“FALÊNCIA
DA ÁGUA”: Sede abundante
O Irã,
por sua geografia, encarna uma espécie de alerta permanente. Entre montanhas e
vastas regiões áridas, o país depende de rios sazonais e aquíferos profundos
que sustentam tanto a agricultura quanto metrópoles densamente povoadas. Teerã,
por exemplo, cresceu ancorada em represas e sistemas subterrâneos que hoje dão
sinais de esgotamento. Quando esses suportes falham, a vulnerabilidade urbana
aflora de imediato. É uma realidade que revela o quanto a infraestrutura
hídrica persiste frágil diante do ritmo acelerado de consumo e da diminuição
das reservas superficiais.
A
retirada excessiva de água subterrânea transformou-se em um problema
territorial. Em algumas áreas, o solo tem afundado dezenas de centímetros por
ano, danificando estradas, redes de drenagem e edificações. Trata-se de um
processo de subsidência que não apenas compromete a segurança física, mas
também simboliza uma perda irrecuperável. Afinal, aquíferos fósseis levam
séculos ou milênios para se recompor. Mesmo chuvas abundantes não devolvem
aquilo que foi extraído sem parcimônia. O que se perde ali é, ao mesmo tempo,
território, memória e futuro.
Grande
parte dessa pressão nasce do setor agrícola, responsável por cerca de 70% do
consumo nacional. Cultivos intensivos em água persistem mesmo em regiões
naturalmente secas, e técnicas de irrigação ineficientes ampliam o desperdício.
Essa equação se agrava diante de políticas pouco ajustadas, que incentivam
práticas produtivas incompatíveis com a disponibilidade hídrica real. Assim,
enquanto áreas urbanas enfrentam racionamentos, poços legais e ilegais
continuam a operar em ritmo acelerado. O descompasso entre oferta e demanda
torna-se, então, estrutural.
A
presença de obras grandiosas, como barragens e canais de transferência de água,
convive com fiscalização frágil e um conjunto de normas pouco aplicadas. Poços
clandestinos se multiplicam, esvaziando reservas subterrâneas já pressionadas.
Especialistas apontam que parte do problema decorre de uma visão governamental
que encara a água como recurso a ser controlado, e não como bem a ser gerido
coletivamente. Essa diferença de paradigma é crucial: quando a água se torna
instrumento político, decisões emergenciais substituem estratégias de longo
prazo.
Os
impactos sociais dessa crise já são visíveis. Comunidades rurais perdem suas
bases produtivas e são forçadas a migrar internamente, enquanto periferias
urbanas encaram interrupções frequentes no abastecimento. É uma forma de
deslocamento silencioso, difícil de quantificar, mas que reconfigura
territórios e aprofunda desigualdades. Famílias inteiras se veem diante da
escolha entre permanecer em regiões esvaziadas ou buscar alternativas em
centros urbanos igualmente pressionados. O ciclo da água, antes um condicionante
natural, torna-se fator de desagregação social.
A
expressão “falência da água”, citada por Kaveh Madani, diretor do Instituto de
Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, sintetiza a
gravidade do quadro. Ela descreve não apenas a escassez física, mas o colapso
de um sistema que não consegue mais sustentar os níveis de demanda. Para
enfrentar esse cenário, propostas incluem modernizar a irrigação, ampliar
práticas de reuso, controlar poços ilegais e incentivar recarga artificial de
aquíferos. Mas o desafio permanece político: sem articulação entre Estado e
sociedade, medidas técnicas ficam isoladas.
Essa
crise, contudo, não é exclusividade do Irã. Diversas regiões do planeta
enfrentam a convergência entre limites naturais e escolhas humanas mal
calibradas. A água, antes abundante em muitas paisagens, tornou-se um recurso
disputado, cuja qualidade e disponibilidade variam drasticamente entre países e
dentro deles. Em lugares onde a chuva deixou de seguir padrões previsíveis, a
segurança hídrica transformou-se em fonte de ansiedade cotidiana. Assim, o
problema ultrapassa fronteiras e exige leitura global.
As
mudanças climáticas acentuam ainda mais essa vulnerabilidade. Chuvas
concentradas, longos períodos de estiagem e ondas de calor alteram regimes
históricos de abastecimento. Cidades que antes lidavam apenas com racionamentos
ocasionais agora enfrentam secas prolongadas, enchentes disruptivas e
instabilidade nos sistemas de captação. O que antes parecia exceção torna-se
regra: o clima deixa de ser pano de fundo e assume papel central nas decisões
políticas e econômicas. Essa transição obriga governos a repensar a relação
entre infraestrutura, planejamento e risco.
O
Brasil ocupa posição paradoxal nesse cenário. Apesar de enorme riqueza hídrica,
ainda convive com desigualdades profundas no acesso à água potável. Em escolas,
comunidades rurais e periferias urbanas, a ausência de abastecimento adequado
compromete saúde, dignidade e aprendizado. A legislação que reforça a obrigação
do poder público de garantir água potável em instituições de ensino é um passo
importante, mas não resolve a fragmentação estrutural do sistema. A abundância,
aqui, convive com a precariedade.
Enquanto
isso, perdas na distribuição continuam sendo um dos pontos mais frágeis do
país. Em algumas cidades, mais da metade da água tratada não chega ao
consumidor final devido a vazamentos, desvios e infraestrutura obsoleta. Essa
ineficiência não apenas representa desperdício financeiro, mas aumenta a
pressão sobre mananciais que já enfrentam degradação. Cada metro cúbico perdido
na rede é um metro cúbico que precisou ser captado, tratado e transportado à
custa de energia e recursos. O ciclo do desperdício, assim, retroalimenta a
própria crise.
Nesse
contexto de tensão hídrica, a relação entre tecnologia e consumo de água ganha
novas camadas. Os data centers que sustentam plataformas digitais, serviços de
inteligência artificial e redes sociais demandam quantidades expressivas de
água para resfriamento, criando um consumo invisível ao usuário final. Segundo
reportagens da BBC, esse setor cresce a taxas aceleradas e pode competir
diretamente com usos essenciais, como abastecimento doméstico e agricultura. A
água, portanto, passa a conectar atividades que, à primeira vista, parecem
distantes entre si.
Esse
encadeamento de usos revela como o recurso hídrico já ultrapassou o status de
insumo natural para se tornar peça estratégica de infraestrutura global. A
economia digital, frequentemente percebida como imaterial, ocupa um lugar
físico e sedento. Enquanto buscamos soluções tecnológicas para crises
ambientais, acabamos ampliando demandas que recaem sobre os mesmos sistemas
frágeis. É um paradoxo contemporâneo: quanto mais avançamos tecnologicamente,
maior a necessidade de repensar a base material que sustenta esse avanço.
Diante
dessas interdependências, discutir água é também discutir modelo de
desenvolvimento. Países que insistem em expandir consumo sem rever padrões
produtivos arriscam aprofundar desigualdades e conflitos. A gestão hídrica
deixa de ser tema restrito a especialistas e passa a integrar questões urbanas,
econômicas e até culturais. No fundo, trata-se de entender que nossas escolhas
individuais e coletivas reverberam em escalas que vão do subsolo ao comércio
internacional. A água é, simultaneamente, local e global.
Quando
observamos a realidade urbana, percebemos como as cidades moldam e são moldadas
pela água. Rios canalizados, solos impermeabilizados e bacias hidrográficas
pressionadas compõem um cenário de alta vulnerabilidade. Não aprendemos a
conviver com extremos: sofremos tanto com falta, quanto com excesso de chuva.
E, mesmo assim, seguimos insistindo em modelos urbanos que desconhecem a
inteligência dos ciclos naturais. A cada enchente ou estiagem severa, a
urgência do replanejamento se torna mais evidente e, paradoxalmente, mais
adiada.
Algumas
cidades demonstram, porém, que outro caminho é possível. Experiências de gestão
integrada, investimentos contínuos e políticas de longo prazo mostram
resultados concretos na redução de perdas e na ampliação da resiliência
hídrica. Exemplos nacionais e internacionais indicam que eficiência não é
utopia, mas prática possível quando há coordenação institucional e participação
social. Ainda assim, essas iniciativas permanecem exceções. A regra,
infelizmente, continua sendo a fragmentação.
Talvez
o maior obstáculo esteja na ilusão de reservas infinitas. Aquíferos profundos
são tratados como salvaguarda para cenários de colapso, mas essa percepção
desconsidera sua lentíssima capacidade de recomposição. Dependemos deles de
forma crescente, mas não admitimos sua fragilidade. Essa dissonância cognitiva,
quanto a acreditar na abundância enquanto a escassez se aproxima, alimenta
decisões políticas de curto prazo e posterga debates urgentes. A água segue,
assim, sendo tratada como garantia, quando na verdade é limite.
A cada
ano que passa, torna-se mais evidente que nosso modo de vida se apoia sobre
bases frágeis quando o assunto é água. Em pleno avanço das discussões sobre
clima, com a COP 30 tendo sida realizada no Brasil, ainda convivemos com a
contradição entre discursos de sustentabilidade e práticas que reiteram
desperdício e descaso. Não se trata apenas de um problema ambiental isolado: é
também social, econômico e político. A água tratada que desperdiçamos nas
cidades, antes mesmo de chegar às torneiras, revela uma cadeia de ineficiências
que compromete nosso futuro próximo. Afinal, não há desenvolvimento possível se
a base que sustenta tudo, do alimento à energia, está sendo sistematicamente
negligenciada.
Resta,
então, a pergunta que atravessa todo este debate: quando finalmente cairá a
ficha? Quando governantes e população perceberão que não basta tratar a pauta
como “urgente”, é preciso agir! Enquanto seguimos buscando respostas rápidas, a
água continua escapando por rachaduras, por canos antigos, por políticas
inconsistentes e por uma cultura pouco atenta ao cuidado. O que ainda pode ser
feito não exige soluções mirabolantes, mas compromisso. Compromisso em manter
vivos os rios que restam, restaurar o que sufocamos e admitir que não há
economia, política ou futuro possível sem água. Talvez seja nesse
reconhecimento tardio, mas necessário que resida a possibilidade de recomeço.
Mas ele precisa acontecer e rápido.
Fonte:
Por Lucas Silva Pamio, no Le Monde

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