Dois
projetos de futuro: EUA e China sob o olhar da juventude global
Coloque-se,
por um momento, na pele de um Presidente, um ministro ou de algum outro líder
importante de uma nação do Sul Global, que representa a maioria da humanidade,
seja um líder atual ou futuro. Foi o que fizeram os aproximadamente 150 jovens,
de cerca de 37 países, de todos os continentes, que participaram do diálogo
internacional com a fundadora do Instituto Schiller, Helga Zepp-LaRouche, em 14
de dezembro.
Ao
olharem para o mundo, com o que se deparam?
Veem
os Estados Unidos desempenhando
um papel importante na tentativa de encontrar uma solução para a guerra da
Ucrânia que leve em conta os interesses de segurança de todas as partes. Ao
mesmo tempo, veem o governo Trump a ponto de lançar um ataque militar contra a
Venezuela, após declarar abertamente que pretende roubar o petróleo venezuelano
— o que já começou a fazer mediante o confisco de navios em alto mar.
Leem,
no documento da Estratégia de Segurança Nacional do governo de Trump, publicado
em 4 de dezembro de 2025, a intenção de Washington de expulsar a China e sua
Iniciativa do Cinturão e Rota, para começar. “Devemos fazer todo o possível
para expulsar as empresas estrangeiras que constroem infraestruturas na
região”, afirma sem rodeios o documento, “utilizando a influência dos Estados
Unidos em matéria financeira e tecnológica para induzir os países a rejeitar
esta ajuda”, e utilizar também o poderio militar, político e financeiro
estadunidense para “ampliar o acesso dos Estados Unidos a minerais e materiais
críticos”. Os jovens, assim, entendem que, caso se permita que este Corolário
Trump do colonialismo ao estilo britânico se imponha no hemisfério ocidental,
os próximos serão a África, o Oriente Médio e a Ásia.
Depois,
só para garantir, os jovens dão uma olhada nos grandes projetos de
infraestrutura que os Estados Unidos ajudaram a construir na América Latina e
no Caribe durante os últimos 20 anos.
Não há
nenhum.
Mas seu
olhar também se volta para uma distinta política econômica e de segurança,
procedente da China e de outras
nações do Brics e da Organização de Cooperação de Shangai. Estão muito
conscientes de que a China tirou da pobreza 800
milhões de pessoas em 40 anos, e se perguntaram: “Se a China pôde fazer
isso, por que nós não podemos?”. Descobrem que, em 10 de dezembro de 2025, o
governo chinês publicou um documento de política oferecendo “o planejamento e a
construção de infraestruturas nos países da América Latina e do Caribe (ALC), a
fim de melhorar a conectividade da infraestrutura regional”. O documento indica
que a China ajudará a “aproveitar a tecnologia espacial para impulsionar o
desenvolvimento científico, tecnológico e industrial dos países da ALC”, e oferece
“a participação ativa dos países da ALC no programa espacial tripulado da China
e nas missões de exploração lunar e do espaço profundo”. Destaca que será
prestado um apoio especial “aos jovens cientistas” e que a redução da pobreza
será um objetivo central de todas as atividades chinesas na região. Estabelece
que “a China continuará proporcionando ajuda ao desenvolvimento dos países da
ALC sem impor condições políticas” — muito longe do que fazem agora o Fundo
Monetário Internacional (FMI) e Wall Street — e inclusive oferece “levar a cabo
uma cooperação trilateral para o desenvolvimento nos países da ALC com países
relevantes de fora da região” — uma oferta direta aos Estados Unidos e à Europa
para que se somem a estas políticas benéficas para todas as partes.
A
seguir, os mesmos jovens voltam a ver quais são os grandes projetos de
infraestrutura que os chineses construíram ou se ofereceram para implantar na
América Latina e no Caribe. Veem o megaporto de Chancay, no Peru, já em
funcionamento; a proposta de corredor ferroviário bioceânico que conectará o
Atlântico e o Pacífico, do Peru ao Brasil; o complexo siderúrgico e de minério
de ferro de Mutum, na Bolívia; as propostas de construir o Grande Canal
Interoceânico da Nicarágua e linhas ferroviárias de alta velocidade em toda a
América Central; as ideias chinesas de construir um trem de alta velocidade no
México, desde a Cidade do México até Querétaro, e outro através do istmo de
Tehuantepec — que foram canceladas devido à pressão de Wall Street e
Washington.
Estes
jovens, com esta visão, são os melhores aliados para construir conjuntamente
uma nova arquitetura internacional de segurança e desenvolvimento às vésperas
de 2026 — ano em que se cumpre o 250° aniversário da Declaração de
Independência dos Estados Unidos.
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A ferrovia “impossível”: como a China construiu um trem
de alta velocidade no deserto de Gobi e encurtou o país em 8 horas
Uma
ferrovia de alta velocidade construída em meio ao deserto de Gobi tornou-se um
dos projetos de infraestrutura mais emblemáticos da China ao conectar regiões
historicamente isoladas do oeste do país aos principais centros econômicos do
leste. Com extensão superior a 2 mil quilômetros, a linha atravessa áreas de
areia instável, ventos extremos e cadeias montanhosas, consolidando-se como um
eixo estratégico para logística, mobilidade de passageiros, turismo e presença
do Estado em áreas remotas.
O
empreendimento integra a política chinesa de redução das desigualdades
regionais e de estímulo ao desenvolvimento do interior. A nova rota substitui
uma ferrovia antiga e lenta, oferecendo maior previsibilidade e velocidade em
um território marcado por obstáculos naturais severos. O traçado
liga Lanzhou a Urumqi, passando por províncias
como Gansu, Qinghai e a região autônoma de Xinjiang, além
de cruzar o Deserto de Gobi e as Montanhas Qilian.
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Planejamento e estudos ambientais
Antes
do início das obras, equipes técnicas realizaram estudos detalhados de solo,
vento e geologia. O objetivo foi mapear riscos associados à movimentação das
dunas, à instabilidade do terreno, a possíveis alagamentos e a atividades
sísmicas. O planejamento do traçado buscou reduzir desvios, manter a eficiência
operacional e antecipar pontos críticos que poderiam comprometer a segurança e
a regularidade do serviço.
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Domar a areia: soluções para o solo instável
No
deserto, o principal desafio foi transformar areia móvel em base firme. Para
isso, engenheiros adotaram técnicas de fixação com padrões quadriculados no
solo, utilizando materiais como bambu, palha e gravetos para reduzir a erosão
causada pelo vento. Em seguida, o terreno foi nivelado e compactado com
máquinas pesadas, combinando camadas de terra, cascalho e mantas geotêxteis. Em
áreas mais críticas, houve aplicação de cimento para garantir estabilidade
adicional.
Em
trechos suscetíveis ao acúmulo de areia, a linha foi elevada sobre pilares e
vigas. As fundações profundas, com estacas de concreto e aço cravadas em
camadas mais sólidas do subsolo, aumentaram a segurança e reduziram a
necessidade de intervenções frequentes. Embora mais cara, a solução foi
considerada essencial para a operação contínua da ferrovia em ambiente
desértico.
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Ventos extremos e proteção da via
Além da
areia, o vento representa risco permanente. Em determinadas áreas do Gobi,
rajadas podem ultrapassar 190 km/h. Para mitigar o impacto, foram construídos
muros de proteção e, em pontos específicos, túneis elevados que permitem a
passagem dos trens protegidos do vento lateral. Sensores instalados ao longo da
linha monitoram as condições em tempo real e permitem ajustes automáticos de
velocidade ou interrupções preventivas.
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Túneis em altitude e engenharia de precisão
Ao
deixar o deserto, a ferrovia enfrenta o relevo montanhoso. Viadutos extensos e
túneis foram necessários para manter a velocidade e a regularidade do traçado.
Um dos marcos do projeto é o túnel de Kilan, onde os trilhos alcançam cerca de
3.607 metros acima do nível do mar, colocando a linha entre as mais altas do
mundo em sua categoria. A altitude exigiu cuidados adicionais com a ventilação,
a resistência dos materiais e a adaptação dos sistemas operacionais.
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Operação, testes e ganhos de tempo
Antes
da inauguração, a ferrovia passou por uma série de testes envolvendo cargas,
variações extremas de temperatura, ventos cruzados e protocolos de emergência
em túneis. Com a entrada em operação, o tempo de viagem entre Lanzhou e Urumqi
foi reduzido de aproximadamente 20 horas para cerca de 12 horas, um ganho de
oito horas que impacta diretamente a mobilidade de pessoas e o planejamento
logístico.
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Impactos econômicos e estratégicos
A nova
ligação tem efeitos diretos no desenvolvimento regional. A melhoria da
conectividade atrai investimentos, estimula o turismo e facilita o escoamento
de produtos. Com a linha dedicada principalmente a passageiros, a ferrovia
antiga passa a concentrar o transporte de cargas, aumentando a eficiência do
sistema como um todo.
Há
também um componente estratégico. Xinjiang faz fronteira com oito países, e a
infraestrutura de transporte de alta velocidade reforça a capacidade
administrativa e logística do governo central na região, ampliando a presença
estatal e a integração territorial.
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Manutenção contínua
A
operação em ambiente extremo exige manutenção permanente. Equipes
especializadas realizam inspeções regulares em trilhos, pilares, túneis e muros
de proteção, enquanto sensores e robôs auxiliam no monitoramento de vento,
areia e integridade estrutural. A ferrovia depende de um sistema contínuo de
prevenção para manter a segurança e a confiabilidade.
Ao
vencer o deserto de Gobi e as montanhas do oeste chinês, a ferrovia de alta
velocidade se consolida como um exemplo de engenharia aplicada a objetivos
econômicos e estratégicos, redesenhando o mapa de integração regional do país.
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Como a China transformou o deserto de Gobi em uma fábrica
de energia eólica a céu aberto
No
interior da Deserto de Gobi, a China conduz uma das mais
complexas operações de infraestrutura energética em curso no mundo. A
instalação de turbinas eólicas de grande porte em uma das regiões mais isoladas
do país exige uma logística de escala incomum, envolvendo transporte de peças
com mais de 100 metros de comprimento, equipamentos que superam milhares de
toneladas e montagem em condições ambientais adversas.
O
projeto integra a estratégia chinesa de ampliar a participação das fontes
renováveis na matriz elétrica e transformar áreas pouco povoadas em polos de
geração de energia. No entanto, o avanço da energia eólica no Gobi não depende
apenas de tecnologia, mas de uma cadeia logística comparável a operações
industriais de grande porte.
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Um território remoto convertido em área estratégica
O
deserto de Gobi se estende por vastas áreas do norte da China e da Mongólia,
com baixa densidade populacional e regime de ventos constantes — condições
consideradas ideais para parques eólicos de grande escala. A ausência de
centros urbanos reduz conflitos de uso do solo e facilita a instalação de
estruturas de grande porte.
Ao
mesmo tempo, a distância dos principais polos industriais impõe desafios. Todo
o material necessário para a construção das turbinas — desde concreto e aço até
componentes eletromecânicos de grande dimensão — precisa ser transportado por
centenas de quilômetros, muitas vezes por estradas não pavimentadas ou
vulneráveis às condições climáticas.
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Transporte de pás de 108 metros exige planejamento extremo
Entre
os elementos mais críticos da operação está o transporte das pás das turbinas.
Cada unidade mede cerca de 108 metros de comprimento e pesa aproximadamente 30
toneladas. Para deslocá-las com segurança, são utilizados caminhões especiais
que, somados à carga, podem atingir até 160 toneladas.
A
logística exige planejamento detalhado de rotas, curvas e inclinações. Em
períodos de chuva, trechos inteiros podem se tornar intransitáveis, provocando
atrasos. Já os ventos fortes, comuns na região, frequentemente impedem manobras
finais de posicionamento, obrigando as equipes a aguardar condições mais
favoráveis.
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Guindaste de 4.000 toneladas opera como obra paralela
Antes
mesmo do início da montagem das turbinas, outro desafio se impõe: a instalação
do guindaste principal. O equipamento, com capacidade de até 4.000 toneladas,
não chega pronto ao local. Ele é transportado em dezenas de caminhões e montado
no próprio canteiro, em um processo que envolve várias etapas técnicas.
O
guindaste é composto por múltiplas seções que precisam ser alinhadas e testadas
com precisão. Guindastes auxiliares são utilizados para levantar e posicionar
as partes do equipamento principal, que depois passa por inspeções de segurança
antes de entrar em operação. Apenas após essa fase é possível iniciar a
elevação dos componentes da turbina.
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Montagem em altura e controle do vento
As
torres eólicas instaladas no Gobi ultrapassam 170 metros de altura. A subida
até o topo é feita por escadas internas, já que muitas estruturas não contam
com elevadores durante a fase de montagem. No ponto mais alto, a instalação da
nacele — o compartimento que abriga o gerador e os sistemas de controle —
representa um dos momentos mais delicados da operação.
A
nacele pode pesar mais de 150 toneladas. Durante a elevação, rajadas de vento
podem provocar oscilações perigosas. Para reduzir riscos, equipes posicionadas
em diferentes pontos utilizam cabos de estabilização, coordenando movimentos
para manter o conjunto alinhado até o encaixe final.
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Capacidade de geração e impacto energético
Cada
turbina instalada no projeto possui potência de aproximadamente 6,25 megawatts.
Em condições ideais de vento, uma única unidade é capaz de gerar mais de 6.000
quilowatts-hora em apenas uma hora de operação. Em conjunto, dezenas ou
centenas de turbinas formam parques eólicos com capacidade significativa de
fornecimento contínuo de energia.
A
eletricidade produzida no Gobi é integrada à rede nacional por meio de linhas
de transmissão de alta tensão, permitindo que a energia gerada em áreas remotas
abasteça regiões industriais e centros urbanos distantes.
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Trabalho humano em condições extremas
Apesar
do alto grau de automação e do uso de equipamentos de grande porte, a operação
depende intensamente do trabalho humano. Técnicos, operadores e engenheiros
enfrentam longas jornadas em um ambiente marcado por variações bruscas de
temperatura, ventos constantes e isolamento geográfico.
A
rotina inclui períodos de espera forçada devido às condições climáticas, noites
de trabalho para cumprir cronogramas e deslocamentos longos entre bases de
apoio e frentes de obra. Embora pouco visível ao público, esse esforço humano é
considerado decisivo para a viabilidade do projeto.
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Energia renovável como estratégia de longo prazo
A
instalação de turbinas eólicas gigantes no deserto de Gobi ilustra a aposta
chinesa em projetos de grande escala para acelerar a transição energética. Ao
combinar território disponível, tecnologia avançada e capacidade logística, o
país busca ampliar rapidamente sua oferta de energia limpa e reduzir a
dependência de fontes fósseis.
Especialistas
avaliam que iniciativas desse porte tendem a se multiplicar em regiões remotas,
à medida que a demanda por eletricidade cresce e os custos das tecnologias
renováveis continuam a cair. No caso do Gobi, a transformação de um ambiente
desértico em polo energético reforça o papel da infraestrutura pesada como
elemento central da política energética chinesa.
Fonte: Schiller
Institute/Diálogos do Sul Global/O Cafezinho

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