Um
Manifesto das Periferias pela Justiça Climática
A
Frente Periférica por Direitos reúne militantes, ativistas, trabalhadores por
conta que empreendem nas quebradas, além de coletivos e movimentos engajados
nas lutas sociais dos mais variados segmentos, dos territórios periféricos. Em
setembro de 2024, lançamos nosso “Manifesto das periferias”, que inaugurou
nosso movimento e apresentou 98 propostas de políticas públicas voltadas a
esses territórios, assinado por candidatos a prefeito e vereador compromissados
com sua implementação. Ao longo de 2025, promovemos rodas de conversa e
seminários em todas as regiões da cidade de São Paulo, em um processo de
diálogo e de construção coletiva da Carta Compromisso: Periferias pelo Clima –
O clima tá tenso! Esse processo envolveu, aproximadamente, 1.050 lideranças comunitárias,
pesquisadores, ambientalistas, trabalhadores por conta, cooperativas, mídias
comunitárias, organizações da sociedade civil, sindicatos, grupos pastorais,
parlamentares e suas assessorias. De maneira dinâmica e participativa, essa
consulta popular teve como objetivo sistematizar o contexto socioambiental das
periferias, suas precariedades, mas, sobretudo, suas potências e soluções.
As
periferias de São Paulo, historicamente, sofreram os impactos ambientais
decorrentes da falta de planejamento urbano. A expansão acelerada da cidade não
foi neutra: priorizou grandes interesses econômicos, como os do mercado
imobiliário, cuja sua lógica da exclusão relegou a população periférica a áreas
degradadas e de risco. Em vez de pensar uma cidade resiliente diante dos
eventos climáticos extremos que já se anunciavam, o poder público reproduziu um
modelo excludente de urbanização, naturalizando a desigualdade socioespacial.
Ao longo dos anos, essas comunidades vivenciaram tragédias causadas por chuvas
intensas, enchentes e deslizamentos de encostas. Se antes esses desastres já
comprometiam as condições de vida das pessoas, por fazê-las perder seus
pertences e até suas moradias, atualmente impactam também a saúde física e
mental das pessoas, seja pelo alastramento de doenças contagiosas, seja por
traumas emocionais das perdas, chegando até mesmo a provocar mortes. Este
“desplanejamento”, ou planejamento urbano caótico promovido pelo poder público
durante décadas, não apenas não resolveu os problemas estruturais das
periferias como agravou as vulnerabilidades socioambientais. A exclusão social
tem em sua raiz marcadores de raça, classe, gênero e território. A política da
morte ou necropolítica¹ são elementos centrais deste “falso planejamento
urbano”.
Segundo
dados do Mapa das Desigualdades de 2022, a população periférica é constituída
majoritariamente por pessoas negras (pretas ou pardas), o que evidencia um
quadro estrutural de racismo ambiental. As mães solos, pessoas trans, com
deficiência, pessoas em situação de calçada (PopRua) são evidentemente muito
mais expostas a condições muito mais degradantes geradas pela injustiça
climática. Além disso, preconceitos contra as identidades culturais,
linguísticas e territoriais reforçam barreiras simbólicas que invisibilizam as
dores dos sujeitos periféricos. Esse quadro de marginalização social acentua a
vulnerabilidade diante de enchentes, deslizamentos, ilhas de calor e outras
expressões da crise climática urbana, configurando um ciclo de exclusão em que ser
negro, migrante – em especial nordestino –, imigrante, refugiado nas
periferias, significa carregar múltiplos estigmas que intensificam a injustiça
climática e socioambiental. As decisões políticas que vêm favorecendo os
processos de gentrificação² evidenciam que a especulação imobiliária e os
detentores do poder atuam para aprofundar a exclusão da população empobrecida.
Deixar as comunidades periféricas nestas condições não é obra do acaso.
A
lógica de transformar o modo de viver em mercadoria, em que o direito à
moradia, ao lazer, ao esporte, à saúde, à educação e o acesso à natureza é
mercantilizado, impõe a exclusão dos sujeitos periféricos. O capitalismo, em
sua essência, convive com as desigualdades, com a miséria extrema e a exclusão
social. Num contexto de emergência climática, a exploração predatória de bens
naturais e a concentração de riquezas se acentuam, enquanto o negacionismo
climático impulsiona a lógica de exclusão social gerada pelo capitalismo,
revelando que excluir os sujeitos periféricos é uma decisão política.
Realizamos, no dia 26 de outubro de 2025, o lançamento oficial da carta
compromisso – Periferias Pelo Clima, a qual esperamos que apoie a formulação de
políticas públicas e projetos socioambientais que intervenham nos impactos da
emergência climática. Se a exclusão dos sujeitos periféricos é uma decisão
política, este instrumento surge como inspiração e também cobrança por medidas
mais efetivas no combate às desigualdades socioambientais e na contenção dos
danos causados pela emergência climática, especialmente nos territórios
periféricos, que são os que mais sofrem.
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Um papo reto – o clima tá tenso
O
silêncio muitas vezes domina o nosso cotidiano. Muitas vezes, de cabeça baixa,
percorremos o trajeto de ida e vinda do trabalho. Enchente após enchente,
engolimos seco a dor de perder tudo. Mandam o lixo da cidade pra cá, nos tratam
como lixo. Trazem indústrias poluentes pra cá, desrespeitando nossa saúde.
Precarizam nosso transporte, transformando o direito de ir e vir numa guerra
diária. O clima tá tenso e é hora do papo reto!
Mortes
nas quebradas por questões ambientais já acontecem. Leptospirose, desinteria,
pneumonia se tornaram frequentes, e a nossa saúde mental afunda. Não pode ser
diferente pra quem convive com esgoto a céu aberto, poluição do ar e da água.
Soma-se a isso o problema crônico da gestão de resíduos: incineradores que
envenenam o ar com gases tóxicos, aterros que contaminam o solo e os lençóis
freáticos, sem qualquer planejamento de compensação ambiental ou cuidado com as
populações vizinhas. Essa política do descaso transforma nossos territórios em
zonas de sacrifício, onde a vida da população vale menos do que o lucro das
empresas e a omissão do poder público. Este país também é nosso! É do povo
negro, indígena e periférico e queremos ser ouvidos. Nossos ancestrais tinham
outra relação com a natureza antes da escravidão que nos massacrou. Estamos nos
reconectando com nossas raízes, daí a necessidade de regenerar nossa relação
ancestral e nossa relação ecológica. Os poderosos estarão na COP 30 decidindo o
futuro da humanidade, enquanto nós, as vítimas e sobreviventes da emergência
climática, ficaremos fora dos salões principais. Não há discussão política
legítima sobre emergência climática que não envolva a nós, sujeitos
periféricos. Enquanto as elites debatem a “crise climática” em salas
refrigeradas, nossas quebradas estão soterradas, no calor extremo ou debaixo
d’água.
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Quem perde tudo nas enchentes? Quem sofre com esgoto a céu aberto, com calor
insuportável e transporte precário?
Somos
nós, que respiramos o ar pobre dos lixões. Nós, que somos expostos aos gases
tóxicos das indústrias, dos incineradores e fábricas poluidoras. Somos nós que
convivemos com ratos, a podridão do esgoto e suas doenças. Somos nós que
enfrentamos filas e descaso nos serviços de saúde pública. Somos nós que
recebemos toneladas e toneladas do lixo das áreas nobres da cidade e dos
grandes geradores.
Na COP
30, precisamos afirmar que as quebradas não são apenas territórios de dor, mas
de potência cultural, de trabalho coletivo e de sabedoria popular. Aqui se
cria, se recicla, se planta, se canta e se luta. Aqui nasce o futuro que não
aceita injustiça. As vozes aqui representadas são as vozes das batalhas de
rima, dos slans, do Hip Hop e dos saraus. São as vozes dos catadores, das
senhoras da reciclagem e das crianças que cuidam das hortas. São as vozes dos
podcasts periféricos, das rádios e TVs comunitárias. São as vozes das mulheres,
jovens, negros, negras e do povo LGBTQIAPN+. São também as vozes das
espiritualidades que celebram a cultura de paz, não a “paz branca” que
imobiliza e manda nos calar, mas uma paz insurgente, feita de luta, dignidade e
resistência e que não se calam diante das injustiças.
O mundo
precisa conhecer a cara da quebrada: do pastor de igreja ao MC de batalha, do
padre das pastorais aos botecos de vila, as nossas belezas culturais. Quantos
nas quebradas não se envolvem nas cooperativas de reciclagem? Quantos não se
encantam com a compostagem doméstica? Quantos encontram, num simples passeio no
parque, um acesso gratuito ao contato com a natureza e os animais? Quantos não
cuidam uns dos outros nos desastres ambientais? Quantos acolhem aqueles que
perdem tudo, aqueles que estão doentes e debilitados? Quantos já não foram num
plantio popular? Quantos não estudaram os princípios da Ecologia Integral e se
engajam nos trabalhos pastorais? Nossas professoras, mesmo precarizadas,
ensinam sobre os ODS. Nossas crianças crescem com uma mentalidade
ambientalmente mais avançada. Nossas quebradas são potência, mas também são
resistência! O clima tá tenso, somos vítimas de catástrofes socioambientais e
precisamos agir contra isso. Chegou a hora do papo reto! De quebrada pra
quebrada o papo é reto!
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A realidade das quebradas, denúncias, suas potenciais e propostas de solução
As
lutas sociais da Frente Periférica por Direitos não estão dissociadas das lutas
históricas pela transformação social. É neste sentido que reafirmamos nossas
bandeiras de luta: moradia, saneamento, saúde, educação, transporte, cultura,
segurança alimentar, combate à opressão são lutas transversais que reconhecem a
crise climática também como fruto das desigualdades estruturais que marcam a
classe trabalhadora. Nas quebradas, a realidade fala mais alto do que qualquer
diagnóstico técnico. São territórios onde o barulho das enchentes se mistura ao
das sirenes, onde o calor extremo e o esgoto a céu aberto fazem parte do
cotidiano. Mas também são espaços de potência, onde a juventude cria, denuncia
e propõe soluções. As quebradas não esperam o poder público agir: constroem
hortas comunitárias em terrenos abandonados, formam coletivos de mulheres para
o cuidado ambiental, organizam campanhas de limpeza, plantio e reaproveitamento
de resíduos, e fazem da arte uma ferramenta política de denúncia e mobilização.
A
denúncia que vem das periferias é contundente: a crise climática tem cor,
gênero e território. As políticas ambientais que ignoram essa realidade
reproduzem o racismo ambiental e aprofundam as desigualdades. É necessário
ouvir os coletivos de base, os movimentos de moradia, as juventudes periféricas
e os povos tradicionais urbanos, que já elaboram suas próprias agendas
climáticas a partir das vivências cotidianas. As propostas de solução nascem
das bordas: programas de reflorestamento comunitário, fortalecimento das
cooperativas de reciclagem, ampliação das redes de captação de água de chuva,
incentivos à agroecologia urbana, criação de zonas de respiro ambiental nas
áreas densamente ocupadas e planos de adaptação local liderados pela própria
comunidade. O poder público deve reconhecer e financiar essas iniciativas,
garantindo suporte técnico, infraestrutura e formação cidadã.
Reconhecer
a realidade das quebradas é reconhecer que nelas pulsa a vanguarda da luta por
justiça ambiental e social. É ali que se tece, com solidariedade e consciência,
o projeto de um outro futuro possível — um futuro em que o direito à cidade, ao
ar puro e à dignidade seja universal, e onde a periferia deixe de ser vista
como problema para ser reconhecida como solução.
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Reconhecimento do racismo ambiental
Nas
periferias, a cor e o CEP seguem ditando quem mais sofre com enchentes,
deslizamentos, ilhas de calor, ar contaminado e falta d’água. Loteamentos sem
infraestrutura, moradias em áreas de risco, córregos canalizados e assoreados,
ausência de áreas verdes e a proximidade de aterros, indústrias poluentes e
vias de tráfego pesado formam um mapa do sofrimento que coincide com o mapa da
população negra e pobre. Essa desigualdade não é “acidente urbano”: é fruto
histórico de políticas de urbanização excludentes, remoções forçadas e
investimentos que privilegiam o centro e sacrificam as bordas. O conceito de
racismo ambiental revela que os impactos da degradação ambiental e da crise
climática não são distribuídos de forma igualitária: recaem, sobretudo, sobre populações
negras, indígenas e periféricas. Essa realidade se expressa no abandono das
políticas públicas, na ausência de saneamento básico, na precariedade da coleta
de lixo e na exposição cotidiana a riscos ambientais que colocam vidas em
permanente vulnerabilidade. Reconhecer o racismo ambiental é compreender que as
injustiças ambientais são também injustiças raciais e territoriais.
Apesar
disso, as periferias constroem saídas: mutirões de limpeza de córregos, hortas
e viveiros comunitários, brigadas solidárias em temporais, redes de vizinhança
e comunicação popular. As cooperativas de reciclagem e os catadores de lixo
fazem a diferença na gestão de resíduos. No campo da educação, os educadores
sociais, coletivos de cultura e professores atuam incansavelmente na divulgação
das ODS, sempre alertando sobre as condições de racismo ambiental vivida nas
periferias. Essas ações comunitárias revelam uma pedagogia da resistência
ambiental, em que o saber popular se torna instrumento de transformação. A luta
pelo direito ao território, à moradia digna e ao saneamento básico se entrelaça
à luta antirracista e feminista, pois são as mulheres negras, em especial, que
assumem a linha de frente na defesa da vida e do meio ambiente nas comunidades.
É a partir dessas práticas locais que surgem soluções sustentáveis e
inovadoras, capazes de inspirar políticas públicas inclusivas e participativas.
É
necessário reconhecer oficialmente o racismo ambiental na elaboração das
políticas públicas e no arcabouço legal em todos os âmbitos. É necessário que a
prefeitura implemente planos de bairro capazes de incidir em metas vinculantes
de redução de risco por local, tratando em caráter de urgência bairros com
incidência de áreas de alto risco ambiental. Além disso, mensurar
detalhadamente o investimento prioritário em drenagem das águas pluviais e
infraestrutura verde-azul. A infraestrutura urbana deve adotar práticas
avançadas de cidades-esponja3, equilibrando áreas verdes, água e habitação;
reconhecer o racismo ambiental é também fortalecer nossa cultura ancestral de
respeito à natureza do povo negro e indígena. A tecnologia de compostagem
orgânica sempre esteve presente na cultura indígena, bem como propagado nas
religiões de matriz afro. Este caráter simbólico fortalece as identidades das
populações periféricas e suas práticas ancestrais de respeito à natureza.
Assim, o reconhecimento do racismo ambiental não deve se limitar ao discurso,
mas se traduzir em políticas concretas, com orçamento participativo, reparação
histórica e protagonismo das comunidades afetadas. Somente com justiça
ambiental e racial será possível construir cidades mais humanas, resilientes e
solidárias, onde o direito à vida e à natureza seja garantido a todas e todos.
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Justiça climática e social
Quem
menos emite é quem mais paga a conta. Nas quebradas, as concessionárias de água
e energia elétrica praticam preços abusivos, aproveitando situações de falta de
instrução. A conta de luz é mais cara proporcionalmente, o transporte é mais
demorado e poluente, nos locais mais altos a vazão da água é reduzida, em
locais afastados falta energia. Crises respiratórias, propagação de dengue e
estresse térmico4 são comuns nos territórios periféricos. A cada chuva forte,
famílias perdem móveis, documentos e anos de vida. Sem renda estável e com
serviços públicos intermitentes, o risco climático vira risco social
permanente.
Falta
rede de esgoto nos territórios mais vulneráveis, enchentes são frequentes e nos
fazem conviver diariamente com tragédias amplamente anunciadas. Não existe
sistema de alerta de catástrofes climáticas, o desassoreamento e a despoluição
de rios e córregos são meramente simbólicos, e a infraestrutura de drenagem
simplesmente não chega até nós: bueiros entupidos, ausência de jardins de
chuva, hortas comunitárias esquecidas, corredores ecológicos e parques urbanos
que nunca saem do papel. E onde estão as políticas de educação ambiental que
deveriam conscientizar sobre o lixo jogado nos córregos? Elas não existem,
porque o poder público virou as costas para o nosso povo. Esse abandono tem
consequências diretas: nossas enchentes não são obra da natureza, são resultado
da omissão política! Famílias inteiras perdem tudo, ano após ano. Móveis,
eletrodomésticos, roupas, tudo levado pela água suja e contaminada. Não é
apenas a perda material — é o adoecimento coletivo: leptospirose, desinteria e
doenças graves proliferam com a poluição dos rios. Além do corpo, a mente
também adoece. O sofrimento psicológico de ver sua vida sendo destruída
repetidamente, enquanto governos cruzam os braços, é violência de Estado contra
o povo periférico.
Na
esfera ambiental, os ataques são ainda mais cruéis. Situações como a da
Petroquímica de Santo André e outras zonas industriais despejam gases tóxicos
que envenenam o ar e a saúde da população, em especial, nos territórios
periféricos. Projetos absurdos como ampliação de aterros e incineradores têm
sido comuns atualmente. Os dutos da Petrobrás carregam volumes absurdos de
combustível. Com compensações ambientais insuficientes às comunidades
impactadas. Essa lógica de exploração desenfreada, típica do neoextrativismo,
transforma nossos territórios em áreas de sacrifício: concentra os lucros nas
mãos da indústria e do Capital, enquanto distribui a contaminação, a
precariedade e a doença para o povo. Quem lucra é a indústria, quem adoece é a
comunidade. Mas a resposta já pulsa nos territórios: cozinhas solidárias,
cooperativas de reciclagem, bancos de alimentos, redes de acolhimento em
enchentes, aplicativos de celular, empreendimentos solidários, coletivos de
educomunicação e rádios comunitárias que alertam sobre riscos, coletivos de
jovens que mapeiam árvores e pontos de calor, escolas que se transformam em
centros de abrigo. Essas práticas salvam vidas, reduzem perdas e mostram que
justiça climática começa pela organização popular.
Entre
as propostas estão: Instituir Orçamento Climático Periférico com metas por
bairro; Ampliar a tarifa social ampliada de energia e água com bônus por
eficiência; corredores de ônibus elétricos nas rotas mais longas; criação de
protocolos de saúde para CAPS e UBSs para situações de onda de calor, de
enchente e doenças consequentes de situações climáticas extremas; seguro
paramétrico comunitário para eventos extremos; Alocação do programa POT, e
outras frentes de trabalho, que oficializem os “empregos verdes” (poda urbana,
reflorestamento, educação ambiental, manejo de drenagem, telhados frios); metas
de redução de mortalidade causadas por doenças direta ou indiretamente ligadas
a questão climática. Fomentar iniciativas de Economia Solidária, em especial
empreendimentos que trabalham com reaproveitamento de resíduos — como práticas
de upcycling ou aproveitamento integral de alimentos — é uma estratégia que
alia geração de trabalho e renda com sustentabilidade ambiental. Essas
iniciativas fortalecem a organização coletiva, estimulam a criatividade
produtiva e contribuem para a redução de impactos ambientais, ao transformar
materiais e recursos que seriam descartados em novos produtos e oportunidades
econômicas. Além disso, reforçam uma lógica de produção baseada na cooperação e
na valorização dos saberes populares, rompendo com modelos de consumo e
descarte típicos da economia capitalista tradicional.
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Participação social nas decisões
Planos
sobre clima e cidade costumam nascer longe de quem vive os problemas.
Audiências públicas no centro, linguagem técnica inacessível, consultas sem
retorno e conselhos capturados afastam a população e transformam participação
em ritual vazio. O resultado são obras que não dialogam com a realidade e
reforçam desigualdades. Os espaços de participação social, como conselhos
gestores, foram sequestrados por assessorias parlamentares e gabinetes,
reduzindo a democracia participativa a um jogo de cartas marcadas. A ausência
de participação popular nas decisões sobre o clima é uma das principais causas
da ineficácia das políticas públicas.
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A solução passa por:
• Descentralização e Acessibilidade:
Realizar audiências públicas e consultas em locais acessíveis nas periferias,
em horários compatíveis com a jornada de trabalho da população.
• Linguagem Simples e Tradução: Garantir
que a linguagem técnica seja traduzida para o português simples e que haja
materiais de apoio visual e didático.
• Fortalecimento dos Conselhos: Devolver a
autonomia aos conselhos gestores, garantindo a representatividade de movimentos
sociais e coletivos periféricos.
• Orçamento Participativo Climático: Criar
mecanismos de orçamento participativo específicos para projetos de adaptação e
mitigação climática nas periferias.
• Educação para a Participação: Promover a
formação de lideranças comunitárias e ativistas para que possam incidir de
forma qualificada nos espaços de decisão.
A
participação social não é um favor, mas um direito e uma necessidade para a
construção de políticas climáticas justas e eficazes.
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Transição ecológica justa e igualitária
A
transição ecológica não pode ser mais um processo que aprofunda as
desigualdades. A substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis,
a eletrificação da frota de veículos e a adoção de tecnologias verdes devem ser
acompanhadas de políticas de inclusão social e econômica.
>>>>
A transição justa deve garantir:
• Empregos Verdes e Qualificação:
Investimento em programas de qualificação profissional para a população
periférica, com foco em energias renováveis, construção sustentável,
agroecologia e gestão de resíduos.
• Acesso à Energia Limpa: Incentivo à
instalação de painéis solares em moradias populares e equipamentos públicos,
com tarifa social e modelos de cooperativas de energia.
• Mobilidade Sustentável: Expansão de
corredores de ônibus elétricos, ciclovias e calçadas acessíveis nas periferias,
reduzindo a dependência do transporte individual poluente.
• Economia Circular e Solidária:
Fortalecimento das cooperativas de reciclagem e dos empreendimentos de economia
solidária, reconhecendo o papel dos catadores como agentes ambientais.
A
transição ecológica só será justa se for construída com e para as periferias,
garantindo que os benefícios ambientais e econômicos sejam distribuídos de
forma igualitária.
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Luta pela vida, pela terra e pela paz
A luta
pela vida nas periferias é indissociável da luta pela terra e pela paz. A
violência urbana, a especulação imobiliária e a degradação ambiental são faces
da mesma moeda.
• Regularização Fundiária e Moradia Digna:
A regularização fundiária é uma medida de justiça social e ambiental, pois
garante a segurança da posse e permite o investimento em infraestrutura.
• Segurança Alimentar e Agroecologia:
Apoio à produção de alimentos orgânicos e agroecológicos em hortas comunitárias
e urbanas, garantindo o acesso a alimentos saudáveis e a soberania alimentar.
• Cultura de Paz e Direitos Humanos:
Investimento em programas de cultura, esporte e lazer nas periferias, como
ferramentas de prevenção à violência e promoção dos direitos humanos.
A paz
nas periferias passa pela garantia dos direitos básicos e pela construção de um
ambiente saudável e seguro para todos.
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Por um novo modelo econômico, mais democrático, sustentável, justo e inclusivo
O
modelo econômico atual, baseado na exploração predatória e na concentração de
riqueza, é a raiz da crise climática e das desigualdades. É urgente construir
um novo modelo que coloque a vida no centro.
• Economia Solidária e Circular: Incentivo
a modelos de produção e consumo baseados na cooperação, na reciclagem e no
reaproveitamento de resíduos.
• Tributação Progressiva: Adoção de
impostos sobre grandes fortunas e emissões de carbono, para financiar a
transição ecológica e as políticas sociais.
• Bancos Comunitários e Moedas Sociais:
Fortalecimento de iniciativas de finanças solidárias, que promovem a circulação
de riqueza nas comunidades.
O
futuro que queremos é aquele em que a economia serve à vida, e não o contrário.
Fonte:
Por Frente Periférica por Direitos

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