Vorcaro
é o nosso Ponzi, que nos anos 1920 levou milhares de investidores nos EUA do
êxtase ao desespero
A
pirâmide edificada por Daniel Vorcaro por intermédio do banco Master foi
implodida pela liquidação determinada pelo Banco Central. Os envolvidos
precisam ser punidos conforme a lei. O fato de autoridades judiciais
aparentarem o desejo de revertê-la, com destaque para o ministro Dias Toffoli,
do Supremo Tribunal Federal, estarrece não apenas pelas dimensões bilionárias
das fraudes apuradas – 12 bilhões de reais –, mas pelo risco de consagrar o
comprazimento do Judiciário com criminosos financeiros íntimos do Poder.
O crime
de Vorcaro é a conhecida – e banalizada em determinado momento – pirâmide
financeira. Enquadra-se na Lei 1.521/1951, Art. 2º, inciso IX:
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"Obter
ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número
indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos ('bola
de neve', 'cadeias', 'pichardismo' e quaisquer outros equivalentes)".
Antiga,
a lei tem motivado proposições legislativas que buscam endurecer a punição –
inicialmente de seis meses a dois anos de reclusão e multa – e trazer esse tipo
penal para códigos mais modernos, como a Lei de Crimes contra o Sistema
Financeiro (7.492/1986), cujas penas variam conforme o tipo penal, com reclusão
que pode chegar a 12 anos e multa, dependendo da gravidade das condutas, e o
Código Penal.
Com
raras e pouco visíveis exceções, a imprensa não remeteu o tema à figura de
Charles Ponzi, que nos anos 1920 levou milhares de investidores nos Estados
Unidos do êxtase ao desespero graças às suas pirâmides.
Ponzi
era um imigrante italiano que prometia retornos elevados com base numa suposta
arbitragem de cupons de resposta postal internacional. Na prática, não havia
atividade econômica viável. Os rendimentos pagos aos primeiros investidores
vinham do dinheiro dos investidores posteriores. Após o colapso do esquema e a
condenação de Ponzi por fraude postal, seu nome passou a designar esse tipo
específico de fraude financeira – o "esquema Ponzi". Ao longo do
século XX, o termo se consolidou no vocabulário jurídico, econômico e
regulatório internacional.
Em
essência, esquema Ponzi e pirâmide financeira produzem o mesmo resultado e
compartilham o mesmo núcleo fraudulento. A diferença é principalmente
estrutural. No esquema Ponzi, a fraude é centralizada, o investidor não precisa
recrutar outras pessoas, pois o operador controla os fluxos e cria a aparência
de investimento confiável. Na pirâmide financeira, há estrutura hierárquica e
dependência do recrutamento contínuo de novos participantes.
A
prática atribuída ao Master, segundo informações públicas e investigações em
curso, pode ser analisada como uma fraude estrutural que apresenta semelhanças
com esquemas do tipo Ponzi, no sentido econômico e analítico do termo. Vorcaro
emitia e negociava ativos ou carteiras de crédito sem lastro real, tinha
solvência aparente, mas dependia de novas operações para sustentar compromissos
anteriores.
Como o
"esquema Ponzi" não está contemplado com essa denominação no Brasil,
o enquadramento de Vorcaro deverá se dar por crimes contra o sistema
financeiro, gestão fraudulenta, estelionato, falsidade documental, organização
criminosa e lavagem de dinheiro, além de sanções administrativas no âmbito do
Banco Central. Se Toffoli permitir.
• “Ostentação” do Master explode pacto de
silêncio no Congresso. Por Washington Araújo
Há
escândalos que chegam como rachaduras discretas; outros entram em cena como
portas arrombadas. A derrocada do Banco Master pertence à segunda categoria —
não apenas por sua dimensão financeira, mas pela revelação brutal de uma
engrenagem político-econômica que funcionou por meses sob a proteção de
gabinetes, alianças e interesses bem distribuídos.
A
prisão de Daniel Vorcaro nesta terça-feira, 18 de novembro de 2025, é a queda
do biombo: atrás dele, expõe-se um sistema inteiro. Nada para em pé e a lama
chega até o pescoço.
A
operação que levou a Polícia Federal ao Aeroporto de Guarulhos, onde Vorcaro
embarcava rumo a Dubai, não investigava meros deslizes contábeis. A Operação
Compliance Zero identificou um esquema multibilionário de títulos sem lastro,
carteiras “insubsistentes” e circuitos de crédito simulados para ludibriar
fiscalização.
O Banco
Central — que descreveu o Master como instituição em “grave crise de liquidez”
e com “violações severas às normas do sistema financeiro” — decretou a
liquidação extrajudicial poucas horas depois.
A
implosão de um banco não poderia ser mais simbólica: ela veio no mesmo dia em
que políticos que o defenderam por meses tratavam de se proteger do incêndio.
O
cálculo era simples: o Banco Master captou bilhões oferecendo CDBs de até
130%–140% do CDI, investiu em empresas com problemas severos e se alavancou em
proporções que bancos prudentes jamais admitiriam — chegando a multiplicar por
dez cada real de capital próprio. O rombo potencial beira 12,2 bilhões de
reais, valor bloqueado pela PF. Mais de 1,6 milhão de investidores podem ser
afetados. Tudo isso sob a sombra confortável do Fundo Garantidor de Créditos,
que blindava o banco enquanto atraía depositantes com promessas de
rentabilidade milagrosa.
Por que
esse modelo arriscado continuou tolerado?
Por que
o Banco Central, ainda sob Roberto Campos Neto, não interveio antes, quando já
existia clara deterioração dos ativos?
E por
que a decisão final só veio na gestão de Gabriel Galípolo, justamente no dia da
prisão do controlador?
Neste
desmoronamento, surge uma peça-chave: o BRB — Banco de Brasília. Em março, o
conselho do BRB aprovou a compra de 58% do Banco Master, numa operação de R$ 2
bilhões, que transformaria o banco público do DF num escudo para o Master. O
governador Ibaneis Rocha celebrou o negócio, dizendo que o BRB “daria um salto
nacional” e que salvar o Master seria “garantir estabilidade ao sistema”. A
narrativa não resistiu a setembro, quando o BC vetou a compra. Mas antes disso,
muitos alertas já haviam sido dados por sindicatos, auditores e analistas.
Por que
um banco público menor deveria comprar um banco privado maior, mais arriscado e
envolvido em denúncias crescentes?
Quais
pareceres técnicos sustentaram decisão tão temerária?
Havia
interesses políticos ocultos em jogo?
Quem,
dentro do BRB e do governo do DF, garantiu que o Master era sólido quando já
não era?
No
Senado, uma CPI sobre a compra do Master pelo BRB estava pronta para nascer. O
autor do requerimento, Izalci Lucas, dizia buscar transparência. Tinha
assinaturas suficientes. De repente, duas desapareceram — Carlos Viana e
Cleitinho — ambos de Minas Gerais, estado natal de Vorcaro. A CPI morreu antes
de respirar.
Foi
nesse ponto da narrativa — quando Brasília parecia disposta a silenciar — que
surgiu a primeira fissura no pacto: o anúncio de que deputados do Distrito
Federal preparavam uma reação própria. A notícia correu hoje cedo pelos
corredores da CLDF: havia movimentação para um requerimento de CPI local.
Apenas rumores, até então.
E então
veio o documento.
No
início da tarde, o deputado Chico Vigilante, acompanhado por Fábio Felix e por
parlamentares do PT, PSOL, PSB e outros blocos, protocolou na CLDF um
requerimento formal para criação de uma CPI destinada a investigar a tentativa
de compra do Banco Master pelo BRB. O texto pede investigação das negociações
bilionárias, suspeitas de gestão fraudulenta, possível uso indevido de recursos
públicos para salvar instituição privada, ingerência política, favorecimento
indevido e denúncias internas envolvendo auditorias como EY e PwC, incluindo o
“Projeto Luna”.
Esse
requerimento, ao contrário das manobras do Senado, não recua. Ele escancara
tudo: Você usou recursos públicos para salvar um banco privado? Quem autorizou
isso? Quem intermediou? Que contratos foram assinados às pressas? Quais líderes
partidários influenciaram decisões técnicas do BRB? Por que pareceres da EY e
da PwC foram ignorados? Quem participou do “Projeto Luna”? Quais reuniões
ocorreram entre BRB, Master e governo do DF antes da liquidação? Havia
ingerência direta do Palácio do Buriti? Que vantagens políticas seriam geradas
com a operação?
Enquanto
o escândalo se expande, o rombo econômico já se manifesta no cotidiano:
investidores buscando o FGC; filas digitais para verificar ressarcimentos;
servidores do BRB alarmados; auditores revirando contratos; a praça dos Três
Poderes murmurando nomes antes intocáveis.
A
implosão do Master não é uma história de um banqueiro audacioso — é a história
de uma arquitetura de poder construída com conivência, arrogância e silêncio
institucional.
No fim,
o episódio é como ver uma grande barragem se romper: durante anos, autoridades
garantiram que tudo estava sob controle, que a estrutura era segura. Mas a água
— a verdade — já pressionava as paredes.
Quando
a primeira fissura surgiu, não havia mais como conter o fluxo. Agora, todos
tentam escapar da enxurrada. Mas há um detalhe incômodo: a água sempre leva
consigo o que estava escondido no fundo. É um voa barata em Brasília.
• STF em risco. Por Chico Vigilante
A
República Brasileira enfrenta mais um momento de grave assalto às suas
instituições. A decisão do ministro Dias Toffoli, do STF, de manter a acareação
entre o diretor do Banco Central Ayrton de Aquino Santos, o ex-presidente do
BRB Paulo Henrique Costa e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, não é um mero
ato processual. É um episódio sintomático de um conluio perigoso. E que envolve
o Judiciário, o Centrão e interesses escusos do sistema financeiro, visando
descaracterizar o papel do Estado e proteger uma quadrilha de colarinho branco.
Em
primeiro lugar, é fundamental destacar a obscuridade e a pressa indecorosa que
envolvem o ato. Marcar uma acareação para a véspera do Ano Novo e mantendo o
processo sob sigilo absoluto, são procedimentos que cheiram mal. Como bem
apontam vozes críticas, para que tanto sigilo? O que se quer esconder da
sociedade? A justificativa de “proteger um deputado” soa como um pretexto
frágil para encobrir uma operação de bastidores que interessa a figuras
poderosas, como o senador Ciro Nogueira e a cúpula do Centrão.
A
atuação de Toffoli representa uma clara usurpação de funções e um atentado à
autonomia do Banco Central. Cabe ao BC, de forma técnica e independente,
fiscalizar e intervir no sistema financeiro. O diretor Ayrton Santos cumpriu
seu dever ao agir para liquidar o Banco Master, uma pirâmide financeira que
movimentou bilhões e ameaçava a poupança do povo e a estabilidade do sistema.
Agora,
esse mesmo servidor público exemplar é colocado no banco dos réus, cara a cara
com os investigados, em uma armadilha processual orquestrada para constrangê-lo
e para criar uma narrativa de “conflito” onde havia apenas ação regulatória
legítima.
O
vínculo do ministro Toffoli com os interesses em jogo não pode ser ignorado. A
viagem que ele fez a bordo de jato particular de advogado do Banco Master para
assistir a uma partida de futebol em Lima, no Peru, não é um detalhe, é a chave
que desvenda o conflito de interesses. Como confiar na isenção de um magistrado
que mantém relações sociais tão estreitas com a defesa de um dos investigados?
Essa conduta corrói a credibilidade do STF e entrega a Corte ao jogo sujo da
política e do poder econômico.
A
manobra é clara: busca-se criminalizar o agente público que ousou enfrentar os
tubarões. Enquanto o banqueiro, investigado por um esquema de R$ 12 bilhões,
usufrui da liberdade, o diretor que cumpriu a lei é submetido a um cerco
processual. É a velha máxima desta República de fachada: para o ladrão de
galinha, o rigor; para os ladrões da Faria Lima e seus aliados no poder, todo o
aparato do Estado é mobilizado para garantir a impunidade.
O caso
Master não é isolado. Ele se conecta à grotesca investida de apadrinhados do
centrão –, exigindo explicações do BC sobre a liquidação. Ou seja, de um lado,
o TCU, órgão auxiliar do Legislativo, tenta invadir a esfera do BC. De outro,
um ministro do STF força uma acareação surreal. É um ataque coordenado das
altas cúpulas para desestabilizar e politizar a regulação financeira.
Repudio
veementemente esta farsa. A sociedade brasileira não é tola. Sente no bolso e
na pele os efeitos dessas pirâmides. E vê, com repúdio crescente, as
instituições que deveriam protegê-la sendo usadas para salvar bandidos de alto
coturno.
É hora
de um basta. O ministro Toffoli deve imediatamente cancelar esta acareação
espúria, levantar o sigilo absoluto que só protege os poderosos e devolver ao
BC a autonomia para cumprir seu papel. O diretor Ayrton Santos merece o apoio
da sociedade e do Congresso, não o constrangimento.
Defender
o BC técnico e independente é defender o país da sanha dos golpistas
financeiros e seus aliados em togas e palácios. Essa teia de porcos, com
focinho, rabo e patas no Centrão, no judiciário e no sistema financeiro,
precisa ser desmantelada. A República exige. O povo brasileiro não merece
menos.
Fonte:
Por Paulo Henrique Arantes, em Brasil 247

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