Doutrina
Trump: Europa precisa abandonar Otan e integrar nova arquitetura de segurança
global
A Otan
e outros belicistas da elite ocidental continuam a se debater desesperadamente
após a publicação da Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês)
do governo de Donald Trump, a qual, apesar de seus muitos aspectos
questionáveis, “provocou de maneira útil uma crise que se esperava há muito
tempo”, nas palavras da fundadora do Instituto Schiller, Helga Zepp-LaRouche.
Em sua declaração “Saiam da Otan! A
nova Estratégia de Segurança Nacional requer uma nova arquitetura de segurança”, Zepp-LaRouche
afirma: “Nas condições atuais de uma crise financeira do sistema
transatlântico, o novo documento criou a oportunidade de reavaliar
racionalmente os próprios interesses de segurança e de redesenhar a arquitetura
de segurança internacional.”
Somente
um redesenho de toda a arquitetura de segurança global pode enfrentar qualquer
uma das crises aparentemente isoladas, desde o colapso do sistema financeiro
até a guerra na Ucrânia, passando pelos horrores perpetrados em Gaza e
pela crise no Caribe. Nesse sentido,
Zepp-LaRouche sublinha que não existem soluções parciais para nenhuma dessas
crises específicas, pois todas são impulsionadas pelo colapso e pelo desespero
consequente daqueles que permanecem comprometidos com uma ordem mundial unipolar
falida.
Esse
desespero está à vista de todos. O ex-presidente da Comissão Europeia, Romano
Prodi, lamentou, em entrevista à
emissora Rai 3 TV em 10 de dezembro, que, nos termos da NSS dos Estados Unidos, “a Otan foi
reduzida a nada”. Prodi e seus aliados geopolíticos podem se abalar ainda
mais ao saber que, também em 10 de dezembro, o deputado Thomas Massie
apresentou um projeto de lei ao Congresso dos Estados Unidos para retirar
Washington da Otan,
à qual se referiu como uma “relíquia da Guerra Fria”. No anúncio do projeto,
Massie declarou que “a Otan foi criada para contrapor a União Soviética, que
colapsou há mais de 30 anos. Desde então, a participação dos Estados Unidos
custou aos contribuintes trilhões de dólares e continua colocando o país em
risco de envolvimento em guerras no exterior.”
Mais do
que uma relíquia, a Otan, como observou com maior precisão Zepp-LaRouche, “já
não é uma aliança atlântica defensiva, mas se considera o braço militar
destinado a defender a ordem mundial unipolar”.
Como
que para comprovar essa avaliação, o Primeiro Lorde do Mar da Marinha Real
britânica, o general Sir Gwyn Jenkins, balbuciou em 8 de
dezembro que a Grã-Bretanha precisa “intensificar” sua luta contra a ameaça
russa para não perder “a vantagem da qual desfrutamos no Atlântico desde o
final da Segunda Guerra Mundial”. Já o contra-almirante britânico reformado
Philip Mathias defendeu que a Grã-Bretanha se retire do pacto de defesa AUKUS
(Austrália, Reino Unido e Estados Unidos), a fim de poder construir mais
submarinos nucleares para enfrentar a Rússia.
O
pânico dos belicistas diante do colapso de seu sistema foi apontado pelo
ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, que observou, em
discurso perante o Conselho da Federação Russa (a câmara alta do Parlamento
russo), em 10 de dezembro, que o sistema de globalização tal como promovido
pelos países ocidentais “está caindo no esquecimento”. Diante do colapso das
economias europeias, acrescento: “Além de roubar a Rússia e confiscar nossas
reservas de ouro e divisas, violando todas as normas imagináveis do direito
internacional e comercial, eles não têm outras fontes para financiar a guerra”
na Ucrânia.
Então,
onde está a solução?
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Europa: mudança ou barbárie
Ainda
que a recém-publicada NSS tenha sido recebida por alguns círculos dirigentes da
Europa com uma mistura de ranger de dentes, chiliques e desespero, deve-se
considerar, dadas as circunstâncias, que ela provocou de maneira útil uma crise
que já era esperada havia muito tempo. Representa uma ruptura com a doutrina de
segurança do governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em relação à
liderança estadunidense em uma ordem mundial unipolar, em favor de uma política
mais equilibrada em relação à Rússia. Ao mesmo tempo, porém, defende a
estratégia fracassada de tentar conter a China e, em particular, de frear sua
cooperação econômica com as nações do Sul Global, especialmente no hemisfério
ocidental. Nas atuais condições de crise financeira do sistema transatlântico,
o novo documento criou a oportunidade de reavaliar racionalmente os próprios
interesses de segurança e de redesenhar a arquitetura de segurança
internacional.
O
documento proíbe expressamente uma nova expansão da Otan, o que descarta, de
fato, a adesão da Ucrânia à aliança, uma vez que a chamada “coalizão dos
dispostos” não pode impor tal adesão contra a vontade dos Estados Unidos.
Também põe fim, de maneira efetiva, ao conceito de uma “Otan global”, assim
como à chamada “interoperabilidade” da União Europeia (UE) com essa Otan
global.
Em vez
de resfolegar e se enfurecer por não precisarem de “conselhos de fora”, como
afirmou o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, os
europeus fariam melhor em levar a sério o duro alerta contido no documento da
NSS: o de que o continente europeu será irreconhecível dentro de 20 anos caso
se mantenham as atuais tendências de declínio econômico. O texto chega a
advertir sobre um possível “desaparecimento da civilização”.
O maior
erro que poderíamos cometer agora na Europa seria descartar com arrogância essa
advertência como se fosse apenas mais uma prova da imprevisibilidade de Trump.
Pois o “desaparecimento da civilização” europeia constitui uma ameaça não
apenas em razão da continuidade da atual política econômica — marcada por
austeridade massiva em todas as áreas sociais em benefício de uma indústria
armamentista sem escrúpulos —, mas também, de forma ainda mais iminente, pela
tentativa absolutamente irresponsável e impossível de impor uma “derrota
estratégica” à Rússia.
A nova
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos oferece uma oportunidade
extremamente necessária para abandonar a Otan, já que esta vem seguindo, há
bastante tempo, uma estratégia que não corresponde aos nossos interesses
fundamentais de segurança. A Otan deveria ter sido dissolvida ao final da
Guerra Fria, assim como ocorreu com o Pacto de Varsóvia, em 1991, em favor de
uma ordem de paz para o século 21, algo que teria sido plenamente possível
naquele momento. Em vez disso, a Otan transformou-se de uma aliança defensiva
em uma aliança ofensiva. A gota d’água ocorreu quando o mais alto oficial
militar da Otan, o almirante Giuseppe Cavo Dragone, presidente do Comitê
Militar da aliança, concedeu uma entrevista na qual apelou por uma “resposta
mais agressiva da Otan à guerra na Ucrânia”. Ele afirmou ainda que um “ataque
preventivo” contra a Rússia seria concebível, o que, naturalmente, poderia ser
classificado como uma “ação defensiva”. Alguém se lembra de George Orwell? “O
ataque é a defesa, a guerra é a paz!”
O
presidente da Rússia, Vladimir Putin, respondeu com clareza inequívoca que a
Rússia não tinha qualquer intenção de iniciar uma guerra com a Europa — algo
que ele já havia enfatizado centenas de vezes. Acrescentou, no entanto, que,
caso a Europa iniciasse uma guerra desse tipo, a Rússia estaria “imediatamente
preparada”, e o conflito terminaria muito rapidamente em favor da Rússia,
diferentemente da abordagem “cirúrgica” adotada na Ucrânia. O cientista
político russo Serguéi Karaganov foi ainda mais direto em entrevista concedida
à jornalista Dra. Eva Peli, em 30 de outubro, em Moscou: afirmou que, caso
eclodisse uma guerra de maior escala na Europa, a Europa deixaria de existir.
Enquanto
os governos dos Estados Unidos e da Rússia realizam esforços sérios para
encerrar a guerra por meio de negociações, a chamada “Coalizão dos Dispostos”
na Europa — formada por Alemanha, França, Grã-Bretanha, Polônia, os Estados
Bálticos e a Comissão Europeia — continua focada em impor uma “derrota
estratégica” à Rússia. Qualquer pessoa sensata deve ter claro que isso é
impossível diante da que hoje é a potência nuclear mais forte do mundo, a menos
que se esteja disposto a aceitar o fim da humanidade. Após a recente reunião de
ministros das Relações Exteriores da Otan em Bruxelas, o chanceler da Hungria,
Péter Szijjártó, acusou essas forças europeias de tentar bloquear os esforços
de paz e de arrastar a Europa para uma guerra com a Rússia. O primeiro-ministro
húngaro, Viktor Orbán, chegou a advertir, em 6 de dezembro, em Kecskemét, na
Hungria, que os líderes europeus já teriam decidido entrar em guerra contra a
Rússia e que uma numerosa delegação húngara visitaria Moscou nos dias
seguintes.
Apesar
de, na Alemanha, praticamente toda declaração sobre a guerra na Ucrânia repetir
o mantra de que se trata de “uma guerra de agressão de Putin, não provocada,
que viola o direito internacional”, como forma de evitar acusações de ser um
títere de Putin, a opinião quase unânime em todo o Sul Global — assim como
entre especialistas estadunidenses como Jeffrey Sachs, John Mearsheimer, Ray
McGovern, Chas Freeman, entre muitos outros — é a de que o que desencadeou a
guerra foi a expansão da Otan em cerca de mil quilômetros para o leste, em
cinco etapas, contrariando a promessa feita ao final da Guerra Fria de não
expandir a Otan “nem um centímetro” nessa direção. No início de 2022, a
instalação de sistemas de armas ofensivas próximos à fronteira russa criou, na
prática, uma crise dos mísseis cubanos ao inverso, e as exigências de Putin por
garantias de segurança juridicamente vinculantes foram simplesmente ignoradas.
A
guerra poderia ter terminado em março de 2022 com o Acordo de Istambul — entre
Putin e o presidente da Ucrânia, Volodímir Zelenski —, que foi sabotado de
forma notória pelo então primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson.
Agora, após quase quatro anos de uma guerra de desgaste e a perda de milhões de
vidas, não se pode negar o que tem sido reiteradamente sublinhado pelo
ex-inspetor-geral das Forças Armadas da Alemanha e ex-presidente do Comitê
Militar da Otan, Harald Kujat: a Ucrânia nunca esteve em condições de mudar a
situação estratégica, e muito menos agora, quando seções inteiras da linha de
frente estão desmoronando, quando tropas da linha de frente e conscritos
forçados desertam em massa e quando especialistas militares internacionais
discutem abertamente o fato de que a guerra foi perdida. Nessa situação, o fato
de o oficial de mais alto escalão da Otan falar em ataques preventivos é
extremamente irresponsável e equivale a um chamado ao suicídio coletivo.
Nos
quase quatro anos de duração dessa guerra de desgaste, nem a Comissão Europeia
nem os chefes de Estado europeus fizeram qualquer tentativa de pôr fim ao
conflito por meio de negociações. Pelo contrário, quando em março de 2022 foi
praticamente alcançada uma solução diplomática entre Putin e Zelenski com o
Acordo de Istambul, tanto a Europa quanto, naturalmente, o então presidente
Biden assistiram em silêncio enquanto Boris Johnson sabotava aquela
oportunidade. Agora, quando existe uma perspectiva justificada de que Trump e
Putin possam encerrar a guerra e normalizar as relações entre as duas maiores
potências nucleares do mundo, a Otan passa a falar em ataques preventivos!
A Otan
já não é uma aliança atlântica de caráter defensivo, mas se vê como o braço
militar destinado a defender a ordem mundial unipolar promovida desde o fim da
Guerra Fria. Esse ordenamento, no entanto, já foi há muito tempo substituído
pela associação entre os países do Sul Global, que não estão mais dispostos a
se submeter às estruturas imperiais e coloniais do Ocidente coletivo, e estão
construindo uma nova ordem econômica mundial por meio de organizações como o
Brics e a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), baseada na soberania e no
desenvolvimento mútuo e igualitário. Não devemos nos opor a esse novo
ordenamento mundial, que põe fim a 500 anos de colonialismo e permite, pela
primeira vez, que as nações da Maioria Global superem a pobreza e o subdesenvolvimento.
Ao contrário, devemos cooperar com esses países e, assim, abrir um novo
capítulo na história da humanidade!
Nestes
tempos de transformações profundas, há várias crises regionais com potencial
para escalar até se tornarem uma guerra de grandes proporções. Após a
catástrofe em curso no Oriente Médio, recentemente eclodiu uma nova e
extremamente perigosa escalada entre o Japão e a China. Desde que a
primeira-ministra Sanae Takaichi questionou a política de “Uma Só China” — que
é indiscutível à luz do direito internacional — e chegou a levantar a
possibilidade de uma intervenção militar japonesa em Taiwan, cresceu a preocupação
em toda a região indo-pacífica com o ressurgimento do militarismo no Japão.
Isso é muito semelhante ao que ocorre atualmente na Europa e evoca as
lembranças mais sombrias da ação conjunta das potências do Eixo na Segunda
Guerra Mundial, responsável por 27 milhões de mortes na União Soviética e por
35 milhões de vítimas na China.
Se
aprendemos algo com as duas guerras mundiais, este é o momento de retomar o
caminho abandonado ao final da Guerra Fria, quando tomamos uma direção
equivocada. Naquele período, já não havia inimigos, o que teria tornado
relativamente fácil estabelecer uma nova ordem internacional de paz. Hoje, 35
anos depois, torna-se evidente a falácia total da arrogante e efêmera previsão
do “fim da história”, assim como o enorme efeito bumerangue da tentativa de
impor uma ordem mundial unipolar.
Todos
os países envolvidos deveriam anunciar sua saída da Otan e, ao mesmo tempo,
convocar uma nova conferência, na tradição da Paz de Westfália, na qual se
elabore uma nova arquitetura
internacional de segurança e desenvolvimento que leve em consideração os
interesses de todas as nações do planeta.
O
presidente da China, Xi Jinping, já propôs uma abordagem semelhante com sua
Iniciativa de Governança Global. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, também
apresentou a ideia de uma arquitetura de segurança euroasiática. Há igualmente
motivos para esperança no fato de jovens da Alemanha estarem participando de
uma greve escolar, pois não desejam servir como carne de canhão nem disparar
contra pessoas em países estrangeiros.
Chegamos
a um momento na história universal da humanidade em que precisamos deixar para
trás não apenas meio milênio de colonialismo, mas também a mentalidade que
levou a duas guerras mundiais no século 20: a geopolítica. Devemos abandonar,
de uma vez por todas, a ideia bárbara de que sempre precisamos de um inimigo,
de que o homem é o lobo do homem, como acreditava Thomas Hobbes, ideólogo do
Império Britânico. Essa visão bárbara da humanidade se expressa no vídeo
promocional da Otan “From Foresight to Warfight” (“Da previsão à
guerra”), que afirma: “A guerra continuará sendo sempre uma atividade humana
essencial. A manipulação das emoções e dos acordos com o oponente será tão
importante quanto negar o acesso aos nossos espaços. A mente humana será um
campo de batalha por direito próprio”. Qualquer pessoa que assista a esse vídeo
e não rejeite essa visão doentia do mundo já perdeu a batalha por sua própria
mente.
Somos a
única espécie conhecida no universo dotada de razão criativa e, agora, devemos
utilizá-la colocando em primeiro plano a ideia de uma única humanidade,
enquanto construímos uma nova ordem.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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