Fã
do petróleo, Trump cede mercado de carro elétrico à China
Quando
o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou recentemente a revogação das
regulamentações de eficiência de combustível para veículos, ele chamou isso de
fim da "nova farsa verde".
Ele se
referia aos esforços da administração Biden, que incentivava as montadoras a
substituir os carros com motor de combustão interna por veículos elétricos, de
baixa emissão e mais sustentáveis.
Desde
que assumiu o poder em janeiro, o governo Trump já revogou uma série de
incentivos destinados a reduzir a circulação de carros movidos a combustíveis
fósseis. Isso inclui a revogação de uma ordem executiva de Biden que estipulava
que 50% dos carros vendidos nos EUA até 2030 deveriam ser elétricos; o
congelamento de bilhões em financiamento para infraestrutura de recarga; e a
eliminação de um crédito tributário de 7.500 dólares (R$ 41.500) para a compra
de veículos elétricos. Trump também cortou verbas de programas de energia verde
em favor do petróleo e do gás.
Argumentando
que os "padrões absurdos de emissões de escapamento" estavam
"matando" a indústria automobilística, Trump confirmou a um grupo de
executivos de montadoras reunidos na Casa Branca que as regulamentações de
eficiência de combustível também tornavam os carros muito caros.
Especialistas
do setor afirmam que os incentivos para veículos elétricos estavam estimulando
maiores investimentos em carros elétricos e infraestrutura de recarga, além de
criar novos empregos. Mas Trump agora prometeu abrir mão de um futuro
eletrificado em favor de tecnologias do século 19.
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Carros a gasolina serão mais baratos que os elétricos?
Como
resultado das mudanças, os veículos nos EUA precisarão de uma autonomia de
apenas cerca de 56 quilômetros por litro, em vez dos 21 quilômetros por litro
exigidos pelas normas de economia de combustível atualizadas por Biden para
carros de passeio e caminhonetes leves dos modelos 2022-2031.
Críticos
afirmam que tanto o clima quanto os consumidores sairão perdendo com essas
mudanças.
O
governador da Califórnia, Gavin Newsom, um democrata cujo estado é uma potência
em energia renovável e veículos elétricos, disse que Trump estava "dando
aos seus doadores das grandes petrolíferas exatamente o que eles querem: menos
proteção para os consumidores e mais lucros para os poluidores".
Confirmando
as estimativas da Administração Nacional de Segurança Rodoviária (NHTSA) dos
EUA, Newsom disse que o consumo nacional de combustível teria sido reduzido em
265 bilhões de litros por ano sob as normas de eficiência anteriores.
Steven
Higashide, diretor do Programa de Transporte Limpo da organização sem fins
lucrativos Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados),
afirma que a flexibilização das normas de economia de combustível acabará por
aumentar o preço da gasolina.
"A
poluição veicular e a dependência do petróleo nos EUA diminuíram, e os
motoristas podem economizar dinheiro optando por veículos mais
eficientes", declarou em comunicado.
Cinquenta
anos de padrões de eficiência de combustível cada vez mais rigorosos ajudaram a
proteger os motoristas das oscilações do mercado de petróleo,
proporcionando-lhes ar mais limpo e, em última análise, uma economia de mais de
5 trilhões de dólares, disse Higashide.
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China deve consolidar domínio
A
decisão de Trump de revogar os padrões de eficiência energética automotiva é
"uma clara vitória" para a indústria petrolífera dos EUA, observou
Ben Scott, chefe de Demanda de Energia do think tank climático Carbon Tracker,
com sede no Reino Unido. "Mas é uma vitória ainda maior para a China, pois
coloca os EUA ainda mais para trás na transição para veículos elétricos",
acrescentou.
Cerca
de 20% dos carros vendidos em todo o mundo em 2024 eram elétricos – um aumento
expressivo de 25% em relação a 2023. Dos 17 milhões vendidos, 11 milhões foram
na China – em comparação com cerca de 1,6 milhão nos EUA. Quase metade das
vendas de carros na China em 2024 foram de veículos elétricos, contra 10% nos
EUA.
E a
China, em contraste direto com os EUA, está dominando o mercado global de
veículos elétricos por meio de incentivos estatais massivos que também ajudaram
a reduzir os custos, tornando os carros de baixa emissão mais baratos do que a
maioria dos modelos a gasolina no país.
As
restrições aos veículos elétricos impostas por Trump agravarão essa defasagem,
pois vinculam as montadoras americanas à tecnologia obsoleta de motores de
combustão interna, "em vez de se comprometerem totalmente com o
futuro", disse Scott.
A
gigante automobilística americana Ford anunciou esta semana que está recuando
em seus planos de eletrificar veículos maiores, em parte devido a mudanças
regulatórias, e que concentrará seus esforços em caminhões a gasolina e
caminhões híbridos.
Embora
a China agora enfrente um problema de excesso de oferta de veículos elétricos,
em parte devido às tarifas dos EUA e da União Europeia que limitam as
exportações, Scott acredita que esses carros mais baratos serão direcionados a
mercados no Sul Global. "A transição para veículos elétricos é inevitável
em todos os lugares", disse ele.
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Revés para o clima
O
transporte de pessoas e mercadorias nos EUA contribui com 29% das emissões de
carbono que aquecem o planeta, a maior parcela por setor na economia.
Mas os
padrões mais recentes de economia de combustível estavam impedindo que mais de
710 milhões de toneladas métricas de poluentes climáticos chegassem à
atmosfera, de acordo com a NTSHA.
Os
carros elétricos, que geram um terço das emissões dos carros a gasolina,
estavam prestes a acelerar a descarbonização das estradas americanas, já que as
vendas de veículos elétricos bateram recordes durante os primeiros nove meses
de 2025.
Mas
esse progresso está prestes a estagnar. "Claramente, a natureza
imprevisível da política americana relacionada aos padrões de economia de
combustível e aos incentivos para veículos elétricos irá desacelerar a
descarbonização das frotas de veículos nos EUA", disse Ben Scott. Isso, em
última análise, levará à "desaceleração do progresso climático",
acrescentou.
Apesar
das preocupações de que as baterias de veículos elétricos também consumam muita
energia e recursos, "uma reciclagem robusta de baterias pode reduzir
significativamente a quantidade de materiais recém-extraídos necessários",
disse Ellen Kennedy, especialista do Rocky Mountain Institute, um think tank
dos EUA especializado em energia.
Mais de
90% do lítio e 95% do níquel e cobalto podem ser reciclados das baterias,
observa ela. "A reciclagem e a recuperação de minerais de baterias
continuam a melhorar, enquanto os combustíveis fósseis têm oferta limitada e só
podem ser usados uma vez", disse ela à DW.
Em
contraste com o consumo de 2,15 bilhões de toneladas de petróleo em 2024 para o
transporte rodoviário global, cerca de 125 milhões de toneladas de minerais
podem criar uma economia circular inesgotável para baterias por meio da
reutilização e reciclagem, explicou Kennedy. "Esta é uma extração
autossustentável que pode manter os veículos elétricos nas ruas no
futuro", afirmou.
Fonte:
DW Brasil

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