terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Dois projetos de futuro: EUA e China sob o olhar da juventude global

Coloque-se, por um momento, na pele de um Presidente, um ministro ou de algum outro líder importante de uma nação do Sul Global, que representa a maioria da humanidade, seja um líder atual ou futuro. Foi o que fizeram os aproximadamente 150 jovens, de cerca de 37 países, de todos os continentes, que participaram do diálogo internacional com a fundadora do Instituto Schiller, Helga Zepp-LaRouche, em 14 de dezembro.

Ao olharem para o mundo, com o que se deparam?

Veem os Estados Unidos desempenhando um papel importante na tentativa de encontrar uma solução para a guerra da Ucrânia que leve em conta os interesses de segurança de todas as partes. Ao mesmo tempo, veem o governo Trump a ponto de lançar um ataque militar contra a Venezuela, após declarar abertamente que pretende roubar o petróleo venezuelano — o que já começou a fazer mediante o confisco de navios em alto mar.

Leem, no documento da Estratégia de Segurança Nacional do governo de Trump, publicado em 4 de dezembro de 2025, a intenção de Washington de expulsar a China e sua Iniciativa do Cinturão e Rota, para começar. “Devemos fazer todo o possível para expulsar as empresas estrangeiras que constroem infraestruturas na região”, afirma sem rodeios o documento, “utilizando a influência dos Estados Unidos em matéria financeira e tecnológica para induzir os países a rejeitar esta ajuda”, e utilizar também o poderio militar, político e financeiro estadunidense para “ampliar o acesso dos Estados Unidos a minerais e materiais críticos”. Os jovens, assim, entendem que, caso se permita que este Corolário Trump do colonialismo ao estilo britânico se imponha no hemisfério ocidental, os próximos serão a África, o Oriente Médio e a Ásia.

Depois, só para garantir, os jovens dão uma olhada nos grandes projetos de infraestrutura que os Estados Unidos ajudaram a construir na América Latina e no Caribe durante os últimos 20 anos.

Não há nenhum.

Mas seu olhar também se volta para uma distinta política econômica e de segurança, procedente da China e de outras nações do Brics e da Organização de Cooperação de Shangai. Estão muito conscientes de que a China tirou da pobreza 800 milhões de pessoas em 40 anos, e se perguntaram: “Se a China pôde fazer isso, por que nós não podemos?”. Descobrem que, em 10 de dezembro de 2025, o governo chinês publicou um documento de política oferecendo “o planejamento e a construção de infraestruturas nos países da América Latina e do Caribe (ALC), a fim de melhorar a conectividade da infraestrutura regional”. O documento indica que a China ajudará a “aproveitar a tecnologia espacial para impulsionar o desenvolvimento científico, tecnológico e industrial dos países da ALC”, e oferece “a participação ativa dos países da ALC no programa espacial tripulado da China e nas missões de exploração lunar e do espaço profundo”. Destaca que será prestado um apoio especial “aos jovens cientistas” e que a redução da pobreza será um objetivo central de todas as atividades chinesas na região. Estabelece que “a China continuará proporcionando ajuda ao desenvolvimento dos países da ALC sem impor condições políticas” — muito longe do que fazem agora o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Wall Street — e inclusive oferece “levar a cabo uma cooperação trilateral para o desenvolvimento nos países da ALC com países relevantes de fora da região” — uma oferta direta aos Estados Unidos e à Europa para que se somem a estas políticas benéficas para todas as partes.

A seguir, os mesmos jovens voltam a ver quais são os grandes projetos de infraestrutura que os chineses construíram ou se ofereceram para implantar na América Latina e no Caribe. Veem o megaporto de Chancay, no Peru, já em funcionamento; a proposta de corredor ferroviário bioceânico que conectará o Atlântico e o Pacífico, do Peru ao Brasil; o complexo siderúrgico e de minério de ferro de Mutum, na Bolívia; as propostas de construir o Grande Canal Interoceânico da Nicarágua e linhas ferroviárias de alta velocidade em toda a América Central; as ideias chinesas de construir um trem de alta velocidade no México, desde a Cidade do México até Querétaro, e outro através do istmo de Tehuantepec — que foram canceladas devido à pressão de Wall Street e Washington.

Estes jovens, com esta visão, são os melhores aliados para construir conjuntamente uma nova arquitetura internacional de segurança e desenvolvimento às vésperas de 2026 — ano em que se cumpre o 250° aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

¨      A ferrovia “impossível”: como a China construiu um trem de alta velocidade no deserto de Gobi e encurtou o país em 8 horas

Uma ferrovia de alta velocidade construída em meio ao deserto de Gobi tornou-se um dos projetos de infraestrutura mais emblemáticos da China ao conectar regiões historicamente isoladas do oeste do país aos principais centros econômicos do leste. Com extensão superior a 2 mil quilômetros, a linha atravessa áreas de areia instável, ventos extremos e cadeias montanhosas, consolidando-se como um eixo estratégico para logística, mobilidade de passageiros, turismo e presença do Estado em áreas remotas.

O empreendimento integra a política chinesa de redução das desigualdades regionais e de estímulo ao desenvolvimento do interior. A nova rota substitui uma ferrovia antiga e lenta, oferecendo maior previsibilidade e velocidade em um território marcado por obstáculos naturais severos. O traçado liga Lanzhou a Urumqi, passando por províncias como Gansu, Qinghai e a região autônoma de Xinjiang, além de cruzar o Deserto de Gobi e as Montanhas Qilian.

<><> Planejamento e estudos ambientais

Antes do início das obras, equipes técnicas realizaram estudos detalhados de solo, vento e geologia. O objetivo foi mapear riscos associados à movimentação das dunas, à instabilidade do terreno, a possíveis alagamentos e a atividades sísmicas. O planejamento do traçado buscou reduzir desvios, manter a eficiência operacional e antecipar pontos críticos que poderiam comprometer a segurança e a regularidade do serviço.

<><> Domar a areia: soluções para o solo instável

No deserto, o principal desafio foi transformar areia móvel em base firme. Para isso, engenheiros adotaram técnicas de fixação com padrões quadriculados no solo, utilizando materiais como bambu, palha e gravetos para reduzir a erosão causada pelo vento. Em seguida, o terreno foi nivelado e compactado com máquinas pesadas, combinando camadas de terra, cascalho e mantas geotêxteis. Em áreas mais críticas, houve aplicação de cimento para garantir estabilidade adicional.

Em trechos suscetíveis ao acúmulo de areia, a linha foi elevada sobre pilares e vigas. As fundações profundas, com estacas de concreto e aço cravadas em camadas mais sólidas do subsolo, aumentaram a segurança e reduziram a necessidade de intervenções frequentes. Embora mais cara, a solução foi considerada essencial para a operação contínua da ferrovia em ambiente desértico.

<><> Ventos extremos e proteção da via

Além da areia, o vento representa risco permanente. Em determinadas áreas do Gobi, rajadas podem ultrapassar 190 km/h. Para mitigar o impacto, foram construídos muros de proteção e, em pontos específicos, túneis elevados que permitem a passagem dos trens protegidos do vento lateral. Sensores instalados ao longo da linha monitoram as condições em tempo real e permitem ajustes automáticos de velocidade ou interrupções preventivas.

<><> Túneis em altitude e engenharia de precisão

Ao deixar o deserto, a ferrovia enfrenta o relevo montanhoso. Viadutos extensos e túneis foram necessários para manter a velocidade e a regularidade do traçado. Um dos marcos do projeto é o túnel de Kilan, onde os trilhos alcançam cerca de 3.607 metros acima do nível do mar, colocando a linha entre as mais altas do mundo em sua categoria. A altitude exigiu cuidados adicionais com a ventilação, a resistência dos materiais e a adaptação dos sistemas operacionais.

<><> Operação, testes e ganhos de tempo

Antes da inauguração, a ferrovia passou por uma série de testes envolvendo cargas, variações extremas de temperatura, ventos cruzados e protocolos de emergência em túneis. Com a entrada em operação, o tempo de viagem entre Lanzhou e Urumqi foi reduzido de aproximadamente 20 horas para cerca de 12 horas, um ganho de oito horas que impacta diretamente a mobilidade de pessoas e o planejamento logístico.

<><> Impactos econômicos e estratégicos

A nova ligação tem efeitos diretos no desenvolvimento regional. A melhoria da conectividade atrai investimentos, estimula o turismo e facilita o escoamento de produtos. Com a linha dedicada principalmente a passageiros, a ferrovia antiga passa a concentrar o transporte de cargas, aumentando a eficiência do sistema como um todo.

Há também um componente estratégico. Xinjiang faz fronteira com oito países, e a infraestrutura de transporte de alta velocidade reforça a capacidade administrativa e logística do governo central na região, ampliando a presença estatal e a integração territorial.

<><> Manutenção contínua

A operação em ambiente extremo exige manutenção permanente. Equipes especializadas realizam inspeções regulares em trilhos, pilares, túneis e muros de proteção, enquanto sensores e robôs auxiliam no monitoramento de vento, areia e integridade estrutural. A ferrovia depende de um sistema contínuo de prevenção para manter a segurança e a confiabilidade.

Ao vencer o deserto de Gobi e as montanhas do oeste chinês, a ferrovia de alta velocidade se consolida como um exemplo de engenharia aplicada a objetivos econômicos e estratégicos, redesenhando o mapa de integração regional do país.

¨      Como a China transformou o deserto de Gobi em uma fábrica de energia eólica a céu aberto

No interior da Deserto de Gobi, a China conduz uma das mais complexas operações de infraestrutura energética em curso no mundo. A instalação de turbinas eólicas de grande porte em uma das regiões mais isoladas do país exige uma logística de escala incomum, envolvendo transporte de peças com mais de 100 metros de comprimento, equipamentos que superam milhares de toneladas e montagem em condições ambientais adversas.

O projeto integra a estratégia chinesa de ampliar a participação das fontes renováveis na matriz elétrica e transformar áreas pouco povoadas em polos de geração de energia. No entanto, o avanço da energia eólica no Gobi não depende apenas de tecnologia, mas de uma cadeia logística comparável a operações industriais de grande porte.

<><> Um território remoto convertido em área estratégica

O deserto de Gobi se estende por vastas áreas do norte da China e da Mongólia, com baixa densidade populacional e regime de ventos constantes — condições consideradas ideais para parques eólicos de grande escala. A ausência de centros urbanos reduz conflitos de uso do solo e facilita a instalação de estruturas de grande porte.

Ao mesmo tempo, a distância dos principais polos industriais impõe desafios. Todo o material necessário para a construção das turbinas — desde concreto e aço até componentes eletromecânicos de grande dimensão — precisa ser transportado por centenas de quilômetros, muitas vezes por estradas não pavimentadas ou vulneráveis às condições climáticas.

<><> Transporte de pás de 108 metros exige planejamento extremo

Entre os elementos mais críticos da operação está o transporte das pás das turbinas. Cada unidade mede cerca de 108 metros de comprimento e pesa aproximadamente 30 toneladas. Para deslocá-las com segurança, são utilizados caminhões especiais que, somados à carga, podem atingir até 160 toneladas.

A logística exige planejamento detalhado de rotas, curvas e inclinações. Em períodos de chuva, trechos inteiros podem se tornar intransitáveis, provocando atrasos. Já os ventos fortes, comuns na região, frequentemente impedem manobras finais de posicionamento, obrigando as equipes a aguardar condições mais favoráveis.

<><> Guindaste de 4.000 toneladas opera como obra paralela

Antes mesmo do início da montagem das turbinas, outro desafio se impõe: a instalação do guindaste principal. O equipamento, com capacidade de até 4.000 toneladas, não chega pronto ao local. Ele é transportado em dezenas de caminhões e montado no próprio canteiro, em um processo que envolve várias etapas técnicas.

O guindaste é composto por múltiplas seções que precisam ser alinhadas e testadas com precisão. Guindastes auxiliares são utilizados para levantar e posicionar as partes do equipamento principal, que depois passa por inspeções de segurança antes de entrar em operação. Apenas após essa fase é possível iniciar a elevação dos componentes da turbina.

<><> Montagem em altura e controle do vento

As torres eólicas instaladas no Gobi ultrapassam 170 metros de altura. A subida até o topo é feita por escadas internas, já que muitas estruturas não contam com elevadores durante a fase de montagem. No ponto mais alto, a instalação da nacele — o compartimento que abriga o gerador e os sistemas de controle — representa um dos momentos mais delicados da operação.

A nacele pode pesar mais de 150 toneladas. Durante a elevação, rajadas de vento podem provocar oscilações perigosas. Para reduzir riscos, equipes posicionadas em diferentes pontos utilizam cabos de estabilização, coordenando movimentos para manter o conjunto alinhado até o encaixe final.

<><> Capacidade de geração e impacto energético

Cada turbina instalada no projeto possui potência de aproximadamente 6,25 megawatts. Em condições ideais de vento, uma única unidade é capaz de gerar mais de 6.000 quilowatts-hora em apenas uma hora de operação. Em conjunto, dezenas ou centenas de turbinas formam parques eólicos com capacidade significativa de fornecimento contínuo de energia.

A eletricidade produzida no Gobi é integrada à rede nacional por meio de linhas de transmissão de alta tensão, permitindo que a energia gerada em áreas remotas abasteça regiões industriais e centros urbanos distantes.

<><> Trabalho humano em condições extremas

Apesar do alto grau de automação e do uso de equipamentos de grande porte, a operação depende intensamente do trabalho humano. Técnicos, operadores e engenheiros enfrentam longas jornadas em um ambiente marcado por variações bruscas de temperatura, ventos constantes e isolamento geográfico.

A rotina inclui períodos de espera forçada devido às condições climáticas, noites de trabalho para cumprir cronogramas e deslocamentos longos entre bases de apoio e frentes de obra. Embora pouco visível ao público, esse esforço humano é considerado decisivo para a viabilidade do projeto.

<><> Energia renovável como estratégia de longo prazo

A instalação de turbinas eólicas gigantes no deserto de Gobi ilustra a aposta chinesa em projetos de grande escala para acelerar a transição energética. Ao combinar território disponível, tecnologia avançada e capacidade logística, o país busca ampliar rapidamente sua oferta de energia limpa e reduzir a dependência de fontes fósseis.

Especialistas avaliam que iniciativas desse porte tendem a se multiplicar em regiões remotas, à medida que a demanda por eletricidade cresce e os custos das tecnologias renováveis continuam a cair. No caso do Gobi, a transformação de um ambiente desértico em polo energético reforça o papel da infraestrutura pesada como elemento central da política energética chinesa.

 

Fonte: Schiller Institute/Diálogos do Sul Global/O Cafezinho

 

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