quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Washington Araújo: Mistura explosiva entre igrejas e política partidária criou o inferno em que estamos

Há um erro de origem que precisa ser nomeado com clareza antes de qualquer crítica política: quando a religião entra na política para disputar poder, ela renuncia à sua própria razão de existir. E quando a política se apropria da religião para legitimar-se, abandona o solo comum da razão pública e da legalidade democrática.

O resultado não é apenas degradação institucional, mas desorientação espiritual coletiva. A democracia brasileira vive esse curto-circuito de forma cada vez mais visível: o púlpito transformado em palanque, o palanque disfarçado de altar, e a verdade reduzida a ferramenta de mobilização emocional.

Religião e política não são inimigas — mas pertencem a planos distintos da experiência humana. Devem coexistir como óleo e água: no mesmo recipiente social, sem jamais se confundir. A política opera no plano da organização externa da vida coletiva; a religião, no da transformação interior do ser humano. Uma cuida da administração do poder; a outra da formação do caráter. Quando essa fronteira é rompida, ocorre uma inversão perigosa: a fé passa a servir ao poder, e o poder passa a falar em nome de Deus. É como se uma mesa ou uma cadeira produzida pelo carpinteiro passasse a falar em seu nome. Existe algo mais tosco e ridículo do que isso?

A política, por sua própria natureza, é atravessada por disputas, negociações, interesses e estratégias. Ela precisa disso para funcionar. Mas justamente por isso não pode ser o espaço da elevação moral.

A religião, ao contrário, nasce para educar a consciência humana, não para vencer eleições. Seu papel histórico sempre foi o de criar ordem interior, promover tranquilidade social e despertar virtudes latentes que nenhuma lei consegue impor. Quando cumpre essa função, torna-se fundamento invisível da civilização; quando a abandona, transforma-se em superstição organizada ou em empresa de poder.

O velho axioma permanece implacável: não se constrói uma sociedade de ouro com indivíduos de chumbo. Nenhuma Constituição, nenhum tribunal, nenhuma maioria parlamentar substitui a ausência de virtudes básicas. Honestidade, veracidade, humildade, unidade, compaixão e senso de justiça não são meros ornamentos morais; são estruturas de sustentação da vida coletiva. Quando a religião se afasta dessa missão educativa para disputar hegemonia política, contribui diretamente para o empobrecimento ético que depois finge denunciar. E resulta no caos que está sempre batendo em nossas portas. Simples assim.

Os dados brasileiros ajudam a compreender a dimensão do fenômeno. O Censo Demográfico de 2022 revelou um país religiosamente mais plural: o catolicismo caiu para 56,7% da população; os evangélicos cresceram para 26,9%; religiões de matriz africana avançaram; e o grupo dos “sem religião” também aumentou.

Essa diversidade, em si, é saudável. O problema começa quando ela é convertida em ativo político, moeda eleitoral e instrumento de polarização.

O recorte etário aprofunda o alerta. O crescimento evangélico é mais intenso entre jovens, enquanto o catolicismo se concentra nas faixas etárias mais altas. Há, portanto, uma disputa explícita pelo futuro simbólico do país — simbólico aqui no sentido concreto de disputa por sentidos, valores, identidades coletivas e critérios morais que orientam o voto, o pertencimento e a lealdade social.

Quando lideranças religiosas entram no jogo partidário, sabem que não estão apenas pedindo votos, mas moldando visões de mundo. A fé deixa de ser caminho de amadurecimento espiritual e passa a ser tecnologia de mobilização política.

No Congresso Nacional Brasileiro, essa dinâmica ganhou forma institucional. A Frente Parlamentar Evangélica tornou-se uma das maiores articulações suprapartidárias, reunindo mais de duas centenas de parlamentares. Muitos mantêm vínculos orgânicos com igrejas, alguns ocupando cargos hierárquicos religiosos. Essa sobreposição não é neutra. Ela tensiona princípios republicanos básicos e fragiliza a distinção entre consciência pessoal e mandato público.

Essa distorção já havia sido antecipada pela filosofia clássica. Em Platão (428/427–348/347 a.C.), governar nunca significou favorecer classes, crenças ou facções, mas ordenar a cidade para que a felicidade alcançasse o conjunto da sociedade. Quando a política abandona esse princípio e passa a servir partes específicas, ela deixa de buscar justiça e passa a produzir desequilíbrio. Nesse vazio ético, discursos religiosos e identitários tornam-se atalhos convenientes para legitimar privilégios, dividir a cidade e mascarar interesses de poder com verniz moral.

Mas a crítica central não é política — é espiritual.

Quando textos sagrados são usados como slogans, quando o adversário vira inimigo de Deus, quando o voto se transforma em prova de fé, a religião deixa de ser luz e passa a ser instrumento de dominação moral e emocional. A história mostra que, sempre que isso ocorre, a espiritualidade definha e o fanatismo prospera. A religião, que deveria ser fonte de ordem e tranquilidade entre os povos, converte-se em fator ativo de conflito e divisão.

Há aqui um ponto decisivo: progresso material sem elevação espiritual produz civilizações eficientes, desiludidas e profundamente infelizes. O desenvolvimento técnico, desacompanhado de valores, amplia apenas a capacidade de errar em escala maior.

A verdadeira civilização nasce quando avanço material e maturidade espiritual caminham juntos — como lâmpada e luz. Separados, ambos fracassam: a lâmpada sem luz é inútil; a luz sem lâmpada não ilumina o mundo.

Por isso, a separação entre religião e política não é uma concessão secularista — isto é, não se trata de um gesto ideológico contra a fé ou de submissão da sociedade a um materialismo hostil à transcendência. Trata-se de uma exigência espiritual e republicana para proteger a religião da captura pelo poder e preservar a política do uso indevido do sagrado.

O Estado laico não é um Estado sem Deus; é um Estado que reconhece que nenhuma instituição humana pode falar em nome de Deus. Devemos acreditar, ter uma fé genuína e pura no Deus que nos criou — e não no Deus que nós criamos à imagem de nossas conveniências políticas.

Daí o desafio inevitável, que já não pode ser evitado com retórica piegas.

Que tal irmos direto ao olho do furacão que se a vizinha? Se muitas igrejas passaram a funcionar, na prática, como caixas eletrônicos informais para financiar campanhas, projetos de poder e interesses claramente corruptos, não será o momento de submeter essas estruturas ao mesmo rigor fiscal aplicado a qualquer organização que movimenta grandes volumes de recursos? Transparência não ameaça a fé; a protege. Investigar o caminho do dinheiro — do dízimo ao destino final —, apurar sonegação, lavagem e eventuais vínculos com economias criminosas não é perseguição religiosa, mas dever republicano. Em rápidas palavras: se a as igrejas entram na política, nada mais justo que a Receita Federal entre nas igrejas. Entendo que esse é o momento para uma operação carbono específico.

Religião não existe para conquistar governos, mas para formar consciências. Quando se esquece disso, ela perde sua força transformadora e trai sua missão histórica. E aqui afirmo, sem hesitação, como crença inabalável: confio no ensinamento do Prisioneiro de ‘Akká — Bahá’u’lláh (1817-1893) — de que a religião é o instrumento principal para o estabelecimento da ordem no mundo e da tranquilidade entre seus povos. Justamente por isso ela não pode ser rebaixada a ferramenta eleitoral.

Uma sociedade que sacrifica sua base espiritual no altar do poder pode até vencer eleições — mas perde a alma no processo. E se perde a alma, nada mais importante falta ser perdida.

¨      O verão moral do Brasil. Por Sara Goes

Raquel de Queiroz diria que às vésperas do ano mais decisivo da política brasileira recente o céu do país ficou transparente de "doer, vibrar, tremer, feito uma gaze repuxada". Mas tem algo nesse clima que não diz respeito apenas à temperatura. A sensação é familiar, como se estivéssemos de novo em 2015, naquele Brasil onde o suor grudava na pele ao mesmo tempo em que a histeria moral se instalava na esfera pública. O ambiente físico e o ambiente político parecem reverberar um ao outro: abafados e tensos.

Aquela experiência reorganizou  o espaço público. A operação deixou de ser um procedimento técnico e passou a operar como linguagem moral. Quem fosse enquadrado nesse enredo era imediatamente desumanizado, convertido em personagem alegórico do mal brasileiro. O processo penal deixou de ser mediação e tornou-se instrumento direto de punição simbólica. A imprensa serviu como correia de transmissão dessa gramática e a opinião pública foi educada para confundir justiça com espetáculo.

É esse mesmo dispositivo que volta a se apresentar agora. A diferença é que o roteiro já está conhecido e, mesmo assim, volta a ser consumido como novidade. O caso Master e o ataque dirigido a Alexandre de Moraes reaparecem revestidos da mesma retórica de purificação, do mesmo clima de suspeita permanente, da mesma ansiedade coletiva por culpados prontos. A comoção é produzida antes do fato e a condenação precede qualquer exame crítico. Não se trata do desejo legítimo de esclarecimento. Trata-se da reinstalação de uma economia política do escândalo.

Esse moralismo não está apenas no discurso conservador. Ele também atravessa setores da própria esquerda, sobretudo aqueles que se percebem como guardiões de uma pureza intransigente. Há um tipo de militância que aguarda ansiosamente qualquer fissura, qualquer ruído, qualquer episódio ambíguo que possa ser convertido em combustível para desestabilizar governos de coalizão e experiências reformistas. A lógica é sempre a mesma: expor o aliado como se fosse inimigo, elevar a crítica conjuntural ao estatuto de denúncia moral absoluta e reivindicar para si o papel de consciência superior do processo histórico.

O gesto não é apenas político. Ele é performático. Há um prazer em ocupar esse lugar de superioridade ética, como se fosse possível direcionar o caos para um ápice sádico que, por algum mecanismo quase místico, produziria uma solução disruptiva. A aposta implícita é que a deterioração das mediações institucionais abriria caminho para uma virada radical. O que se esquece é que, historicamente, o colapso raramente beneficia quem o deseja. Na maior parte das vezes, ele fortalece as forças mais autoritárias, mais organizadas e adaptadas ao uso estratégico da destruição.

Essa esquerda moralizante reproduz o mesmo erro de uma década atrás. Naquele momento, a adesão ao discurso punitivista parecia uma forma de afirmar superioridade ética diante do sistema político. Hoje, a lógica se repete com novos signos. Em vez de disputar o projeto, organiza-se a disputa em torno da acusação e do sacrifício simbólico de figuras públicas, mesmo quando servem ao campo que, em tese, se busca defender. O moralismo surge como atalho identitário. Não exige compreender a complexidade do governo, da correlação de forças, dos limites estruturais. Basta apontar o dedo, denunciar, dramatizar.

O resultado é paradoxal. Ao atacar governos reformistas por não corresponderem ao ideal imaginário, esses setores acabam reforçando o mesmo dispositivo que historicamente alimentou o avanço reacionário. O campo progressista se fragiliza por dentro, transforma suas divergências em tribunal permanente e entrega às forças conservadoras a oportunidade de capturar o mal-estar social. A crítica, que poderia ser instrumento de construção, converte-se em motor de desagregação. A política desaparece e o moralismo ocupa seu lugar como falsa promessa de redenção.

Não é coincidência que o clima pareça repetir-se junto com o padrão de comportamento público. O país volta a flertar com o mesmo abismo, como se estivesse preso a uma repetição histórica que insiste em retornar enquanto a experiência não for elaborada. A memória da Lava Jato ainda não se transformou em aprendizado coletivo. Ela permanece como um estresse pós-traumático, um fantasma, e o fantasma sempre encontra um novo corpo para habitar.

Parte da imprensa que se reivindica progressista adere a esse movimento sem perceber que repete o mesmo mecanismo que ajudou a corroer a democracia dez anos atrás. A cobertura abandona a prudência analítica e assume o tom da acusação insinuada. As manchetes constroem causalidades frágeis que se fixam na memória pública antes que qualquer evidência sólida se apresente. O jornalismo, que deveria duvidar, passa a atuar como extensão narrativa do aparato investigativo, naturalizando a lógica da exceção como se fosse normalidade institucional.

Quando a esquerda cede novamente ao moralismo que já a feriu e quando a imprensa reaprende o gosto pela acusação sem lastro, não estamos diante de um erro novo. Estamos diante da incapacidade de aprender com o trauma. Talvez o que assuste neste momento não seja apenas o calor que pesa sobre o país, mas a facilidade com que ele reativa velhos reflexos. A história não retorna como farsa nem como tragédia. Ela retorna como hábito e, como nas páginas de Raquel de Queiroz, o país avança a galope, feito fantasma, por entre os vultos sombrios do tempo político, sem perceber que repete o caminho de antes.

 

Fonte: Brasil 247

 

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