Mares,
caixas pretas da exploração capitalista
Em O
capitalismo e o mar, os economistas políticos Liam Campling e Alejandro Colás
mostram como o oceano emergiu como uma peça central da ordem capitalista
globalizada: um espaço oculto, juridicamente ambíguo e fisicamente distante que
permite extrair valor, esquivar regulamentações e reproduzir a divisão do
trabalho. Do contêiner às bandeiras de conveniência, o mar é o palco onde o
capital circula, acumula e se protege.
Longe
de ser uma zona sem lei, os mares são profundamente regulados para servir ao
comércio, enquanto a crise climática, a competição geopolítica e a
financeirização reconfiguram suas rotas. Campling e Colás não propõem a
retirada do sistema logístico global, mas a sua reapropriação: repensar a
infraestrutura marítima como base para um planejamento democrático e
pós-capitalista.
Nesta
entrevista com Xabier Gangoiti para a Jacobin, eles explicam como o capital
molda tanto as rotas oceânicas quanto a vida em terra firme, desde o turismo de
cruzeiros até os iates dos “tech bros”. Se quisermos desafiar o capitalismo,
também teremos que disputar o mar.
LEIA A
ENTREVISTA:
• O Mediterrâneo continua sendo uma das
fronteiras mais letais do planeta, com mais de 34 mil vidas perdidas e corpos
desaparecidos desde 2015. No entanto, esta tragédia mal tem eco no debate
público, e a Europa continua a endurecer suas políticas migratórias. O livro de
vocês argumenta que o capitalismo se alimenta da invisibilidade do mar. Por que
é tão fácil ignorar as dinâmicas espaciais marítimas? Até que ponto o capital
depende dessa ocultação para seu funcionamento?
Interessam-nos
especialmente as distorções ideológicas e as desigualdades materiais geradas
pela circulação de mercadorias no mar. Há uma razão física fundamental pela
qual o marítimo permanece out at sea, out of sight (em alto mar, fora de
vista): muito poucas pessoas hoje têm uma experiência cotidiana do mar, e muito
menos do transporte marítimo. Esta separação física e espacial de sete décimos
da superfície do planeta permite aos capitalistas aprofundar a opacidade, a
obscuridade e a mistificação inerentes à troca de mercadorias sob o
capitalismo.
Isso se
manifesta através de artimanhas legais como as bandeiras de conveniência ou a
contabilidade offshore, e por meio de regimes de trabalho marítimos que mantêm
marinheiros e pescadores fora do alcance dos órgãos reguladores e da proteção
sindical. Em muitos aspectos, o contêiner de transporte é a mercadoria
capitalista por excelência: um artefato padronizado e transnacional que atua
como equivalente universal na produção de valor através do transporte, mas que
pode conter qualquer coisa, desde patinhos de borracha até pessoas vítimas de
tráfico.
A ideia
de que o mar não tem lei é um mito conveniente para os capitalistas marítimos.
Existem muitas normas legais, industriais, ambientais e humanitárias que se
aplicam ao mar; o problema é que são aplicadas de forma desigual. Fatores
geográficos e físicos influenciam, sim, mas em última instância, esta
desigualdade na aplicação da lei é uma decisão política e econômica tomada
pelos Estados e pelo capital. O fundo do mar Mediterrâneo tornou-se, de fato,
uma vala comum para aqueles que tentam atravessá-lo em busca de uma vida melhor
na Europa, reflexo de um racismo antinegro profundamente arraigado em todas as
suas costas. Mas trata-se de uma catástrofe humanitária forjada principalmente
em terra firme, por autoridades e atores políticos concretos, com nomes e
sobrenomes.
• O governo dos Estados Unidos gerou um
alarme generalizado ao manifestar seu interesse em controlar espaços
marítimos-chave como o Canal do Panamá — que continua sendo uma artéria
estratégica do comércio global — e até mesmo a Groenlândia, onde prevê-se que o
derretimento do gelo abrirá novas rotas marítimas no Ártico. Longe de serem
movimentos isolados, estas ações refletem uma crescente consciência por parte
das grandes potências sobre a importância estratégica dos corredores marítimos
em um mundo alterado pela crise climática.
Essa
fase de competição territorial oceânica e rivalidade geopolítica no mar já está
em andamento há bastante tempo. A China foi admitida como observadora
credenciada no Conselho do Ártico em 2013, porque Pequim — como outras
potências econômicas não árticas — antecipou as oportunidades comerciais e
extrativistas que surgiriam com o derretimento polar. Também foram
administrações democratas nos Estados Unidos que impulsionaram o “pivô para a
Ásia” e, mais recentemente, a “estratégia do Indo-Pacífico”.
A ordem
executiva de Trump sobre a “Restauração do Domínio Marítimo dos Estados Unidos”
combina uma política neomercantilista de construção naval e cabotagem com
referências mahanianas à necessidade de revitalizar a frota estadunidense de
águas azuis e assegurar o controle sobre os principais gargalos marítimos, com
especial ênfase na segurança das rotas árticas.
É
provável que, além do conflito com outras nações árticas — incluindo aliados da
OTAN como Canadá e Dinamarca — resurjam tensões no mar da China Meridional e no
estreito de Taiwan. No entanto, grande parte desta dinâmica poderia ser
transitória (o último suspiro de um modelo falido de capitalismo fóssil e
militarizado?).
O
desafio intergeracional que sublinhamos no livro é outro: a combinação do
aquecimento oceânico — já existente e em crescimento — com a acidificação, as
zonas mortas do oceano e a inevitável subida do nível do mar. As respostas
geopolíticas a estas dinâmicas continuam sendo, em grande medida,
desconhecidas.
• Desde as origens do capitalismo,
governantes, empresas, trabalhadores e até mesmo romancistas imaginaram o mar
como uma fronteira de oportunidades e, ao mesmo tempo, uma zona de perigo. Na
seção final do livro, vocês exploram o offshore não apenas como uma construção
legal ou financeira, mas também como uma fantasia utópica: um espaço livre de
interferência política e de conflito de classes. Em um mundo cada vez mais
marcado pelo colapso ecológico, pela agitação política e pela guerra, vocês
acham que esses espaços offshore de lazer e evasão — iates, cruzeiros, ilhas
privadas — adquirirão um papel mais central na forma como as elites imaginam a
sobrevivência e a soberania?
Não
abordamos este tema em profundidade no livro, mas certamente parece haver uma
continuidade entre os iates, as plataformas marítimas e as ilhas privadas, e os
refúgios pós-apocalípticos. Estes espaços não são apenas símbolos de status:
também refletem um desejo de isolamento, evasão e controle por parte de certas
elites. Não se trata apenas do oceano: o espaço exterior e regiões terrestres
remotas também estão sendo apropriados por tech bros survivalistas e seus
aliados de extrema direita.
Em suas
fantasias masculinas e libertárias, estes atores são incapazes de compreender
sequer os fundamentos básicos da civilização humana: organização social,
produção coletiva, reprodução social e convivência com — e através de — a
natureza. A dizer verdade, adoraríamos que todos esses tech bros se reunissem e
embarcassem em um cruzeiro permanente em alto mar, ou diretamente se lançassem
em um foguete rumo a Marte.
• Cidades como Veneza, Barcelona ou
Dubrovnik estão cedendo sob a pressão do turismo de cruzeiros. Milhares de
pessoas desembarcam, inundam as ruas por algumas horas e retornam ao mar. Este
não é outro exemplo de como o capitalismo marítimo não apenas extrai valor em
alto mar, mas também transforma a vida em terra firme, muitas vezes em
detrimento de quem vive lá?
Totalmente.
Existe atualmente uma rica literatura interdisciplinar, em diferentes idiomas,
que analisa os planos de “regeneração” de zonas costeiras associadas à expansão
dos portos de contêineres. As ambivalências e distorções do capitalismo
orientado para o mar tornam-se evidentes na maneira como as costas são
valorizadas por promotores imobiliários e turísticos como paraísos exóticos, à
margem da sociedade cotidiana — “mar, areia e sexo” no estereótipo popular
anglo-saxão, ou “piscinas infinitas” em sua versão mais exclusiva —, ao mesmo
tempo que concentram algumas das formas mais atrozes de exploração laboral.
Referimo-nos
aqui a trabalhadores do setor hoteleiro, de lazer e hotelaria, em sua maioria
precários e empregados de forma temporária ou sazonal. O trabalho de Francesca
Savoldi sobre os portos de Valência ou do Pireu, por exemplo, documenta as
consequências sociais e ecológicas da expansão portuária sobre bairros
operários que durante décadas sustentaram essas comunidades portuárias.
Talvez
não haja nada excepcional nestas experiências costeiras de exploração
capitalista, especulação e destruição ecológica. Mas existe um contraste
particularmente intenso entre a forma e a aparência destas paisagens, uma
tensão que a liminaridade terrestre da costa não faz senão acentuar.
Uma
transição verdadeiramente verde — uma que priorize as necessidades humanas
acima da acumulação de capital — provavelmente exigiria formas de produção e
consumo mais localizadas, especialmente em termos de energia renovável. No
entanto, vivemos em um mundo profundamente moldado pelas vastas redes
logísticas e tecnológicas construídas pelo capitalismo, em particular através
do espaço marítimo.
• Neste contexto, é possível
“desvincular-se” da fábrica planetária sem cair no isolacionismo ou na
austeridade? Como poderia ser construído um sistema de distribuição coletiva e
planejamento democrático, globalmente conectado mas pós-fóssil?
Bem,
essa não é a hipótese comunista? Como seria um contêiner comunista? Não vemos
nenhum benefício real em uma desvinculação autárquica da economia mundial; há
pouquíssimos exemplos históricos disso que nos pareçam atraentes. Mas existem
formas de socializar e reutilizar a logística e a infraestrutura capitalistas
para satisfazer necessidades mais democráticas. Um mundo pós-capitalista,
presumivelmente, continuará precisando comercializar medicamentos e tecnologia,
e quererá facilitar a livre mobilidade para o trabalho e o lazer.
A
questão, então, passa a ser uma questão de escala e poder político: qual é a
escala mais eficaz para socializar a distribuição coletiva? Regional, entre
cidades, nacional, macrorregional? Toda sociedade que aspire a uma democracia
significativa terá que consumir coletivamente menos e redistribuir mais.
Da
mesma forma, os tempos serão distintos: viajar de trem ou de navio pode ser
mais lento que voar, mas isso abre a possibilidade de viver, trabalhar e
desfrutar de formas radicalmente distintas. Existem maneiras de prefigurar esse
mundo, por exemplo, por meio de uma semana laboral de quatro dias, ou
transformando profundamente as cadeias de suprimentos de alimentos e os padrões
de consumo nas grandes cidades do Norte Global.
Mas
estas devem ser mudanças estruturais e duradouras em nossas rotinas cotidianas,
e isso só será possível com um amplo respaldo popular, que por sua vez requer
organização política e poder democrático. O mundo marítimo, em muitos aspectos,
é simplesmente um conduto ou um palco: não a causa dos desequilíbrios de poder
e das lutas que os acompanham.
• Embora escrito por economistas, O
capitalismo e o mar está impregnado de literatura, cultura e até mesmo poesia.
Foi um desafio integrar esses elementos em um campo acadêmico que costuma ser
rígido? Ou foi uma aposta necessária para captar a profundidade política e
simbólica do mar?
Provavelmente
um pouco de ambas as coisas. Nenhum de nós dois tem formação em estudos
literários ou culturais, então as referências mais estéticas do livro buscavam,
por um lado, aliviar o texto e, por outro, mostrar até que ponto o mar — e as
múltiplas formas humanas e naturais que transporta e contém — esteve
profundamente arraigado na cultura de diferentes sociedades
Nosso
objetivo era dar vida ao mar como um espaço socio-natural carregado de
vitalidade, dinamismo e, é claro, crueldade e barbárie: tudo aquilo presente na
experiência humana que, em nossa opinião, se refrata de forma particular
através do poder específico do capitalismo.
O mar
tem sido, dentro e fora do capitalismo, uma fonte potente de mitos, linguagem,
narrativa, canções, música e poesia. Interessava-nos especialmente sublinhar o
lugar da ficção, do crédito, das utopias e da fantasia no desenvolvimento
capitalista através do mar: não para denunciá-las como meras ilusões ou
encobrimentos, mas para assinalar que os imaginários marítimos também podem ser
distorções materiais e concretas de uma realidade vivida em e através dos
oceanos.
Fonte:
Por Liam Campling e Alejandro Colás em entrevista a Xabier Gangoiti, na Jacobin
América Latina | Tradução: Rôney Rodrigues

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