terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Como o mundo caminha para a queda na produção de petróleo

Com mudanças climáticas, debate não gira mais em torno do fim do combustível, e sim sobre quando a produção mundial vai atingir seu pico: em dois ou 25 anos?...

O pico da produção mundial de petróleo já chegou a causar medo em formuladores de políticas, empresas e consumidores. É um momento à espreita em que o mundo poderia sugar as últimas gotas do ouro negro do solo – mais ou menos como quando o canudo chega ao fundo do copo de um milkshake.

A ideia foi popularizada na década de 1950 pelo geólogo M. King Hubbert. Ele alertou que a produção de petróleo nos Estados Unidos seguiria uma curva em forma de sino e acabaria atingindo um pico inevitável enquanto os campos fossem amadurecendo e depois diminuindo.

As mudanças climáticas inverteram essa narrativa nos últimos anos. Em vez de temer a escassez, o debate agora gira em torno de quando a demanda finalmente atingirá o pico, à medida que a transição para veículos elétricos (VE) e outras energias limpas ganha força.

Ao mesmo tempo, a resistência política – desde atrasos nas proibições de carros com motor a combustão até a redução de subsídios para VEs — lança dúvidas sobre a velocidade dessa transição.

<><> Fornecer petróleo está mais difícil

Há duas visões opostas sobre quando a demanda global por petróleo começará a declinar. A Agência Internacional de Energia (AIE), órgão com sede em Paris que representa as principais nações consumidoras de petróleo, projeta que a demanda se estabilizará em torno de 102 milhões de barris por dia (bpd) até 2030.

Em seu relatório World Energy Outlook 2025 , publicado no mês passado, o principal "Cenário de Políticas Declaradas" da AIE projeta que os governos cumprirão metas ambiciosas de energia e clima.

Mas a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tem opinião oposta. Em sua mais recente perspectiva de longo prazo , o grupo de produtores prevê que a demanda continuará crescendo por décadas e não vê um pico antes de 2050, calculando que o consumo chegará a quase 123 milhões de bpd até meados do século.

Por outro lado, as duas organizações têm a mesma preocupação implícita: está ficando mais difícil sustentar o fornecimento. A Opep acredita que o forte crescimento da demanda justificará investimentos contínuos para garantir reservas abundantes de seus membros por décadas. A AIE, por outro lado, apresenta uma perspectiva mais contida.

<><> Pressão de Trump

Sob pressão do governo do presidente americano, Donald Trump , a AIE reintroduziu seu Cenário de Políticas Atuais mais conservador, que havia sido descartado em 2020. Ele tem como base leis vigentes e tendências observáveis que ficam muito aquém de quaisquer ambições climáticas.

Esse cenário sugere que o crescimento da oferta deverá desacelerar após 2028, à medida que fontes não pertencentes à OPEP, como Estados Unidos, Brasil , Guiana e Canadá, diminuírem. Com isso, a oferta mundial passaria a depender dos países da Opep no Oriente Médio, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque.

A demanda por petróleo, por sua vez, poderia chegar a 113 milhões de barris por dia até 2050, caso as promessas climáticas não sejam implementadas, alerta a AIE.

Franziska Holz, vice-chefe do departamento de energia, transporte e meio ambiente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW Berlin), considera a retomada do cenário conservador pela AIE um "aspecto positivo", pois a medida prova que o mundo "não está no caminho certo para atingir nossas metas climáticas... [e] não está rápido o suficiente na substituição dos combustíveis fósseis em nossa matriz energética ".

Holz ironizou que "os americanos provavelmente não tinham essa intenção" quando pressionaram a AIE a recuperar o cenário mais cauteloso.

<><> Novas descobertas em declínio

Quando se trata do pico do petróleo, ambas as organizações apontam para o mesmo risco subjacente: o fornecimento de petróleo não vai se resolver sozinho. Os campos mais antigos estão diminuindo rapidamente e, sem investimentos contínuos, a produção dos locais existentes cairá cerca de 8% ao ano, alertou a AIE em novembro.

São necessárias enormes quantidades de nova produção apenas para manter o fornecimento global estável. No entanto, a maior parte dos gastos é destinada a compensar o declínio dos campos envelhecidos, em vez de colocar em operação novas produções significativas.

O setor petrolífero parece estar correndo apenas para permanecer no mesmo lugar: as descobertas de novos campos está em níveis historicamente baixos, cresce a dependência de poços de xisto e os poços de perfuração em águas profundas se esgotam rapidamente.

Antonio Turiel, físico e pesquisador do Conselho Superior de Investigaçõess Científicas (CSIC) da Espanha, argumenta que o boom do fraturamento hidráulico nos EUA, motor do crescimento fora da Opep, já está se aproximando do esgotamento. Os melhores pontos de perfuração na Bacia do Permiano, no Texas e Novo México, já foram explorados e as taxas de declínio estão acelerando.

"Após 15 anos intensos, estamos chegando ao fim da estrada do fraturamento hidráulico ", disse Turiel à DW. "Podemos manter a miragem por mais um ou dois anos, mas depois a queda será incrivelmente rápida.”

<><> Campos envelhecidos

Turiel acredita que o mundo está se aproximando de um pico de produção mundial do petróleo muito mais cedo do que a maioria das agências está disposta a admitir, observando que 80% de todos os campos petrolíferos "já passaram do seu pico de produção".

Além do xisto, ele acrescenta que o mundo tem sido excessivamente dependente de campos supergigantes envelhecidos para garantir estabilidade, cuja fase mais rápida de declínio está prestes a começar.

"É muito provável que comecemos a ter quedas anuais acentuadas – cerca de 5% ao ano – mesmo antes de 2030", disse à DW. "Depois desse ponto, espere uma redução na quantidade bruta de petróleo extraído anualmente de cerca de 50% em 20 anos."

Turiel destacou que, de 2020 a 2025, foi descoberta uma média de 3 bilhões de barris por dia – o equivalente 12 vezes menos do que o consumo global. E enquanto a Opep não prevê pico do petróleo e o pior cenário da AIE não vê uma queda antes de 2050, a linha do tempo de Turiel é contundente: "Provavelmente até 2027, mas certamente antes de 2030. E ainda mais cedo se ocorrerem alguns problemas geopolíticos indesejáveis."

<><> Poucos países estão cumprindo a transição para energia limpa

Apesar de todo o debate sobre quando a demanda por petróleo atingirá o pico, a distância entre as promessas climáticas dos governos e as políticas que eles realmente implementam continua ampla e crescendo.

Apenas alguns países construíram estruturas duradouras para acelerar a transição para energia limpa, incluindo as políticas de veículos elétricos da Noruega, a estratégia industrial de tecnologia limpa da China e as leis climáticas da União Europeia.

Por outro lado, os EUA sob o presidente Donald Trump avançaram para expandir a produção doméstica de petróleo e gás, enfraquecer regulamentos climáticos federais e reduzir o apoio aos veículos elétricos – o que, segundo analistas, provavelmente retardará a transição global para longe dos combustíveis fósseis.

Jeff Colgan, professor de ciência política na Universidade Brown, em Rhode Island, acredita que o governo Trump não apenas está desfazendo os esforços de seu antecessor, Joe Biden, para apoiar a política industrial verde nos EUA, mas tem "atacado" a ciência e as instituições do governo americano que fomentaram a política climática.

"Isso tem implicações não apenas para a política ambiental dos EUA, mas terá efeitos em cascata em todo o mundo", afirmou.

•        Renováveis ultrapassam carvão e se tornam maior fonte de energia elétrica pela 1ª vez na história

A energia renovável ultrapassou o carvão como a principal fonte de eletricidade no mundo no primeiro semestre deste ano — uma primeira histórica, segundo novos dados do think tank global de energia Ember.

A demanda por eletricidade está crescendo em todo o mundo, mas o aumento da energia solar e eólica foi tão forte que supriu 100% da demanda adicional, ajudando até a provocar uma leve queda no uso de carvão e gás.

No entanto, o Ember afirma que as manchetes escondem um panorama global misto. Países em desenvolvimento, especialmente a China, lideraram o avanço da energia limpa, enquanto nações mais ricas, incluindo EUA e União Europeia, passaram a depender mais do que antes de combustíveis fósseis que aquecem o planeta para gerar eletricidade.

O carvão, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global, ainda foi a maior fonte individual de geração de energia no mundo em 2024, posição que mantém há mais de 50 anos, segundo a Agência Internacional de Energia.

A China continua muito à frente no crescimento da energia limpa, adicionando mais capacidade solar e eólica do que o resto do mundo somado. Isso permitiu que o crescimento da geração renovável na China superasse a demanda crescente por eletricidade e ajudasse a reduzir a geração a partir de combustíveis fósseis em 2%.

A Índia apresentou um crescimento mais lento na demanda por eletricidade e também adicionou capacidade significativa de energia solar e eólica, o que permitiu ao país reduzir o uso de carvão e gás.

Em contraste, nações desenvolvidas como os EUA e a União Europeia registraram a tendência oposta. Nos EUA, a demanda por eletricidade cresceu mais rápido do que a produção de energia limpa, aumentando a dependência de combustíveis fósseis, enquanto na UE, meses de desempenho fraco de energia eólica e hidrelétrica levaram a um aumento na geração a partir de carvão e gás.

<><> Ponto de virada 'crucial'

Apesar dessas diferenças regionais, o Ember considera este momento um "ponto de virada crucial".

A analista sênior do Ember, Malgorzata Wiatros-Motyka, disse que ele "marca o início de uma mudança em que a energia limpa está acompanhando o crescimento da demanda".

A energia solar foi responsável pela maior parte do crescimento, atendendo a 83% do aumento da demanda por eletricidade. Ela já é a maior fonte de nova eletricidade no mundo há três anos consecutivos.

A maior parte da geração solar (58%) ocorre atualmente em países de baixa renda, muitos dos quais registraram crescimento explosivo nos últimos anos.

Isso se deve a reduções espetaculares nos custos. Os preços da energia solar caíram impressionantes 99,9% desde 1975 e agora estão tão baixos que grandes mercados solares podem surgir em um país no espaço de apenas um ano, especialmente onde a eletricidade da rede é cara e pouco confiável, afirma o Ember.

O Paquistão, por exemplo, importou painéis solares capazes de gerar 17 gigawatts (GW) de energia solar em 2024, o dobro do ano anterior, equivalente a cerca de um terço da capacidade atual de geração de eletricidade do país.

A África também vive um boom solar, com importações de painéis crescendo 60% em relação ao ano anterior, no período até junho. A África do Sul, dependente do carvão, liderou o crescimento, enquanto a Nigéria ultrapassou o Egito, ocupando o segundo lugar com 1,7 GW de capacidade solar — suficiente para atender à demanda elétrica de cerca de 1,8 milhão de residências na Europa.

Alguns países africanos menores registraram crescimento ainda mais rápido: a Argélia aumentou suas importações 33 vezes, Zâmbia oito vezes e Botsuana sete vezes.

Em alguns países, o crescimento da energia solar tem sido tão rápido que cria desafios inesperados.

No Afeganistão, o uso generalizado de bombas de água movidas a energia solar está baixando o nível do lençol freático, ameaçando o acesso de longo prazo à água subterrânea. Um estudo do pesquisador David Mansfield e da empresa de dados por satélite Alcis alerta que algumas regiões podem secar em cinco a dez anos, colocando em risco milhões de meios de subsistência.

Adair Turner, presidente do think tank Energy Transitions Commission, do Reino Unido, afirma que os países da "faixa solar" e da "faixa eólica" globais enfrentam desafios energéticos muito diferentes.

Os países da faixa solar — incluindo grande parte da Ásia, África e América Latina — precisam de grandes quantidades de eletricidade para o ar condicionado durante o dia. Esses países podem reduzir significativamente os custos de energia quase imediatamente ao adotar sistemas baseados em energia solar, apoiados por baterias cada vez mais acessíveis que armazenam energia do dia para a noite.

Os países da faixa eólica, como o Reino Unido, enfrentam obstáculos maiores. Os custos de turbinas eólicas não caíram tanto quanto os dos painéis solares — diminuíram apenas cerca de um terço na última década. Taxas de juros mais altas também aumentaram os custos de empréstimos e elevaram significativamente o preço total para instalar parques eólicos nos últimos anos.

Equilibrar a oferta é mais difícil ainda: períodos de vento fraco no inverno podem durar semanas, exigindo fontes de energia de reserva que apenas baterias não conseguem fornecer — tornando o sistema mais caro para construir e operar.

Mas, em qualquer lugar do mundo, o domínio avassalador da China nas indústrias de tecnologia limpa permanece incontestável, mostram novos dados do Ember.

Em agosto de 2025, suas exportações de tecnologia limpa atingiram um recorde de US$ 20 bilhões, impulsionadas pelo aumento nas vendas de veículos elétricos (26%) e baterias (23%).

Juntos, veículos elétricos e baterias da China agora valem mais do que o dobro das exportações de painéis solares do país.

 

Fonte: DW Brasil/BBC News Brasil

 

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