terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Terras raras não podem ser o novo pau-brasil, afirma analista

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialista aponta que não basta ao país apenas mapear e se tornar um grande exportador de ativos estratégicos, como foi no passado, é preciso explorar o potencial das reservas para garantir o desenvolvimento nacional.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu prioridade do Ministério de Minas e Energia ao mapeamento geológico do Brasil. A ideia é determinar as áreas com maior potencial de presença de minerais estratégicos no país.

O pedido foi reforçado na última reunião ministerial do governo, mas desde o início do ano Lula vem chamando atenção para a questão diante da corrida global por terras raras.

"A gente só conhece 30% das nossas riquezas minerais. Tem 70% que a gente não conhece. A gente não tem o mapeamento ainda. A gente não tem o mapeamento das terras raras, e o mundo inteiro tá brigando por terra rara", afirmou o presidente em um evento em julho.

Apesar dos pedidos, houve pouco progresso no tema e empresas estrangeiras vêm avançando na exploração de minerais estratégicos em território brasileiro. Na cidade mineira de Poços de Caldas, por exemplo, a mineradora australiana Meteoric começou a operar um laboratório de extração de terras raras, apresentado como a primeira iniciativa de refino desse tipo em território nacional.

Em paralelo, empresas nacionais vêm recorrendo a financiamento de bancos norte-americanos para viabilizar a extração de terras raras, o que pode levar os Estados Unidos a terem vantagem no recebimento de suas produções.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o professor e coordenador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Charles Pennaforte, afirma que a movimentação do governo federal sobre o tema é reflexo da pressão exercida pelos EUA contra a China em relação ao fornecimento desses materiais, que havia sido reduzido em função da própria política externa norte-americana de coerção a Pequim.

Ele observa que há uma discussão nos bastidores entre potências sobre as terras raras serem o "novo petróleo" e que o Brasil deveria ter se preocupado com isso há pelo menos 30 anos, avalia Pennaforte. No entanto, nunca houve uma política definida para o tema, em especial no sentido militar.

"Agora, voltando à baila toda essa discussão, é inevitável que o Brasil, que possui uma grande reserva dessas chamadas terras raras, passa a se preocupar com isso", explica o professor.

No caso do Brasil, Pennaforte alerta que o principal ponto é não deixar que aconteça com as terras raras o que aconteceu com com o pau-brasil no período colonial, sendo apenas um produto de exportação, sem que desenvolvam o país internamente.

"É um ponto importante para um país não só fornecer como também utilizar. Acho que o Brasil tem a capacidade de desempenhar um papel importante, geoestratégico, nessa discussão, nessa rearticulação dessas terras raras e desses minérios."

Segundo o analista, é necessário que sejam criadas políticas direcionadas à melhor utilização desses recursos. Sem ela, o país ficaria vulnerável a dependência externa. "Toda essa discussão, ela passa por um projeto estratégico, geopolítico, que o Brasil possa ter."

No entanto, o principal entrave nesse sentido são as discussões políticas, que em vez de estimular o crescimento "criam amis problemas".

"Todo mundo quer o país desenvolvido, mas a discussão nunca é realmente o desenvolvimento. Se perde muitos recursos com outros aspectos políticos, fundos partidários, por exemplo, que poderiam ser utilizados para a exploração desses recursos", critica o analista.

•        Chile, potência do lítio, cria nova empresa do setor

Iniciativa será estruturada como parceria público-privada entre a estatal Codelco e a SQM.

A estatal chilena Codelco, maior produtora mundial de cobre, e a mineradora privada SQM anunciaram neste sábado (27) a criação de uma megaempresa para a exploração de lítio no Chile. O país é o segundo maior produtor mundial do metal, essencial para baterias de veículos elétricos e considerado estratégico para a substituição dos combustíveis fósseis no processo de transição energética.

O acordo, classificado como histórico, tem como objetivo impulsionar a extração de lítio no deserto do Atacama e ampliar a presença do Estado em um setor-chave da economia chilena.

A associação público-privada se chamará Nova Andino Litio SpA e irá "desenvolver as atividades de exploração, extração, produção e comercialização de lítio no Salar do Atacama até 2060", informou a Codelco em comunicado divulgado após a autorização da aliança pelos órgãos reguladores. Segundo as empresas, o acordo terá impacto positivo e significativo nos resultados financeiros da estatal já a partir de 2025, fortalecendo seu fluxo de caixa e sua posição estratégica no mercado global de minerais críticos.

A Nova Andino Litio passará a controlar toda a exploração, produção e comercialização de lítio no Salar do Atacama até 2060, assegurando a continuidade dos contratos em vigor com a agência de desenvolvimento Corfo, bem como dos novos acordos que entrarão em vigor a partir de 2031. Como parte da operação, a SQM transferiu à Codelco todas as suas concessões de mineração no Salar de Maricunga, ampliando o portfólio de ativos sob controle estatal.

O projeto prevê investimentos de longo prazo para expandir a capacidade produtiva do lítio chileno em um contexto de forte crescimento da demanda global, impulsionada pela indústria de veículos elétricos e pelo armazenamento de energia. Atualmente, o lítio já figura entre os principais produtos de exportação mineral do Chile, atrás apenas do cobre, e o governo espera que sua relevância econômica aumente nos próximos anos.

A parceria ampliaria o controle estatal sobre ativos estratégicos de lítio, ao mesmo tempo em que busca manter a participação do setor privado e garantir competitividade internacional. A iniciativa, no entanto, ocorre em meio a debates internos sobre impactos ambientais no Salar do Atacama, especialmente relacionados ao uso de água em uma das regiões mais áridas do planeta, além de preocupações levantadas por comunidades locais.

No plano internacional, o acordo superou seu último grande obstáculo em novembro, quando recebeu aval da China — principal mercado consumidor de lítio para baterias — condicionado ao cumprimento dos compromissos comerciais existentes e à manutenção do fornecimento aos clientes chineses de forma "justa, razoável e não discriminatória". A decisão reforça a dimensão geopolítica do acordo, inserido na disputa global por minerais estratégicos fundamentais para a transição energética.

¨      Fronteiras compartilhadas, futuros compartilhados. Por Niu Honglin

A paz nem sempre se desfaz por causa de rivais distantes. A paz se rompe quando os vizinhos deixam de conversar.

As fronteiras são questionadas e a confiança é corroída. Pequenos desentendimentos se acumulam e se tornam permanentes. Em um mundo repleto de pontos de tensão globais, são muitas vezes as relações entre países vizinhos que decidem silenciosamente se uma região avança ou permanece estagnada.

Essa ideia está no centro de um episódio de uma série de podcasts em que venho trabalhando sobre governança global e um futuro compartilhado para a humanidade. Ao prepará-lo, continuei percebendo o mesmo padrão: quando os vizinhos escolhem o diálogo em vez da pressão e a cooperação em vez da rivalidade, o desenvolvimento acontece. Quando isso não ocorre, a estabilidade se torna frágil. É por isso que líderes sensatos dão mais atenção às parcerias regionais — e por que elas são tão importantes para uma paz duradoura.

<><> Por que os vizinhos importam mais do que qualquer outro

Em 2013, durante uma conferência voltada à diplomacia com países vizinhos, o presidente Xi Jinping apresentou quatro princípios que orientariam a abordagem da China: amizade, sinceridade, benefício mútuo e inclusão. As palavras em si são simples. O que me interessou foi a forma como elas são aplicadas na prática.

Pouco depois desse encontro, durante uma visita ao Cazaquistão, Xi Jinping propôs a ideia de construir conjuntamente um Cinturão Econômico da Rota da Seda. Esse momento plantou a semente do que mais tarde se tornaria a Iniciativa Cinturão e Rota. A Ásia Central, situada na encruzilhada de continentes, foi uma das primeiras regiões a vivenciar essa abordagem focada nos vizinhos. Mais interessante ainda é que os países da região não são convidados a se encaixar em um modelo pré-estabelecido. Em vez disso, a cooperação é moldada em torno das prioridades locais.

O Cazaquistão oferece um bom exemplo. À medida que o país passou a introduzir veículos de nova energia em larga escala, surgiu um problema prático: a falta de técnicos qualificados. A solução tornou-se clara: era necessário investir na formação da juventude promissora do país.

Foi assim que surgiram as Oficinas Luban. A primeira, lançada em 2023, teve como foco a tecnologia de transporte. Uma segunda veio em 2025, desta vez voltada à inteligência artificial. Professores cruzaram fronteiras. Os currículos foram adaptados às necessidades dos mercados de trabalho locais.

Um professor visitante do Cazaquistão comentou como essa experiência era diferente de sua própria formação anos atrás. Hoje, segundo ele, os estudantes conseguem aplicar imediatamente a teoria à prática. E os empregadores perceberam isso. Graduados desses programas agora estão sendo recrutados por grandes empresas em todo o país.

É assim que a cooperação entre vizinhos se manifesta na vida real quando funciona. Não é simbólica. Ela preenche lacunas, desenvolve competências e cria a sensação de que o desenvolvimento é compartilhado, e não imposto.

<><> Do comércio à confiança

Os laços econômicos entre a China e a Ásia Central cresceram rapidamente, mas o que mais me chamou a atenção foi o esforço dedicado à criação de mecanismos de cooperação de longo prazo. Cúpulas regulares foram realizadas. Ministros das Relações Exteriores se reuniram. Por fim, foi estabelecido um mecanismo formal da Cúpula China–Ásia Central.

Em 2025, a China e os cinco países da Ásia Central assinaram um Tratado de Boa Vizinhança Permanente, Amizade e Cooperação. Tratados como esse não ganham manchetes da mesma forma que crises, mas são importantes. Eles consolidam expectativas e enviam um sinal de que a estabilidade é uma responsabilidade compartilhada.

Uma frase de Xi Jinping, dita em uma cúpula que marcou 30 anos de relações diplomáticas, sintetizou bem essa ideia. Independentemente de como o mundo mude, afirmou ele, a China continuará sendo um vizinho e parceiro em quem os países da Ásia Central podem confiar. Esse tipo de garantia é especialmente relevante para quem vive ao lado.

<><> Além das fronteiras, o mesmo princípio se aplica

A ideia de parceria não se limita aos vizinhos imediatos. Ela se estende para além deles, mas a lógica permanece a mesma.

Na África, as relações da China há muito enfatizam sinceridade, igualdade e respeito mútuo. A Guiné Equatorial pode ser um país distante, mas sua história mostra como a confiança é construída ao longo do tempo. Estradas, portos, hospitais e programas de capacitação transformaram a vida cotidiana. Ao mesmo tempo, gestos de gratidão fluíram em ambas as direções, incluindo apoio oferecido à China em momentos de crise.

Um episódio que ficou comigo foi a história de uma escola primária na província de Yunnan, construída com uma doação do presidente da Guiné Equatorial. Milhares de estudantes de diferentes origens étnicas estudam ali hoje. É um lembrete de que a amizade entre países muitas vezes é levada adiante por crianças que nunca viveram as dificuldades originais que uniram as nações.

<><> Por que isso importa agora

Todas essas histórias apontam para uma verdade simples: a paz regional começa quando os vizinhos escolhem a cooperação em vez da desconfiança. Quando essa escolha se repete ao longo dos anos, ela cria espaço para o desenvolvimento, e o desenvolvimento, por sua vez, reforça a segurança.

No podcast, essas ideias ganham vida por meio de vozes, lugares e pequenos detalhes que nem sempre se traduzem no papel. Se esse tema ressoar com você, recomendo ouvir este episódio de Stories of Xi Jinping. Ele acrescenta uma camada de riqueza que a escrita, sozinha, não consegue oferecer.

Em um momento em que as tensões globais frequentemente dominam as manchetes, vale lembrar que a paz duradoura raramente é construída por meio de grandes gestos. Na maioria das vezes, ela é resultado de um trabalho constante e paciente entre vizinhos que decidem que crescer juntos é melhor do que se afastar.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Brasil 247

 

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