1914:
Atentado que deflagrou a 1ª Guerra Mundial
O
estudante sérvio chamado Gavrilo Princip, de 19 anos, pertencente a uma
associação secreta conhecida como Mão Negra, assassinou o arquiduque Francisco
Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria, e sua esposa. O atentado acabou
deflagrando a Primeira Guerra Mundial.
Ocorrido
na cidade de Sarajevo, na Bósnia, o ataque culminou com a declaração de guerra
contra a Sérvia por parte do Império Austro-Húngaro. Os países europeus foram,
um a um, arrastados para o conflito, que durou quatro anos, de 1914 a 1918.
Francisco
Ferdinando foi morto a tiros, a curta distância, enquanto passeava por
Sarajevo. A visita era uma tentativa do império, com sede em Viena, de
demonstrar força na capital bósnia.
Princip
era um dos sete conspiradores espalhados em pontos nevrálgicos da cidade de
Sarajevo. Eram todos jovens, entre 17 e 20 anos, membros do movimento
nacionalista que pretendia uma Grande Sérvia e inimigos da monarquia dos
Habsburg.
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Articulador foi outro
O
articulador do atentado, entretanto, havia sido outro: o chefe do Departamento
Sérvio de Informações, brigadeiro Dragutin Dimitrijevic. Seu objetivo foi
evitar que se concretizasse a ideia de Francisco Ferdinando, que queria
aumentar a influência dos eslavos em detrimento dos húngaros.
Hoje em
dia, não restam dúvidas entre os historiadores de que os responsáveis pela
morte do arquiduque – o núcleo do generalato sérvio, apoiado pelo emissário
imperial russo em Belgrado – queriam eliminar o sucessor ao trono, cujo
objetivo era integrar na sociedade imperial os insatisfeitos grupos étnicos
eslavos da monarquia. Desta forma, seria evitado o perigo de uma ruptura dos
territórios sulinos, ou seja, a Eslovênia, Croácia, Dalmácia e Bósnia.
A
declaração de guerra que deflagraria o primeiro grande conflito mundial foi
feito pelo Império Austro-Húngaro à Sérvia a 28 de julho. Foi a primeira de uma
série, que acabaria envolvendo toda a Europa.
Em
outubro de 1914, o autor e coautores do atentado foram julgados. Entre eles, um
colegial de 18 anos, chamado Vaso Djobrilovic, condenado a 16 anos de prisão.
Mais tarde, acabou sendo ministro durante cinco anos sob o governo de Tito.
• A incrível trégua de Natal na Primeira
Guerra Mundial
A
Primeira Guerra Mundial já durava cinco meses em dezembro de 1914. Milhões de
soldados se enfrentavam nas trincheiras da Frente Ocidental, em meio a campos
minados e emaranhados de arame farpado, às vezes a apenas 30 metros de
distância uns dos outros. Essa zona de combate se estendia do Canal da Mancha
até a fronteira suíça, passando pela Bélgica e pela França.
Os
soldados suportavam a extenuante guerra de posições em suas trincheiras, onde
ratos, piolhos, frio e rações precárias os debilitavam e a morte era uma
companheira constante. Entre as linhas inimigas estava a terra de ninguém, onde
os corpos de seus camaradas caídos jaziam, inacessíveis.
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Da certeza da vitória iminente à desilusão
Naqueles
primeiros meses a guerra já havia ceifado centenas de milhares de vidas de
ingleses, franceses, belgas e alemães – dilacerados por granadas, alvejados por
metralhadoras ou mortos em lutas corpo a corpo com baionetas.
Os
soldados haviam seguido ao campo de batalha eufóricos, certos de uma vitória
iminente. Eles estariam de novo em casa com suas famílias já no Natal – assim
prometera o imperador Guilherme 2º, da Alemanha. Os franceses e britânicos
também acreditaram nas promessas de seus líderes de um rápido retorno.
Mas, na
frente de batalha, a desilusão logo tomou conta deles. Todos os dias os
soldados encaravam a morte, mesmo no dia 24 de dezembro. Como sentir o espírito
natalino?
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Noite feliz, noite feliz...
Então
algo inesperado acontece: no meio de uma noite gelada de dezembro, um soldado
alemão numa trincheira perto da cidade belga de Ypres começa a cantar
"noite feliz, noite feliz". Logo outros se unem a ele.
Do
outro lado, os britânicos mal conseguem acreditar no que ouvem. Silent night?
Essa canção natalina também é conhecida na Inglaterra. Inicialmente os
britânicos desconfiam dos "hunos", como chamam os alemães. Seria uma
isca para atraí-los para uma cilada?
Mas
então eles aplaudem e começam a cantar junto. Os alemães respondem com merry Christmas e gritam "we not shoot,
you not shoot!". Os
primeiros corajosos de ambos os lados saem das trincheiras, dirigem-se à terra
de ninguém, entre os corpos de seus camaradas mortos, e se dão as mãos.
Cenas
semelhantes se repetem por toda a Frente Ocidental. Por exemplo perto de
Fleurbaix, nas proximidades do Canal da Mancha. Lá soldados alemães colocam
pinheiros decorados na beira de suas trincheiras. As luzes brilhantes vêm de
velas, não de disparos de armas de fogo.
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Árvores de Natal, presentes e futebol
O alto
comando do Exército Alemão enviara milhares de pequenas árvores para a linha de
frente para elevar a moral das tropas, pois estava ciente do quão difícil era
para os soldados estarem longe de suas famílias no Natal.
Mas a
luz brilhante de velas, visível para o inimigo? Com isso, os soldados estavam
desrespeitando a ordem de blackout durante a guerra. Mas os soldados pareciam
não se importar mais com isso.
"Parece
inacreditável o que vou lhes contar, mas é a mais pura verdade", escreveu
o soldado Josef Wenzl, do 16º Regimento de Infantaria de Reserva da Baviera,
aos seus pais em 28 de dezembro de 1914. "Entre as trincheiras, os
inimigos que tanto se odeiam se reúnem ao redor de árvores de Natal e cantam
canções natalinas. Jamais me esquecerei dessa cena."
Naquela
véspera de Natal, milhares trocam pequenos presentes: corned beef por
Christstollen, salsichas por pudim de Natal. Os soldados dividem vinho, rum e
cigarros e mostram uns aos outros fotos de suas noivas, esposas e filhos.
Trocam botões de uniforme como lembranças. A maioria é britânica e alemã, mas
alguns soldados franceses também interrompem os combates para trazer seus
estoques de champanhe para o Natal.
Os
soldados até mesmo jogam futebol. As traves são marcadas com capacetes ou bonés
militares. Uma esfera de palha ou até mesmo uma lata de conserva têm que servir
de bola. Mas, não raro, os britânicos conseguem uma verdadeira bola de couro.
"Enviamos alguém de volta à nossa posição de reserva de bicicleta",
escreveu um soldado da Guarda Escocesa aos pais, "e ele buscou a
bola."
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Cessar-fogo de curta duração
E outra
coisa ocupa os soldados em ambos os lados da frente: finalmente enterrar seus
camaradas caídos na terra de ninguém. São momentos de humanidade numa guerra
cruel.
"Não
sei quanto tempo isso vai durar, mas, de qualquer forma, os canhões voltarão a
silenciar no dia de Ano Novo porque os alemães querem ver nossas fotos",
escreveu o jovem oficial Alfred Dougan Chater numa carta para sua mãe.
Mas em
nem toda a Frente Ocidental havia o desejo de confraternização com o inimigo:
em alguns lugares, a guerra continuou. Isso estava totalmente de acordo com os
planos dos oficiais de alta patente de ambos os lados, que não estavam nada
entusiasmados com a "trégua de Natal". Se dependesse deles, o gesto
não se repetiria – e passou a ser punido como "alta traição".
"É
terrível", escreveu um soldado alemão para casa mais tarde, "que num
dia possamos interagir tão pacificamente uns com os outros e, no dia seguinte,
tenhamos que nos preocupar em nos matar uns aos outros."
A
Primeira Guerra Mundial custou a vida de 9 milhões de soldados e de inúmeros
civis. Josef Wenzl também morreu em combate em 6 de maio de 1917 – dois anos e
meio depois de escrever aos pais: "O Natal de 1914 será inesquecível para
mim".
• O fim da Primeira Guerra Mundial
"Finie
la guerre?" – "Acabou-se a guerra?" O carro dos negociadores
alemães que, vindo da Bélgica, atravessou a fronteira da França em 6 de
novembro de 1918 espalhou o júbilo entre os soldados franceses. Os exércitos
ainda se confrontavam, mas a guerra que já durava mais de quatro anos parecia
estar se aproximando do fim.
Talvez
os políticos vindos de Berlim até trouxessem consigo alguns cigarros, um
gostinho da futura paz? O líder da delegação alemã, Matthias Erzberger, teve
que desiludir os combatentes: "Como não fumante, eu não pude realizar a
vontade deles", relatou em seu livro de memórias. No entanto, pouco mais
tarde, na madrugada de 11 de novembro, ele e sua contraparte francesa, o
marechal Ferdinand Foch, preencheriam plenamente os anseios de milhões de
europeus.
Num
vagão de trem no bosque de Compiègne, cerca de 90 quilômetros a nordeste de
Paris, os dois colocaram sua firma no recém-negociado armistício entre a
Alemanha e os Aliados: os alemães capitulavam. No ano seguinte, em 28 de junho,
no famoso Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, ambos os lados assinariam
oficialmente o acordo de paz.
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Ajuda do outro lado do Atlântico
Até
meados de 1918, as tropas alemãs haviam avançado no front ocidental, ganhando
muito terreno. No entanto, entre março e julho, o contingente se reduziu de 5,1
milhões para 4,2 milhões de militares. O Império Alemão conseguiu fechar suas
lacunas até o verão, mas só remobilizando soldados feridos e de novo
recuperados. Além disso, os primeiros recrutas nascidos no ano de 1900 iam
chegando pouco a pouco.
Contudo,
os alemães se viam agora diante de um inimigo totalmente novo: os americanos.
Depois que o presidente Woodrow Wilson declarara guerra à Alemanha, em 2 abril
de 1917, seus soldados avançavam pelo Oceano Atlântico. No início do outono de
1918, desembarcavam diariamente 10 mil deles.
O
historiador John Keegan concorda que os jovens americanos eram inexperientes no
combate. "Decisivo, porém, foi o efeito que sua chegada teve sobre o
adversário: profundamente deprimente."
No fim
das contas, as bem equipadas unidades dos Estados Unidos é que decidiriam a
guerra a favor dos Aliados. Os supremos comandantes das tropas alemãs se viram
logo forçados a aceitar que não era mais possível vencer o conflito, que só um
armistício evitaria o colapso total no front alemão.
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Morte em escala industrial
Até
chegar à trégua de 11 de novembro, a Europa atravessara quatro anos de uma
pavorosa carnificina e destruição jamais vista. Em sua viagem pela Bélgica e
França, Erzberger registrou um quadro de desolação: "Nenhuma casa mais de
pé, uma ruína se sucedia à outra. À luz da lua, os destroços se erguiam no ar,
fantasmagóricos; nenhum ser vivo se mostrava."
O
cronista e político do Partido Alemão do Centro traçou o balanço de uma guerra
de letalidade sem precedentes. O avanço tecnológico e a industrialização haviam
criado um arsenal que suplantava tudo o que já existira em termos de quantidade
e qualidade: tanques aparentemente indestrutíveis, embarcações que manobravam
debaixo d'água, artilharia de alcance gigantesco, gases mortais.
Em
1916, os alemães haviam colocado em ação o canhão ferroviário "Langer
Max": lançados através de um tubo de 35 metros de comprimento, seus
projéteis de 300 quilos atravessavam distâncias de até 48 quilômetros. Com essa
arma, Paris foi alvejada em 23 de março de 1918. Algumas granadas atingiram a
igreja de Saint Gervais durante um culto, matando 88 pessoas e ferindo cerca de
100.
Historiógrafos
militares estimam que, durante a Primeira Guerra Mundial, se lançaram 850
milhões de granadas de artilharia. Ao todo, as nações envolvidas convocaram
quase 56 milhões de recrutas. A matança se deu em escala industrial, com cerca
de 11 milhões de soldados tombando sob a chuva de projéteis de canhões e o fogo
de metralhadoras – uma média de 6 mil combatentes mortos por dia de conflito.
A esses
se juntaram 21 milhões de feridos, soldados que perderam membros ou parte
deles, que ficaram paralíticos ou acamados, foram submetidos a amputações,
terminaram cegos ou surdos.
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Horrores do front
As
vivências no front eram, inevitavelmente, aterrorizantes. "É horrível
quando estilhaços de granadas penetram nos tecidos moles", recordava-se o
soldado alemão Karl Bainier, nascido em 1898. "Nossos dois comandantes
também foram atingidos em cheio durante a noite. Um perdeu o tórax inteiro; o
outro, o tronco todo. O do tronco morreu na hora. O outro ainda gritou."
Johannes
Götzmann, da geração de 1894, contou como ele e sua tropa procuraram abrigo num
túnel subterrâneo oblíquo. "Nós estávamos sentados embaixo quando a
garagem foi atingida. O número de feridos foi grande. Um ficou sem pernas. As
duas pernas se foram. Ele sangrou ali até morrer."
Assim,
não é de espantar que sobretudo os soldados desejassem o fim da guerra. Em maio
de 1918, o comandante-chefe príncipe Rupprecht da Baviera observava não ser
"nem um pouco fora do comum" que até 20 de cada 100 soldados se
ausentassem sem permissão. Se fossem apanhados, em geral eram punidos com dois
a quatro meses de prisão, "mas é exatamente isso o que alguns querem, pois
assim escapam de uma ou outra batalha".
Nos
meses seguintes, o front do lado das Potências Centrais – Alemanha e
Áustria-Hungria – ficaria cada vez mais desfalcado. Muitos soldados se
recusariam a lutar, outros partiriam para casa por conta própria.
"Tu
estás na cama e és uma moléstia. Tu és uma fratura de crânio, um tiro na
barriga, uma bacia quebrada": assim Alfred Döblin, o autor de Berlin
Alexanderplatz, descreve o sentimento existencial do recrutas em seu romance
Novembro de 1918: Uma revolução alemã.
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Solo fértil para a próxima guerra
Enquanto
as alas alemãs rareavam progressivamente, o comando supremo se eximia de
qualquer responsabilidade. Em 19 de setembro de 1918, o general Erich
Ludendorff escreveu: "Pedi à Sua Majestade para colocar no governo também
aqueles círculos a que principalmente devemos a situação em que estamos.
Portanto agora veremos esses senhores assumirem os ministérios. Agora eles que
tratem a paz que tiver de ser tratada. Eles que tomem a sopa que prepararam
para nós."
"Esses
senhores" eram, para Ludendorff, as bancadas do Parlamento que, já em
meados de 1917, haviam pleiteado um acordo de paz: social-democratas, liberais
de esquerda e o católico Partido Alemão do Centro. Essa acusação de uma suposta
traição pela pátria exausta da guerra foi também adotada pelo mais alto militar
do Império Alemão, o marechal de campo Paul von Hindenburg.
"O
Exército alemão foi apunhalado pelas costas", afirmou, supostamente
citando o general inglês Frederick Maurice. Embora este tenha sempre negado com
veemência haver dito tal frase, assim nascia a "lenda da punhalada",
segundo a qual a Alemanha teria perdido a guerra devido à "traição"
interna. Essa lenda contribuiu significativamente para o futuro fracasso da
República de Weimar.
De
início, porém, o 11 de novembro trouxe o fim da guerra que milhões de europeus
tanto ansiavam. No entanto, isso não significou automaticamente o fim do
sofrimento: privação, vicissitude e luto seguiram pesando sobre o povo,
agravados pela sensação de ter lutado e sofrido em vão.
"A
falta de sentido, ao chegar a seu ponto mais alto, é raiva, raiva e raiva e
continua não fazendo sentido", resumiu o escritor austro-húngaro Walter
Serner a cólera de seus compatriotas. Esse sentimento tóxico tomou conta dos
alemães e seria o solo fértil para a ascensão de um ex-soldado do front chamado
Adolf Hitler.
Fonte:
DW Brasil

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