terça-feira, 13 de janeiro de 2026

1914: Atentado que deflagrou a 1ª Guerra Mundial

O estudante sérvio chamado Gavrilo Princip, de 19 anos, pertencente a uma associação secreta conhecida como Mão Negra, assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria, e sua esposa. O atentado acabou deflagrando a Primeira Guerra Mundial.

Ocorrido na cidade de Sarajevo, na Bósnia, o ataque culminou com a declaração de guerra contra a Sérvia por parte do Império Austro-Húngaro. Os países europeus foram, um a um, arrastados para o conflito, que durou quatro anos, de 1914 a 1918.

Francisco Ferdinando foi morto a tiros, a curta distância, enquanto passeava por Sarajevo. A visita era uma tentativa do império, com sede em Viena, de demonstrar força na capital bósnia.

Princip era um dos sete conspiradores espalhados em pontos nevrálgicos da cidade de Sarajevo. Eram todos jovens, entre 17 e 20 anos, membros do movimento nacionalista que pretendia uma Grande Sérvia e inimigos da monarquia dos Habsburg.

<><> Articulador foi outro

O articulador do atentado, entretanto, havia sido outro: o chefe do Departamento Sérvio de Informações, brigadeiro Dragutin Dimitrijevic. Seu objetivo foi evitar que se concretizasse a ideia de Francisco Ferdinando, que queria aumentar a influência dos eslavos em detrimento dos húngaros.

Hoje em dia, não restam dúvidas entre os historiadores de que os responsáveis pela morte do arquiduque – o núcleo do generalato sérvio, apoiado pelo emissário imperial russo em Belgrado – queriam eliminar o sucessor ao trono, cujo objetivo era integrar na sociedade imperial os insatisfeitos grupos étnicos eslavos da monarquia. Desta forma, seria evitado o perigo de uma ruptura dos territórios sulinos, ou seja, a Eslovênia, Croácia, Dalmácia e Bósnia.

A declaração de guerra que deflagraria o primeiro grande conflito mundial foi feito pelo Império Austro-Húngaro à Sérvia a 28 de julho. Foi a primeira de uma série, que acabaria envolvendo toda a Europa.

Em outubro de 1914, o autor e coautores do atentado foram julgados. Entre eles, um colegial de 18 anos, chamado Vaso Djobrilovic, condenado a 16 anos de prisão. Mais tarde, acabou sendo ministro durante cinco anos sob o governo de Tito.

•        A incrível trégua de Natal na Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial já durava cinco meses em dezembro de 1914. Milhões de soldados se enfrentavam nas trincheiras da Frente Ocidental, em meio a campos minados e emaranhados de arame farpado, às vezes a apenas 30 metros de distância uns dos outros. Essa zona de combate se estendia do Canal da Mancha até a fronteira suíça, passando pela Bélgica e pela França.

Os soldados suportavam a extenuante guerra de posições em suas trincheiras, onde ratos, piolhos, frio e rações precárias os debilitavam e a morte era uma companheira constante. Entre as linhas inimigas estava a terra de ninguém, onde os corpos de seus camaradas caídos jaziam, inacessíveis.

<><> Da certeza da vitória iminente à desilusão

Naqueles primeiros meses a guerra já havia ceifado centenas de milhares de vidas de ingleses, franceses, belgas e alemães – dilacerados por granadas, alvejados por metralhadoras ou mortos em lutas corpo a corpo com baionetas.

Os soldados haviam seguido ao campo de batalha eufóricos, certos de uma vitória iminente. Eles estariam de novo em casa com suas famílias já no Natal – assim prometera o imperador Guilherme 2º, da Alemanha. Os franceses e britânicos também acreditaram nas promessas de seus líderes de um rápido retorno.

Mas, na frente de batalha, a desilusão logo tomou conta deles. Todos os dias os soldados encaravam a morte, mesmo no dia 24 de dezembro. Como sentir o espírito natalino?

<><> Noite feliz, noite feliz...

Então algo inesperado acontece: no meio de uma noite gelada de dezembro, um soldado alemão numa trincheira perto da cidade belga de Ypres começa a cantar "noite feliz, noite feliz". Logo outros se unem a ele.

Do outro lado, os britânicos mal conseguem acreditar no que ouvem. Silent night? Essa canção natalina também é conhecida na Inglaterra. Inicialmente os britânicos desconfiam dos "hunos", como chamam os alemães. Seria uma isca para atraí-los para uma cilada?

Mas então eles aplaudem e começam a cantar junto. Os alemães respondem com merry Christmas e gritam "we not shoot, you not shoot!". Os primeiros corajosos de ambos os lados saem das trincheiras, dirigem-se à terra de ninguém, entre os corpos de seus camaradas mortos, e se dão as mãos.

Cenas semelhantes se repetem por toda a Frente Ocidental. Por exemplo perto de Fleurbaix, nas proximidades do Canal da Mancha. Lá soldados alemães colocam pinheiros decorados na beira de suas trincheiras. As luzes brilhantes vêm de velas, não de disparos de armas de fogo.

<><> Árvores de Natal, presentes e futebol

O alto comando do Exército Alemão enviara milhares de pequenas árvores para a linha de frente para elevar a moral das tropas, pois estava ciente do quão difícil era para os soldados estarem longe de suas famílias no Natal.

Mas a luz brilhante de velas, visível para o inimigo? Com isso, os soldados estavam desrespeitando a ordem de blackout durante a guerra. Mas os soldados pareciam não se importar mais com isso.

"Parece inacreditável o que vou lhes contar, mas é a mais pura verdade", escreveu o soldado Josef Wenzl, do 16º Regimento de Infantaria de Reserva da Baviera, aos seus pais em 28 de dezembro de 1914. "Entre as trincheiras, os inimigos que tanto se odeiam se reúnem ao redor de árvores de Natal e cantam canções natalinas. Jamais me esquecerei dessa cena."

Naquela véspera de Natal, milhares trocam pequenos presentes: corned beef por Christstollen, salsichas por pudim de Natal. Os soldados dividem vinho, rum e cigarros e mostram uns aos outros fotos de suas noivas, esposas e filhos. Trocam botões de uniforme como lembranças. A maioria é britânica e alemã, mas alguns soldados franceses também interrompem os combates para trazer seus estoques de champanhe para o Natal.

Os soldados até mesmo jogam futebol. As traves são marcadas com capacetes ou bonés militares. Uma esfera de palha ou até mesmo uma lata de conserva têm que servir de bola. Mas, não raro, os britânicos conseguem uma verdadeira bola de couro. "Enviamos alguém de volta à nossa posição de reserva de bicicleta", escreveu um soldado da Guarda Escocesa aos pais, "e ele buscou a bola."

<><> Cessar-fogo de curta duração

E outra coisa ocupa os soldados em ambos os lados da frente: finalmente enterrar seus camaradas caídos na terra de ninguém. São momentos de humanidade numa guerra cruel.

"Não sei quanto tempo isso vai durar, mas, de qualquer forma, os canhões voltarão a silenciar no dia de Ano Novo porque os alemães querem ver nossas fotos", escreveu o jovem oficial Alfred Dougan Chater numa carta para sua mãe.

Mas em nem toda a Frente Ocidental havia o desejo de confraternização com o inimigo: em alguns lugares, a guerra continuou. Isso estava totalmente de acordo com os planos dos oficiais de alta patente de ambos os lados, que não estavam nada entusiasmados com a "trégua de Natal". Se dependesse deles, o gesto não se repetiria – e passou a ser punido como "alta traição".

"É terrível", escreveu um soldado alemão para casa mais tarde, "que num dia possamos interagir tão pacificamente uns com os outros e, no dia seguinte, tenhamos que nos preocupar em nos matar uns aos outros."

A Primeira Guerra Mundial custou a vida de 9 milhões de soldados e de inúmeros civis. Josef Wenzl também morreu em combate em 6 de maio de 1917 – dois anos e meio depois de escrever aos pais: "O Natal de 1914 será inesquecível para mim".

•        O fim da Primeira Guerra Mundial

"Finie la guerre?" – "Acabou-se a guerra?" O carro dos negociadores alemães que, vindo da Bélgica, atravessou a fronteira da França em 6 de novembro de 1918 espalhou o júbilo entre os soldados franceses. Os exércitos ainda se confrontavam, mas a guerra que já durava mais de quatro anos parecia estar se aproximando do fim.

Talvez os políticos vindos de Berlim até trouxessem consigo alguns cigarros, um gostinho da futura paz? O líder da delegação alemã, Matthias Erzberger, teve que desiludir os combatentes: "Como não fumante, eu não pude realizar a vontade deles", relatou em seu livro de memórias. No entanto, pouco mais tarde, na madrugada de 11 de novembro, ele e sua contraparte francesa, o marechal Ferdinand Foch, preencheriam plenamente os anseios de milhões de europeus.

Num vagão de trem no bosque de Compiègne, cerca de 90 quilômetros a nordeste de Paris, os dois colocaram sua firma no recém-negociado armistício entre a Alemanha e os Aliados: os alemães capitulavam. No ano seguinte, em 28 de junho, no famoso Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, ambos os lados assinariam oficialmente o acordo de paz.

<><> Ajuda do outro lado do Atlântico

Até meados de 1918, as tropas alemãs haviam avançado no front ocidental, ganhando muito terreno. No entanto, entre março e julho, o contingente se reduziu de 5,1 milhões para 4,2 milhões de militares. O Império Alemão conseguiu fechar suas lacunas até o verão, mas só remobilizando soldados feridos e de novo recuperados. Além disso, os primeiros recrutas nascidos no ano de 1900 iam chegando pouco a pouco.

Contudo, os alemães se viam agora diante de um inimigo totalmente novo: os americanos. Depois que o presidente Woodrow Wilson declarara guerra à Alemanha, em 2 abril de 1917, seus soldados avançavam pelo Oceano Atlântico. No início do outono de 1918, desembarcavam diariamente 10 mil deles.

O historiador John Keegan concorda que os jovens americanos eram inexperientes no combate. "Decisivo, porém, foi o efeito que sua chegada teve sobre o adversário: profundamente deprimente."

No fim das contas, as bem equipadas unidades dos Estados Unidos é que decidiriam a guerra a favor dos Aliados. Os supremos comandantes das tropas alemãs se viram logo forçados a aceitar que não era mais possível vencer o conflito, que só um armistício evitaria o colapso total no front alemão.

<><> Morte em escala industrial

Até chegar à trégua de 11 de novembro, a Europa atravessara quatro anos de uma pavorosa carnificina e destruição jamais vista. Em sua viagem pela Bélgica e França, Erzberger registrou um quadro de desolação: "Nenhuma casa mais de pé, uma ruína se sucedia à outra. À luz da lua, os destroços se erguiam no ar, fantasmagóricos; nenhum ser vivo se mostrava."

O cronista e político do Partido Alemão do Centro traçou o balanço de uma guerra de letalidade sem precedentes. O avanço tecnológico e a industrialização haviam criado um arsenal que suplantava tudo o que já existira em termos de quantidade e qualidade: tanques aparentemente indestrutíveis, embarcações que manobravam debaixo d'água, artilharia de alcance gigantesco, gases mortais.

Em 1916, os alemães haviam colocado em ação o canhão ferroviário "Langer Max": lançados através de um tubo de 35 metros de comprimento, seus projéteis de 300 quilos atravessavam distâncias de até 48 quilômetros. Com essa arma, Paris foi alvejada em 23 de março de 1918. Algumas granadas atingiram a igreja de Saint Gervais durante um culto, matando 88 pessoas e ferindo cerca de 100.

Historiógrafos militares estimam que, durante a Primeira Guerra Mundial, se lançaram 850 milhões de granadas de artilharia. Ao todo, as nações envolvidas convocaram quase 56 milhões de recrutas. A matança se deu em escala industrial, com cerca de 11 milhões de soldados tombando sob a chuva de projéteis de canhões e o fogo de metralhadoras – uma média de 6 mil combatentes mortos por dia de conflito.

A esses se juntaram 21 milhões de feridos, soldados que perderam membros ou parte deles, que ficaram paralíticos ou acamados, foram submetidos a amputações, terminaram cegos ou surdos.

<><> Horrores do front

As vivências no front eram, inevitavelmente, aterrorizantes. "É horrível quando estilhaços de granadas penetram nos tecidos moles", recordava-se o soldado alemão Karl Bainier, nascido em 1898. "Nossos dois comandantes também foram atingidos em cheio durante a noite. Um perdeu o tórax inteiro; o outro, o tronco todo. O do tronco morreu na hora. O outro ainda gritou."

Johannes Götzmann, da geração de 1894, contou como ele e sua tropa procuraram abrigo num túnel subterrâneo oblíquo. "Nós estávamos sentados embaixo quando a garagem foi atingida. O número de feridos foi grande. Um ficou sem pernas. As duas pernas se foram. Ele sangrou ali até morrer."

Assim, não é de espantar que sobretudo os soldados desejassem o fim da guerra. Em maio de 1918, o comandante-chefe príncipe Rupprecht da Baviera observava não ser "nem um pouco fora do comum" que até 20 de cada 100 soldados se ausentassem sem permissão. Se fossem apanhados, em geral eram punidos com dois a quatro meses de prisão, "mas é exatamente isso o que alguns querem, pois assim escapam de uma ou outra batalha".

Nos meses seguintes, o front do lado das Potências Centrais – Alemanha e Áustria-Hungria – ficaria cada vez mais desfalcado. Muitos soldados se recusariam a lutar, outros partiriam para casa por conta própria.

"Tu estás na cama e és uma moléstia. Tu és uma fratura de crânio, um tiro na barriga, uma bacia quebrada": assim Alfred Döblin, o autor de Berlin Alexanderplatz, descreve o sentimento existencial do recrutas em seu romance Novembro de 1918: Uma revolução alemã.

<><> Solo fértil para a próxima guerra

Enquanto as alas alemãs rareavam progressivamente, o comando supremo se eximia de qualquer responsabilidade. Em 19 de setembro de 1918, o general Erich Ludendorff escreveu: "Pedi à Sua Majestade para colocar no governo também aqueles círculos a que principalmente devemos a situação em que estamos. Portanto agora veremos esses senhores assumirem os ministérios. Agora eles que tratem a paz que tiver de ser tratada. Eles que tomem a sopa que prepararam para nós."

"Esses senhores" eram, para Ludendorff, as bancadas do Parlamento que, já em meados de 1917, haviam pleiteado um acordo de paz: social-democratas, liberais de esquerda e o católico Partido Alemão do Centro. Essa acusação de uma suposta traição pela pátria exausta da guerra foi também adotada pelo mais alto militar do Império Alemão, o marechal de campo Paul von Hindenburg.

"O Exército alemão foi apunhalado pelas costas", afirmou, supostamente citando o general inglês Frederick Maurice. Embora este tenha sempre negado com veemência haver dito tal frase, assim nascia a "lenda da punhalada", segundo a qual a Alemanha teria perdido a guerra devido à "traição" interna. Essa lenda contribuiu significativamente para o futuro fracasso da República de Weimar.

De início, porém, o 11 de novembro trouxe o fim da guerra que milhões de europeus tanto ansiavam. No entanto, isso não significou automaticamente o fim do sofrimento: privação, vicissitude e luto seguiram pesando sobre o povo, agravados pela sensação de ter lutado e sofrido em vão.

"A falta de sentido, ao chegar a seu ponto mais alto, é raiva, raiva e raiva e continua não fazendo sentido", resumiu o escritor austro-húngaro Walter Serner a cólera de seus compatriotas. Esse sentimento tóxico tomou conta dos alemães e seria o solo fértil para a ascensão de um ex-soldado do front chamado Adolf Hitler.

 

Fonte: DW Brasil

 

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