussão dentro do Maga explodiu em torno da
política econômica de Trump, quando o empresário Elon Musk, apoiador
entusiasmado e integrante do círculo mais próximo do presidente no início do
ano, passou a condenar algumas tarifas e políticas de gastos do governo Trump.
Trump
tem, por ora, procurado manter distância de mais um confronto nas fileiras
conservadoras, sobre se Nick Fuentes, comentarista político de extrema direita
e negacionista do Holocausto, é ou não bem-vindo no movimento conservador.
Trata-se
de uma disputa que abalou a Heritage Foundation, um influente think
tank (centro de pesquisas e debates) de direita de Washington, e
colocou comentaristas poderosos da direita em lados opostos.
Segundo
Laura K. Field, os aliados de Trump podem ter dificuldade para evitar esse
conflito.
"Nick
Fuentes tem um público enorme", diz. "Parte da forma como o movimento
conservador ganhou a energia e o poder que tem foi cortejando esse segmento do
Partido Republicano."
Nos
corredores do Congresso, atualmente controlado pelos republicanos, já surgem
sinais de atrito com a agenda do presidente.
Apesar
da pressão da Casa Branca, o governo não conseguiu impedir que a Câmara dos
Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira) aprovasse uma
medida que obriga a divulgação dos arquivos ligados ao
caso Epstein.
Trump
também não conseguiu convencer os senadores republicanos a abandonar o filibuster (mecanismo
regimental que permite prolongar debates e barrar votações), instrumento que os
democratas, hoje na minoria, têm usado para bloquear partes da proposta
legislativa de Trump.
Enquanto
isso, o partido de Trump vem tropeçando nas urnas, com os democratas vencendo
no mês passado as disputas pelos governos da Virgínia (leste dos EUA) e de Nova
Jersey (nordeste dos EUA), com margens confortáveis.
Em
dezenas de eleições suplementares disputadas ao longo do último ano para cargos
estaduais e locais, os democratas, em média, ampliaram suas margens em cerca de
13% em relação a disputas semelhantes realizadas nas eleições nacionais de
novembro passado.
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O futuro do trumpismo
Tudo
isso estará no centro das atenções dos republicanos às vésperas das eleições
legislativas de meio de mandato de 2026, quando estarão em disputas cadeiras no
Senado e na Câmara dos Representantes.
E pouco
ajudará a dissipar a preocupação de parte do partido de que, sem Trump no topo
da chapa, a coalizão tenha dificuldade para garantir vitórias consistentes nas
urnas.
Ainda
assim, mesmo uma derrota no próximo ano (perdendo a maioria no Senado e/ou na
Câmara), ou em 2028, dificilmente marcará o fim do trumpismo.
A
ascensão do movimento Maga ao auge do poder nos EUA esteve longe de ser linear.
Incluiu uma derrota avassaladora nas eleições de meio de mandato de 2018 e a
derrota do próprio Trump em 2020, antes de sua reeleição em novembro de 2024.
Mas as
transformações promovidas por Trump dentro do próprio Partido Republicano
parecem ser estruturais, segundo Laura K. Field.
Sua
coalizão Maga se apoia em vertentes de movimentos populistas nos EUA ao longo
de décadas, da campanha insurgente de Barry Goldwater à Presidência, em 1964,
aos protestos do Tea Party (movimento político conservador) durante o governo
do democrata Barack Obama (2009-2017).
"Essas
coisas não surgem do nada. São forças da política americana que ficaram
subterrâneas por algum tempo, mas estiveram em constante fermentação", diz
Field.
A velha
ordem republicana, argumenta ela, é uma relíquia do passado.
"O
movimento de Trump veio para ficar, e não há nenhuma perspectiva real de que o
antigo establishment [Republicano] volte a ter qualquer tipo
de influência — isso está claro."
Fonte:
BBC News Mundo

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