Trump
militariza fronteira, chama imigrantes de “lixo” e leva política de exceção à
Copa
O
governo de Donald Trump classificou o fentanil como “arma de destruição em
massa”, anunciou novas ações militares na fronteira e intensificou ataques
verbais contra imigrantes de países pobres. Ao se referir a imigrantes da
Somália, o presidente declarou que “são lixo” e afirmou que os Estados Unidos seguiriam “pelo
caminho equivocado se continuarem deixando entrar lixo” no país. A combinação
entre militarização, criminalização da migração e desumanização retórica tem
marcado o modus operandi de sua política, apresentada como estratégia de segurança
nacional.
A
retórica agressiva tem sido acompanhada por decisões administrativas e gestos
simbólicos que reforçam a narrativa de guerra adotada pela
Casa Branca. Sob o argumento de enfrentar uma suposta ameaça existencial ao
país, o governo passou a enquadrar o tráfico de drogas e a migração como
questões de segurança nacional, mobilizando linguagem militar, autoridades das
Forças Armadas e instrumentos legais excepcionais para justificar a escalada.
Nesse
contexto, nesta semana o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou
uma ordem executiva que classifica o fentanil como uma “arma de destruição em
massa” e anunciou novas medidas de caráter militar na fronteira com o México. A
decisão foi apresentada durante uma cerimônia e coletiva de imprensa na Casa
Branca, apontadas como uma estratégia para desviar a atenção pública da queda
do apoio popular ao presidente e do fracasso em cumprir sua promessa de reduzir
os preços ao consumidor e tornar o custo de vida mais acessível.
Ao
declarar o opioide como uma “arma de destruição massiva”, Trump afirmou que
“nenhuma bomba causa o dano que isso está causando: entre 200 mil e 300 mil
pessoas morrem a cada ano, que saibamos”. Os dados oficiais de mortes por
overdose da substância, divulgados pelos Centros de Controle e Prevenção de
Doenças (CDC), no entanto, indicam entre 70 mil e 80 mil mortes anuais.
A ordem
executiva sustenta que “o potencial de o fentanil ser empregado como arma em
ataques concentrados de terror em grande escala por adversários organizados
representa uma ameaça séria para os Estados Unidos”. Embora o México não seja
mencionado nominalmente no documento, o texto identifica “dois cartéis que são
predominantemente responsáveis pela distribuição da substância nos Estados
Unidos”.
Durante
a cerimônia de assinatura, da qual participaram o chefe do Estado-Maior, o
secretário de Guerra, a procuradora-geral, o chefe do Comando Norte, o
administrador da Agência de Controle de Drogas (DEA) e o czar da fronteira, o
presidente declarou que “toda a nossa fronteira sudoeste, do lado mexicano,
está sob o controle físico dos cartéis, que estão entre as entidades mais
violentas”.
Depois
de afirmar que seu governo conseguiu pôr fim aos envios de drogas ilícitas aos
Estados Unidos por vias marítimas, Trump voltou a ameaçar iniciar ataques a
narcotraficantes “por terra” em outros países — embora, nesse contexto, não
tenha mencionado o México pelo nome. “Eles representam uma ameaça militar
direta aos Estados Unidos. Estão tentando drogar o nosso país”, declarou. “Não
há dúvida de que nossos adversários traficam fentanil para o nosso território,
em parte porque querem matar estadunidenses.”
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A nova luta contra Pancho Villa
Na
mesma cerimônia, o governo promoveu a entrega da chamada Medalha de Defesa da
Fronteira Mexicana. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, afirmou que se trata
do resgate de uma condecoração histórica. “Estamos revivendo uma medalha
antiga. Nossos homens e mulheres estarão usando a mesma condecoração que os
estadunidenses usavam há 100 anos, quando lhes foi pedido que defendessem a
soberania do nosso país”, declarou.
A
medalha é uma réplica exata da original, criada pelo Congresso em 1918 para
tropas militares dos Estados Unidos que lutaram contra “as forças
paramilitares” de Pancho Villa durante a Revolução Mexicana, em 1916 e 1917,
segundo informou o Departamento de Guerra, com base em detalhes apurados pelo
jornal La Jornada.
A
lógica de confronto mobilizada pelo governo não se limita a ordens executivas,
cerimônias militares ou à retórica sobre drogas e fronteiras. Ela se expressa
de forma ainda mais direta no discurso presidencial sobre imigração, no qual
grupos inteiros passam a ser descritos não como pessoas, mas como ameaças,
resíduos ou inimigos internos, associados à decadência social e ao colapso
nacional.
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“São lixo”: a desumanização como política
“São
lixo… Nosso país está em uma encruzilhada… Podemos ir por um lado ou por outro,
e seguiremos pelo caminho equivocado se continuarmos deixando entrar lixo em
nosso país”, declarou o presidente dos Estados Unidos ao se referir a
imigrantes da Somália e de outras nações pobres.
Os
insultos e as formas despectivas de se referir a imigrantes de países em
desenvolvimento têm sido parte do discurso oficial de Donald Trump desde que se
lançou pela primeira vez à presidência — então, o “lixo” eram os imigrantes
mexicanos —, mas vêm alcançando novos níveis nos últimos dias.
Desta
vez, seus comentários se concentraram nos imigrantes da Somália que residem no
estado de Minnesota. “Não os quero em nosso país… O país deles apesta, e não os
queremos em nossa nação”, afirmou. Acrescentou que a deputada federal democrata
Ilhan Omar — uma refugiada somali — “é lixo, seus amigos são lixo”.
Trump
seguiu acusando os somalis de terem “tirado bilhões de dólares de nosso país”,
afirmou que “Omar não deveria ser legisladora” — alguns de seus aliados
investigam se podem revogar sua cidadania — e declarou que ela “deveria ser
retirada de nosso território”.
Prosseguiu
afirmando que “essas pessoas destruíram Minnesota… é agora um buraco do
inferno, e os somalis deveriam ser retirados de lá… destruíram nosso país”. Ao
que parece, ignora que grande parte dessa comunidade é formada por cidadãos
estadunidenses.
O
governo de Trump anunciou o início dos próximos operativos antimigratórios — em
Minneapolis, a principal cidade de Minnesota, assim como em Nova Orleans.
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Ofensiva governamental
A secretária
de Segurança Interna, Kristi Noem, cujo ministério inclui as forças federais de
migração, divulgou pelas redes sociais uma mensagem na qual afirmou:
Acabo
de me reunir com o presidente. Recomendei uma proibição total de viagens sobre
cada maldito país que tem estado inundando nossa nação com matões, sanguessugas
e viciados em benefícios. Nossos antecessores construíram este país com sangue,
suor e o amor indomável à liberdade — não para que invasores estrangeiros matem
nossos heróis, suguem nossos impostos ou roubem os benefícios que pertencem aos
estadunidenses. NÃO OS QUEREMOS. NEM UM SÓ.
Ainda
na semana passada, Trump afirmou que “a carga dos refugiados é a causa
principal da disfunção social nos Estados Unidos: escolas fracassadas, alto
nível de criminalidade, decadência urbana, hospitais sobrecarregados, falta de
moradia e grandes déficits”, atribuindo aos refugiados a responsabilidade por
uma ampla gama de problemas sociais.
Um dia
depois de um refugiado afegão que havia trabalhado com a Agência Central de
Inteligência (CIA) ter disparado contra dois guardas nacionais em Washington, o
presidente anunciou que estaria “pausando permanentemente toda imigração
proveniente de países do terceiro mundo” e que procederia à expulsão de
“qualquer um que não seja um benefício líquido para os Estados Unidos”.
Vale
recordar que nada disso é novo. Em seu primeiro período, Trump exigiu saber por
que os Estados Unidos permitiam a entrada de imigrantes de “países de merda”,
em referência ao Haiti e a vários países africanos. Tanto em sua primeira
administração como agora, buscou impor proibições de viagem aos Estados Unidos
a cidadãos de 19 países, incluindo Irã, Síria, Cuba e Venezuela, entre outros.
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Mexicanos, o primeiro alvo
Em
2015, quando anunciou sua candidatura à presidência para as eleições de 2016,
Trump iniciou sua campanha culpando imigrantes mexicanos, acusando que o país
envia “os piores”, que “trazem drogas, trazem crime, são estupradores; alguns,
suponho, são boa gente”.
Ao
longo dos anos, em quase todos os seus discursos eleitorais e frequentemente
como presidente, Trump tem caracterizado imigrantes não brancos não apenas como
“criminosos” e “violentos”, mas como “animais”, definidos como “o inimigo
interno” dos Estados Unidos.
Talvez
sua declaração antimigrante mais alarmante tenha sido quando afirmou que os
imigrantes que chegam ao país estão “envenenando o sangue de nosso país”.
Essa
retórica de exclusão e ameaça não permanece no plano do discurso. Ela se traduz
em orientações administrativas, critérios de segurança ampliados e práticas de
vigilância que afetam tanto quem vive nos Estados Unidos quanto quem pretende
entrar no país. Em nome da segurança nacional, a política migratória do governo
passa a moldar também a organização de grandes eventos internacionais, nos
quais a hospitalidade anunciada convive com a possibilidade permanente de
controle, detenção e expulsão.
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Copa do Mundo sob vigilância
O
coordenador da Casa Branca para a Copa Mundial de 2026 recusou-se a descartar a
possibilidade de que agentes de migração estadunidenses detenham espectadores
em alguns dos mais de 100 jogos que serão realizados em onze localidades dentro
dos Estados Unidos.
Dois
dias antes de o presidente Donald Trump dar as boas-vindas à presidenta
mexicana, Claudia Sheinbaum, e ao primeiro-ministro canadense, Mark Carney,
para o sorteio final que designará as seleções aos grupos no Centro Kennedy,
Andrew Giuliani — diretor executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa
Mundial da Federação Internacional de Futebol (FIFA) — caracterizou o torneio
como o maior evento esportivo da história do mundo e insistiu que os Estados
Unidos darão uma recepção calorosa aos espectadores estrangeiros.
“Isto é
mais que uma competição. Este é realmente um momento global pela unidade”,
afirmou Giuliani em coletiva de imprensa no Foreign Press Center, em
Washington. “Ser anfitrião do mundo durante este ano histórico é um privilégio
tremendo e nos dá a oportunidade de mostrar o melhor dos Estados Unidos, nossa
hospitalidade e nossa inovação, também mostrando o espírito estadunidense do
qual somos tão orgulhosos.” Filho do ex-prefeito de Nova York e depois advogado
e assessor de Trump, Rudy Giuliani, o funcionário dirigiu-se a uma sala repleta
de jornalistas céticos, que repetidamente questionaram o alcance real dessa
hospitalidade.
Alguns
ressaltaram que milhões de latinos residentes nos Estados Unidos desejam
assistir aos jogos. “O governo de Trump está afirmando que não haverá operações
do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) nesses jogos?”, perguntou
um repórter. Giuliani respondeu: “Conheço o presidente há 25 anos, ele não
descarta nada que possa ajudar a garantir a segurança dos cidadãos
estadunidenses”. Em seguida, recomendou que pessoas sem documentação deixem o
país e solicitem depois sua entrada legal para assistir às partidas.
Outra
pergunta abordou se visitantes poderiam ter sua entrada negada caso tenham
participado de protestos ou publicado mensagens críticas aos Estados Unidos em
redes sociais. Um repórter acrescentou: “O presidente já se referiu ao Haiti
como um ‘país de merda’. Eles estão participando da Copa. As pessoas são
bem-vindas independentemente de sua raça, do que acreditam ou da cor de sua
pele?”.
Giuliani
respondeu que existe “uma narrativa de ficção” segundo a qual o mandatário não
dá boas-vindas aos estrangeiros. “O Haiti poderia jogar aqui mesmo, e seus
cidadãos podem solicitar vistos. Mas, obviamente, cada decisão sobre vistos é
uma decisão de segurança nacional”, declarou.
O
funcionário observou que a Copa Mundial será realizada em julho de 2026,
coincidindo com as celebrações do 250º aniversário da fundação dos Estados
Unidos. Um dos jogos está programado para 4 de julho, na Filadélfia, onde a
Declaração de Independência foi assinada em 1776. “Podem imaginar se Estados
Unidos e Inglaterra jogam nesse 4 de julho na Filadélfia? Não consigo
imaginar!”, disse, em tom de brincadeira.
Grande
parte da sessão informativa foi dedicada à segurança, à coordenação com outros
países e aos esforços do governo Trump para agilizar o processamento de vistos.
Segundo Giuliani, os Estados Unidos esperam entre 5 e 7 milhões de visitantes
nas 11 cidades-sede, incluindo pessoas sem ingressos para os jogos.
Apesar
dessas garantias, vários integrantes da delegação do Irã tiveram seus vistos
negados para o sorteio da Copa Mundial, previsto para esta sexta-feira, e toda
a delegação oficial do país anunciou que não comparecerá ao evento.
Na
mesma cerimônia, no Centro Kennedy, também está prevista a entrega do “Prêmio
da Paz FIFA — Futebol Une o
Mundo”, dedicado a “ações excepcionais pela paz e a unidade”. O presidente da
FIFA, Gianni Infantino, criou o prêmio neste ano depois que Trump se queixou de
não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. Assim, não há surpresa sobre quem será
o homenageado na primeira edição.
Fonte:
La Jornada/Diálogos do Sul Global

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