Entidades
médicas resistem à política de vacinação de Trump
Em meio
a um conflito público cada vez maior entre as agências de saúde do governo dos
Estados Unidos sob a Presidência de Donald Trump e entidades médicas
profissionais e independentes, especialistas dizem que os médicos de família
são provavelmente a melhor fonte para obter informações confiáveis e de
primeira mão sobre vacinas e outros medicamentos.
A
Associação Médica Americana (AMA), a Academia Americana de Pediatria e outras
42 entidades assinaram uma declaração conjunta protestando contra uma nova
recomendação do Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização (Acip, na sigla
em inglês) dos EUA, um painel consultivo governamental de alto nível sobre
segurança e eficácia de vacinas.
O Acip
votou para que a vacina contra hepatite B, normalmente administrada a todos os
recém-nascidos nos EUA nas primeiras horas de vida, seja opcional para todos,
exceto no caso de bebês com maior risco de infecção. A hepatite B é uma
infecção viral prevenível por vacina que causa distúrbios hepáticos, incluindo
cirrose e câncer, frequentemente fatais.
Em
setembro, o Acip também recomendou que a vacina MMRV – que une a vacina
tríplice contra sarampo, caxumba, rubéola e a vacina contra varicela (causadora
da catapora) – fosse administrada separadamente.
As
mudanças vêm ocorrendo apesar da falta de evidências de que as vacinas possam
causar danos e de dados acumulados ao longo de vários anos que aprimoram os
esquemas de dosagem das vacinas.
"A
maior preocupação para nós, que acompanhamos essas recomendações, é como isso
pode semear desconfiança em relação às nossas vacinas, ao calendário de
vacinação e aos dados que possuímos", afirmou Jodie Guest, especialista em
doenças infecciosas da Escola de Saúde Pública Rollins da Universidade Emory, à
DW. "É confuso, é complicado."
<><>
A reformulação das estruturas de saúde
Normalmente,
os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a agência federal de saúde
pública dos Estados Unidos, implementam as recomendações do Acip como
diretrizes para os estados americanos, que têm a responsabilidade final pela
política de saúde dentro de seus territórios.
As
diretrizes do CDC geralmente são apoiadas por importantes entidades médicas e
seguidas pelas seguradoras de saúde para definir a cobertura dos planos.
Contudo, o Acip e o CDC foram reformulados em 2025 pelo Secretário de Saúde dos
EUA e notório ativista antivacina, Robert F. Kennedy Jr .
Este
"novo grupo de pessoas [é] bastante cético, senão francamente hostil às
vacinas", disse Josh Sharfstein, especialista em saúde pública da
Universidade Johns Hopkins.
Ex-secretário
de Saúde do estado de Maryland, nomeado por um governador democrata, Sharfstein
disse à DW que os principais processos de tomada de decisão do Acip foram
abandonados sob o novo painel indicado por Kennedy.
"As
tomadas de decisão sobre vacinas perderam a integridade", disse
Sharfstein. Ele diz que os cientistas não fazem mais apresentações aos
consultores. Ao contrário, quem os informa são representantes legais que já
enfrentaram todo tipo de questionamento sobre a precisão de suas declarações no
passado.
"É
mais do que apenas uma conclusão diferente, é um processo completamente
diferente", disse Sharfstein. "É um processo que saiu dos
trilhos."
<><>
"Hostilidade generalizada em relação às vacinas"
Por
trás disso tudo está uma visão há muito defendida por Kennedy de que algumas
vacinas causariam autismo. Recentemente, ele ordenou uma atualização da página
de informações de segurança "Autismo e Vacinas" no portal do CDC, que
passou a afirmar que pesquisas importantes sobre uma suposta ligação entre
autismo e vacinas foram "ignoradas pelas autoridades de saúde" e que
"a afirmação 'vacinas não causam autismo' não é uma alegação baseada em
evidências".
No
entanto, vários estudos que analisaram milhões de nascimentos não encontraram
nenhuma ligação entre vacinas — geralmente a vacina tríplice MMR — e autismo.
Isso foi reafirmado em dezembro de 2025 por um comitê de especialistas da
Organização Mundial da Saúde (OMS).
Profissionais
médicos disseram que as alegações de aumento nas taxas de autismo nos EUA se
deve à ampliação das definições da condição e à melhoria dos métodos de
diagnóstico, não à vacinação. Muitas páginas no site do CDC ainda afirmam que
as vacinas, incluindo a vacina MMR, são seguras.
"Isso
não significa que não haja aspectos importantes a serem estudados em relação à
segurança das vacinas", disse Sharfstein. "O objetivo deve ser sempre
tornar as vacinas mais seguras e compreender melhor os riscos. É possível
acreditar que os benefícios superam em muito os riscos das vacinas e ainda
assim querer torná-las o mais seguras possível.
"O
que está acontecendo agora, acredito, não é motivado por um tipo específico de
estudo. Penso que está relacionado a uma hostilidade muito generalizada em
relação às vacinas."
<><>
Médicos de família como "retaguarda"
À
medida que Kennedy reformulou estruturas federais de saúde importantes, houve
renúncias de funcionários científicos de longa data em suas agências de saúde.
Entidades
médicas independentes, academias e especialistas estão preocupados com o fato
de as informações das agências federais de saúde não serem mais confiáveis e
começaram a divulgar seus próprios aconselhamentos ao público.
James
Campbell, vice-presidente do comitê de doenças infecciosas da Academia
Americana de Pediatria, chamou as reuniões do Acip de "uma tentativa
descarada de semear medo e desconfiança em vacinas que salvaram inúmeras
vidas".
Após as
recomendações, cerca de uma dúzia de estados americanos – todos liderados por
democratas – disseram que rejeitariam quaisquer mudanças no calendário de
vacinação. As seguradoras de saúde afirmaram que continuariam a oferecer
cobertura para a vacinação contra hepatite B ao nascer, apesar da nova diretriz
do Acip.
Uma
nova pesquisa encomendada pelo Annenberg Public Policy Center também descobriu
que os adultos americanos, por uma margem de 2 para 1, estariam mais propensos
a seguir o conselho da Associação Médica Americana do que o do CDC.
Jason
Schwartz, pesquisador de vacinas e políticas de vacinação da Universidade de
Yale, nos EUA, disse à DW que a reação da comunidade médica americana é
"uma tentativa de mitigar o que a grande maioria da comunidade médica e de
saúde pública considera mudanças inadequadas nas recomendações federais sobre
vacinas".
No
entanto, ele e outros especialistas com quem a DW conversou afirmam que o
conflito de mensagens entre o governo federal, estados e principais entidades
médicas pode gerar confusão.
"Acredito
que a posição das associações profissionais, dos médicos e dos enfermeiros tem
agora muito mais credibilidade com o povo americano", disse Sharfstein.
Schwartz
apontou o relacionamento com os médicos de família como a
"retaguarda" em meio ao conflito entre as principais entidades
médicas e o Departamento de Saúde de Kennedy.
"Esse
relacionamento com um profissional de saúde que a família conhece, com quem
pode conversar, que pode ouvir suas perguntas e preocupações, pode ajudar a
esclarecer confusões ou incertezas que, sem dúvida, eles estão sentindo em
algum grau neste momento", disse Schwartz.
<><>
Possível impacto global
O papel
tradicional dos EUA como líder global em saúde também está em declínio.
Muitos
países basearam suas próprias agências de saúde pública, comitês consultivos de
vacinas e estruturas de revisão científica nos modelos americanos.
Alguns
também consideram órgãos como a Food and Drug Administration (FDA), responsável
pela aprovação de medicamentos nos EUA, como uma referência valiosa para suas
próprias agências nacionais.
"Não
sei se outros países deveriam seguir a liderança dos Estados Unidos nessas
decisões, e isso é lamentável", disse o especialista em doenças
infecciosas Guest.
A
mudança de procedimento em todas as agências federais de saúde dos EUA e o
aumento da linguagem confusa em relação a pesquisas científicas consolidadas
sobre a segurança das vacinas também podem impactar a percepção pública sobre
imunização e medicamentos em outros países.
"Acho
que isso realmente pode moldar o futuro dos esforços de vacinação em termos
globais", disse Schwartz.
Sharfstein
apontou os cortes promovidos pelo
governo do presidente Donald Trump na ajuda humanitária global, que incluíam o
fornecimento de vacinas e o financiamento a muitos países de baixa e média
renda, como ações adicionais que "minam um papel muito positivo que o
governo dos EUA desempenhou no passado".
Em sua
opinião, a hesitação em relação às vacinas e a queda na adesão à vacinação
infantil provavelmente farão com que os EUA percam seu status de país
"livre de sarampo" em meio a um surto prolongado da doença. Em 2025,
houve 1.935 casos de sarampo, em comparação com os 285 registrados em todo o
ano de 2024 e os 59 de 2023.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário