terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Doutrina Trump: Europa precisa abandonar Otan e integrar nova arquitetura de segurança global

A Otan e outros belicistas da elite ocidental continuam a se debater desesperadamente após a publicação da Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) do governo de Donald Trump, a qual, apesar de seus muitos aspectos questionáveis, “provocou de maneira útil uma crise que se esperava há muito tempo”, nas palavras da fundadora do Instituto Schiller, Helga Zepp-LaRouche. Em sua declaração “Saiam da Otan! A nova Estratégia de Segurança Nacional requer uma nova arquitetura de segurança”, Zepp-LaRouche afirma: “Nas condições atuais de uma crise financeira do sistema transatlântico, o novo documento criou a oportunidade de reavaliar racionalmente os próprios interesses de segurança e de redesenhar a arquitetura de segurança internacional.”

Somente um redesenho de toda a arquitetura de segurança global pode enfrentar qualquer uma das crises aparentemente isoladas, desde o colapso do sistema financeiro até a guerra na Ucrânia, passando pelos horrores perpetrados em Gaza e pela crise no Caribe. Nesse sentido, Zepp-LaRouche sublinha que não existem soluções parciais para nenhuma dessas crises específicas, pois todas são impulsionadas pelo colapso e pelo desespero consequente daqueles que permanecem comprometidos com uma ordem mundial unipolar falida.

Esse desespero está à vista de todos. O ex-presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, lamentou, em entrevista à emissora Rai 3 TV em 10 de dezembro, que, nos termos da NSS dos Estados Unidos, “a Otan foi reduzida a nada”. Prodi e seus aliados geopolíticos podem se abalar ainda mais ao saber que, também em 10 de dezembro, o deputado Thomas Massie apresentou um projeto de lei ao Congresso dos Estados Unidos para retirar Washington da Otan, à qual se referiu como uma “relíquia da Guerra Fria”. No anúncio do projeto, Massie declarou que “a Otan foi criada para contrapor a União Soviética, que colapsou há mais de 30 anos. Desde então, a participação dos Estados Unidos custou aos contribuintes trilhões de dólares e continua colocando o país em risco de envolvimento em guerras no exterior.”

Mais do que uma relíquia, a Otan, como observou com maior precisão Zepp-LaRouche, “já não é uma aliança atlântica defensiva, mas se considera o braço militar destinado a defender a ordem mundial unipolar”.

Como que para comprovar essa avaliação, o Primeiro Lorde do Mar da Marinha Real britânica, o general Sir Gwyn Jenkins, balbuciou em 8 de dezembro que a Grã-Bretanha precisa “intensificar” sua luta contra a ameaça russa para não perder “a vantagem da qual desfrutamos no Atlântico desde o final da Segunda Guerra Mundial”. Já o contra-almirante britânico reformado Philip Mathias defendeu que a Grã-Bretanha se retire do pacto de defesa AUKUS (Austrália, Reino Unido e Estados Unidos), a fim de poder construir mais submarinos nucleares para enfrentar a Rússia.

O pânico dos belicistas diante do colapso de seu sistema foi apontado pelo ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, que observou, em discurso perante o Conselho da Federação Russa (a câmara alta do Parlamento russo), em 10 de dezembro, que o sistema de globalização tal como promovido pelos países ocidentais “está caindo no esquecimento”. Diante do colapso das economias europeias, acrescento: “Além de roubar a Rússia e confiscar nossas reservas de ouro e divisas, violando todas as normas imagináveis do direito internacional e comercial, eles não têm outras fontes para financiar a guerra” na Ucrânia.

Então, onde está a solução?

<><> Europa: mudança ou barbárie

Ainda que a recém-publicada NSS tenha sido recebida por alguns círculos dirigentes da Europa com uma mistura de ranger de dentes, chiliques e desespero, deve-se considerar, dadas as circunstâncias, que ela provocou de maneira útil uma crise que já era esperada havia muito tempo. Representa uma ruptura com a doutrina de segurança do governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em relação à liderança estadunidense em uma ordem mundial unipolar, em favor de uma política mais equilibrada em relação à Rússia. Ao mesmo tempo, porém, defende a estratégia fracassada de tentar conter a China e, em particular, de frear sua cooperação econômica com as nações do Sul Global, especialmente no hemisfério ocidental. Nas atuais condições de crise financeira do sistema transatlântico, o novo documento criou a oportunidade de reavaliar racionalmente os próprios interesses de segurança e de redesenhar a arquitetura de segurança internacional.

O documento proíbe expressamente uma nova expansão da Otan, o que descarta, de fato, a adesão da Ucrânia à aliança, uma vez que a chamada “coalizão dos dispostos” não pode impor tal adesão contra a vontade dos Estados Unidos. Também põe fim, de maneira efetiva, ao conceito de uma “Otan global”, assim como à chamada “interoperabilidade” da União Europeia (UE) com essa Otan global.

Em vez de resfolegar e se enfurecer por não precisarem de “conselhos de fora”, como afirmou o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, os europeus fariam melhor em levar a sério o duro alerta contido no documento da NSS: o de que o continente europeu será irreconhecível dentro de 20 anos caso se mantenham as atuais tendências de declínio econômico. O texto chega a advertir sobre um possível “desaparecimento da civilização”.

O maior erro que poderíamos cometer agora na Europa seria descartar com arrogância essa advertência como se fosse apenas mais uma prova da imprevisibilidade de Trump. Pois o “desaparecimento da civilização” europeia constitui uma ameaça não apenas em razão da continuidade da atual política econômica — marcada por austeridade massiva em todas as áreas sociais em benefício de uma indústria armamentista sem escrúpulos —, mas também, de forma ainda mais iminente, pela tentativa absolutamente irresponsável e impossível de impor uma “derrota estratégica” à Rússia.

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos oferece uma oportunidade extremamente necessária para abandonar a Otan, já que esta vem seguindo, há bastante tempo, uma estratégia que não corresponde aos nossos interesses fundamentais de segurança. A Otan deveria ter sido dissolvida ao final da Guerra Fria, assim como ocorreu com o Pacto de Varsóvia, em 1991, em favor de uma ordem de paz para o século 21, algo que teria sido plenamente possível naquele momento. Em vez disso, a Otan transformou-se de uma aliança defensiva em uma aliança ofensiva. A gota d’água ocorreu quando o mais alto oficial militar da Otan, o almirante Giuseppe Cavo Dragone, presidente do Comitê Militar da aliança, concedeu uma entrevista na qual apelou por uma “resposta mais agressiva da Otan à guerra na Ucrânia”. Ele afirmou ainda que um “ataque preventivo” contra a Rússia seria concebível, o que, naturalmente, poderia ser classificado como uma “ação defensiva”. Alguém se lembra de George Orwell? “O ataque é a defesa, a guerra é a paz!”

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, respondeu com clareza inequívoca que a Rússia não tinha qualquer intenção de iniciar uma guerra com a Europa — algo que ele já havia enfatizado centenas de vezes. Acrescentou, no entanto, que, caso a Europa iniciasse uma guerra desse tipo, a Rússia estaria “imediatamente preparada”, e o conflito terminaria muito rapidamente em favor da Rússia, diferentemente da abordagem “cirúrgica” adotada na Ucrânia. O cientista político russo Serguéi Karaganov foi ainda mais direto em entrevista concedida à jornalista Dra. Eva Peli, em 30 de outubro, em Moscou: afirmou que, caso eclodisse uma guerra de maior escala na Europa, a Europa deixaria de existir.

Enquanto os governos dos Estados Unidos e da Rússia realizam esforços sérios para encerrar a guerra por meio de negociações, a chamada “Coalizão dos Dispostos” na Europa — formada por Alemanha, França, Grã-Bretanha, Polônia, os Estados Bálticos e a Comissão Europeia — continua focada em impor uma “derrota estratégica” à Rússia. Qualquer pessoa sensata deve ter claro que isso é impossível diante da que hoje é a potência nuclear mais forte do mundo, a menos que se esteja disposto a aceitar o fim da humanidade. Após a recente reunião de ministros das Relações Exteriores da Otan em Bruxelas, o chanceler da Hungria, Péter Szijjártó, acusou essas forças europeias de tentar bloquear os esforços de paz e de arrastar a Europa para uma guerra com a Rússia. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, chegou a advertir, em 6 de dezembro, em Kecskemét, na Hungria, que os líderes europeus já teriam decidido entrar em guerra contra a Rússia e que uma numerosa delegação húngara visitaria Moscou nos dias seguintes.

Apesar de, na Alemanha, praticamente toda declaração sobre a guerra na Ucrânia repetir o mantra de que se trata de “uma guerra de agressão de Putin, não provocada, que viola o direito internacional”, como forma de evitar acusações de ser um títere de Putin, a opinião quase unânime em todo o Sul Global — assim como entre especialistas estadunidenses como Jeffrey Sachs, John Mearsheimer, Ray McGovern, Chas Freeman, entre muitos outros — é a de que o que desencadeou a guerra foi a expansão da Otan em cerca de mil quilômetros para o leste, em cinco etapas, contrariando a promessa feita ao final da Guerra Fria de não expandir a Otan “nem um centímetro” nessa direção. No início de 2022, a instalação de sistemas de armas ofensivas próximos à fronteira russa criou, na prática, uma crise dos mísseis cubanos ao inverso, e as exigências de Putin por garantias de segurança juridicamente vinculantes foram simplesmente ignoradas.

A guerra poderia ter terminado em março de 2022 com o Acordo de Istambul — entre Putin e o presidente da Ucrânia, Volodímir Zelenski —, que foi sabotado de forma notória pelo então primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Agora, após quase quatro anos de uma guerra de desgaste e a perda de milhões de vidas, não se pode negar o que tem sido reiteradamente sublinhado pelo ex-inspetor-geral das Forças Armadas da Alemanha e ex-presidente do Comitê Militar da Otan, Harald Kujat: a Ucrânia nunca esteve em condições de mudar a situação estratégica, e muito menos agora, quando seções inteiras da linha de frente estão desmoronando, quando tropas da linha de frente e conscritos forçados desertam em massa e quando especialistas militares internacionais discutem abertamente o fato de que a guerra foi perdida. Nessa situação, o fato de o oficial de mais alto escalão da Otan falar em ataques preventivos é extremamente irresponsável e equivale a um chamado ao suicídio coletivo.

Nos quase quatro anos de duração dessa guerra de desgaste, nem a Comissão Europeia nem os chefes de Estado europeus fizeram qualquer tentativa de pôr fim ao conflito por meio de negociações. Pelo contrário, quando em março de 2022 foi praticamente alcançada uma solução diplomática entre Putin e Zelenski com o Acordo de Istambul, tanto a Europa quanto, naturalmente, o então presidente Biden assistiram em silêncio enquanto Boris Johnson sabotava aquela oportunidade. Agora, quando existe uma perspectiva justificada de que Trump e Putin possam encerrar a guerra e normalizar as relações entre as duas maiores potências nucleares do mundo, a Otan passa a falar em ataques preventivos!

A Otan já não é uma aliança atlântica de caráter defensivo, mas se vê como o braço militar destinado a defender a ordem mundial unipolar promovida desde o fim da Guerra Fria. Esse ordenamento, no entanto, já foi há muito tempo substituído pela associação entre os países do Sul Global, que não estão mais dispostos a se submeter às estruturas imperiais e coloniais do Ocidente coletivo, e estão construindo uma nova ordem econômica mundial por meio de organizações como o Brics e a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), baseada na soberania e no desenvolvimento mútuo e igualitário. Não devemos nos opor a esse novo ordenamento mundial, que põe fim a 500 anos de colonialismo e permite, pela primeira vez, que as nações da Maioria Global superem a pobreza e o subdesenvolvimento. Ao contrário, devemos cooperar com esses países e, assim, abrir um novo capítulo na história da humanidade!

Nestes tempos de transformações profundas, há várias crises regionais com potencial para escalar até se tornarem uma guerra de grandes proporções. Após a catástrofe em curso no Oriente Médio, recentemente eclodiu uma nova e extremamente perigosa escalada entre o Japão e a China. Desde que a primeira-ministra Sanae Takaichi questionou a política de “Uma Só China” — que é indiscutível à luz do direito internacional — e chegou a levantar a possibilidade de uma intervenção militar japonesa em Taiwan, cresceu a preocupação em toda a região indo-pacífica com o ressurgimento do militarismo no Japão. Isso é muito semelhante ao que ocorre atualmente na Europa e evoca as lembranças mais sombrias da ação conjunta das potências do Eixo na Segunda Guerra Mundial, responsável por 27 milhões de mortes na União Soviética e por 35 milhões de vítimas na China.

Se aprendemos algo com as duas guerras mundiais, este é o momento de retomar o caminho abandonado ao final da Guerra Fria, quando tomamos uma direção equivocada. Naquele período, já não havia inimigos, o que teria tornado relativamente fácil estabelecer uma nova ordem internacional de paz. Hoje, 35 anos depois, torna-se evidente a falácia total da arrogante e efêmera previsão do “fim da história”, assim como o enorme efeito bumerangue da tentativa de impor uma ordem mundial unipolar.

Todos os países envolvidos deveriam anunciar sua saída da Otan e, ao mesmo tempo, convocar uma nova conferência, na tradição da Paz de Westfália, na qual se elabore uma nova arquitetura internacional de segurança e desenvolvimento que leve em consideração os interesses de todas as nações do planeta.

O presidente da China, Xi Jinping, já propôs uma abordagem semelhante com sua Iniciativa de Governança Global. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, também apresentou a ideia de uma arquitetura de segurança euroasiática. Há igualmente motivos para esperança no fato de jovens da Alemanha estarem participando de uma greve escolar, pois não desejam servir como carne de canhão nem disparar contra pessoas em países estrangeiros.

Chegamos a um momento na história universal da humanidade em que precisamos deixar para trás não apenas meio milênio de colonialismo, mas também a mentalidade que levou a duas guerras mundiais no século 20: a geopolítica. Devemos abandonar, de uma vez por todas, a ideia bárbara de que sempre precisamos de um inimigo, de que o homem é o lobo do homem, como acreditava Thomas Hobbes, ideólogo do Império Britânico. Essa visão bárbara da humanidade se expressa no vídeo promocional da Otan “From Foresight to Warfight” (“Da previsão à guerra”), que afirma: “A guerra continuará sendo sempre uma atividade humana essencial. A manipulação das emoções e dos acordos com o oponente será tão importante quanto negar o acesso aos nossos espaços. A mente humana será um campo de batalha por direito próprio”. Qualquer pessoa que assista a esse vídeo e não rejeite essa visão doentia do mundo já perdeu a batalha por sua própria mente.

Somos a única espécie conhecida no universo dotada de razão criativa e, agora, devemos utilizá-la colocando em primeiro plano a ideia de uma única humanidade, enquanto construímos uma nova ordem.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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