Febre
por minerais brasileiros ‘abre porteira’
para avanço de exploração em terras indígenas
A
Constituição brasileira proíbe o garimpo ilegal em terras indígenas sob
qualquer circunstância. No entanto, uma crescente demanda global pelos mais
variados minérios tem levado garimpeiros a invadir territórios protegidos a
despeito do que estabelece a lei. Essa tendência acontece em meio a uma
expansão generalizada: desde 2018, a área usada para a mineração de ouro na
Amazônia dobrou de tamanho — e, de 1985 para cá, cresceu 1.217%, com grande
prevalência de pontos de produção ilegal. Enquanto isso, o valor do metal quase
triplicou no mercado, atingindo um patamar recorde.
Há pelo
menos dois anos, o governo federal tem fechado o cerco aos garimpeiros ilegais,
promovendo ações que desmantelam estruturas criminosas em terras indígenas.
Segundo autoridades, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, a maior do país,
as operações já impuseram perdas de até R$ 500 milhões ao garimpo até a metade
de outubro, reduzindo significativamente a área total afetada pela atividade.
Já nas
terras originárias dos Sararé, no Mato Grosso, e dos Munduruku, no Pará, as
ações destruíram centenas de acampamentos, escavadeiras e depósitos que serviam
para esconder equipamentos do garimpo e até mesmo armas utilizadas por
organizações criminosas que operam nessas regiões.
Tudo
isso é parte de um extenso pacote que responde às crises humanitária e
ambiental causadas pela mineração desenfreada em todo o Brasil. A prática leva
o país a assistir a um aumento acelerado do desmatamento e da contaminação de
rios pelo uso de mercúrio. Ao mesmo tempo, a violência associada à exploração
mineral decola dentro de comunidades indígenas, conforme alertam relatórios do
Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (Unodc).
Mesmo
assim, enquanto o governo do presidente Lula trilha um caminho para confrontar
a exploração mineral, o Congresso brasileiro vai pela contramão. Nos últimos
meses, projetos de lei controversos, que visam legalizar a mineração e outras
atividades econômicas em terras indígenas — como o PL 1331/2022 e o PL
6050/2023 — ganham fôlego entre as pautas legislativas, o que desperta a
preocupação entre especialistas e diferentes organizações.
Enquanto
o primeiro PL prevê explicitamente a exploração e a mineração em terras
indígenas, o segundo é mais amplo e propõe um marco regulatório para diferentes
atividades econômicas nessas áreas — incluindo a mineração, mas também
atividades dos setores de petróleo, gás e energia hidrelétrica, entre outras.
Em
agosto, essas duas medidas andaram mais algumas casas no tabuleiro legislativo,
conquistando aprovação da Comissão de Direitos Humanos e Legislação
Participativa (CDH) do Senado.
De
acordo com Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do
Clima, o momento atual criou “condições ideais” para o avanço de uma agenda de
mineração problemática. “O Brasil vive hoje um clima político e econômico
favorável à expansão da mineração. Isso se deve à combinação entre a riqueza
geológica do país, o discurso de que ‘há uma janela de oportunidade’ para se
tornar uma potência mineral na transição energética e a pressão internacional —
somada ao lobby interno por mais oferta de minerais críticos.”
Araújo,
que já presidiu o Ibama, disse à Mongabay que os problemas podem ir além, uma
vez que “o entusiasmo tem avançado mais rápido do que as salvaguardas”. Segundo
ela, o cenário de hoje “acelera projetos de lei, aumenta o risco de repetição
de tragédias socioambientais como [o rompimento das barragens de] Brumadinho e
Mariana, ignora a rigidez locacional das jazidas – muitas delas em áreas de
alto valor socioambiental na Amazônia e no Cerrado, inclusive terras indígenas
– e prioriza empreendimentos estratégicos sem fortalecer o devido processo técnico
de licenciamento”.
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Uma transição energética abastecida por furos e controvérsias
A febre
global pelos minerais do Brasil vem acompanhada de um profundo paradoxo. Em
todo o mundo, as metas de transição energética — que buscam reduzir a
dependência de combustíveis fósseis — criaram uma demanda por diversos
elementos, como lítio, níquel e cobre, entre outros. Esses minérios são
indispensáveis para a produção de veículos elétricos, baterias, painéis solares
e outros itens do setor da tecnologia de energia renovável, sobretudo em países
ocidentais, como os que integram a União Europeia.
Nesse
sentido, o potencial do Brasil atrai atenções. No que diz respeito às chamadas
“terras raras” (cujos compostos são dispersos e de difícil extração e
separação), 12 estados brasileiros aparecem em destaque por sua oferta natural;
segundo estudos, o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do
mundo, ficando atrás apenas da China.
Essa
condição geológica coloca o país em uma posição de fornecedor de minerais
estratégicos, ao passo que relatórios projetam ganhos de R$ 243 bilhões para o
PIB nacional até 2050. Isso, por sua vez, tem despertado o interesse de
empresas de mineração, que já registraram mais de 5 mil requerimentos em
jazidas na Amazônia “para explorar minérios considerados essenciais para a
transição energética”, segundo o InfoAmazonia. “Os requerimentos para explorar
cobre, alumínio, manganês, nióbio, prata, níquel, cobalto, terras raras e lítio
somam 26 milhões de hectares dentro dos limites do bioma”, diz o veículo; 1.205
medidas que visam explorar esses minerais essenciais “estão em áreas com
impacto” em terras indígenas.
Do
total de pedidos de mineração atrelados à busca por energia “limpa”, mais de
mil estão localizados a menos de 10 quilômetros de territórios indígenas — e
390 se sobrepõem a eles diretamente. Essas demandas seguem sendo
inconstitucionais e expressamente proibidas, conforme detalham portarias
interministeriais. Além disso, dados revelam que 1.207 licitações se sobrepõem
a 107 Unidades de Conservação (UCs) na Amazônia.
No
final de outubro, uma investigação da Repórter Brasil trouxe novos detalhes de
uma crise que se mostra em movimento. A reportagem mapeou 1.827 pedidos de
mineração a menos de 40 quilômetros de onde vivem grupos indígenas isolados:
estima-se que 45 desses grupos sejam potencialmente afetados pela atividade.
O
interesse do setor avança de forma agressiva nos últimos anos. Em toda a
Amazônia, dos 7.718 pedidos ativos para a exploração de 16 minerais, entre 1953
e setembro de 2025, 44% (3.392) ocorreram após 2020 — ou seja, em menos de meia
década.
A
investigação foi feita em parceria com o Observatório dos Povos Indígenas
Isolados (OPI). Um dos principais representantes da organização, o antropólogo
Miguel Aparício, disse que a mineração, assim como as obras rodoviárias e o
agronegócio, figura como uma das principais razões que levam povos indígenas à
condição de isolamento. Agora “a pressão está realmente aumentando”, disse o
pesquisador à Repórter Brasil.
Paralelamente,
o avanço da mineração recebe apoio nos corredores do Senado. Em defesa de um
dos projetos de lei, o senador Márcio Bittar (União-AC) disse que regulamentar
as atividades econômicas dentro de territórios tradicionais “não fragiliza os
direitos dos povos indígenas”, pois “assegura autonomia e respaldo legal para
que decidam seu próprio futuro”.
No
entanto, a declaração de Bittar contrasta com alertas feitos pela Articulação
dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em um recente relatório — que aborda
justamente os dois PLs em debate. Segundo a Apib, a abertura de territórios
para diferentes atividades de exploração constitui “uma ameaça direta aos
direitos fundamentais dos povos indígenas do Brasil”.
“Tais
proposições inserem-se em um contexto político-jurídico marcado por tentativas
sistemáticas de enfraquecer a proteção constitucional garantida aos povos
originários, sob o argumento de fomentar o desenvolvimento nacional e garantir
segurança jurídica ao setor primário na política nacional”, diz a entidade. “As
iniciativas legislativas em questão não apenas ignoram os direitos de consulta
e consentimento livre, prévio e informado garantidos pela Convenção nº 169 da
OIT, mas também promovem a flexibilização do usufruto exclusivo dos territórios
indígenas, conforme previsto no artigo 231 da Constituição, bem como sustentam
narrativas distorcidas, que apresentam os povos indígenas como obstáculos ao
desenvolvimento nacional.”
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Uma queda de braço sem data para acabar
Essa
não é a primeira vez que o Legislativo promove projetos inconstitucionais que
podem retirar direitos de povos indígenas. Em dezembro de 2023, parlamentares
foram responsáveis por transformar a proposta do marco temporal em lei — ainda
que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha apontado a ilegalidade da proposta
algumas semanas antes.
A
medida impede os indígenas de reivindicar direitos sobre terras que não
ocupavam fisicamente até 5 de outubro de 1988, quando a atual Constituição foi
promulgada. Os magistrados do STF consideraram o caso uma violação dos direitos
constitucionais dos indígenas à terra, já que muitos de seus representantes
foram expulsos desses locais ao longo da história.
Em
fevereiro de 2025, a pressão sobre as terras indígenas aumentaria ainda mais.
No início do ano, um “anteprojeto de lei complementar” foi apresentado pelo
ministro Gilmar Mendes, ameaçando abrir áreas originárias para a exploração
mineral e outras atividades econômicas. De acordo com a Agência Pública, a
medida continha trechos de antigos projetos de lei elaborados por políticos
conhecidos por apoiar o garimpo em terras indígenas de forma indiscriminada.
O
anteprojeto foi apresentado durante uma Câmara de Conciliação (criada para
mediar o impasse de forma extrajudicial), que já nasceu sob fortes críticas. A
medida também enfrentou o repúdio de mais de 50 organizações sociais e da
sociedade civil, incluindo a Apib.
“Vale
mencionar que, sob a presunção de que a atividade minerária é ‘estratégica e de
utilidade pública’, medidas favoráveis ao setor mineral têm sido
recorrentemente implementadas pelo Estado a despeito de impactarem os direitos
territoriais, também definidos como de interesse público. Na prática, essa
presunção confere ao setor mineral privilégios e tratamentos excepcionais que
possibilitam que seus interesses se sobreponham a direitos coletivos. Direitos
que, quando assegurados, como é o caso dos direitos territoriais de Povos
Indígenas e Comunidades Tradicionais, geram benefícios não apenas aos seus
titulares, como a toda a sociedade”, disseram as organizações em um comunicado
conjunto, publicado no início do ano.
Posteriormente,
em meados de abril, Mendes recuou no que diz respeito ao tema da mineração,
como a Mongabay explicou à época. As preocupações, porém, não cessaram.
Segundo
Suely Araújo, essas ameaças aos povos indígenas não apenas ignoram seus
direitos, mas também enfraquecem a proteção ambiental, algo que também está
estabelecido na Constituição.
“As
terras indígenas têm papel fundamental para a proteção das formas de
organização social e da cultura dos povos originários, além de responderem por
serviços ecossistêmicos importantíssimos. Ainda, a proteção das terras
indígenas com a floresta ainda em pé é uma medida necessária no enfrentamento
das mudanças climáticas. Dessa forma, as proposições legislativas que têm
intenção de flexibilizar o uso econômico dessas terras — para mineração e
outras atividades econômicas — têm de ser debatidas com enorme cautela e com
participação intensa das organizações indígenas. Em geral, essas propostas não
se preocupam com os povos indígenas e levarão a muita destruição”, disse.
• Mineração ilegal de ouro transforma
município de MT no mais violento da Amazônia
Nos
últimos dois anos, a explosão da mineração ilegal de ouro na vizinha Terra
Indígena Sararé veio acompanhada de uma escalada da violência na pequena cidade
de Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, aponta o Atlas da
Violência na Amazônia 2025.
Localizada
próxima à fronteira com a Bolívia, Vila Bela da Santíssima Trindade registrou a
maior taxa de mortes violentas intencionais em toda a Amazônia brasileira entre
2022 e 2024: 136 mortes por 100 mil habitantes. É mais de seis vezes a média
nacional, de 20,8.
“O
agravamento da violência na região parece estar fortemente ligado à
intensificação da mineração ilegal na Terra Indígena Sararé”, escreveram os
autores do relatório. “É notável que Vila Bela da Santíssima Trindade não
figurava entre as 50 cidades mais violentas em nossa última edição.”
Habitada
pelo povo Nambikwara, a Terra Indígena Sararé concentrou mais de 70% de todo o
desmatamento em terras indígenas causado pela mineração ilegal de ouro na
Amazônia brasileira. Cerca de 2 mil garimpeiros ilegais invadiram um território
onde vivem aproximadamente 200 indígenas.
Em Vila
Bela da Santíssima Trindade, foram registradas 12 mortes violentas intencionais
em 2022 e 17 em 2023. Em 2024, o número saltou para 42 — um aumento de 250% em
três anos. Um número considerável para um município de apenas 16.774
habitantes.
Várias
das mortes registradas decorreram de disputas territoriais em áreas de garimpo
ilegal e de confrontos armados entre garimpeiros e forças da polícia ambiental.
Em 2024, quatro pessoas, incluindo uma jovem de 20 anos, teriam sido mortas em
disputas por áreas de garimpo ilegal.
Em maio
de 2024, cinco pessoas ligadas à mineração ilegal foram baleadas e mortas
durante uma operação policial. A polícia apreendeu um rifle, uma
submetralhadora, uma espingarda, duas pistolas e um revólver entre os
garimpeiros. Em agosto e setembro de 2025, outras seis pessoas foram baleadas e
mortas em duas operações separadas; a polícia informou que os garimpeiros
abriram fogo contra as equipes.
Em
2023, uma investigação do Pulitzer Center acompanhou o desaparecimento de uma
menina indígena de 12 anos, que teria sido sequestrada da casa de sua família e
levada para um garimpo em agosto de 2023.
A
Mongabay confirmou com a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) que a
menina retornou para casa entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024.
• Uma pequena terra indígena emerge como
foco de mineração ilegal na Amazônia
Uma
pequena terra indígena é hoje responsável por cerca de 70% do desmatamento
total em terras indígenas na Amazônia brasileira, segundo dados do governo. O
impacto se deve à mineração ilegal de ouro.
A Terra
Indígena Sararé, no Mato Grosso, é habitada por cerca de 200 pessoas do povo
Nambikwara. De janeiro de 2024 a agosto de 2025, a mineração ilegal de ouro
devastou mais de 3 mil hectares de floresta amazônica no território —
equivalentes a 4% de sua área total, 67 mil hectares.
A
invasão de garimpeiros ilegais no território Sararé é relativamente recente. De
acordo com um relatório do Greenpeace, apenas 78 hectares do território haviam
sido impactados pela mineração até 2018. Esse número começou a crescer
gradualmente a partir de 2021.
Em
2023, estimava-se a presença de 250 a 300 garimpeiros na TI Sararé. Neste ano,
agentes do governo estimam que cerca de 2 mil garimpeiros estejam operando na
área.
De
janeiro a agosto deste ano, a TI Sararé registrou um desmatamento 85% maior do
que o total combinado das outras nove terras indígenas mais afetadas no Brasil,
que, juntas, perderam 640 hectares no mesmo período.
Sararé
não figurava entre os principais alertas de mineração até 2023, mas agora
desponta como o território mais impactado pela mineração.
A Terra
Indígena Kayapó, localizada no estado do Pará, apareceu em segundo lugar em
termos de área perdida para a mineração em 2024. Apesar de ser cerca de 49
vezes maior que a TI Sararé, perdeu quase 10 vezes menos terra para operações
de mineração ilegal.
Forças
da Polícia Federal realizaram várias operações de grande escala para destruir
equipamentos de mineração na TI Sararé.
A
operação mais recente, em setembro, localizou 14 abrigos subterrâneos cheios de
suprimentos e destruiu quatro áreas de mineração, 42 motores estacionários
usados para acionar bombas e maquinário, além de mais de cem acampamentos.
Fonte:
Mongabay

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