terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Quatro vezes em que o Brasil foi alvo de interferência e pressão dos EUA

O ano de 2025 foi marcado por uma guinada significativa na política externa dos Estados Unidos, que gerou uma série de ações diretas e pressões sobre o Brasil.

Motivado por divergências geopolíticas, a gestão do presidente estadunidense, Donald Trump, impôs altas tarifas ao Brasil, aplicou sanções da Lei Magnitsky contra membros do Judiciário brasileiro, revogou vistos de autoridades do governo e proferiu uma série de ataques e ameaças em postagens nas redes sociais.

A ação foi considerada o ataque mais direto de Washington ao Brasil nos últimos tempos, mas não foi a primeira vez que Washington interferiu no cenário interno brasileiro. A Sputnik Brasil lista cinco exemplos de interferência direta e indireta norte-americana no Brasil ao longo da história.

<><> Governo Vargas e Segunda Guerra Mundial (1930-1945)

Durante o governo Vargas o avanço da Segunda Guerra Mundial dividiu o mundo em dois polos: as potências do Eixo, compostas por Alemanha, Itália e Japão; e as potências Aliadas, compostas pelos Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética e China.

Inicialmente, Vargas adotou a política de equidistância pragmática, mantendo um bom relacionamento com países de ambos os lados, no intuito de obter vantagens econômicas, mesmo com simpatias em alas do governo Vargas e nas Forças Armadas pelos ideais do Eixo.

Porém, Washington pressionou o Brasil a se alinhar aos Aliados por meio de influência política e militar. Uma das táticas usadas foi condicionar o financiamento para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) ao apoio a seu lado.

Foi nesse período que os Estados Unidos instalaram bases militares no nordeste, sendo a base aérea de Natal, em Parnamirim, a mais estratégica durante a Segunda Guerra por ser o ponto mais próximo do continente com a África. Ela se tornou um ponto logístico essencial para os Aliados e recebeu o apelido de "trampolim da vitória".

<><> Golpe militar (1964)

No período da Guerra Fria os EUA passaram a ver o Brasil como peça-chave para conter o avanço do comunismo na América Latina. Nesse período houve interferência intensa de Washington no Brasil, apoiando governos, grupos anticomunistas e a imprensa, por vezes com financiamento indireto. A ascensão de João Goulart (1961-1964) à presidência da República foi vista como ameaça por conta das reformas de base que propunha e da aproximação com sindicatos.

A mais famosa e bem documentada interferência norte-americana no Brasil nesse período foi o apoio ao golpe de 1964. Com respaldo da operação Brother Sam, um plano secreto estadunidense para fornecer apoio logístico militar, Goulart foi deposto e foi instaurado um regime militar no país, que obteve o reconhecimento imediato dos EUA.

Durante a ditadura, Washington continuou fornecendo treinamento militar, apoio bélico, financeiro e de inteligência ao Brasil, além de apoiar práticas repressivas contra dissidentes.

<><> Onda neoliberal (1985-2002)

Com o fim da ditadura e a redemocratização do Brasil, a Casa Branca passou a influenciar o país indiretamente de forma econômica e institucional. Entre os meios usados estão o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que fornecia empréstimos que tinham como contrapartidas reformas estruturais no país que interessavam aos EUA.

O período de maior influência ocorreu durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, com pressão por privatizações, abertura de mercados e redução do papel do Estado.

<><> Espionagem da NSA contra Dilma Rousseff (2013)

Durante os governos Lula e Dilma Rousseff (2003-2016), o Brasil buscou uma agenda internacional mais independente e calcada em parcerias com países do Sul Global e integração regional sul-americana. Em 2003, uma política externa ativa e altiva, traçada por Celso Amorim, foi instaurada visando promover o Brasil como player global relevante e liderança do Sul Global.

Em 2006, o Brasil fundou junto com Rússia, China e Índia o grupo BRIC, que teve sua primeira cúpula em Ecaterimburgo, na Rússia. A reunião foi considerada o início oficial do grupo, que em 2011 passou a incluir a África do Sul, que se tornou a letra "S" do BRICS.

A movimentação do Brasil despertou tensão nos Estados Unidos, como ficou revelado em 2013 ao vir à tona a espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) contra o governo Dilma, exposta pelo ex-funcionário da agência Edward Snowden e publicada no Wikileaks, plataforma criada por Julian Assange dedicada a divulgar informações confidenciais vazadas de governos e empresas.

A investigação do caso expôs que o celular de Dilma estava entre os aparelhos de líderes monitorados. Os documentos vazados também mostraram que a Petrobras e ministérios do governo brasileiro foram espionados pela agência de segurança norte-americana.

•        4 vezes em que o governo federal precisou intervir em concessões públicas

A Sputnik Brasil separou casos recentes em que concessionárias foram alvo de medidas do governo federal por má gestão, crise financeira ou incapacidade de cumprir o acordo firmado.

O governo de São Paulo pediu recentemente ajuda ao governo federal para declarar a caducidade do contrato da Enel, distribuidora de energia para São Paulo e região. A medida foi tomada após o último apagão gerado pela passagem de um ciclone extratropical deixar cerca de 2,2 milhões de pessoas sem luz por vários dias.O movimento conseguiu unir direita e esquerda pedindo o encerramento da concessão.

Confira abaixo uma lista de outros momentos em que o governo precisou intervir em concessões públicas.

<><> Aeroporto Internacional de Viracopos (Campinas-SP)

Em 2018, uma crise financeira levou a Aeroportos Brasil Viracopos a entrar em processo de recuperação judicial e a solicitar a devolução da concessão do aeroporto à União. O motivo alegado foi a redução da movimentação de passageiros e cargas.

O governo interveio e assumiu temporariamente a gestão do aeroporto por meio da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Após anos de uma longa negociação, o processo de relicitação foi encerrado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em junho de 2025, confirmando a permanência da concessionária, que conseguiu se reestruturar.

<><> Invepar

Em 2019, a Invepar entrou com pedido formal de processo de relicitação de uma de suas principais concessões rodoviárias, a BR-040, em Juiz de Fora, Minas Gerais.

O motivo do pedido foi o acúmulo de dívidas da concessionária somado à queda no volume de tráfego nas rodovias, um impacto da crise financeira vivenciada pelo país no período.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aceitou o pedido, e o governo iniciou um processo de intervenções regulatórias e de relicitação. Em outubro de 2025, o Consórcio Elovias assumiu o controle da rodovia.

<><> Concepa BR-290 (Freeway)

Em 2018, o governo federal decidiu não renovar o contrato da Concessionária da Rodovia Osório-Porto Alegre (Concepa) para manutenção da rodovia BR-290, uma das principais do Rio Grande do Sul.

A medida foi tomada por conta do valor do pedágio cobrado e da falta de manutenção e atendimento aos usuários. A administração da rodovia foi repassada temporariamente ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A partir de 2020, a rodovia passou a ser administrada pela concessionária CCR ViaSul.

<><> Aeroporto de São Gonçalo do Amarante

Em 2022, o governo federal interveio de maneira regulatória no aeroporto de São Gonçalo do Amarante. Localizado no Rio Grande do Norte, o aeroporto é o principal da capital do estado, Natal.

Na ocasião, a gestão era feita pela concessionária Inframérica, que entrou com um pedido de relicitação argumentando incapacidade para cumprir as obrigações contratuais e financeiras do acordo de concessão.

O pedido foi acatado pelo governo federal que, para evitar risco à prestação de serviços, optou pela devolução amigável, restituindo à concessionária cerca de R$ 199,7 milhões em ativos como indenização pelos investimentos não amortizados. A medida era crucial para garantir a relicitação. Em 2023, a Zurich Airport Internacional assumiu a concessão do aeroporto.

•        Para 69% dos brasileiros, 2026 será melhor que 2025, diz Datafolha

Nova pesquisa Datafolha aponta que 69% dos brasileiros esperam por uma melhora na vida pessoal em 2026 e 60% veem avanço para o país. A confiança é maior entre mulheres, nordestinos e pessoas de menor renda, enquanto economistas alertam que a economia deve desacelerar no próximo ano.

O otimismo do brasileiro para 2026 cresceu de forma expressiva, segundo pesquisa Datafolha: 69% dos entrevistados acreditam que sua situação pessoal vai melhorar no próximo ano, nove pontos acima do registrado na virada anterior. Apenas 11% esperam piora, e 16% projetam estabilidade.

O levantamento também mostra aumento do otimismo em relação ao país como um todo. Para 60% dos entrevistados, 2026 será melhor para os brasileiros em geral, percentual bem superior aos 47% registrados no ano passado e equivalente ao observado logo após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022.

O entusiasmo, porém, não é homogêneo. Mulheres, pessoas com menor escolaridade e brasileiros de baixa renda demonstram expectativas mais altas. Entre quem tem ensino fundamental, 74% esperam melhora; entre quem ganha menos de dois salários mínimos, o índice chega a 72%.

O recorte político também influencia o humor: 78% dos eleitores de Lula acreditam que sua situação pessoal vai melhorar em 2026, contra 61% dos que votaram em Jair Bolsonaro. Entre os que aprovam o governo, o otimismo chega a 79%, enquanto cai para 59% entre os que o desaprovam.

Regionalmente, o Nordeste lidera a confiança, com 75% dos moradores esperando melhora no próximo ano. O Sul registra o menor índice, ainda assim elevado: 65%. Para os economistas, esse sentimento positivo reflete o bom desempenho dos indicadores econômicos em 2025.

A queda do desemprego para 6,1% — o menor nível da série histórica — e a inflação dentro da meta contribuíram para a percepção de melhora. O IPCA-15 — prévia da inflação oficial calculado pelo IBGE — fechou o ano com alta de 4,41%, enquanto os alimentos tiveram um comportamento favorável, reforçando a sensação de alívio no orçamento das famílias.

Apesar disso, especialistas que conversaram com a Folha de S.Paulo projetam um 2026 mais desafiador. A economia dá sinais de desaceleração, com produto interno bruto (PIB) crescendo apenas 0,1% no terceiro trimestre e juros elevados após a Selic chegar a 15% ao ano. A expectativa é de leve alta no desemprego, embora o mercado de trabalho siga relativamente forte.

Programas do governo, como a ampliação da faixa isenta do Imposto de Renda (IR), o Gás do Povo e a nova faixa do Minha Casa, Minha Vida, devem sustentar parte da atividade econômica, elevando a projeção de crescimento do PIB para 1,6%. Mas economistas alertam que essas medidas pressionam o quadro fiscal e tornam improvável o cumprimento da meta de 2026.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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