quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Vorcaro é o nosso Ponzi, que nos anos 1920 levou milhares de investidores nos EUA do êxtase ao desespero

A pirâmide edificada por Daniel Vorcaro por intermédio do banco Master foi implodida pela liquidação determinada pelo Banco Central. Os envolvidos precisam ser punidos conforme a lei. O fato de autoridades judiciais aparentarem o desejo de revertê-la, com destaque para o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, estarrece não apenas pelas dimensões bilionárias das fraudes apuradas – 12 bilhões de reais –, mas pelo risco de consagrar o comprazimento do Judiciário com criminosos financeiros íntimos do Poder.

O crime de Vorcaro é a conhecida – e banalizada em determinado momento – pirâmide financeira. Enquadra-se na Lei 1.521/1951, Art. 2º, inciso IX:

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"Obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos ('bola de neve', 'cadeias', 'pichardismo' e quaisquer outros equivalentes)".

Antiga, a lei tem motivado proposições legislativas que buscam endurecer a punição – inicialmente de seis meses a dois anos de reclusão e multa – e trazer esse tipo penal para códigos mais modernos, como a Lei de Crimes contra o Sistema Financeiro (7.492/1986), cujas penas variam conforme o tipo penal, com reclusão que pode chegar a 12 anos e multa, dependendo da gravidade das condutas, e o Código Penal.

Com raras e pouco visíveis exceções, a imprensa não remeteu o tema à figura de Charles Ponzi, que nos anos 1920 levou milhares de investidores nos Estados Unidos do êxtase ao desespero graças às suas pirâmides.

Ponzi era um imigrante italiano que prometia retornos elevados com base numa suposta arbitragem de cupons de resposta postal internacional. Na prática, não havia atividade econômica viável. Os rendimentos pagos aos primeiros investidores vinham do dinheiro dos investidores posteriores. Após o colapso do esquema e a condenação de Ponzi por fraude postal, seu nome passou a designar esse tipo específico de fraude financeira – o "esquema Ponzi". Ao longo do século XX, o termo se consolidou no vocabulário jurídico, econômico e regulatório internacional.

Em essência, esquema Ponzi e pirâmide financeira produzem o mesmo resultado e compartilham o mesmo núcleo fraudulento. A diferença é principalmente estrutural. No esquema Ponzi, a fraude é centralizada, o investidor não precisa recrutar outras pessoas, pois o operador controla os fluxos e cria a aparência de investimento confiável. Na pirâmide financeira, há estrutura hierárquica e dependência do recrutamento contínuo de novos participantes.

A prática atribuída ao Master, segundo informações públicas e investigações em curso, pode ser analisada como uma fraude estrutural que apresenta semelhanças com esquemas do tipo Ponzi, no sentido econômico e analítico do termo. Vorcaro emitia e negociava ativos ou carteiras de crédito sem lastro real, tinha solvência aparente, mas dependia de novas operações para sustentar compromissos anteriores.

Como o "esquema Ponzi" não está contemplado com essa denominação no Brasil, o enquadramento de Vorcaro deverá se dar por crimes contra o sistema financeiro, gestão fraudulenta, estelionato, falsidade documental, organização criminosa e lavagem de dinheiro, além de sanções administrativas no âmbito do Banco Central. Se Toffoli permitir.

•        “Ostentação” do Master explode pacto de silêncio no Congresso. Por Washington Araújo

Há escândalos que chegam como rachaduras discretas; outros entram em cena como portas arrombadas. A derrocada do Banco Master pertence à segunda categoria — não apenas por sua dimensão financeira, mas pela revelação brutal de uma engrenagem político-econômica que funcionou por meses sob a proteção de gabinetes, alianças e interesses bem distribuídos.

A prisão de Daniel Vorcaro nesta terça-feira, 18 de novembro de 2025, é a queda do biombo: atrás dele, expõe-se um sistema inteiro. Nada para em pé e a lama chega até o pescoço.

A operação que levou a Polícia Federal ao Aeroporto de Guarulhos, onde Vorcaro embarcava rumo a Dubai, não investigava meros deslizes contábeis. A Operação Compliance Zero identificou um esquema multibilionário de títulos sem lastro, carteiras “insubsistentes” e circuitos de crédito simulados para ludibriar fiscalização.

O Banco Central — que descreveu o Master como instituição em “grave crise de liquidez” e com “violações severas às normas do sistema financeiro” — decretou a liquidação extrajudicial poucas horas depois.

A implosão de um banco não poderia ser mais simbólica: ela veio no mesmo dia em que políticos que o defenderam por meses tratavam de se proteger do incêndio.

O cálculo era simples: o Banco Master captou bilhões oferecendo CDBs de até 130%–140% do CDI, investiu em empresas com problemas severos e se alavancou em proporções que bancos prudentes jamais admitiriam — chegando a multiplicar por dez cada real de capital próprio. O rombo potencial beira 12,2 bilhões de reais, valor bloqueado pela PF. Mais de 1,6 milhão de investidores podem ser afetados. Tudo isso sob a sombra confortável do Fundo Garantidor de Créditos, que blindava o banco enquanto atraía depositantes com promessas de rentabilidade milagrosa.

Por que esse modelo arriscado continuou tolerado?

Por que o Banco Central, ainda sob Roberto Campos Neto, não interveio antes, quando já existia clara deterioração dos ativos?

E por que a decisão final só veio na gestão de Gabriel Galípolo, justamente no dia da prisão do controlador?

Neste desmoronamento, surge uma peça-chave: o BRB — Banco de Brasília. Em março, o conselho do BRB aprovou a compra de 58% do Banco Master, numa operação de R$ 2 bilhões, que transformaria o banco público do DF num escudo para o Master. O governador Ibaneis Rocha celebrou o negócio, dizendo que o BRB “daria um salto nacional” e que salvar o Master seria “garantir estabilidade ao sistema”. A narrativa não resistiu a setembro, quando o BC vetou a compra. Mas antes disso, muitos alertas já haviam sido dados por sindicatos, auditores e analistas.

Por que um banco público menor deveria comprar um banco privado maior, mais arriscado e envolvido em denúncias crescentes?

Quais pareceres técnicos sustentaram decisão tão temerária?

Havia interesses políticos ocultos em jogo?

Quem, dentro do BRB e do governo do DF, garantiu que o Master era sólido quando já não era?

No Senado, uma CPI sobre a compra do Master pelo BRB estava pronta para nascer. O autor do requerimento, Izalci Lucas, dizia buscar transparência. Tinha assinaturas suficientes. De repente, duas desapareceram — Carlos Viana e Cleitinho — ambos de Minas Gerais, estado natal de Vorcaro. A CPI morreu antes de respirar.

Foi nesse ponto da narrativa — quando Brasília parecia disposta a silenciar — que surgiu a primeira fissura no pacto: o anúncio de que deputados do Distrito Federal preparavam uma reação própria. A notícia correu hoje cedo pelos corredores da CLDF: havia movimentação para um requerimento de CPI local. Apenas rumores, até então.

E então veio o documento.

No início da tarde, o deputado Chico Vigilante, acompanhado por Fábio Felix e por parlamentares do PT, PSOL, PSB e outros blocos, protocolou na CLDF um requerimento formal para criação de uma CPI destinada a investigar a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB. O texto pede investigação das negociações bilionárias, suspeitas de gestão fraudulenta, possível uso indevido de recursos públicos para salvar instituição privada, ingerência política, favorecimento indevido e denúncias internas envolvendo auditorias como EY e PwC, incluindo o “Projeto Luna”.

Esse requerimento, ao contrário das manobras do Senado, não recua. Ele escancara tudo: Você usou recursos públicos para salvar um banco privado? Quem autorizou isso? Quem intermediou? Que contratos foram assinados às pressas? Quais líderes partidários influenciaram decisões técnicas do BRB? Por que pareceres da EY e da PwC foram ignorados? Quem participou do “Projeto Luna”? Quais reuniões ocorreram entre BRB, Master e governo do DF antes da liquidação? Havia ingerência direta do Palácio do Buriti? Que vantagens políticas seriam geradas com a operação?

Enquanto o escândalo se expande, o rombo econômico já se manifesta no cotidiano: investidores buscando o FGC; filas digitais para verificar ressarcimentos; servidores do BRB alarmados; auditores revirando contratos; a praça dos Três Poderes murmurando nomes antes intocáveis.

A implosão do Master não é uma história de um banqueiro audacioso — é a história de uma arquitetura de poder construída com conivência, arrogância e silêncio institucional.

No fim, o episódio é como ver uma grande barragem se romper: durante anos, autoridades garantiram que tudo estava sob controle, que a estrutura era segura. Mas a água — a verdade — já pressionava as paredes.

Quando a primeira fissura surgiu, não havia mais como conter o fluxo. Agora, todos tentam escapar da enxurrada. Mas há um detalhe incômodo: a água sempre leva consigo o que estava escondido no fundo. É um voa barata em Brasília.

•        STF em risco. Por Chico Vigilante

A República Brasileira enfrenta mais um momento de grave assalto às suas instituições. A decisão do ministro Dias Toffoli, do STF, de manter a acareação entre o diretor do Banco Central Ayrton de Aquino Santos, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, não é um mero ato processual. É um episódio sintomático de um conluio perigoso. E que envolve o Judiciário, o Centrão e interesses escusos do sistema financeiro, visando descaracterizar o papel do Estado e proteger uma quadrilha de colarinho branco.

Em primeiro lugar, é fundamental destacar a obscuridade e a pressa indecorosa que envolvem o ato. Marcar uma acareação para a véspera do Ano Novo e mantendo o processo sob sigilo absoluto, são procedimentos que cheiram mal. Como bem apontam vozes críticas, para que tanto sigilo? O que se quer esconder da sociedade? A justificativa de “proteger um deputado” soa como um pretexto frágil para encobrir uma operação de bastidores que interessa a figuras poderosas, como o senador Ciro Nogueira e a cúpula do Centrão.

A atuação de Toffoli representa uma clara usurpação de funções e um atentado à autonomia do Banco Central. Cabe ao BC, de forma técnica e independente, fiscalizar e intervir no sistema financeiro. O diretor Ayrton Santos cumpriu seu dever ao agir para liquidar o Banco Master, uma pirâmide financeira que movimentou bilhões e ameaçava a poupança do povo e a estabilidade do sistema.

Agora, esse mesmo servidor público exemplar é colocado no banco dos réus, cara a cara com os investigados, em uma armadilha processual orquestrada para constrangê-lo e para criar uma narrativa de “conflito” onde havia apenas ação regulatória legítima.

O vínculo do ministro Toffoli com os interesses em jogo não pode ser ignorado. A viagem que ele fez a bordo de jato particular de advogado do Banco Master para assistir a uma partida de futebol em Lima, no Peru, não é um detalhe, é a chave que desvenda o conflito de interesses. Como confiar na isenção de um magistrado que mantém relações sociais tão estreitas com a defesa de um dos investigados? Essa conduta corrói a credibilidade do STF e entrega a Corte ao jogo sujo da política e do poder econômico.

A manobra é clara: busca-se criminalizar o agente público que ousou enfrentar os tubarões. Enquanto o banqueiro, investigado por um esquema de R$ 12 bilhões, usufrui da liberdade, o diretor que cumpriu a lei é submetido a um cerco processual. É a velha máxima desta República de fachada: para o ladrão de galinha, o rigor; para os ladrões da Faria Lima e seus aliados no poder, todo o aparato do Estado é mobilizado para garantir a impunidade.

O caso Master não é isolado. Ele se conecta à grotesca investida de apadrinhados do centrão –, exigindo explicações do BC sobre a liquidação. Ou seja, de um lado, o TCU, órgão auxiliar do Legislativo, tenta invadir a esfera do BC. De outro, um ministro do STF força uma acareação surreal. É um ataque coordenado das altas cúpulas para desestabilizar e politizar a regulação financeira.

Repudio veementemente esta farsa. A sociedade brasileira não é tola. Sente no bolso e na pele os efeitos dessas pirâmides. E vê, com repúdio crescente, as instituições que deveriam protegê-la sendo usadas para salvar bandidos de alto coturno.

É hora de um basta. O ministro Toffoli deve imediatamente cancelar esta acareação espúria, levantar o sigilo absoluto que só protege os poderosos e devolver ao BC a autonomia para cumprir seu papel. O diretor Ayrton Santos merece o apoio da sociedade e do Congresso, não o constrangimento.

Defender o BC técnico e independente é defender o país da sanha dos golpistas financeiros e seus aliados em togas e palácios. Essa teia de porcos, com focinho, rabo e patas no Centrão, no judiciário e no sistema financeiro, precisa ser desmantelada. A República exige. O povo brasileiro não merece menos.

 

Fonte: Por Paulo Henrique Arantes, em Brasil 247

 

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