Marcio
Chaer: Lavajatismo que elegeu Bolsonaro volta sem nunca ter saido
A maior
farsa da história da justiça brasileira está em cartaz de novo. As viúvas e
viúvos que compactuaram com o esquema criminoso de Curitiba querem de volta o
comando da República.
Travestidos
de vestais, os mesmos protagonistas de 2014 cavalgam o mesmo discurso do
“combate à corrupção”, como antes, sem provas ou evidências — só intrigas
pré-fabricadas para enganar incautos.
A ponta
de lança do movimento da vez é mais um código disciplinar para juízes — em
especial, ministros — como o que já existe desde 2009, batizado Código de Ética
da Magistratura Nacional, que subordina todos os juízes — inclusive ministros
de tribunais superiores e do Supremo.
Além, é
claro da Lei Orgânica da Magistratura (Loman), editada em 1979 como Lei
Complementar 35.
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Códigos de conduta judicial
O
colunista deste site Vladimir Passos de Freitas, que, na ativa, presidiu o
Tribunal Regional Federal da 4ª Região, desenhou um panorama da regulação ética
de outras profissões.
Ele
cita exemplos, no âmbito privado, o Código de Ética Médico e, no público, o
Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo
Federal. Nas profissões jurídicas, os advogados são regulados pelo Código de
Ética e Disciplina da OAB, e o Ministério Público possui o Código de Ética do
Ministério Público Brasileiro, editado pelo Conselho Nacional do Ministério
Público.
A
Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) editou um código em 2017. Mas, até
onde se sabe, jamais foi aplicado — muito embora suas regras sejam
desobedecidas diariamente em todo o país.
Não
existe código de ética para empresas jornalísticas. Em assuntos de interesse
empresarial, os jornais, emissoras, revistas, sites, portais noticiam ou deixam
de noticiar fatos de interesse público sem qualquer cerimônia. Um exemplo é o
bilionário Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).
Será
uma evolução se a imprensa passar a adotar consigo própria os critérios que
usam para fuzilar os outros. O caráter público dos seus negócios — e de seus
interesses — é óbvio, na medida em que empresas jornalísticas desfrutam de
imunidade tributária e uma série de benesses.
Afinal,
os mesmos eventos promovidos por empresas, associações ou escolas, são
produzidos por essas mesmas empresas jornalísticas. Com integrantes do
Judiciário, com patrocínio de bancos como o Master, BTG e outros — que só se
tornam alvos quando não são eles os promotores.
• Dallagnol ‘faz Pix’ de R$ 146,8 mil a
Lula por danos morais no caso do PowerPoint
O
ex-procurador da República Deltan Dallagnol efetuou o pagamento de uma
indenização por danos morais no valor de R$ 146,8 mil ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT). O pagamento decorre de condenação definitiva da Justiça no
episódio conhecido como o “caso do PowerPoint”, relacionado à entrevista
coletiva concedida pelo então integrante da força-tarefa da Operação Lava Jato
em dezembro de 2016.
Segundo
informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o valor foi depositado em conta
judicial e deverá ser transferido ao presidente nos próximos dias. O montante
inclui, além da indenização fixada, o pagamento de honorários advocatícios
referentes à ação movida por Lula.
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Origem da condenação
A
condenação teve origem em uma ação por danos morais proposta por Lula em
dezembro de 2016, após entrevista coletiva na qual Dallagnol apresentou
denúncia relacionada ao caso do tríplex do Guarujá. Na ocasião, o então
procurador utilizou slides de PowerPoint para ilustrar a acusação, em uma
apresentação que ganhou ampla repercussão pública.
Durante
a entrevista, Dallagnol exibiu um fluxograma em que 14 tópicos convergiam para
o nome de Lula, a quem classificou como o “grande general” de um suposto
esquema de corrupção na Petrobras. Ele também utilizou expressões como
“propinocracia” e afirmou que o ex-presidente teria sido o comandante máximo
das práticas ilícitas investigadas.
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Entendimento da Justiça
Em
decisão proferida em 2022, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que
Dallagnol extrapolou os limites de sua atuação funcional ao empregar linguagem
não técnica e adjetivações consideradas ofensivas à honra e à imagem de Lula.
Os
ministros destacaram que houve violação aos direitos de personalidade do então
ex-presidente, uma vez que o procurador emitiu juízo de culpa antes mesmo do
início da ação penal e atribuiu a Lula fatos que não constavam formalmente da
denúncia apresentada ao Judiciário.
No
acórdão, o tribunal afirmou que “age com abuso de direito o sujeito que, a
pretexto de divulgar o oferecimento de denúncia criminal em entrevista
coletiva, utiliza-se de termos e adjetivações ofensivos e marcados pelo
desapego à técnica”.
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Arrecadação por meio de doações
Após a
confirmação da condenação, Dallagnol recorreu às redes sociais para informar
que o pagamento da indenização foi viabilizado por meio de doações feitas por
apoiadores. Segundo ele, mais de 12 mil pessoas contribuíram financeiramente
para a quitação do valor.
De
acordo com a publicação, os recursos arrecadados somaram aproximadamente R$ 835
mil, já considerados os rendimentos financeiros. O ex-procurador afirmou que o
montante excedente, após o pagamento da indenização e das despesas processuais,
será destinado a hospitais filantrópicos.
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Defesa de Dallagnol
Ao
longo do processo, a defesa de Dallagnol sustentou que não houve dano moral nem
violação à honra de Lula. Os advogados argumentaram que a entrevista coletiva
foi concedida no exercício regular das funções do procurador e que o objetivo
era informar a sociedade sobre os desdobramentos das investigações da Lava
Jato.
Mesmo
após a condenação definitiva, Dallagnol manteve críticas ao sistema de Justiça.
Em manifestação pública, afirmou que a decisão representaria uma reação
institucional contra o combate à corrupção. “Brasileiros, entendam: isso é o
que acontece quando se luta contra a corrupção e a injustiça no Brasil”,
escreveu, acrescentando que, em sua visão, Lula teria saído impune enquanto
integrantes da Lava Jato “pagam o preço”.
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Anulação das condenações de Lula
O
desfecho do caso do PowerPoint ocorre em um contexto mais amplo de reavaliação
judicial das condenações impostas a Lula no âmbito da Lava Jato. Em 2021, o
Supremo Tribunal Federal (STF) anulou todas as condenações do ex-presidente
proferidas pela Justiça Federal de Curitiba, incluindo a do tríplex do Guarujá.
Na
mesma linha, o STF reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro na
condução dos processos contra Lula, entendimento que reforçou a tese de que
houve cerceamento de defesa e motivação política nas ações penais.
As
decisões do Supremo ocorreram dois anos e cinco meses após Moro deixar a
magistratura para assumir o cargo de ministro da Justiça no governo de Jair
Bolsonaro, o que também foi considerado relevante pelos ministros ao analisarem
a imparcialidade do julgamento.
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Desdobramentos políticos e jurídicos
O
pagamento da indenização por Dallagnol encerra definitivamente o processo cível
relacionado ao caso do PowerPoint, um dos episódios mais simbólicos da atuação
da Lava Jato. O caso tornou-se referência nos debates sobre os limites da
atuação de membros do Ministério Público, o uso da mídia em investigações
criminais e a preservação da presunção de inocência.
Com a
condenação transitada em julgado e o valor quitado, o episódio se soma a uma
série de decisões judiciais que revisaram práticas adotadas durante a operação
e ampliaram o debate sobre responsabilidade funcional, comunicação
institucional e garantias fundamentais no sistema de Justiça brasileiro.
• Datafolha revela que um terço dos
eleitores de Lula estão no campo de Bolsonaro
Uma
pesquisa recente do Datafolha revelou um dado que ajuda a explicar a
complexidade — e a aparente confusão — do mapa político brasileiro: 34% dos
eleitores identificados como petistas afirmam se posicionar à direita ou ao
centro-direita, enquanto 14% dos bolsonaristas dizem ser de esquerda ou de
centro-esquerda. O levantamento foi divulgado pela Folha de S.Paulo e analisado
por cientistas políticos, que apontam o peso da polarização, a dificuldade de
compreensão dos conceitos ideológicos clássicos e a centralidade do carisma de
líderes como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
Os
números evidenciam que a identidade política no Brasil nem sempre caminha lado
a lado com a autodefinição ideológica. Entre os eleitores classificados como
petistas, 47% se dizem de esquerda ou centro-esquerda, mas uma parcela
expressiva se identifica com campos tradicionalmente associados à direita.
Outros 9% se declaram de centro, enquanto 9% afirmam não saber como se
posicionar ideologicamente. No grupo bolsonarista, a coerência ideológica é
maior, mas ainda assim marcada por contradições: 76% se dizem de direita ou
centro-direita, 14% se colocam à esquerda ou centro-esquerda, 8% se dizem de
centro e apenas 2% não souberam responder.
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Metodologia da pesquisa
O
Datafolha entrevistou 2.002 pessoas com 16 anos ou mais, entre os dias 2 e 4 de
dezembro, em 113 municípios de todas as regiões do país. A margem de erro é de
dois pontos percentuais, para mais ou para menos. O diferencial do levantamento
está no uso de dois critérios distintos para classificar os entrevistados:
identidade política concreta e posicionamento ideológico.
Na
escala de identidade política, os entrevistados foram convidados a se
posicionar de 1 (bolsonarista) a 5 (petista). Foram considerados petistas
aqueles que marcaram 4 ou 5, e bolsonaristas os que marcaram 1 ou 2. Quem
escolheu o ponto intermediário, 3, foi classificado como neutro.
Já no
eixo ideológico, a pergunta foi direta: “Em qual posição política você se
colocaria, sendo 1 o máximo à esquerda e 7 o máximo à direita?”. A partir das
respostas, o instituto classificou os eleitores como esquerda, centro-esquerda,
centro, centro-direita ou direita.
O
levantamento também dimensiona a polarização no país: 40% dos brasileiros se
declaram petistas, enquanto 34% se dizem bolsonaristas. Ao mesmo tempo, 47%
afirmam ser de direita ou centro-direita, e 28% se definem como de esquerda ou
centro-esquerda, indicando que os dois eixos — identidade política e ideologia
— não se sobrepõem de forma automática.
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“Petismo conservador” e “bolsonarismo estatista”
Para o
cientista político Bruno Bolognesi, professor da Universidade Federal do Paraná
(UFPR), a aparente contradição é resultado da forma como valores individuais,
trajetória social e liderança política se misturam no eleitorado brasileiro.
“A
pessoa que tem 60 anos e era petista desde a fundação do partido hoje em dia se
identifica com o PT, mas é superconservadora. O petismo católico, por exemplo,
que é superforte no Sul do Brasil, é um petismo absolutamente conservador”,
explica.
Segundo
ele, o mesmo fenômeno ocorre no campo bolsonarista. Apesar do discurso liberal
na economia associado a Bolsonaro, há parcelas do eleitorado que defendem
políticas estatais robustas e programas sociais.
“A
mesma coisa acontece com o bolsonarismo. Há um pessoal evangélico que é
altamente estatista, que apoia o Bolsa Família e o direito do trabalhador”,
afirma Bolognesi.
Essa
combinação gera o que especialistas chamam de “petismo conservador” e
“bolsonarismo estatista”, categorias que desafiam a leitura tradicional de
esquerda e direita e mostram como o eleitor muitas vezes adere mais a um campo
político-identitário do que a um conjunto coerente de ideias.
Identidade
política pesa mais que ideologia
O
cientista político Elias Tavares avalia que o levantamento deixa clara a
separação entre identidade ideológica formal e identidade política concreta no
Brasil contemporâneo.
“Existe
uma separação clara entre identidade ideológica formal, direita e esquerda, e
identidade política concreta, como petismo e bolsonarismo”, afirma.
Segundo
ele, um eleitor pode se identificar com o PT por razões históricas, sociais ou
emocionais e, ainda assim, adotar posições conservadoras em temas como
costumes, segurança pública ou valores morais. O mesmo vale para eleitores
bolsonaristas que defendem maior presença do Estado em políticas sociais.
Para
Tavares, a polarização reforça esse comportamento. “O rótulo ‘petista’ ou
‘bolsonarista’ funciona muito mais como um marcador de lado na disputa do que
como expressão ideológica. Muitas vezes, o eleitor se identifica com um desses
campos principalmente para se diferenciar do outro, não porque compartilha
integralmente suas ideias”, explica.
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Um retrato da política brasileira atual
O
resultado da pesquisa ajuda a entender por que o debate público brasileiro
frequentemente parece confuso ou contraditório. Em vez de um eleitorado
rigidamente organizado por ideologias clássicas, o país apresenta identidades
políticas fluidas, fortemente influenciadas por lideranças carismáticas,
trajetórias pessoais e disputas simbólicas.
Para
analistas, esse cenário tende a continuar moldando eleições, debates no
Congresso e a dinâmica da polarização nos próximos anos, tornando cada vez mais
relevante compreender não apenas o que os eleitores dizem ser, mas como
constroem seu pertencimento político em um ambiente altamente polarizado.
Fonte:
O Cafezinho

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