Somalilândia:
o território que declarou independência há mais de 30 anos e só agora passou a
ser reconhecido por Israel
Este
território semidesértico, aproximadamente do tamanho da Nicarágua, declarou sua
independência em 1991.
No
entanto, mais de 34 anos após essa tumultuada declaração, a Somalilândia não
havia sido reconhecida como um Estado por nenhuma outra nação.
Isso
mudou na sexta-feira (26/11), quando Israel se tornou o
primeiro a reconhecê-la formalmente como um país independente.
O
presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdullahi, descreveu a
declaração do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como um
"momento histórico".
A
decisão foi condenada, no entanto, pelos ministros das Relações Exteriores da
Somália, Egito, Turquia e Djibuti, que, em comunicado, afirmaram sua
"rejeição total" ao anúncio de Israel.
O
reconhecimento israelense poderia encorajar outras nações a seguirem o exemplo,
fortalecendo a posição diplomática da região separatista e seu acesso aos
mercados internacionais.
Exploramos
a curiosa história deste território de 137.600 km², lar de cerca de 3,5 milhões
de pessoas, considerado uma verdadeira anomalia no Chifre da África.
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A origem
Localizada
entre a Etiópia e a Somália — Estado do qual faz oficialmente parte —, a
Somalilândia foi um protetorado britânico até sua independência em 26 de junho
de 1960.
Mas
essa autonomia durou pouco, pois cinco dias depois se fundiu com a Somalilândia
Italiana, também recém-independente. Foi uma união que muitos somalilandeses
lamentaram assim que foi finalizada.
As
diferenças com seus vizinhos do sul começaram quase imediatamente após o
Parlamento aprovar a lei que fundou a República da Somália.
Em 20
de julho de 1961, um ano após a criação do novo Estado, foi realizado um
referendo para elaborar uma nova Constituição. Apesar da ampla rejeição por
parte dos somalilandeses, o texto foi aprovado, tornando-se a constituição da
jovem república.
E menos
de uma década depois, o país entrou em colapso.
Em
1967, Abdirashid Ali Shermarke foi eleito presidente e nomeou o somali Mohamed
Haji Ibrahim Egal como primeiro-ministro.
Mas
dois anos depois, o presidente foi assassinado por seu guarda-costas em um
golpe liderado pelo General Mohamed Siad Barre, que tomou o poder.
Assim,
a Somália tornou-se a República Democrática da Somália.
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'Deixarei prédios, mas não pessoas'
O
governo de fato de Siad Barre exacerbou o descontentamento na Somalilândia e
alimentou o desejo de muitos somalilandeses de trilhar um caminho diferente.
Aquele
controverso oficial militar marxista-leninista causou descontentamento não
apenas na Somalilândia, mas em todo o país, e esse descontentamento desencadeou
uma revolução.
"Quando
eu deixar a Somália, deixarei prédios, mas não pessoas", prometeu Barre no
final da década de 1980.
Um
relatório encomendado pelas Nações Unidas e publicado no início deste século
determinou que "o crime de genocídio foi concebido, planejado e
perpetrado" pelo governo somali contra o povo Isaaq no norte da Somália
entre 1987 e 1989.
Durante
esse período, a força aérea somali realizou bombardeios em larga escala contra
Hargeisa, a capital da autoproclamada República da Somalilândia, matando
milhares de civis e destruindo parcialmente a cidade.
Após
vários anos de um conflito sangrento, em 1991, Siad Barre foi deposto, o que
levou a uma guerra civil.
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Falta de reconhecimento internacional
O fim
do regime militar também levou a Somalilândia a declarar unilateralmente sua
independência. Naquela época, era, e ainda é, um oásis de relativa calma em uma
das regiões mais turbulentas do mundo.
Mais de
três décadas depois, a Somalilândia funciona quase como um país independente,
mas sem sê-lo, pelo menos oficialmente.
Possui
sistema político próprio, parlamento, força policial própria, bandeira, moeda e
emite passaportes próprios.
A falta
de apoio internacional foi agravada pela crise diplomática com a Somália após o
acordo assinado em janeiro de 2024 entre a Etiópia e a Somalilândia, que
concedeu a Addis Abeba (a capital da Etiópia) acesso ao mar através do porto de
Berbera e abriu caminho para um eventual reconhecimento.
Mogadíscio
(a capital da Somália e sede de seu governo federal) denunciou o acordo como
uma violação de sua soberania, considerando a Somalilândia parte inseparável da
Somália.
Embora
Israel tenha se tornado o primeiro país esta semana a reconhecer formalmente a
Somalilândia como nação soberana, o restante da comunidade internacional não
reconhece sua independência, incluindo as Nações Unidas, a Liga Árabe e a União
Africana.
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Comparações com Taiwan
O caso
da Somalilândia é frequentemente comparado ao de Taiwan. Ambos parecem ser
Estados plenamente funcionais e declaram com orgulho sua independência de seus
vizinhos maiores, Somália e China, que insistem que as áreas rebeldes fazem
parte de seus territórios.
Reconhecendo
isso, Hargeisa (capital da Somalilândia) e Taipei (capital de Taiwan)
fortaleceram seu relacionamento e estabeleceram oficialmente laços diplomáticos
em 2020, provocando a ira de seus vizinhos.
O
representante taiwanês na Somalilândia, Allen Chenhwa Lou, descreveu a relação
entre os dois territórios como "ganha-ganha" em uma entrevista à BBC
no mês passado.
"Não
precisamos buscar a independência agora porque já somos independentes. O que
ambos precisamos é de reconhecimento. Ambos compartilhamos essa situação
difícil", acrescentou.
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Um oásis de estabilidade
Além da
questão política e da independência institucional, a Somalilândia também é
muito mais estável do que o resto da Somália.
É
considerada por especialistas um exemplo de democracia na região. Seus líderes
chegam ao poder por meio de eleições disputadas, cujos resultados, ao contrário
de outros países africanos, são respeitados, mesmo quando a oposição vence.
E,
apesar de ser uma cidade com pobreza generalizada e uma taxa de desemprego
muito alta, Hargeisa é uma das cidades mais seguras da região.
Como
escreveu a jornalista da BBC Mary Harper em 2016, no 25º aniversário da
declaração de independência do território: "A Somalilândia tem relativa
paz e estabilidade."
"Às
vezes viajo entre a Somália e a Somalilândia no mesmo dia, e o contraste não
poderia ser maior. Na Somália, como jornalista ocidental, não consigo me
locomover sem seis guarda-costas fortemente armados (...). Na Somalilândia,
ando sozinha, mesmo à noite", disse ela.
O
jornalista somali Farhan Jimale explica que essa relativa paz se deve aos
esforços da Somalilândia desde a década de 1990.
"Havia
anciãos locais que atuaram como mediadores. Eles reuniram todas as comunidades
locais e formaram um governo local que compartilha o poder."
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A visão da Somália
A
Somália considera a Somalilândia parte integrante do país.
Nos
últimos 10 anos, Hargeisa e Mogadíscio realizaram negociações de paz, mas para
a Somália, a integridade do país é inegociável, enfatiza Jimale.
"No
entanto, reconhece a Somalilândia como uma região que desenvolveu suas
autoridades locais", continua ele.
Nos
últimos anos, embora o governo federal somali tenha conseguido consolidar seu
controle em Mogadíscio e outras grandes cidades, grupos islamistas, como o
Al-Shabaab, continuam sendo uma ameaça ativa e recuperaram influência em
diversas áreas do país.
Se a
Somália alcançar a paz, terá menos motivos para reconhecer a independência da
Somalilândia.
"O
principal argumento dos separatistas da Somalilândia é que a Somália precisa
colocar a casa em ordem antes que ambos os lados possam se sentar para
conversar", destaca Jimale.
Mas se
o país permanecer mergulhado em uma grave crise de segurança, a luta pela
independência não cessará.
Seja
como for, a decisão final sobre a independência da Somalilândia provavelmente
terá que vir de Mogadíscio, assim como aconteceu com a secessão do vizinho
Sudão do Sul, que o governo sudanês acabou aceitando após um referendo.
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ONGs: crise humanitária no Sudão é a mais negligenciada
A
guerra em curso no Sudão é a crise humanitária mais negligenciada de 2025,
concluiu uma pesquisa realizada entre 22 organizações internacionais de ajuda
humanitária. O país africano também ficou em primeiro lugar na lista das dez
principais crises que o mundo não pode ignorar em 2026, elaborada pelo Comitê
Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês).
A
situação no Sudão, que está em guerra desde abril de 2023, piorou continuamente
ao longo de 2025. Na época, os generais das Forças Armadas Sudanesas (SAF) e da
milícia Forças de Apoio Rápido (RSF) se desentenderam sobre a integração dessa
força paramilitar ao exército nacional, dando origem ao conflito.
Desde
então, o Sudão, que é rico em petróleo, ouro e terras agrícolas, transformou-se
no que a Organização das Nações Unidas (ONU) e organizações humanitárias
classificam de a maior crise humanitária e de deslocamento do mundo.
"A
crise no Sudão deveria estar na primeira página dos jornais todos os
dias", afirma Abdurahman Sharif, diretor humanitário da organização Save
the Children.
Segundo
a ONU, cerca de 14 milhões de pessoas estão deslocadas dentro do Sudão ou
refugiadas em países vizinhos. A estimativa de mortes varia entre 40 mil e 250
mil pessoas.
Números
mais precisos ou atualizados são impossíveis de obter, já que os combates
continuam, a comunicação via internet por satélite é limitada e diferentes
organizações humanitárias e observadores deixaram o país.
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Novo foco dos combates
Atualmente,
os combates entre as RSF e as SAF concentram-se na região do Cordofão, onde o
exército sudanês controla várias cidades cercadas pelas RSF. Cordofão é a
região que separa os territórios controlados pelo militares sudaneses no norte
e centro – incluindo a capital, Cartum – das áreas sob domínio das RSF em
Darfur, no oeste, e em partes do sul.
"A
violência no Cordofão aumentou dramaticamente", relata Jan Sebastian
Friedrich-Rust, diretor-executivo da seção alemã da ONG Ação Contra a Fome.
"O cerco às comunidades em Dilling e Kadugli [no Cordofão do Sul] está
bloqueando o acesso à ajuda humanitária vital."
Segundo
o especialista, faltam alimentos e medicamentos. Em meados de dezembro, a
Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC) estimou que 21,2
milhões – quase metade da população do Sudão – enfrentem insegurança alimentar
aguda.
O
Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas já anunciou que, a partir de
janeiro, precisará reduzir o fornecimento de alimentos no Sudão ao mínimo
absoluto para sobrevivência devido à falta de financiamento.
"Se
o mundo não agir urgentemente – diplomática, financeira e moralmente – uma
situação já catastrófica vai piorar ainda mais, com milhões de sudaneses e seus
vizinhos pagando o preço", alertou Mamadou Dian Balde, diretor regional da
Agência da ONU para Refugiados (Acnur) para a África Oriental e Austral.
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Civis no centro da guerra
Friedrich-Rust
também teme que o Cordofão esteja prestes a se transformar numa segunda
Al-Fashir, onde as RSF cometeram atrocidades em massa durante sua tomada de
poder, em novembro.
O
Laboratório de Pesquisa Humanitária da Universidade de Yale (HRL), que usa
imagens de satélite para monitorar atrocidades, alertou que as RSF destruíram e
ocultaram evidências de seus assassinatos em massa.
Dos 150
agrupamentos de objetos compatíveis com restos humanos inicialmente
identificados pelo HRL, quase 60 não são mais visíveis. Em vez disso, surgiram
oito alterações no solo perto dos locais das matanças, disse o laboratório.
"A
realidade é que ambas as partes do conflito e seus aliados não apenas falharam
em proteger civis como os ataques aos civis estão no centro da guerra",
afirma o ativista Philippe Dam, da ONG Human Rights Watch.
Ele
afirma que, embora a maioria dos casos de violência sexual, de ataques a
hospitais e trabalhadores da ajuda humanitária e de uso de armas explosivas em
áreas densamente povoadas seja responsabilidade das RSF, as SAF também cometem
graves violações contra civis, incluindo detenções arbitrárias de trabalhadores
da ajuda humanitária.
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Ajuda insuficiente da UE
Em
dezembro, a UE começou a enviar cem toneladas de ajuda humanitária para a
região sudanesa de Darfur. A ponte aérea terminará em janeiro de 2026 e custará
3,5 milhões de euros, financiados pelo orçamento humanitário da Comissão
Europeia.
Especialistas
alertam que a iniciativa é uma gota no oceano. O fim da Agência dos Estados
Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USaid, na sigla em inglês) e os
cortes na ajuda externa de países europeus forçaram o fechamento de programas
essenciais, como cozinhas comunitárias.
"A
necessidade de ajuda é enorme, mas até agora apenas 35% dos recursos
financeiros necessários para a ajuda humanitária foram disponibilizados",
diz Friedrich-Rust.
Para
Dam, já passou da hora de a UE agir com medidas robustas para enfrentar os
crimes cometidos por ambos os lados e pressionar os apoiadores do conflito.
"É chocante que o líder das RSF, general Mohammed Dagalo, ainda não tenha
sido sancionado pela UE, apesar das evidências claras de sua responsabilidade
nos crimes cometidos."
Enquanto
as SAF são apoiadas principalmente pelo Egito, as RSF seriam apoiadas pelos
Emirados Árabes Unidos, que negam qualquer envolvimento.
Fonte:
BBC News Mundo/DW Brasil

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