Washington
Araújo: Mistura explosiva entre igrejas e política partidária criou o inferno
em que estamos
Há um
erro de origem que precisa ser nomeado com clareza antes de qualquer crítica
política: quando a religião entra na política para disputar poder, ela renuncia
à sua própria razão de existir. E quando a política se apropria da religião
para legitimar-se, abandona o solo comum da razão pública e da legalidade
democrática.
O
resultado não é apenas degradação institucional, mas desorientação espiritual
coletiva. A democracia brasileira vive esse curto-circuito de forma cada vez
mais visível: o púlpito transformado em palanque, o palanque disfarçado de
altar, e a verdade reduzida a ferramenta de mobilização emocional.
Religião
e política não são inimigas — mas pertencem a planos distintos da experiência
humana. Devem coexistir como óleo e água: no mesmo recipiente social, sem
jamais se confundir. A política opera no plano da organização externa da vida
coletiva; a religião, no da transformação interior do ser humano. Uma cuida da
administração do poder; a outra da formação do caráter. Quando essa fronteira é
rompida, ocorre uma inversão perigosa: a fé passa a servir ao poder, e o poder
passa a falar em nome de Deus. É como se uma mesa ou uma cadeira produzida pelo
carpinteiro passasse a falar em seu nome. Existe algo mais tosco e ridículo do
que isso?
A
política, por sua própria natureza, é atravessada por disputas, negociações,
interesses e estratégias. Ela precisa disso para funcionar. Mas justamente por
isso não pode ser o espaço da elevação moral.
A
religião, ao contrário, nasce para educar a consciência humana, não para vencer
eleições. Seu papel histórico sempre foi o de criar ordem interior, promover
tranquilidade social e despertar virtudes latentes que nenhuma lei consegue
impor. Quando cumpre essa função, torna-se fundamento invisível da civilização;
quando a abandona, transforma-se em superstição organizada ou em empresa de
poder.
O velho
axioma permanece implacável: não se constrói uma sociedade de ouro com
indivíduos de chumbo. Nenhuma Constituição, nenhum tribunal, nenhuma maioria
parlamentar substitui a ausência de virtudes básicas. Honestidade, veracidade,
humildade, unidade, compaixão e senso de justiça não são meros ornamentos
morais; são estruturas de sustentação da vida coletiva. Quando a religião se
afasta dessa missão educativa para disputar hegemonia política, contribui
diretamente para o empobrecimento ético que depois finge denunciar. E resulta
no caos que está sempre batendo em nossas portas. Simples assim.
Os
dados brasileiros ajudam a compreender a dimensão do fenômeno. O Censo
Demográfico de 2022 revelou um país religiosamente mais plural: o catolicismo
caiu para 56,7% da população; os evangélicos cresceram para 26,9%; religiões de
matriz africana avançaram; e o grupo dos “sem religião” também aumentou.
Essa
diversidade, em si, é saudável. O problema começa quando ela é convertida em
ativo político, moeda eleitoral e instrumento de polarização.
O
recorte etário aprofunda o alerta. O crescimento evangélico é mais intenso
entre jovens, enquanto o catolicismo se concentra nas faixas etárias mais
altas. Há, portanto, uma disputa explícita pelo futuro simbólico do país —
simbólico aqui no sentido concreto de disputa por sentidos, valores,
identidades coletivas e critérios morais que orientam o voto, o pertencimento e
a lealdade social.
Quando
lideranças religiosas entram no jogo partidário, sabem que não estão apenas
pedindo votos, mas moldando visões de mundo. A fé deixa de ser caminho de
amadurecimento espiritual e passa a ser tecnologia de mobilização política.
No
Congresso Nacional Brasileiro, essa dinâmica ganhou forma institucional. A
Frente Parlamentar Evangélica tornou-se uma das maiores articulações
suprapartidárias, reunindo mais de duas centenas de parlamentares. Muitos
mantêm vínculos orgânicos com igrejas, alguns ocupando cargos hierárquicos
religiosos. Essa sobreposição não é neutra. Ela tensiona princípios
republicanos básicos e fragiliza a distinção entre consciência pessoal e
mandato público.
Essa
distorção já havia sido antecipada pela filosofia clássica. Em Platão
(428/427–348/347 a.C.), governar nunca significou favorecer classes, crenças ou
facções, mas ordenar a cidade para que a felicidade alcançasse o conjunto da
sociedade. Quando a política abandona esse princípio e passa a servir partes
específicas, ela deixa de buscar justiça e passa a produzir desequilíbrio.
Nesse vazio ético, discursos religiosos e identitários tornam-se atalhos
convenientes para legitimar privilégios, dividir a cidade e mascarar interesses
de poder com verniz moral.
Mas a
crítica central não é política — é espiritual.
Quando
textos sagrados são usados como slogans, quando o adversário vira inimigo de
Deus, quando o voto se transforma em prova de fé, a religião deixa de ser luz e
passa a ser instrumento de dominação moral e emocional. A história mostra que,
sempre que isso ocorre, a espiritualidade definha e o fanatismo prospera. A
religião, que deveria ser fonte de ordem e tranquilidade entre os povos,
converte-se em fator ativo de conflito e divisão.
Há aqui
um ponto decisivo: progresso material sem elevação espiritual produz
civilizações eficientes, desiludidas e profundamente infelizes. O
desenvolvimento técnico, desacompanhado de valores, amplia apenas a capacidade
de errar em escala maior.
A
verdadeira civilização nasce quando avanço material e maturidade espiritual
caminham juntos — como lâmpada e luz. Separados, ambos fracassam: a lâmpada sem
luz é inútil; a luz sem lâmpada não ilumina o mundo.
Por
isso, a separação entre religião e política não é uma concessão secularista —
isto é, não se trata de um gesto ideológico contra a fé ou de submissão da
sociedade a um materialismo hostil à transcendência. Trata-se de uma exigência
espiritual e republicana para proteger a religião da captura pelo poder e
preservar a política do uso indevido do sagrado.
O
Estado laico não é um Estado sem Deus; é um Estado que reconhece que nenhuma
instituição humana pode falar em nome de Deus. Devemos acreditar, ter uma fé
genuína e pura no Deus que nos criou — e não no Deus que nós criamos à imagem
de nossas conveniências políticas.
Daí o
desafio inevitável, que já não pode ser evitado com retórica piegas.
Que tal
irmos direto ao olho do furacão que se a vizinha? Se muitas igrejas passaram a
funcionar, na prática, como caixas eletrônicos informais para financiar
campanhas, projetos de poder e interesses claramente corruptos, não será o
momento de submeter essas estruturas ao mesmo rigor fiscal aplicado a qualquer
organização que movimenta grandes volumes de recursos? Transparência não ameaça
a fé; a protege. Investigar o caminho do dinheiro — do dízimo ao destino final
—, apurar sonegação, lavagem e eventuais vínculos com economias criminosas não
é perseguição religiosa, mas dever republicano. Em rápidas palavras: se a as
igrejas entram na política, nada mais justo que a Receita Federal entre nas
igrejas. Entendo que esse é o momento para uma operação carbono específico.
Religião
não existe para conquistar governos, mas para formar consciências. Quando se
esquece disso, ela perde sua força transformadora e trai sua missão histórica.
E aqui afirmo, sem hesitação, como crença inabalável: confio no ensinamento do
Prisioneiro de ‘Akká — Bahá’u’lláh (1817-1893) — de que a religião é o
instrumento principal para o estabelecimento da ordem no mundo e da
tranquilidade entre seus povos. Justamente por isso ela não pode ser rebaixada
a ferramenta eleitoral.
Uma
sociedade que sacrifica sua base espiritual no altar do poder pode até vencer
eleições — mas perde a alma no processo. E se perde a alma, nada mais
importante falta ser perdida.
¨
O verão moral do Brasil. Por Sara Goes
Raquel
de Queiroz diria que às vésperas do ano mais decisivo da política brasileira
recente o céu do país ficou transparente de "doer, vibrar, tremer, feito
uma gaze repuxada". Mas tem algo nesse clima que não diz respeito apenas à
temperatura. A sensação é familiar, como se estivéssemos de novo em 2015,
naquele Brasil onde o suor grudava na pele ao mesmo tempo em que a histeria
moral se instalava na esfera pública. O ambiente físico e o ambiente político
parecem reverberar um ao outro: abafados e tensos.
Aquela
experiência reorganizou o espaço público. A operação deixou de ser um
procedimento técnico e passou a operar como linguagem moral. Quem fosse
enquadrado nesse enredo era imediatamente desumanizado, convertido em
personagem alegórico do mal brasileiro. O processo penal deixou de ser mediação
e tornou-se instrumento direto de punição simbólica. A imprensa serviu como
correia de transmissão dessa gramática e a opinião pública foi educada para
confundir justiça com espetáculo.
É esse
mesmo dispositivo que volta a se apresentar agora. A diferença é que o roteiro
já está conhecido e, mesmo assim, volta a ser consumido como novidade. O caso
Master e o ataque dirigido a Alexandre de Moraes reaparecem revestidos da mesma
retórica de purificação, do mesmo clima de suspeita permanente, da mesma
ansiedade coletiva por culpados prontos. A comoção é produzida antes do fato e
a condenação precede qualquer exame crítico. Não se trata do desejo legítimo de
esclarecimento. Trata-se da reinstalação de uma economia política do escândalo.
Esse
moralismo não está apenas no discurso conservador. Ele também atravessa setores
da própria esquerda, sobretudo aqueles que se percebem como guardiões de uma
pureza intransigente. Há um tipo de militância que aguarda ansiosamente
qualquer fissura, qualquer ruído, qualquer episódio ambíguo que possa ser
convertido em combustível para desestabilizar governos de coalizão e
experiências reformistas. A lógica é sempre a mesma: expor o aliado como se
fosse inimigo, elevar a crítica conjuntural ao estatuto de denúncia moral
absoluta e reivindicar para si o papel de consciência superior do processo
histórico.
O gesto
não é apenas político. Ele é performático. Há um prazer em ocupar esse lugar de
superioridade ética, como se fosse possível direcionar o caos para um ápice
sádico que, por algum mecanismo quase místico, produziria uma solução
disruptiva. A aposta implícita é que a deterioração das mediações
institucionais abriria caminho para uma virada radical. O que se esquece é que,
historicamente, o colapso raramente beneficia quem o deseja. Na maior parte das
vezes, ele fortalece as forças mais autoritárias, mais organizadas e adaptadas
ao uso estratégico da destruição.
Essa
esquerda moralizante reproduz o mesmo erro de uma década atrás. Naquele
momento, a adesão ao discurso punitivista parecia uma forma de afirmar
superioridade ética diante do sistema político. Hoje, a lógica se repete com
novos signos. Em vez de disputar o projeto, organiza-se a disputa em torno da
acusação e do sacrifício simbólico de figuras públicas, mesmo quando servem ao
campo que, em tese, se busca defender. O moralismo surge como atalho
identitário. Não exige compreender a complexidade do governo, da correlação de
forças, dos limites estruturais. Basta apontar o dedo, denunciar, dramatizar.
O
resultado é paradoxal. Ao atacar governos reformistas por não corresponderem ao
ideal imaginário, esses setores acabam reforçando o mesmo dispositivo que
historicamente alimentou o avanço reacionário. O campo progressista se
fragiliza por dentro, transforma suas divergências em tribunal permanente e
entrega às forças conservadoras a oportunidade de capturar o mal-estar social.
A crítica, que poderia ser instrumento de construção, converte-se em motor de
desagregação. A política desaparece e o moralismo ocupa seu lugar como falsa
promessa de redenção.
Não é
coincidência que o clima pareça repetir-se junto com o padrão de comportamento
público. O país volta a flertar com o mesmo abismo, como se estivesse preso a
uma repetição histórica que insiste em retornar enquanto a experiência não for
elaborada. A memória da Lava Jato ainda não se transformou em aprendizado
coletivo. Ela permanece como um estresse pós-traumático, um fantasma, e o
fantasma sempre encontra um novo corpo para habitar.
Parte
da imprensa que se reivindica progressista adere a esse movimento sem perceber
que repete o mesmo mecanismo que ajudou a corroer a democracia dez anos atrás.
A cobertura abandona a prudência analítica e assume o tom da acusação
insinuada. As manchetes constroem causalidades frágeis que se fixam na memória
pública antes que qualquer evidência sólida se apresente. O jornalismo, que
deveria duvidar, passa a atuar como extensão narrativa do aparato
investigativo, naturalizando a lógica da exceção como se fosse normalidade
institucional.
Quando
a esquerda cede novamente ao moralismo que já a feriu e quando a imprensa
reaprende o gosto pela acusação sem lastro, não estamos diante de um erro novo.
Estamos diante da incapacidade de aprender com o trauma. Talvez o que assuste
neste momento não seja apenas o calor que pesa sobre o país, mas a facilidade
com que ele reativa velhos reflexos. A história não retorna como farsa nem como
tragédia. Ela retorna como hábito e, como nas páginas de Raquel de Queiroz, o
país avança a galope, feito fantasma, por entre os vultos sombrios do tempo
político, sem perceber que repete o caminho de antes.
Fonte:
Brasil 247

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