João
Ricardo Dornelles: Que venha 2026, será um ano turbulento
Com
certeza eu não conseguirei lembrar de todos os eventos ocorridos no decorrer de
2025, mas vale a pena relembrar algumas dessas situações, positivas e
negativas, pois deixaram marcas e suas consequências possivelmente estarão
presentes no ano de 2026.
Tudo
indica que 2026 será um ano turbulento, tanto no Brasil e América Latina, como
no resto do mundo e tentar fazer um uma breve retrospectiva de 2025 pode
apontar o que nos espera no ano que chega.
Posso
começar pela posse de Donald Trump, em janeiro de 2025. A primeira surpresa é
que o seu mandato ainda não completou um ano e a sensação que temos é que o
fanfarrão fascista ocupa há anos a cadeira da presidência dos Estados Unidos. O
seu governo começou com ameaças dirigidas ao mundo todo, já anunciadas no
discurso de posse, em conjunto com o seu vice JD Vance.
De cara
disse que “os inimigos dos EUA, externos e internos, seriam os alvos do
governo”. Ameaçou invadir o Panamá, o México, a Groenlândia, anexar o Canadá.
Criou um tarifaço global, mobilizou a guarda nacional e colocou suas tropas
contra a população das cidades governadas pelos democratas, especialmente as
que têm prefeitos negros e mulheres.
Transformou
a polícia de imigração (ICE) em uma verdadeira Gestapo e passou a perseguir,
prender e deportar imigrantes, mesmo aqueles legalizados, separando famílias e
criando pânico na população. Deslocou a frota de guerra para a costa da
Venezuela, assassinou mais de cem pescadores venezuelanos e colombianos, roubou
(com uso de violência), até o momento, três petroleiros da Venezuela. Trump
mostrou a verdadeira face dos Estados Unidos, a sua natureza truculenta, uma
ditadura plutocrática, violadora de direitos humanos, que não cumpre as normas
do direito internacional, colocando em risco a paz no mundo e o seu próprio
povo.
Trump
também apresentou a nova política de segurança nacional dos Estados Unidos,
reeditando a velha Doutrina Monroe e a política do “Big Stick” (política do
porrete) de Theodor Roosevelt, centrando a sua atuação na retomada do “seu
quintal”, a América Latina, e apontando inicialmente as suas armas contra a
Venezuela e a Colômbia. Para tanto, primeiramente usou o pretexto de guerra
contra o narcotráfico e criou a noção de narcoterrorismo, narco-ativismo e
narco-Estados para atacar os governos de esquerda e centro-esquerda da região.
Na
América Latina, o imperialismo neoliberal neofascista conseguiu algumas
vitórias. Chile, Paraguai, Bolívia, Equador, Argentina, Peru estão sob governos
da direita neofascista e neoliberal. Em 2026 teremos, nos meses de maio e
junho, eleições presidenciais na
Colômbia, com o risco de que a extrema-direita volte ao poder. Em outubro serão
as eleições brasileiras com a possível reeleição de Lula, mas também com a
possibilidade de um novo congresso bem pior do que o atual.
Enquanto
isso, a Venezuela resiste aos ataques dos Estados Unidos e o cerco que se
fecha.
No
decorrer de 2025 vimos o aprofundamento da decadência da hegemonia dos Estados
Unidos e do conjunto das potências imperialistas do Ocidente, revelando a face
sombria, antidemocrática, violenta e a falsidade dos chamados valores
ocidentais.
Foi
também o ano em que perdemos a presença física de Pepe Mujica e do Papa
Francisco.
Em 2025
as investigações sobre a tentativa de golpe violento por parte de Bolsonaro,
militares e da extrema-direita brasileira revelaram que pretendiam assassinar o
Presidente Lula, o Vice Alckmin e o Ministro Alexandre de Moraes e colocar o
país sob uma ditadura.
Todas
essas revelações juntamente com provas robustas levaram ao banco dos réus e à
condenação o ex-presidente Bolsonaro e uma quantidade razoável de militares de
alta patente.
No
entanto, vimos que os neofascistas e neoliberais têm poder de fogo e até estes
últimos dias do ano não têm dado trégua ao governo do Presidente Lula, com
ataques nos editoriais da chamada grande mídia, com fake news, com a não
divulgação dos sucessos do governo no campo social e econômico e, mais uma vez,
preparando o ambiente hostil e golpista. Não podemos deixar de dar nomes aos
bois de toda essa canalha, Globo, Folha, Estadão, Veja, Jovem Pan etc, além do
grande capital financeiro (a chamada Faria Lima), classes médias incultas e
iletradas, pastores fascistas da teologia do domínio (verdadeiros mercadores da
fé) e toda aquela gente estranha que emergiu nos esgotos impulsionados pela
articulação internacional da extrema-direita.
Por
outro lado, os senhores da guerra ocidentais tocam alto os seus tambores, com a
remilitarização da Alemanha, com Macron e Starmer anunciando que seus jovens
devem se preparar para a guerra contra a Rússia. E por falar em Rússia,
continua em alta na Europa a ensandecida “russofobia”, onde diariamente a
grande imprensa bombardeia a população europeia com suas fantasiosas mentiras
de que no dia seguinte acordarão com um tanque russo na porta de casa. Aqui, em
terras europeias, vive-se a loucura, como se um cidadão lisboeta, a 5.000 km de
distância de Moscou, estivesse ameaçado pelas tropas de Putin
O
Ocidente não apenas está em decadência e degradação moral, como passou a viver
em um universo paralelo.
E
quando aqui falamos em Ocidente não estamos nos referindo ao conceito
geográfico, mas ao geopolítico, de Ocidente Coletivo Ampliado, onde se
encontram o Japão e Austrália em contraposição ao Sul Global.
Da
mesma forma que a Alemanha volta a se militarizar, temos o Japão com um governo
de extrema-direita é que também passa a ter uma retórica hostil em relação à
China e aumenta significativamente o orçamento com gastos militares.
Por
trás de tudo isso temos a grande potência decadente da América do Norte.
Ainda
falando de Ocidente e das suas ações pelo mundo afora, lembramos do cessar-fogo
de mentirinha que em nada mudou a prática do genocídio em Gaza e a violenta
ofensiva sionista na Cisjordânia, Líbano e Oriente Médio em geral. Na verdade o
braço fascista do sionismo não se restringe à Ásia Ocidental (o chamado Oriente
Médio), mas está presente em todo o mundo, inclusive dentro do território
brasileiro, ameaçando as liberdades democráticas , os
direitos
humanos e os valores de emancipação humana. O que muitos já sabiam foi
confirmado em 2025, o sionismo é uma das pragas da atualidade e uma das
expressões do neofascismo.
A
guerra na Ucrânia ainda está em curso, na verdade uma guerra da Otan contra a
Rússia, uma guerra por procuração em que o povo ucraniano entra como bucha de
canhão para os interesses do decadente Ocidente Coletivo Ampliado.
Falando
em decadência, nada mudou em relação à indecente e pusilânime posição europeia,
enterrando todas as conquistas civilizatórias da sua história e preferindo
realçar as suas vergonhosas características colonialistas e supremacistas. Mas
também mostrando a traição covarde das lideranças europeias em relação aos seus
próprios povos.
Também
tivemos a eleição em Nova York de um prefeito socialista e muçulmano, Zohran
Kwame Mamdani. A decadência do império também cria terremotos internos e
podemos vir a presenciar no futuro o renascimento de um forte movimento de
esquerda naquele país.
O
Brasil, como um dos países mais importantes do Sul Global, está sob o cerco da extrema-direita fascista
neoliberal com forte sustentação interna em forças políticas neofascistas e
neoliberais representadas pelos bolsonaristas, pelas classes dominantes
colonizadas oligárquicas e seus inúmeros representantes, no agro, na Faria
Lima, nos grandes meios de comunicação, na alta cúpula militar, nas igrejas e
em grande parte das classes médias.
Mas o
ano de 2025 também aqueceu um pouco os nossos corações com a premiação do Óscar
de melhor filme estrangeiro para o filme “Ainda estou aqui”, levando ao grande
público, nacional e estrangeiro, a mensagem de que tortura e ditadura nunca
mais.
Que
venha 2026, com os seus desafios, conflitos, lutas e resistências. Que venham
as eleições de 2026 no Brasil e
consigamos abrir o caminho para o futuro.
• O que esperar de 2026? Por Emir Sader
O ano
que vem? Ou, como nos recorda todo ano a Mafalda: O ano que vem, de onde vem?
Ou o que faremos vir? As coisas não vêm, salvo as fatídicas. Temos que fazer
vir, se queremos intervir no futuro.
No
mundo, certamente a continuidade do declínio ou a decadência da hegemonia
norte-americana no mundo, um dos fenômenos mais importantes deste período
histórico.
As
consequências do mandato suicida de Donald Trump se farão sentir cada vez mais.
Os conflitos com os anteriormente aliados, como a Europa, por exemplo, tenderão
a se intensificar, na medida em que não é um tema prioritário do “America
first” do atual governo dos Estados Unidos.
As
consequências da desastrada política tarifaria acentuarão o isolamento e os
conflitos com outros países. Na América Latina, haverá consequências da
situação de maior isolamento que jamais os Estados Unidos viveram em relação ao
continente.
A única
novidade lhe é favorável: a superação do isolamento da Argentina de Javier
Millei, com a vitória de José Antonio Kast no Chile. Ainda assim está por se
ver em que medida eles vão priorizar a aliança entre eles ou vão diversificar
sua política externa, conforme dependem muito do intercâmbio, por exemplo, com
o Brasil.
Na
América Latina, certamente se prolongarão os governos neoliberais da Argentina
e do Chile, enquanto o polo antagônico, do México e do Brasil tenderão a se
consolidar.
No
Brasil, a provável reeleição do Lula prolongará os governos do PT para um
quarto mandato do presidente do pais. Um mandato que deve, além da continuidade
e extensão da prioridade das politicas sociais, da politica de pleno emprego,
da expansão econômica e de fortalecimento do Estado, o governo terá que se
enfrentar à politica de juros altos – os segundos mais altos do mundo -, que
limite o nível de expansão da economia. Ou com a mudança do presidente do Banco
Central, quando terminar o seu mandato ou com uma intervenção nas decisões do
BC.
Nesse
provável quarto mandato, Lula da Silva deverá enfrentar um limite estrutural à
transformação dos indivíduos em cidadãos – a superação do alto nível de
analfabetismo, que ainda atinge a várias dezenas de milhões de brasileiros,
entre analfabetos originários e funcionais, aqueles que aprenderam a ler e
escreveram, mas não o praticaram e se tornaram analfabetos funcionais. O que os
impede de ter conhecimento e acesso a seus direitos.
Uma
campanha nacional por transformar o Brasil em território livre do analfabetismo
pode ser um grande objetivo do novo mandato, com a mobilização em massa de
estuantes. Um objetivo tanto mais difícil que a maior parte dos analfabetos
agora são mulheres idosas, que nunca forma alfabetizados, que tem que ser
localizados em cada estado e convencidos a que se alfabetizem, além da
adaptação do método Paulo Freire a seu respectivo vocabulário.
O mais
importante dever ser a continuidade do mandato de Lula, consolidando a
hegemonia da esquerda no país, o que só pode efetividade existir se se der
também no plano da comunicação. O PT faz bons governos, mas continua a perder a
disputa no plano da comunicação, onde o monopólio dos meios de comunicação joga
a favor da direita. Terá que se enfrentar a um mundo crescentemente hostil.
2025
foi um bom ano, tanto para o mundo, como para o Brasil. No mundo se prolongou o
processo de declínio ou de decadência da hegemonia norte-americana. Sua
economia perde peso diante da maior força tecnológica da China e sua forca
política diante do destaque cada vez maior dos Brics.
No
Brasil, o governo Lula recolocou nossa economia em expansão, com pleno emprego,
expansão inédita dos intercâmbios internacionais, renovação tecnológica,
projeção do modelo de governo brasileiro no mundo.
<><>
Que perspectiva podemos ter para o próximo ano?
No
mundo, consolidar o papel central que os Brics passaram a ter no mundo. Ampliar
ainda mais a participação de países, aceitando a incorporação da grande lista
de países que se propõem a ingressar.
Mas,
além disso, formular um projeto coletivo de perspectiva para o mundo em toda a
primeira metade do século. Um projeto que permita o mundo passar do
anti-neoliberalismo ao pós-neoliberalismo. Definirmos o que isto significa,
isto é, qual o período histórico em que a humanidade ingressará depois da era
neoliberal.
Este
deverá ser um debate essencial, ao qual se subordinam todos os outros, porque
dele dependem as perspectivas do mundo ao longo de todo o século XXI. Valer-se
do declínio ou decadência da hegemonia norte-americana para fazer do novo
século o primeiro, em tanto tempo, sem a hegemonia imperial norte-americana
como protagonista fundamental.
No
Brasil, um provável quarto mandato do governo Lula, além de estender e
aprofundar as políticas sociais – a melhor forma de combater o neoliberalismo –
tem que quebrar o eixo ainda existente do capital financeiro – em sua
modalidade especulativa – na economia brasileira.
Para
isso, precisa resolver a questão da necessidade de baixar a segunda maior taxa
de juros do mundo, que freia a chegada do país a um novo ciclo longo expansivo
da economia. Para isso, precisa tornar coerente a política econômica do governo
com a política do Banco Central.
Ainda
precisa e pode tornar o Brasil um território livre do analfabetismo. E’
impossível tornar os indivíduos cidadãos – isto é, sujeito dos seus direitos -,
sem alfabetizá-los. No país do Paulo Freire, é impossível seguir com dezenas de
milhões de analfabetos, incluídos os analfabetos funcionais, os que foram
alfabetizados, mas não o praticaram e deixaram de conseguir ler e escrever.
Um dos
principais problemas é o de que a maioria dos ainda analfabetos no Brasil são
mulheres idosas, que nunca souberam ler. Elas têm que ser convencidas das
vantagens de se alfabetizar, além de que se necessita adaptar o método do Paulo
Freire à linguagem e ao universo dessas pessoas.
Além
disso, teríamos um ano bem melhor, se conseguirmos mobilizar a grande
quantidade de estudantes para protagonizar uma campanha de tornar o Brasil um
“território livre do analfabetismo”. Por que não? Só isso já faria 2026 um ano
ainda melhor que 2025.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

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