Um
escudo contra as mudanças climáticas
Quem
chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo
impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de
rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do
município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato,
outra constatação: o município do centro-norte da Bahia, a aproximadamente 220
quilômetros de Salvador, enfrenta uma grande seca. Tanto é assim que, em 9 de
setembro, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil publicou uma
portaria colocando o município em situação de emergência devido ao longo
período de estiagem.
A
situação é grave, principalmente para a população da zona rural. Segundo Jorge
Irineu, diretor de Meio Ambiente do município, algumas comunidades estão sendo
abastecidas com carros-pipa desde outubro de 2024, portanto, há mais de um ano.
Na quarta-feira (17), quando conversou com a reportagem, Jorge afirmou que, das
28 aguadas (mananciais que abastecem a zona rural), apenas duas ainda tinham
água.
Pé de
Serra está localizado no Território de Identidade da Bacia do Jacuípe, no
centro-norte da Bahia, fazendo divisa com os municípios de Riachão do Jacuípe,
Ipirá, Capela do Alto Alegre e Nova Fátima. O município, com 13.243 habitantes,
tem 596,7 km² de extensão territorial, situando-se integralmente no bioma
Caatinga, característica que condiciona fortemente sua paisagem, uso do solo e
formas de ocupação humana.
Os
impactos da seca afetam principalmente as famílias de agricultores. E a
situação poderia ser muito mais grave se não fossem uma série de ações e
tecnologias de convivência com o semiárido implementadas com o apoio da
sociedade civil organizada, muitas delas transformadas em políticas públicas.
“Se não fossem essas políticas…”, suspira Jorge Irineu.
A
família de Pascoal Pinto de Jesus, que tem uma pequena propriedade de dois
hectares no povoado de Lagoa do Curral, uma das áreas mais afetadas pela
estiagem no município, tem se desdobrado para manter a produção de caprinos com
tão pouca água. Hoje, Pascoal e a esposa Maria de Lurdes, com quem está casado
há 34 anos, criam 23 cabras e algumas galinhas. Já desistiu de plantar feijão e
milho há, pelo menos, cinco anos. Cansou de perder a colheita. Para ele, a
situação tem se agravado com o tempo. “Antigamente, a gente perdia uma colheita
a cada dez. Hoje se perde dez para ganhar uma.”
Pascoal
adora criar bode. Segundo ele, “é dinheiro na mão”, já que tem mais clientes
para comprar a carne do que ele pode oferecer. É a famosa lei da oferta e da
procura. “Mas quando chega a seca, o produtor já perde. Tem que gastar mais
para produzir menos. A criação não evolui. É, praticamente, manter o rebanho e
esperar que um dia vai melhorar.”
Enquanto
espera as coisas melhorarem, ele segue trabalhando com capricho. “Bode tem que
ter cuidado, tem que ter zelo. Tem que limpar o local onde eles dormem, colocar
água sanitária, cal, para evitar vermes.” Pascoal, que mora em uma casa a
poucos quilômetros da propriedade, instalou internet e câmeras de segurança
para vigiar o rebanho quando está longe.
Em meio
a mais de um ano sem chuva, Pascoal vai sobrevivendo com seu esforço e também
acessando políticas públicas e tecnologias de convivência com o semiárido. Há
12 anos, por exemplo, ele foi beneficiado com a construção de um barreiro para
armazenar água em sua propriedade, por meio de um programa coordenado pela
Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). O barreiro, com capacidade para 600 mil
litros, quando cheio, garantiria água por dois anos. Mas não enche há quatro
anos. Pascoal também recebe assistência técnica do Movimento de Organização
Comunitária (MOC), por meio do programa Ater Biomas da Bahia.
Apesar
do esforço de Pascoal, o terreno onde ele cria seus animais possui pouquíssima
vegetação, sem praticamente nenhum vestígio de que ali já foi uma área coberta
por caatinga. Antes de avançar na reportagem, é preciso entender o que
aconteceu em Pé de Serra do ponto de vista econômico e social.
Por
conta do solo raso, pedregoso e de fertilidade limitada, ao longo do tempo a
população foi derrubando áreas de vegetação nativa para a formação de roçados,
pastagens e atividades extrativistas, em um contexto de baixa disponibilidade
hídrica e alta vulnerabilidade climática.
A
conversão de áreas de caatinga em pastagens, devido à expansão da pecuária,
ocorreu de forma contínua ao longo das últimas décadas, com o uso de máquinas
agrícolas e a substituição de sistemas produtivos diversificados por áreas
abertas permanentes.
Além da
pecuária, o desmatamento também esteve historicamente ligado a atividades
extrativas, como a produção de carvão vegetal e a exploração de madeira nativa,
bem como à mineração de pedra presente no município. Essas atividades
provocaram impactos diretos sobre a vegetação e o solo, frequentemente
associadas à ausência de fiscalização ambiental adequada e a condições
precárias de trabalho, ampliando os passivos socioambientais no território.
Outro
fator relevante foi a introdução e expansão do sisal, que romperam com práticas
tradicionais de manejo e favoreceram a simplificação dos agroecossistemas. A
substituição da vegetação nativa por cultivos homogêneos reduziu a
biodiversidade local e aumentou a exposição do solo à erosão, especialmente em
anos de seca prolongada.
<><>
O exemplo de Dona Dadá
Em meio
a uma paisagem seca e degradada, uma pequena área verde chama a atenção. Em
aproximadamente cinco hectares, Maria do Carmo de Carvalho Silva, junto com sua
família de agricultores, construiu uma espécie de oásis na zona rural de Pé de
Serra. Pelo nome de batismo, pouca gente a conhece, mas, ao falar de Dona Dadá,
todo mundo da redondeza sabe exatamente quem é. Aos 63 anos, Dadá mora na
propriedade desde os anos 1980.
De lá
para cá, conseguiu montar um sistema de produção bastante diversificado, com
horta, criação de abelhas, vacas (20 cabeças), cabras (oito cabeças) e
galinhas. A horta, orgulho de Dona Dadá, tem de tudo um pouco durante o ano
inteiro. No período de chuva, ela planta uma roça com feijão, milho,
batata-doce, maxixe, abóbora e mais o que consegue. Ainda tem a plantação de
palma, que serve de alimento para o gado, e uma área de reserva, onde mantém a
caatinga preservada.
Para
manter tudo isso, além da assistência técnica do MOC, acessa vários programas e
políticas públicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
Familiar (Pronaf), participa da feira agroecológica todos os sábados e tem uma
cisterna calçadão onde coleta e armazena água. Recentemente, comprou umas
cabras com financiamento do Banco do Nordeste. “Depois que comecei no banco,
agora eu nado na terra seca”.
Maria
da Paz, filha mais velha de Dadá, segue os passos da mãe e do pai, Gervásio da
Silva, na paixão pela agricultura. Para Maria, a grande dificuldade é a falta
d’água. “Porque força de vontade, carinho e conhecimento a gente tem para
plantar”, complementa. Segundo ela, apesar de a cisterna ser importante, não é
suficiente para dar conta da demanda de água, principalmente em períodos de
estiagem como os que a população de Pé de Serra tem enfrentado.
Para
complementar a cisterna, eles têm comprado cerca de quatro caminhões-pipa de
dez mil litros cada por mês. “Pagamos R$ 100 por caminhão porque somos clientes
antigos. O preço normal é R$ 250.” Para cobrir os custos, ela faz um cálculo
rápido. “Uma semana de trabalho na roça paga um mês de caminhão-pipa. As outras
três semanas de trabalho são para tirar todo o resto.”
Mateus
Jonnei, coordenador de projetos do MOC, explica que está havendo um
desequilíbrio de chuvas dentro do próprio município. Já começou a chover em
algumas partes e em outras não. “Antes não era assim”, relembra. Talvez Dona
Dadá tenha a explicação para esse fenômeno recente. “Quando eu era criança,
isso tudo aqui era mato. O homem veio e desmatou tudo. Depois de velha, ter que
ver uma estiagem dessa.”
<><>
Agrofloresta como projeto de vida
A pouco
mais de 50 quilômetros de Pé de Serra, no distrito de Barreiras, no município
vizinho de Riachão do Jacuípe, está um exemplo importante de como enfrentar as
mudanças climáticas. Em uma pequena propriedade, Eduardo Emídio e sua esposa,
Cristina Queiroz, transformaram a terra árida e degradada em uma vibrante e
lucrativa agrofloresta. Uma história de relação com a terra que começou a ser
construída há mais de duas décadas a partir de uma ruptura. No início dos anos
2000, ele e Cristina deixaram o emprego na cidade e retornaram à propriedade
herdada da família, movidos pela ideia de preservar o pouco de caatinga que
ainda existia na área. “No começo era pensamento, era ideia”, resume.
A
ruptura não foi apenas do ponto de vista profissional. Era romper também com a
maneira como o pai, o avô e os tios entendiam a relação com a terra. Era fazer
tudo de outro jeito. “A diferença era que a gente vinha de uma cultura do
desmatamento para produção de alimentos, para a criação de animais. E a gente
passou a ver que, em toda seca, morria metade dos animais. Toda seca as
famílias passavam fome e necessidade por conta de não ter segurança alimentar.
Então a gente passou a entender que áreas que eram muito produtivas, com o
tempo deixavam de ser. Foi aí que passamos a ter o entendimento de que a
caatinga era importante para manter a fertilidade do solo e a produção.”
A
decisão de viver da terra, no entanto, não foi imediata. Até 2005, Eduardo
ainda conciliou o trabalho na indústria cerâmica com o manejo da propriedade. A
virada veio com o acesso ao Pronaf, em 2005. Com um financiamento de R$ 8.500,
eles investiram em um galpão para armazenar capim seco, uma máquina forrageira,
o plantio de palma e a compra de caprinos e ovinos – escolhas consideradas
“loucuras” à época. “Galpão era visto como casa para morar, não para guardar
capim”, lembra. Do recurso ainda sobrou dinheiro para a compra de uma vaca, que
acabou se tornando central na sustentabilidade financeira do projeto: ao longo
dos anos, a venda de bezerros e do leite permitiu quitar integralmente o
financiamento. Ao final, a vaca foi vendida para pagar a última prestação, e o
restante da estrutura permaneceu.
A
partir de 2010, o sistema produtivo já estava consolidado em bases
agroflorestais e de sustentabilidade, atraindo visitas de entidades e
organizações interessadas em conhecer a experiência. Foi também nesse período
que surgiram conflitos. Eduardo relata perseguições políticas e tentativas de
interferência no projeto, incluindo disputas envolvendo despejo de resíduos de
esgoto e interesses ligados à indústria cerâmica. “A ameaça não era a gente,
era o que a gente indicava: que dava para manter a caatinga de pé”, afirma. A
disputa se estendeu por oito anos e só foi resolvida em 2018, quando a família
obteve segurança jurídica para seguir com o trabalho.
Durante
esse período, a relação com a comunidade também exigiu estratégias de diálogo.
Eduardo conta que levou escolas e crianças para dentro da propriedade,
apostando na educação ambiental como forma de reduzir resistências. “A criança
voltava para casa contando o que viu: o peixe, a galinha, o cabrito, o
passarinho. Isso ajudou os pais a entenderem que não éramos uma ameaça”, diz.
Hoje, a
propriedade funciona com base na convivência com o semiárido. Não há poços
artesianos nem rios permanentes, mas o sistema de captação de água da chuva
garante abastecimento durante todo o ano. São quatro cisternas, dois barreiros
subterrâneos, três barreiros convencionais e uma mandala produtiva. Mesmo após
longos períodos de estiagem, Eduardo afirma não enfrentar falta de água nem
perda de animais. “A gente não compra alimento, não perde animal e consegue
manter a produção”.
A
caatinga deixou de ser vista como obstáculo e passou a ser tratada como ativo
produtivo. Em uma área de 24 hectares, quase 95% permanecem cobertos por
vegetação nativa, com 40% de reserva legal. A propriedade abriga
aproximadamente 40 bovinos, 90 caprinos, além de galinhas, peixes e abelhas.
Segundo Eduardo, a recuperação ambiental atraiu a fauna silvestre: um
levantamento recente identificou cerca de 130 espécies de animais vivendo na
área. Em alguns pontos da propriedade, a temperatura chega a ficar 8 graus
abaixo da média local.
A
diversificação produtiva levou à criação de uma queijaria certificada, hoje a
única da Bahia a industrializar laticínios a partir de produtos da caatinga. A
produção inclui queijos, iogurtes, manteigas e doces feitos com frutas nativas
como umbu, mandacaru, palma, licuri e maracujá-do-mato (diferente daquele que
geralmente encontramos nos supermercados). Parte significativa da renda vem
desses produtos, vendidos principalmente na loja da própria propriedade e em
feiras agroecológicas da região.
Além de
Eduardo e Cristina, mais duas pessoas trabalham na propriedade. O filho do
casal, Fábio Queiroz, de 22 anos, cada vez mais tem assumido os negócios da
família. Eles também contam com a ajuda de um profissional que cuida do curral.
Atualmente, são produzidos 200 litros de leite por dia, que são transformados
integralmente em queijo e iogurte.
Eduardo
destaca que a lógica do projeto sempre foi de longo prazo. Planejado em 2000
para ser concluído em 2020, o processo de “recatingamento” só terminou em 2021.
Para ele, o diferencial não está em ensinar técnicas, mas em promover
entendimento. “Não é aprendizado, é entendimento. Entender que armazenar água
da chuva é melhor do que furar poço; que a caatinga é produtiva; que o sistema
define o animal, e não o contrário.”
Fonte:
Marco Zero Conteúdo

Nenhum comentário:
Postar um comentário