Trump,
o Gorbachev do Ocidente?
Há algo
de profundamente simbólico – e de uma ironia fina – no fato de o Kremlin ter
saudado a nova Estratégia de Segurança Nacional (National Security Strategy,
ou NSS) de Donald Trump como “largamente consistente” com a visão russa da
ordem mundial.
Não é
trivial que Dmitri Peskov, o porta-voz de Vladimir Putin, aplauda uma doutrina
elaborada em Washington. Mas, quando o texto americano promete “restabelecer a
estabilidade estratégica com a Rússia” e rebaixa a guerra na Ucrânia de cruzada
moral a um problema de gestão regional, não estamos diante de mera nuance
diplomática. Estamos, em essência, vendo a assinatura do atestado de óbito da
Otan como a conhecemos desde 1949.
De
jure,
nada muda: o Tratado do Atlântico Norte continua em vigor, o Artigo 5º (segundo
o qual um ataque a um país aliado é um ataque a todos) não foi revogado, a sede
em Bruxelas permanece e os generais seguem cumprindo seus ritos e protocolos.
Mas, de facto, a nova estratégia esvazia o propósito central da
aliança: a garantia existencial de segurança europeia sob a liderança
americana.
O texto
da NSS é cristalino, talvez até brutal, em dois pontos.
Primeiro,
sobre a Ucrânia: “É um interesse central dos Estados Unidos negociar uma rápida
cessação das hostilidades, de modo a estabilizar as economias europeias,
prevenir escaladas e permitir que a Ucrânia sobreviva como um Estado viável.”
Note-se,
primeiramente, o que não foi dito: não se fala em vitória, em reconquista
integral do território ucraniano invadido pela Rússia ou em adesão à Otan. A
guerra torna-se um passivo a ser liquidado, de preferência com o ônus
transferido aos europeus.
Segundo,
sobre a própria aliança. A estratégia abandona a ideia de expansão perpétua da
Otan e introduz o chamado Hague Commitment: um novo “padrão” que
exige de cada aliado uma despesa de 5% do PIB em defesa.
Para a
maioria das economias europeias – que mal conseguem chegar a 2% em seus gastos
militares –, trata-se, na prática, de uma espécie de pílula de veneno: uma meta
inatingível, desenhada mais para justificar o desengajamento americano do que
para ser cumprida.
Ao
declarar que “acabaram os dias em que os Estados Unidos sustentavam a ordem
mundial como Atlas” e insistir no burden-shifting (transferência
de fardo) em vez de burden-sharing (partilha de fardo),
Washington envia um sinal inequívoco.
Numa
aliança defensiva, a dissuasão não depende da letra do tratado, mas da crença,
em Moscou, de que o Salão Oval realmente ordenaria um ataque nuclear para
salvar Tallinn ou Varsóvia. Quando o fiador do Artigo 5º abdica do papel de
Atlas e condiciona sua proteção a uma meta orçamentária irreal, a Otan vira uma
“aliança condicional”. O Ocidente político, tal como foi desenhado no
pós-Segunda Guerra, entra em dissolução.
Paradoxalmente,
trata-se de uma notícia tardia, mas que guarda uma simetria histórica
necessária. Tardia porque a dissolução de um bloco militar anacrônico chega
trinta anos depois do ideal; necessária porque o prolongamento artificial dessa
hegemonia foi o que nos trouxe até aqui.
No fim
dos anos 1980, Mikhail Gorbachev falava em uma “casa comum europeia”: uma
arquitetura de segurança que integrasse a União Soviética (e depois a Rússia)
numa comunidade política do Atlântico aos Urais. A ideia era que o fim do Pacto
de Varsóvia – a aliança militar entre a URSS e os países do Leste Europeu –
fosse acompanhado por uma reconfiguração simétrica da Otan, ou até sua
substituição por um sistema pan-europeu.
O
Ocidente desdenhou a oferta. Mas houve um segundo momento, hoje quase apagado
da memória coletiva, em que a história poderia ter tomado outro rumo.
Em 25
de setembro de 2001, apenas duas semanas após os atentados da Al-Qaeda nos
Estados Unidos, Vladimir Putin discursou no Parlamento alemão, o Bundestag.
Falando em alemão fluente e quase sem sotaque – herança de seus anos como
oficial da KGB em Dresden –, Putin citou Goethe, Schiller e Kant.
Foi
aplaudido de pé. Naquela tarde, ele ofereceu à Europa uma parceria estratégica
profunda: propôs que a Rússia combinasse seus vastos recursos naturais e
humanos com a tecnologia e o capital europeus para criar uma potência econômica
global. Em outras palavras, Putin alertava que a segurança na Europa não
poderia ser construída contra a Rússia, mas apenas com ela.
Escutávamos
ali o grito derradeiro por uma “Grande Europa”. O Ocidente, embriagado pelo
triunfalismo do “fim da história”, tratou a oferta de Putin como um discurso
meramente protocolar. Em vez de integrar a Rússia, optou pela expansão
unilateral da Otan para o Leste, incorporando pouco a pouco antigos satélites
soviéticos.
De
dezesseis membros originais, a Otan passou a contar, às vésperas da guerra na
Ucrânia, com trinta países. A Rússia era tratada não como uma nação vizinha – a
aliada que mais sacrificou vidas na luta contra a Alemanha nazista –, mas como
uma potência derrotada.
O
resultado é a tragédia atual. A partir de 2007, depois de outro famoso discurso
na Alemanha, na Conferência de Segurança de Munique, Putin passou a fazer uma
crítica frontal à ordem unipolar e colocou a questão: “Contra quem se destina
essa expansão?”
Os
eventos de 2014 em Kiev – a chamada “revolução colorida de Maidan”, abertamente
apoiada e até organizada pelos Estados Unidos e por alguns países europeus – e
a subsequente crise na Ucrânia precipitaram a virada da política externa da
Rússia, que passou a aprofundar sistematicamente sua relação com a China e a
Ásia em geral, em resposta ao congelamento das relações com os Estados Unidos e
a União Europeia.
Depois
de 2014, Moscou desistiu do Ocidente. A virada estratégica para o Oriente e a
formação de uma entente sino-russa cada vez mais orgânica são
corolários da arrogância atlântica. Tudo o que a “casa comum” teria evitado –
uma potência nuclear europeia alienada da própria União Europeia e em simbiose
com a China – tornou-se realidade porque se preferiu prolongar a hegemonia
americana via Otan.
Se o
atual desengajamento dos Estados Unidos tivesse ocorrido nos anos 1990, ou
mesmo após aquele discurso de Putin no Bundestag em 2001, a Europa teria sido
obrigada a assumir sua segurança e negociar um arranjo estável com Moscou. O
redesenho da NSS de Trump, portanto, é a correção de rota que chega depois do
naufrágio.
Será
plausível levantar a hipótese de que Trump corre o risco de entrar para a
história como uma espécie de Gorbachev do Ocidente?
Gorbachev
não acordou com o propósito de implodir a URSS. Suas reformas (glasnost e perestroika)
buscavam modernizar e salvar o sistema soviético. Foi a lógica interna dessas
reformas, chocando-se com uma estrutura exaurida, que produziu o colapso.
De modo
análogo, Trump não pauta a NSS com o objetivo consciente de dissolver o
Ocidente. Ele quer recentralizar o poder americano, cortar custos e focar na
competição com a China. Mas, ao transformar a Otan em aliança condicional e
ideologicamente conflitiva – o novo documento chega a falar em “apagamento
civilizacional” da Europa devido à imigração e promete “cultivar resistência”
contra as elites de Bruxelas –, Trump corrói de maneira irreversível o amálgama
político da aliança.
Dias
depois da divulgação da nova NSS, em entrevista a Dasha Burns, do jornal
digital Politico, em 8 de dezembro, o próprio presidente
explicitaria esse subtexto ao descrever a Europa como um continente de nações
“em decadência”, “destruídas” por políticas migratórias permissivas que, em
muitos casos, podem fazer com que os países deixem de ser “viáveis”.
O que
no documento aparece como diagnóstico de “apagamento civilizacional” ganha, na
voz de Trump, a forma de um veredito de fim de linha para o projeto europeu tal
como o conhecemos.
O que
se passou com o Pacto de Varsóvia no final dos anos 1980 – um centro que já não
podia mandar e periferias que já não queriam obedecer – começa a se esboçar no
Atlântico Norte. Como a Moscou de Gorbachev, Washington sinaliza que não quer
mais custear a arquitetura que os próprios Estados Unidos erigiram.
Se o
desengajamento dos Estados Unidos em relação à Europa parece, à primeira vista,
um ato de isolacionismo do governo americano, uma leitura mais atenta da NSS
revela que se trata, na verdade, de uma realocação brutal de prioridades. Para
a Casa Branca, a Rússia é um problema de segurança regional – um incômodo que a
Europa rica deve resolver. A China, por outro lado, é tratada como o desafio
sistêmico e existencial à primazia americana.
O
documento oficializa o fim do livre comércio de facto e
inaugura a era da “reciprocidade estratégica”. Nesse caso, a guerra não se
trava mais com tanques nas planícies, mas com semicondutores e tarifas. Taiwan
deixa de ser defendida pela retórica moral como uma “democracia vibrante” e
passa a ser encarada como um foco de interesse material vital: o país asiático
que é líder mundial na fabricação de chips torna-se um “escudo de silício” cujo
controle não pode cair nas mãos de Pequim.
O
paradoxo é gritante: enquanto a Otan vira um tigre de papel no lado atlântico,
Trump tenta construir uma “Otan ativa” na região do Indo-Pacífico, pressionando
Japão e Coreia do Sul a se armarem. É nesse xadrez que a Índia é elevada ao
status de pivô indispensável, mas numa ótica estritamente transacional.
Washington
oferece a Nova Délhi um salvo-conduto que nega a outros aliados: tolera
tacitamente a autonomia diplomática indiana (e seus laços com Moscou), desde
que o Elefante sirva de contrapeso físico e demográfico ao Dragão. A Índia não
é cortejada por causa de valores democráticos compartilhados, mas por ser a
única peça no tabuleiro capaz de completar o cerco americano à China, que vai
do Mar do Japão ao Himalaia.
O
isolacionismo de Trump é seletivo: ele retira as fichas da mesa europeia apenas
para apostá-las todas na mesa asiática. Contudo, essa visão de túnel focada na
Ásia acabou criando um ponto cego fatal em seu próprio hemisfério.
Enquanto
os olhos de Washington estavam fixos no Estreito de Taiwan, a retaguarda ficou
desguarnecida. No teatro das Américas, a nova NSS tenta ressuscitar a Doutrina
Monroe, prometendo endurecer fronteiras e asfixiar regimes adversários, como o
da Venezuela. Contudo, a realidade impõe um efeito bumerangue imediato e
tangível, marcado não por retórica, mas por movimentações militares e
econômicas que decretam o fim da hegemonia inconteste dos Estados Unidos na
região.
O vácuo
diplomático e as sanções unilaterais de Washington não isolaram o hemisfério;
pelo contrário, convidaram os rivais a entrarem pela porta da frente.
O
marcador definitivo dessa mudança é a presença material de vetores de força
russos no Caribe: o deslocamento do submarino de propulsão nuclear Kazan e da
fragata Admiral Gorshkov (equipada com mísseis de capacidade estratégica) para
portos aliados, como Havana, impõe um limite para a projeção unilateral de
poder pelos Estados Unidos.
Simultaneamente,
o apoio da China à Venezuela – provendo infraestrutura, crédito e suporte
tecnológico – cimenta uma alternativa real ao sistema financeiro dominado pelo
dólar.
Esses
fatos sinalizam a erosão do Corolário Roosevelt, de 1904, que por mais de um
século serve de justificativa para a pretensão dos Estados Unidos de intervir
unilateralmente na América Latina e atuar como poder tutelar no Hemisfério
Ocidental.
Aparentemente,
Washington perde a capacidade de atuar como o gendarme exclusivo do continente.
O que a NSS trata como uma esfera de influência americana é, hoje, um cenário
de disputa multipolar.
Ao
tentar impor uma doutrina do século XIX em um mundo do século XXI, os Estados
Unidos apenas aceleram a consolidação de postos avançados de Moscou e Pequim
nas Américas.
Visto
desse ângulo, do ponto de vista americano, o desengajamento dos Estados Unidos
da Europa é uma decisão certa, tomada tarde demais, com 35 anos de atraso.
Certa,
porque tenta restabelecer a simetria perdida com o fim da Guerra Fria e obriga
a Europa a sair de sua longa adolescência estratégica ou talvez assumir o
status de museu do Ocidente, grande polo de turismo e península periférica da
Eurasia. Tardia, porque, como vimos, chega depois que a oportunidade de
integração russa foi desperdiçada, e a Ucrânia, devastada, sem falar no risco
de uma Terceira Guerra Mundial.
No
entanto, para além do drama europeu, coloca-se uma interrogação urgente para o
Sul Global: terá o Brasil a ousadia de atuar como ator regional ativo dessa
nova ordem?
Diante
de uma Washington que se retrai para o nacionalismo e impõe sanções aos países,
abre-se a janela para que o Itamaraty assuma uma postura mais proativa,
inclusive na relação com os Estados Unidos.
Historicamente,
grandes impérios trataram outras potências como vassalos ou adversários. A
China imperial das dinastias Ming e Qing assim tratou seus interlocutores,
exigindo a genuflexão deles como ponto de partida para qualquer diálogo. O
Império Britânico, idem, sob outras formas e com outros protocolos, mas igual
arrogância.
Talvez
agora, nessa transição para um mundo multipolar, em que os Estados Unidos ainda
figurarão como uma grande potência, mas sem o papel de hegemon global,
Washington finalmente reconheça que deverá assumir formas de diálogo para além
do binômio simplificador vassalo-inimigo.
Do lado
brasileiro, a nova realidade exige coragem para operar o que hoje ainda é
apenas retórica: assumir o papel de mediador entre Estados Unidos e Venezuela,
papel que, hoje, só o Brasil tem condições de exercer.
Descontando
os arroubos retóricos de Trump – que se pronuncia a respeito de tudo e depois
diz o contrário, às vezes no mesmo dia –, e discernindo os reais interesses dos
Estados Unidos, teremos também de embarcar num diálogo diplomático sério sobre
os problemas reais de segurança e energia da América Latina, desde que,
evidentemente, tenhamos contrapartida em Washington.
Uma entente entre
as duas potências das Américas – Estados Unidos e Brasil – pode estabilizar a
região e assegurar a segurança em energias tanto tradicionais quanto
alternativas, o que será condição absolutamente central para atravessar as
tempestades do século XXI.
Tudo
isso tem de ser feito mantendo vivas e aprofundando as relações com os
parceiros dos Brics, especialmente a China. Caso os europeus acordem de seu
sonho estratégico, talvez se deem conta da magnífica oportunidade que constitui
para eles a celebração do Acordo União Europeia-Mercosul – que, para nós, será
um avanço importante, mas não essencial.
Se
Gorbachev, sem querer, encerrou a ordem bipolar pelo lado soviético, Trump
parece estar, também sem querer, encerrando a ordem unipolar, pelo lado
atlântico. A história dirá se esse “Gorbachev de boné vermelho do Maga” será
lembrado como o coveiro de uma hegemonia esgotada ou como o catalisador de um
mundo mais perigoso.
De
qualquer forma, uma coisa é certa: depois dessa nova NSS, a Otan virou um
zumbi.Caminha, mas já não tem alma.
Já a
América do Sul tem a permissão tácita da história para caminhar com as próprias
pernas – sobretudo se tiver a clareza de enfrentar a crise da Venezuela não
como um dilema entre democracia e autoritarismo, mas como a escolha entre
tutela e autonomia.
Fonte:
Por Philip Yang é fundador do Instituto Urbem e senior fellow do Centro
Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), para Viomundo

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