terça-feira, 13 de janeiro de 2026

João Ricardo Dornelles: Que venha 2026, será um ano turbulento

Com certeza eu não conseguirei lembrar de todos os eventos ocorridos no decorrer de 2025, mas vale a pena relembrar algumas dessas situações, positivas e negativas, pois deixaram marcas e suas consequências possivelmente estarão presentes no ano de 2026.

Tudo indica que 2026 será um ano turbulento, tanto no Brasil e América Latina, como no resto do mundo e tentar fazer um uma breve retrospectiva de 2025 pode apontar o que nos espera no ano que chega.

Posso começar pela posse de Donald Trump, em janeiro de 2025. A primeira surpresa é que o seu mandato ainda não completou um ano e a sensação que temos é que o fanfarrão fascista ocupa há anos a cadeira da presidência dos Estados Unidos. O seu governo começou com ameaças dirigidas ao mundo todo, já anunciadas no discurso de posse, em conjunto com o seu vice JD Vance.

De cara disse que “os inimigos dos EUA, externos e internos, seriam os alvos do governo”. Ameaçou invadir o Panamá, o México, a Groenlândia, anexar o Canadá. Criou um tarifaço global, mobilizou a guarda nacional e colocou suas tropas contra a população das cidades governadas pelos democratas, especialmente as que têm prefeitos negros e mulheres.

Transformou a polícia de imigração (ICE) em uma verdadeira Gestapo e passou a perseguir, prender e deportar imigrantes, mesmo aqueles legalizados, separando famílias e criando pânico na população. Deslocou a frota de guerra para a costa da Venezuela, assassinou mais de cem pescadores venezuelanos e colombianos, roubou (com uso de violência), até o momento, três petroleiros da Venezuela. Trump mostrou a verdadeira face dos Estados Unidos, a sua natureza truculenta, uma ditadura plutocrática, violadora de direitos humanos, que não cumpre as normas do direito internacional, colocando em risco a paz no mundo e o seu próprio povo.

Trump também apresentou a nova política de segurança nacional dos Estados Unidos, reeditando a velha Doutrina Monroe e a política do “Big Stick” (política do porrete) de Theodor Roosevelt, centrando a sua atuação na retomada do “seu quintal”, a América Latina, e apontando inicialmente as suas armas contra a Venezuela e a Colômbia. Para tanto, primeiramente usou o pretexto de guerra contra o narcotráfico e criou a noção de narcoterrorismo, narco-ativismo e narco-Estados para atacar os governos de esquerda e centro-esquerda da região.

Na América Latina, o imperialismo neoliberal neofascista conseguiu algumas vitórias. Chile, Paraguai, Bolívia, Equador, Argentina, Peru estão sob governos da direita neofascista e neoliberal. Em 2026 teremos, nos meses de maio e junho,  eleições presidenciais na Colômbia, com o risco de que a extrema-direita volte ao poder. Em outubro serão as eleições brasileiras com a possível reeleição de Lula, mas também com a possibilidade de um novo congresso bem pior do que o atual.

Enquanto isso, a Venezuela resiste aos ataques dos Estados Unidos e o cerco que se fecha.

No decorrer de 2025 vimos o aprofundamento da decadência da hegemonia dos Estados Unidos e do conjunto das potências imperialistas do Ocidente, revelando a face sombria, antidemocrática, violenta e a falsidade dos chamados valores ocidentais.

Foi também o ano em que perdemos a presença física de Pepe Mujica e do Papa Francisco.

Em 2025 as investigações sobre a tentativa de golpe violento por parte de Bolsonaro, militares e da extrema-direita brasileira revelaram que pretendiam assassinar o Presidente Lula, o Vice Alckmin e o Ministro Alexandre de Moraes e colocar o país sob uma ditadura.

Todas essas revelações juntamente com provas robustas levaram ao banco dos réus e à condenação o ex-presidente Bolsonaro e uma quantidade razoável de militares de alta patente.

No entanto, vimos que os neofascistas e neoliberais têm poder de fogo e até estes últimos dias do ano não têm dado trégua ao governo do Presidente Lula, com ataques nos editoriais da chamada grande mídia, com fake news, com a não divulgação dos sucessos do governo no campo social e econômico e, mais uma vez, preparando o ambiente hostil e golpista. Não podemos deixar de dar nomes aos bois de toda essa canalha, Globo, Folha, Estadão, Veja, Jovem Pan etc, além do grande capital financeiro (a chamada Faria Lima), classes médias incultas e iletradas, pastores fascistas da teologia do domínio (verdadeiros mercadores da fé) e toda aquela gente estranha que emergiu nos esgotos impulsionados pela articulação internacional da extrema-direita.

Por outro lado, os senhores da guerra ocidentais tocam alto os seus tambores, com a remilitarização da Alemanha, com Macron e Starmer anunciando que seus jovens devem se preparar para a guerra contra a Rússia. E por falar em Rússia, continua em alta na Europa a ensandecida “russofobia”, onde diariamente a grande imprensa bombardeia a população europeia com suas fantasiosas mentiras de que no dia seguinte acordarão com um tanque russo na porta de casa. Aqui, em terras europeias, vive-se a loucura, como se um cidadão lisboeta, a 5.000 km de distância de Moscou, estivesse ameaçado pelas tropas de Putin

O Ocidente não apenas está em decadência e degradação moral, como passou a viver em um universo paralelo.

E quando aqui falamos em Ocidente não estamos nos referindo ao conceito geográfico, mas ao geopolítico, de Ocidente Coletivo Ampliado, onde se encontram o Japão e Austrália em contraposição ao Sul Global.

Da mesma forma que a Alemanha volta a se militarizar, temos o Japão com um governo de extrema-direita é que também passa a ter uma retórica hostil em relação à China e aumenta significativamente o orçamento com gastos militares.

Por trás de tudo isso temos a grande potência decadente da América do Norte.

Ainda falando de Ocidente e das suas ações pelo mundo afora, lembramos do cessar-fogo de mentirinha que em nada mudou a prática do genocídio em Gaza e a violenta ofensiva sionista na Cisjordânia, Líbano e Oriente Médio em geral. Na verdade o braço fascista do sionismo não se restringe à Ásia Ocidental (o chamado Oriente Médio), mas está presente em todo o mundo, inclusive dentro do território brasileiro, ameaçando as liberdades democráticas , os

direitos humanos e os valores de emancipação humana. O que muitos já sabiam foi confirmado em 2025, o sionismo é uma das pragas da atualidade e uma das expressões do neofascismo.

A guerra na Ucrânia ainda está em curso, na verdade uma guerra da Otan contra a Rússia, uma guerra por procuração em que o povo ucraniano entra como bucha de canhão para os interesses do decadente Ocidente Coletivo Ampliado.

Falando em decadência, nada mudou em relação à indecente e pusilânime posição europeia, enterrando todas as conquistas civilizatórias da sua história e preferindo realçar as suas vergonhosas características colonialistas e supremacistas. Mas também mostrando a traição covarde das lideranças europeias em relação aos seus próprios povos.

Também tivemos a eleição em Nova York de um prefeito socialista e muçulmano, Zohran Kwame Mamdani. A decadência do império também cria terremotos internos e podemos vir a presenciar no futuro o renascimento de um forte movimento de esquerda naquele país.

O Brasil, como um dos países mais importantes do Sul Global,  está sob o cerco da extrema-direita fascista neoliberal com forte sustentação interna em forças políticas neofascistas e neoliberais representadas pelos bolsonaristas, pelas classes dominantes colonizadas oligárquicas e seus inúmeros representantes, no agro, na Faria Lima, nos grandes meios de comunicação, na alta cúpula militar, nas igrejas e em grande parte das classes médias.

Mas o ano de 2025 também aqueceu um pouco os nossos corações com a premiação do Óscar de melhor filme estrangeiro para o filme “Ainda estou aqui”, levando ao grande público, nacional e estrangeiro, a mensagem de que tortura e ditadura nunca mais.

Que venha 2026, com os seus desafios, conflitos, lutas e resistências. Que venham as eleições de 2026 no Brasil e  consigamos abrir o caminho para o futuro.

•        O que esperar de 2026? Por Emir Sader

O ano que vem? Ou, como nos recorda todo ano a Mafalda: O ano que vem, de onde vem? Ou o que faremos vir? As coisas não vêm, salvo as fatídicas. Temos que fazer vir, se queremos intervir no futuro.

No mundo, certamente a continuidade do declínio ou a decadência da hegemonia norte-americana no mundo, um dos fenômenos mais importantes deste período histórico.

As consequências do mandato suicida de Donald Trump se farão sentir cada vez mais. Os conflitos com os anteriormente aliados, como a Europa, por exemplo, tenderão a se intensificar, na medida em que não é um tema prioritário do “America first” do atual governo dos Estados Unidos.

As consequências da desastrada política tarifaria acentuarão o isolamento e os conflitos com outros países. Na América Latina, haverá consequências da situação de maior isolamento que jamais os Estados Unidos viveram em relação ao continente.

A única novidade lhe é favorável: a superação do isolamento da Argentina de Javier Millei, com a vitória de José Antonio Kast no Chile. Ainda assim está por se ver em que medida eles vão priorizar a aliança entre eles ou vão diversificar sua política externa, conforme dependem muito do intercâmbio, por exemplo, com o Brasil.

Na América Latina, certamente se prolongarão os governos neoliberais da Argentina e do Chile, enquanto o polo antagônico, do México e do Brasil tenderão a se consolidar.

No Brasil, a provável reeleição do Lula prolongará os governos do PT para um quarto mandato do presidente do pais. Um mandato que deve, além da continuidade e extensão da prioridade das politicas sociais, da politica de pleno emprego, da expansão econômica e de fortalecimento do Estado, o governo terá que se enfrentar à politica de juros altos – os segundos mais altos do mundo -, que limite o nível de expansão da economia. Ou com a mudança do presidente do Banco Central, quando terminar o seu mandato ou com uma intervenção nas decisões do BC.

Nesse provável quarto mandato, Lula da Silva deverá enfrentar um limite estrutural à transformação dos indivíduos em cidadãos – a superação do alto nível de analfabetismo, que ainda atinge a várias dezenas de milhões de brasileiros, entre analfabetos originários e funcionais, aqueles que aprenderam a ler e escreveram, mas não o praticaram e se tornaram analfabetos funcionais. O que os impede de ter conhecimento e acesso a seus direitos.

Uma campanha nacional por transformar o Brasil em território livre do analfabetismo pode ser um grande objetivo do novo mandato, com a mobilização em massa de estuantes. Um objetivo tanto mais difícil que a maior parte dos analfabetos agora são mulheres idosas, que nunca forma alfabetizados, que tem que ser localizados em cada estado e convencidos a que se alfabetizem, além da adaptação do método Paulo Freire a seu respectivo vocabulário.

O mais importante dever ser a continuidade do mandato de Lula, consolidando a hegemonia da esquerda no país, o que só pode efetividade existir se se der também no plano da comunicação. O PT faz bons governos, mas continua a perder a disputa no plano da comunicação, onde o monopólio dos meios de comunicação joga a favor da direita. Terá que se enfrentar a um mundo crescentemente hostil.

2025 foi um bom ano, tanto para o mundo, como para o Brasil. No mundo se prolongou o processo de declínio ou de decadência da hegemonia norte-americana. Sua economia perde peso diante da maior força tecnológica da China e sua forca política diante do destaque cada vez maior dos Brics.

No Brasil, o governo Lula recolocou nossa economia em expansão, com pleno emprego, expansão inédita dos intercâmbios internacionais, renovação tecnológica, projeção do modelo de governo brasileiro no mundo.

<><> Que perspectiva podemos ter para o próximo ano?

No mundo, consolidar o papel central que os Brics passaram a ter no mundo. Ampliar ainda mais a participação de países, aceitando a incorporação da grande lista de países que se propõem a ingressar.

Mas, além disso, formular um projeto coletivo de perspectiva para o mundo em toda a primeira metade do século. Um projeto que permita o mundo passar do anti-neoliberalismo ao pós-neoliberalismo. Definirmos o que isto significa, isto é, qual o período histórico em que a humanidade ingressará depois da era neoliberal.

Este deverá ser um debate essencial, ao qual se subordinam todos os outros, porque dele dependem as perspectivas do mundo ao longo de todo o século XXI. Valer-se do declínio ou decadência da hegemonia norte-americana para fazer do novo século o primeiro, em tanto tempo, sem a hegemonia imperial norte-americana como protagonista fundamental.

No Brasil, um provável quarto mandato do governo Lula, além de estender e aprofundar as políticas sociais – a melhor forma de combater o neoliberalismo – tem que quebrar o eixo ainda existente do capital financeiro – em sua modalidade especulativa – na economia brasileira.

Para isso, precisa resolver a questão da necessidade de baixar a segunda maior taxa de juros do mundo, que freia a chegada do país a um novo ciclo longo expansivo da economia. Para isso, precisa tornar coerente a política econômica do governo com a política do Banco Central.

Ainda precisa e pode tornar o Brasil um território livre do analfabetismo. E’ impossível tornar os indivíduos cidadãos – isto é, sujeito dos seus direitos -, sem alfabetizá-los. No país do Paulo Freire, é impossível seguir com dezenas de milhões de analfabetos, incluídos os analfabetos funcionais, os que foram alfabetizados, mas não o praticaram e deixaram de conseguir ler e escrever.

Um dos principais problemas é o de que a maioria dos ainda analfabetos no Brasil são mulheres idosas, que nunca souberam ler. Elas têm que ser convencidas das vantagens de se alfabetizar, além de que se necessita adaptar o método do Paulo Freire à linguagem e ao universo dessas pessoas.

Além disso, teríamos um ano bem melhor, se conseguirmos mobilizar a grande quantidade de estudantes para protagonizar uma campanha de tornar o Brasil um “território livre do analfabetismo”. Por que não? Só isso já faria 2026 um ano ainda melhor que 2025.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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