segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

“FALÊNCIA DA ÁGUA”: Sede abundante

O Irã, por sua geografia, encarna uma espécie de alerta permanente. Entre montanhas e vastas regiões áridas, o país depende de rios sazonais e aquíferos profundos que sustentam tanto a agricultura quanto metrópoles densamente povoadas. Teerã, por exemplo, cresceu ancorada em represas e sistemas subterrâneos que hoje dão sinais de esgotamento. Quando esses suportes falham, a vulnerabilidade urbana aflora de imediato. É uma realidade que revela o quanto a infraestrutura hídrica persiste frágil diante do ritmo acelerado de consumo e da diminuição das reservas superficiais.

A retirada excessiva de água subterrânea transformou-se em um problema territorial. Em algumas áreas, o solo tem afundado dezenas de centímetros por ano, danificando estradas, redes de drenagem e edificações. Trata-se de um processo de subsidência que não apenas compromete a segurança física, mas também simboliza uma perda irrecuperável. Afinal, aquíferos fósseis levam séculos ou milênios para se recompor. Mesmo chuvas abundantes não devolvem aquilo que foi extraído sem parcimônia. O que se perde ali é, ao mesmo tempo, território, memória e futuro.

Grande parte dessa pressão nasce do setor agrícola, responsável por cerca de 70% do consumo nacional. Cultivos intensivos em água persistem mesmo em regiões naturalmente secas, e técnicas de irrigação ineficientes ampliam o desperdício. Essa equação se agrava diante de políticas pouco ajustadas, que incentivam práticas produtivas incompatíveis com a disponibilidade hídrica real. Assim, enquanto áreas urbanas enfrentam racionamentos, poços legais e ilegais continuam a operar em ritmo acelerado. O descompasso entre oferta e demanda torna-se, então, estrutural.

A presença de obras grandiosas, como barragens e canais de transferência de água, convive com fiscalização frágil e um conjunto de normas pouco aplicadas. Poços clandestinos se multiplicam, esvaziando reservas subterrâneas já pressionadas. Especialistas apontam que parte do problema decorre de uma visão governamental que encara a água como recurso a ser controlado, e não como bem a ser gerido coletivamente. Essa diferença de paradigma é crucial: quando a água se torna instrumento político, decisões emergenciais substituem estratégias de longo prazo.

Os impactos sociais dessa crise já são visíveis. Comunidades rurais perdem suas bases produtivas e são forçadas a migrar internamente, enquanto periferias urbanas encaram interrupções frequentes no abastecimento. É uma forma de deslocamento silencioso, difícil de quantificar, mas que reconfigura territórios e aprofunda desigualdades. Famílias inteiras se veem diante da escolha entre permanecer em regiões esvaziadas ou buscar alternativas em centros urbanos igualmente pressionados. O ciclo da água, antes um condicionante natural, torna-se fator de desagregação social.

A expressão “falência da água”, citada por Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, sintetiza a gravidade do quadro. Ela descreve não apenas a escassez física, mas o colapso de um sistema que não consegue mais sustentar os níveis de demanda. Para enfrentar esse cenário, propostas incluem modernizar a irrigação, ampliar práticas de reuso, controlar poços ilegais e incentivar recarga artificial de aquíferos. Mas o desafio permanece político: sem articulação entre Estado e sociedade, medidas técnicas ficam isoladas.

Essa crise, contudo, não é exclusividade do Irã. Diversas regiões do planeta enfrentam a convergência entre limites naturais e escolhas humanas mal calibradas. A água, antes abundante em muitas paisagens, tornou-se um recurso disputado, cuja qualidade e disponibilidade variam drasticamente entre países e dentro deles. Em lugares onde a chuva deixou de seguir padrões previsíveis, a segurança hídrica transformou-se em fonte de ansiedade cotidiana. Assim, o problema ultrapassa fronteiras e exige leitura global.

As mudanças climáticas acentuam ainda mais essa vulnerabilidade. Chuvas concentradas, longos períodos de estiagem e ondas de calor alteram regimes históricos de abastecimento. Cidades que antes lidavam apenas com racionamentos ocasionais agora enfrentam secas prolongadas, enchentes disruptivas e instabilidade nos sistemas de captação. O que antes parecia exceção torna-se regra: o clima deixa de ser pano de fundo e assume papel central nas decisões políticas e econômicas. Essa transição obriga governos a repensar a relação entre infraestrutura, planejamento e risco.

O Brasil ocupa posição paradoxal nesse cenário. Apesar de enorme riqueza hídrica, ainda convive com desigualdades profundas no acesso à água potável. Em escolas, comunidades rurais e periferias urbanas, a ausência de abastecimento adequado compromete saúde, dignidade e aprendizado. A legislação que reforça a obrigação do poder público de garantir água potável em instituições de ensino é um passo importante, mas não resolve a fragmentação estrutural do sistema. A abundância, aqui, convive com a precariedade.

Enquanto isso, perdas na distribuição continuam sendo um dos pontos mais frágeis do país. Em algumas cidades, mais da metade da água tratada não chega ao consumidor final devido a vazamentos, desvios e infraestrutura obsoleta. Essa ineficiência não apenas representa desperdício financeiro, mas aumenta a pressão sobre mananciais que já enfrentam degradação. Cada metro cúbico perdido na rede é um metro cúbico que precisou ser captado, tratado e transportado à custa de energia e recursos. O ciclo do desperdício, assim, retroalimenta a própria crise.

Nesse contexto de tensão hídrica, a relação entre tecnologia e consumo de água ganha novas camadas. Os data centers que sustentam plataformas digitais, serviços de inteligência artificial e redes sociais demandam quantidades expressivas de água para resfriamento, criando um consumo invisível ao usuário final. Segundo reportagens da BBC, esse setor cresce a taxas aceleradas e pode competir diretamente com usos essenciais, como abastecimento doméstico e agricultura. A água, portanto, passa a conectar atividades que, à primeira vista, parecem distantes entre si.

Esse encadeamento de usos revela como o recurso hídrico já ultrapassou o status de insumo natural para se tornar peça estratégica de infraestrutura global. A economia digital, frequentemente percebida como imaterial, ocupa um lugar físico e sedento. Enquanto buscamos soluções tecnológicas para crises ambientais, acabamos ampliando demandas que recaem sobre os mesmos sistemas frágeis. É um paradoxo contemporâneo: quanto mais avançamos tecnologicamente, maior a necessidade de repensar a base material que sustenta esse avanço.

Diante dessas interdependências, discutir água é também discutir modelo de desenvolvimento. Países que insistem em expandir consumo sem rever padrões produtivos arriscam aprofundar desigualdades e conflitos. A gestão hídrica deixa de ser tema restrito a especialistas e passa a integrar questões urbanas, econômicas e até culturais. No fundo, trata-se de entender que nossas escolhas individuais e coletivas reverberam em escalas que vão do subsolo ao comércio internacional. A água é, simultaneamente, local e global.

Quando observamos a realidade urbana, percebemos como as cidades moldam e são moldadas pela água. Rios canalizados, solos impermeabilizados e bacias hidrográficas pressionadas compõem um cenário de alta vulnerabilidade. Não aprendemos a conviver com extremos: sofremos tanto com falta, quanto com excesso de chuva. E, mesmo assim, seguimos insistindo em modelos urbanos que desconhecem a inteligência dos ciclos naturais. A cada enchente ou estiagem severa, a urgência do replanejamento se torna mais evidente e, paradoxalmente, mais adiada.

Algumas cidades demonstram, porém, que outro caminho é possível. Experiências de gestão integrada, investimentos contínuos e políticas de longo prazo mostram resultados concretos na redução de perdas e na ampliação da resiliência hídrica. Exemplos nacionais e internacionais indicam que eficiência não é utopia, mas prática possível quando há coordenação institucional e participação social. Ainda assim, essas iniciativas permanecem exceções. A regra, infelizmente, continua sendo a fragmentação.

Talvez o maior obstáculo esteja na ilusão de reservas infinitas. Aquíferos profundos são tratados como salvaguarda para cenários de colapso, mas essa percepção desconsidera sua lentíssima capacidade de recomposição. Dependemos deles de forma crescente, mas não admitimos sua fragilidade. Essa dissonância cognitiva, quanto a acreditar na abundância enquanto a escassez se aproxima, alimenta decisões políticas de curto prazo e posterga debates urgentes. A água segue, assim, sendo tratada como garantia, quando na verdade é limite.

A cada ano que passa, torna-se mais evidente que nosso modo de vida se apoia sobre bases frágeis quando o assunto é água. Em pleno avanço das discussões sobre clima, com a COP 30 tendo sida realizada no Brasil, ainda convivemos com a contradição entre discursos de sustentabilidade e práticas que reiteram desperdício e descaso. Não se trata apenas de um problema ambiental isolado: é também social, econômico e político. A água tratada que desperdiçamos nas cidades, antes mesmo de chegar às torneiras, revela uma cadeia de ineficiências que compromete nosso futuro próximo. Afinal, não há desenvolvimento possível se a base que sustenta tudo, do alimento à energia, está sendo sistematicamente negligenciada.

Resta, então, a pergunta que atravessa todo este debate: quando finalmente cairá a ficha? Quando governantes e população perceberão que não basta tratar a pauta como “urgente”, é preciso agir! Enquanto seguimos buscando respostas rápidas, a água continua escapando por rachaduras, por canos antigos, por políticas inconsistentes e por uma cultura pouco atenta ao cuidado. O que ainda pode ser feito não exige soluções mirabolantes, mas compromisso. Compromisso em manter vivos os rios que restam, restaurar o que sufocamos e admitir que não há economia, política ou futuro possível sem água. Talvez seja nesse reconhecimento tardio, mas necessário que resida a possibilidade de recomeço. Mas ele precisa acontecer e rápido.

 

Fonte: Por Lucas Silva Pamio, no Le Monde

 

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