terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Denise Assis: 2025, o ano que não queria terminar

Quando já se ouve o tropel do ano de 2026 que se avizinha, 2025 manda dizer que – tal como o 1968 de Zuenir Ventura -, não quer terminar. Pelo contrário. Vai adentrar o tapetão pós-recesso, em janeiro, arrastando o enredo que acompanhamos qual um “novelão”. Sim estamos falando do Banco Master.

Demorei até me animar a entrar no tema, eivado de especulações, análises à base do “eu acho que” e “alguém me disse que”. Não comecem a conjecturar. Não estou falando da colunista A, ou do jornalista B.

Plantou-se um climão no meio político a partir de variáveis que podem ser cantadas em versos de Tom Jobim: “que o vento vai levando pelo ar”. Como sou de me basear em fatos, apenas hoje me animei a rabiscar algumas linhas sobre o tema. E por que hoje? Porque, finalmente, depois de toda a montanha de “disse me disse”, surgiu um algo novo que pode mudar o rumo das coisas.

A esta altura, estou apostando na informação trazida pelo colega Eduardo Guimarães, em seu artigo “Contrato de R$ 129 milhões da mulher de Moraes não existe”, que se estiver calcada em sua seriedade, pode trazer uma reviravolta ao caso. Guimarães descreve em detalhes que o alegado contrato assinado com o Banco Master por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, anunciado na coluna do colunista Lauro Jardim (O Globo), no dia 21 de dezembro deste ano, não contém assinaturas.

O colunista afirmou que em 2024 - na distribuição de lucros do escritório Barci Moraes -, coube a Viviane a quantia de R$ 57 milhões. Seu patrimônio pessoal entre 2023 e 2024 passou de R$ 24 milhões para R$ 79,7 milhões, graças ao contrato no valor de R$ 129 milhões com o Master. Contrato esse que Eduardo Guimarães afirma, não está assinado por ela.

O que existe, de acordo com Guimarães, é apenas uma cópia no celular de Daniel Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal. A partir daí, entram as especulações, que não merecem ser repetidas aqui. Por exemplo, a de que a informação sobre o contrato com o “Barci e Barci” teria sido vazada pela estrela do mercado financeiro, André Esteves, chairman do banco BTG Pactual. Essas e outras menções poluíram o caso ao longo da última semana, pois não foram respaldadas em provas.

Aqui é preciso alinhar uma série de fatos importantes no cenário político dos últimos dois meses. Alexandre de Moraes se destacou ao longo de todo o ano de 2025, caminhando no fio da navalha. Esgueirou-se pelo estreito corredor entre as pressões do meio militar – que já conseguiu: salvar a pele do general Estevam Theophilo (absolvido no processo do golpe de 8 de janeiro); levar o “condecorado” general Augusto Heleno, para a domiciliar e amenizar a situação do almirante Garnier, que vai poder ter acesso á Internet para fazer uma faculdade online (quem vai vigiar o que ele posta?), com vistas à redução da pena, se a atividade for aliada a leituras.

Moraes trocou diálogos e questionamentos constitucionais com três mocinhos elegantes: Aécio Neves, Paulinho da Força e Michel Temer – o responsável por sua indicação ao Supremo -, suscitando suspeitas sobre se teria opinado sobre o projeto de anistia/dosimetria. O que seria no mínimo estranho, posto que no último julgamento dos núcleos golpistas, fez um incisivo discurso contra essa iniciativa, a da tal “dosimetria”. O que se acredita, é que apenas recebeu o grupo para opinar sobre a constitucionalidade ou não da tramitação de um projeto como aquele.

Nesse ínterim, Alexandre de Moraes foi liberado da lei Magnitsky, em diálogo direto entre o presidente dos EUA, Donald Trump e o presidente Lula, que conseguiu livrá-lo dos ferrões da lei imposta à sua vida financeira. E, talvez um dado inocente, mas no Brasil nem tanto, foi incluído pelo jornal britânico "Financial Times", na lista das 25 pessoas mais influentes do ano, divulgada na primeira semana de dezembro.

Desde o dia 21 deste mês, quando a coluna de Lauro Jardim publicou a cifra do suposto contrato de Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, recém liquidado pelo Banco Central, a mídia mergulhou em sua vida. Onde jantou, com quem conversou ao telefone e com quem se encontrou.

Sem tomar lado, confesso aqui que não vi a mesma perplexidade e o mesmo empenho quando o ministro Kassio Nunes foi à Grécia, numa festa de arromba do aniversário de Gustavo Lima, ao lado de Ciro Nogueira e de um casal procurado pela Justiça. Tampouco vi espanto quando o decano Gilmar Mendes instituiu o que no passado se chamava “trem da alegria” para Lisboa, no que hoje os colegas da mídia chamam carinhosamente de “Gilmarpalooza”.

Dei por falta, por exemplo, daquelas matérias do tipo: quanto custou? Quem bancou, para que os grandes nomes da “Esfera” do judiciário estivessem lá, nas “Lides” luxuosas dos tais encontros. Está certo que houve apuração e grita quando ministro Toffoli subiu naquele avião rumo à decisão do Palmeiras em Lima, tendo ao lado o advogado ligado ao caso Master. Mas aí, vamos combinar, que o escândalo já estava em andamento com força e Toffoli passou do ponto, porque logo depois do voo decretou sigilo sobre o processo do banco.

No meio do caminho de tudo isto, como destacou o colega Eduardo Guimarães, há que lembrar da mudança da lei que tratou da atuação de parentes de ministros do STF em casos que possam vir a ser tratados naquela Corte. De todo modo, tendo sido assinado ou não, o contrato com o escritório Barci – ou de consultoria ou por conta de trabalhos advocatícios -, não seria ilegal. Seria imoral e, engorda, como cantou Erasmo Carlos. No mínimo a conta bancária de D. Viviane.

Caso venha a ser comprovado que Viviane Barci não tem contrato assinado com o Master, o novelão sofrerá uma guinada de tal ordem que para comparar só o terremoto adotado pela novelista Janete Clair, autora de “O Sheik de Agadir”, novela da Globo do início dos anos de 1970, que estava encroada, dando traço na programação e ela foi chamada para salvar a trama. Não pestanejou. Programou um terremoto, matou todo o elenco e trouxe novos personagens, para finalizar logo a trama e partiu para outra.

É possível que Alexandre de Moraes, o nome mais mencionado do mês de dezembro - muito mais que Papai Noel -, no caso de uma guinada nesse enredo, tenha muito a falar e a trazer à cena política, jogando luz nos primeiros dias de 2026. Aí, sim, o ano começa.

Até aqui, pouco ou nada adiantam as torcidas organizadas e os pitacos sem embasamento. Tampouco pedir “provas” a jornalistas protegidos pela Constituição, no seu artigo 5º, quanto ao sigilo da fonte. Que venha um feliz 2026, finalmente, trazendo fatos, verdades e mais tranquilidade à última instância da Justiça. O país precisa se organizar para que as eleições aconteçam com lisura e instituições funcionando. 

•        Entre o copo meio vazio e o copo meio cheio. 2025 já deu. Por Washington Araújo

Ao chegar aos últimos dias de 2025, a sensação dominante não é apenas de crise, mas de desgaste do olhar. O mundo parece menos cansado de enfrentar problemas do que de enxergar qualquer coisa além deles. O noticiário operou em regime de saturação: guerras prolongadas, tarifas transformadas em armas políticas, decisões erráticas da Casa Branca, ensaios de intervenção armada no Caribe e na Venezuela, algoritmos capturados por interesses opacos e um multilateralismo visivelmente enfraquecido.

O quadro geral foi apresentado, dia após dia, quase sempre pelo mesmo ângulo.

Essa insistência em um único enquadramento produz um efeito conhecido. A repetição contínua do negativo não apenas informa — ela molda a percepção. Achata contrastes, elimina nuances e cria a impressão de que nada avança, nada resiste, nada melhora.

Quando a realidade é observada apenas por sua face mais escura, fatos que escapam desse registro tendem a ser tratados como irrelevantes ou exceções sem importância, mesmo quando os dados apontam outra coisa.

É justamente aí que o balanço de fim de ano se impõe como exercício de responsabilidade jornalística. Não se trata de negar tragédias, minimizar conflitos ou suavizar retrocessos evidentes.

Trata-se de recuperar profundidade de campo. De recolocar no enquadramento decisões, políticas públicas e acordos internacionais que, embora menos ruidosos, produziram efeitos concretos em 2025 e ajudam a compreender o ano com mais fidelidade aos fatos.

Um desses marcos foi a entrada em vigor do Tratado dos Altos Mares. Pela primeira vez, áreas marinhas em águas internacionais passaram a contar com proteção formal, encerrando décadas de vazio jurídico sobre regiões essenciais ao equilíbrio climático e alimentar do planeta. Milhões de quilômetros quadrados passaram a ser monitorados e preservados, com impactos diretos sobre estoques pesqueiros, biodiversidade e o sequestro de carbono oceânico. É governança ambiental real, não retórica.

Na transição energética, 2025 também marcou uma inflexão histórica. A soma de energia solar e eólica superou o carvão na geração global de eletricidade. O dado, por si só, não resolve a crise climática, mas altera sua trajetória. A queda de custos, a escala industrial e os investimentos massivos desmontaram a narrativa de que energia limpa é obstáculo ao crescimento. Países emergentes deixaram de ser coadjuvantes e passaram a liderar essa transformação.

No percurso que conduziu o mundo até a COP 30, compromissos ambientais firmados ao longo da última década começaram, enfim, a produzir efeitos mensuráveis. O financiamento internacional para a biodiversidade saiu do plano declaratório e alcançou territórios concretos, sobretudo em países megadiversos. A ampliação de áreas protegidas e a desaceleração da perda de habitats críticos indicam que metas globais não são inúteis quando acompanhadas de recursos, monitoramento e cobrança política consistente.

Na saúde, 2025 consolidou avanços decisivos em terapias genéticas. Aprovações regulatórias, resultados clínicos comprovados e redução significativa de custos transformaram o que antes era promessa em tratamento efetivo. Para milhares de pacientes com doenças raras, a ciência deixou de ser horizonte distante e passou a representar ganho real de qualidade e expectativa de vida.

Outro dado bem pouco celebrado foi a redução histórica do desmatamento global. O Brasil apresentou seus melhores números em quase uma década, acompanhado por avanços relevantes na Indonésia e na África Central. Monitoramento por satélite, incentivos financeiros internacionais e políticas públicas articuladas demonstraram que a devastação não é destino inevitável, mas consequência de escolhas — e, portanto, passível de reversão.

Talvez o sinal estrutural mais relevante tenha vindo da China, ao confirmar o platô de suas emissões de carbono. Considerando o peso do país no total global, essa estabilização tem impacto sistêmico. Ela sugere que o pico mundial de emissões pode ocorrer antes de 2030, com efeitos diretos sobre a saúde pública e a qualidade do ar em centenas de cidades.

Na conservação ambiental, a recuperação de espécies ameaçadas ofereceu uma lição incômoda aos céticos. Tigres, tartarugas marinhas e populações de salmão voltaram a ocupar espaços perdidos. Quando ciência, financiamento e gestão local caminham juntos, a reversão de danos deixa de ser exceção retórica e passa a integrar políticas de longo prazo.

Até mesmo a corrida espacial, frequentemente associada a vaidades bilionárias, produziu efeitos concretos. A redução dos custos de lançamento ampliou a conectividade global, levando internet de alta velocidade a regiões antes isoladas, enquanto novos instrumentos científicos aprofundaram nossa capacidade de observar o planeta e compreender seus limites físicos.

No plano social, a redução global da pobreza extrema recolocou o mundo em trajetória de recuperação após os choques da pandemia. Crescimento econômico em países de baixa renda, remessas recordes e expansão de redes de proteção social mostraram que desigualdade não é fenômeno natural, mas resultado direto de decisões políticas.

Por fim, a opinião consultiva da Corte Internacional de Justiça sobre responsabilidade climática introduziu um novo fator no tabuleiro global: a possibilidade concreta de responsabilização jurídica dos Estados por danos ambientais.

É claro que não encerra a crise, mas ao menos altera o custo da omissão e reposiciona o direito internacional como instrumento de pressão legítima.

Ao terminar 2025, talvez o gesto mais honesto seja este: resistir tanto ao desespero automático quanto ao otimismo fácil.

O mundo segue instável, desigual e perigoso — e nada autoriza triunfalismos. Mas também não é verdade que apenas tenhamos perdido. Entre retrocessos visíveis e avanços menos ruidosos, houve escolhas que reduziram danos, salvaram vidas e apontaram correções de rota possíveis.

Olhar o ano inteiro apenas por um ângulo empobrece a compreensão da realidade. Recuperar o campo de visão não resolve os problemas, mas é condição indispensável para enfrentá-los com lucidez.

 

Fonte: Brasil 247

 

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