"Na
plutocracia, quem ganha dinheiro vence. Na democracia, o mérito também é
ético", afirma Luciano Canfora
Protagonista
absoluto do Festival de Clássicos de Turim, organizado pelo Circolo dei
lettori, o historiador da Antiguidade de 83 anos, Luciano Canfora, natural de
Bari, aborda o tema deste ano, Oikonomia/Plutocracia, que abrange desde as
questões mais domésticas até a ascensão de uma oligarquia global.
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Eis a entrevista.
• Como nasce a oikonomia?
Desde
Homero, está intimamente ligada à dimensão da casa e, posteriormente,
estendeu-se à pólis. Como economia de guerra, é descrita por Tucídides nos dois
discursos de Péricles, nos quais ele indica com precisão as receitas
atenienses. Fontes posteriores, como a Vida de Plutarco, de Péricles, dão
espaço à economia pública, aos salários de homens livres e dos servos, à
construção e ao planejamento urbano. Portanto, no final do século V,
delineia-se uma ideia mais precisa dela.
Existem
diferenças entre gregos e romanos na forma de lidar?
Xenofonte
tratou das receitas do Estado. Catão, o Velho, escreveu sobre a agricultura no
mundo romano. A partir do momento em que Roma entrou em contato com o mundo
helenístico, assimilou tudo, inclusive a economia como disciplina. O direito
romano, em seguida, forneceu um arcabouço para tudo isso.
• E quando surgiu a plutocracia?
Ela é
mencionada no terceiro livro da Política de Aristóteles, em uma passagem
famosa, segundo a qual o governo dos ricos seria a essência da oligarquia,
enquanto o governo dos pobres, a essência da democracia. Seus tratados eram
como cursos universitários. Aristóteles conhece as falhas de ambos os modelos:
os oligarcas entram em conflito, a democracia é assolada pela demagogia. Ele
provavelmente simpatizava com uma democracia moderada, na qual a cidadania não
era concedida a todos os homens livres, mas sim limitada. Uma ideia de
igualdade aritmética diferente daquela baseada na dignidade.
• A plutocracia de hoje é muito diferente?
Certos
procedimentos estão retornando. O século XX viu o nascimento do Estado de
bem-estar social como ferramenta de distribuição da riqueza para os serviços
que beneficiam os menos favorecidos. Liturgias semelhantes já existiam em
Atenas, obrigando os ricos a financiar atividades sociais como teatro,
festividades ou frotas.
Em
suma, o imposto sobre a riqueza não é uma invenção contemporânea.
Não,
uma tributação progressiva baseada na riqueza já estava presente na
Constituição de Luís XVIII de 1814, no Estatuto Albertino e na Constituição
italiana.
• De onde vem a ideia de riqueza?
Poderia
vir dos sátrapas orientais. No primeiro livro de Heródoto, Creso é rico e feliz
como tal, mesmo que contestado por Sólon. Na democracia clássica, prevalece a
ideia da primazia intelectual, artística e esportiva. No mundo americano, a
partir do final do século XVIII, consolidou-se o valor de que aqueles que
enriquecem são bons. O protestantismo, em sua versão calvinista, vinculou a
bondade à capacidade de ganhar dinheiro quase como uma bênção divina.
Capitalismo e Reforma, na interpretação de Max Weber, estão ligados.
Mesmo
para Deng Xiaoping, enriquecer tornou-se glorioso...
As
experiências se misturam. Sua virada contra os herdeiros do maoísmo deu origem
à China de hoje, que assumiu alguns valores capitalistas com a ideia, talvez,
de governá-los.
• Podemos falar de pré-capitalismo na
antiguidade?
Antes
do capitalismo moderno, a riqueza era terra, dinheiro, acumulação. Se existiu
um capitalismo antigo ou não é uma grande questão histórica. Mommsen discute
isso na História Romana. Salvioli escreveu Capitalismo Antigo, negando que esse
termo pudesse ser usado na era clássica. Na realidade, em determinados momentos
excepcionais, se constatam o crédito, o trabalho assalariado livre e a produção
para o mercado.
• Hoje, se tende a pensar que se vale
quanto se ganha. O que respondem os clássicos?
A ética
ateniense que inerva a democracia era outra coisa, como dizíamos anteriormente.
• Outra tendência é pensar que somos o que
fazemos. O que acha?
Essa
também é uma ideia antiga; por exemplo, Ápio Cláudio Cego descrevia o homo
faber suae fortunae. Sem o ser, porém, não existe o fazer.
Sua
palestra no Festival do Clássico foi sobre guerra, escravos, pilhagem, ou seja?
Algumas visões, de Homero a Trajano, interpretam a guerra como a conquista de
escravos, ouro e território por meio de um procedimento de pilhagem. O escravo
não é apenas mão de obra gratuita, mas um elemento em uma dinâmica ligada à
guerra.
• Uma dinâmica que continua até hoje?
Não
necessariamente. A revista La Civiltà Cattolica dedicou uma edição ao tema.
Hoje,
os escravos mais evidentes são os migrantes que trabalham sub-remunerados aqui
ou nos países do Sul global, onde produzem bens a baixo custo.
• Os soldados de Putin são escravos?
Eles
obedecem aos seus comandantes.
• A DESIGUALDADE MUNDIAL ESTÁ AUMENTANDO:
10% DA POPULAÇÃO DETÉM 75% DA RIQUEZA
O
relatório mais recente do Laboratório Mundial da Desigualdade revela uma
disparidade crescente, agravada pelas mudanças climáticas e com uma
“persistente desigualdade de gênero”.
Os 10%
mais ricos da população mundial detêm 75% da riqueza global e recebem 53% da
renda total. Essa é apenas uma das conclusões do relatório do Laboratório
Mundial da Desigualdade sobre a desigualdade global, que revela um crescente
abismo na distribuição de riqueza em todo o mundo.
O
estudo, que envolveu 200 pesquisadores e foi liderado pelos economistas Ricardo
Gómez Carrera, Thomas Piketty, Lucas Chancel e Rowaida Moshrif, oferece uma
visão abrangente das desigualdades globais, levando em consideração não apenas
as disparidades de renda e riqueza, mas também outros fatores de influência,
como clima e gênero. Esta é a terceira edição do relatório, após as de 2018 e
2022.
“As
desigualdades afetam todas as áreas da vida econômica e social. Os dados
revelam uma concentração extrema de riqueza em uma pequena parcela da
população”, resumiu o economista mexicano Ricardo Gómez Carrera durante a
apresentação do estudo.
Os
ricos estão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres. Hoje, os 0,001% mais
ricos da população mundial — menos de 60 mil bilionários — controlam três vezes
mais riqueza do que metade da humanidade. A riqueza dessa minoria cresceu, em
média, 8% ao ano desde a década de 1990. Essa tendência "continuou a
aumentar, evidenciando a persistência da desigualdade", indica a pesquisa.
Ele
destaca dois elementos que contribuem para o aumento dessa disparidade: as
mudanças climáticas e a desigualdade de gênero. “Tentamos ressaltar que existem
outras formas de desigualdade, como as entre homens e mulheres ou as ligadas ao
clima, que são problemas persistentes que as sociedades não têm enfrentado de
frente”, aponta Lucas Chancel.
Em
relação às mudanças climáticas, o documento revela que as contribuições para
combater seus efeitos são extremamente desiguais, especialmente considerando
que os 10% mais ricos do mundo são responsáveis por 77% das emissões globais.
"São eles que melhor conseguem se proteger de desastres naturais",
afirmam os economistas. Apenas 3% das emissões provêm dos pobres,
"justamente aqueles mais expostos às catástrofes climáticas" e menos
preparados para enfrentá-las. "A desigualdade social global e a questão
climática não podem ser separadas. Esses níveis de análise devem ser integrados
para encontrarmos soluções", declara Thomas Piketty.
A
disparidade salarial entre gêneros é outra questão crucial, visto que as
mulheres realizam a maior parte do trabalho não remunerado. Essas horas extras
não valorizadas foram levadas em consideração na elaboração das conclusões. As
mulheres recebem um quarto da renda total gerada pelo trabalho, "um número
que não mudou desde 1990", observa o estudo.
Se o
trabalho não remunerado for levado em consideração, as mulheres ganham 32% do
salário por hora dos homens. Se o trabalho doméstico for excluído, seus
rendimentos chegariam a 61% dos salários dos homens. Esses números
"revelam não apenas a persistente discriminação, mas também ineficiências
na forma como as sociedades valorizam e distribuem o trabalho", observam
os autores.
“Isso
limita as oportunidades de emprego para as mulheres, restringindo sua
participação na vida política”, por exemplo. “Não se trata apenas de igualdade,
mas de ineficiência estrutural. Economias que desvalorizam o trabalho de metade
da população comprometem sua própria capacidade de crescimento e resiliência”,
indica o estudo.
Segundo
Ricardo Gómez Carrera, “embora alguns progressos tenham sido feitos na Europa e
nas Américas, muitas regiões ainda estão longe de alcançar a igualdade”.
Regionalmente, os países mais ricos — como a Europa, o Japão, a China e os
Estados Unidos — apresentam menor desigualdade nesse aspecto. A disparidade
aumenta na África, no Oriente Médio e na América Latina.
“O que
precisamos são ações políticas para reduzir essas desigualdades. Se focarmos
nos governos e nas políticas de redistribuição, elas podem ser reduzidas”,
afirma Carrera. O economista francês Thomas Piketty insiste que “investimentos
mais inclusivos em educação e saúde” podem reduzir essa disparidade.
O
acesso ao capital humano continua extremamente desigual, como demonstra o fato
de que o gasto médio com educação por criança na África Subsaariana é de € 200,
em comparação com € 7.400 na Europa ou € 9.000 na América do Norte. Essa
disparidade “condiciona as chances de sucesso das futuras gerações”.
Diante
dessa situação, a organização apela à cooperação global para alcançar uma
tributação progressiva. “Essas desigualdades atingirão níveis que exigem
atenção urgente até 2025. Apenas uma minoria se beneficia das vantagens da
globalização e do crescimento econômico, enquanto o restante luta para ter
acesso a itens de primeira necessidade. As desigualdades são extremas e
persistentes.”
Eles
acreditam que os governos podem corrigir a situação com medidas concretas e
apoiam propostas como um imposto mínimo sobre a riqueza dos bilionários, o que
demonstra a quantidade de receita que poderia ser mobilizada para financiar a
educação ou combater as mudanças climáticas. Como Lucas Chancel destaca,
"é uma questão de escolhas políticas".
• Desigualdades climáticas: os ricos
poluem (muito), os pobres pagam o preço (pesadamente)
Em seu
último relatório, o World Inequality Lab (Laboratório Mundial da Desigualdade)
detalha como a parcela mais rica da humanidade contribui significativamente
mais para o aquecimento global do que a mais pobre, enquanto sofre menos com
seus efeitos.
Alguns
números são suficientes para entender o quão inextricavelmente ligadas estão a
crise climática e as desigualdades globais de riqueza. Embora a meta de manter
o aquecimento abaixo de 1,5°C seja agora inatingível, segundo muitos
cientistas, esse fracasso não é atribuível a todos os seres humanos da mesma
forma, nem os afeta igualmente, como nos lembra a última edição do relatório
sobre desigualdade climática publicado pelo Laboratório Mundial da
Desigualdade.
A
primeira dimensão dessas desigualdades diz respeito ao nível de contribuição
para o aquecimento global. Ao avaliar o impacto de carbono do consumo (por
exemplo, a compra de combustível para o carro), os 50% mais pobres da população
mundial são responsáveis por apenas 10% das emissões globais de gases de efeito
estufa, enquanto os 10% mais ricos emitem 47% e o 1% mais rico, sozinho, emite
15%.
O
estudo também examina as emissões em função do patrimônio. Retomando o exemplo
anterior, não se mede mais a compra de combustível, mas a propriedade de um
campo de petróleo por meio de investimentos. A diferença é ainda mais gritante:
a metade mais pobre da humanidade responde por 3% das emissões globais,
enquanto o 1% mais rico é responsável por 41% dessas emissões.
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Desigualdades massivas na contribuição para as mudanças climáticas entre ricos
e pobres
O
patrimônio global é, na verdade, ainda mais desigualmente distribuído do que a
renda. Os 50% mais pobres da humanidade detêm apenas 2% do patrimônio, três
vezes menos que os 0,001% mais ricos (ou seja, 56 mil pessoas!).
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Através de seu patrimônio, os 10% mais ricos controlam os investimentos
necessários para a transição
Essa
disparidade de riqueza está na raiz da segunda dimensão das desigualdades
climáticas: por meio de seu patrimônio e investimentos – atualmente
extremamente intensivos em carbono – os mais ricos têm uma capacidade muito
maior de influenciar a trajetória climática do mundo do que a vasta maioria da
população mundial, analisam os autores.
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A pegada de carbono média do patrimônio do 1% mais rico é 400 vezes maior do
que o da metade mais pobre da humanidade
Finalmente,
há a última dimensão das desigualdades climáticas: a exposição aos efeitos do
aquecimento global, que atinge a metade mais pobre da humanidade com mais
força.
Em
2050, em comparação com um cenário sem aquecimento global, esse grupo sofreria
aproximadamente um terço da perda da renda bruta ligada às mudanças climáticas
– quase o mesmo que o décimo mais rico da humanidade. Mas, ao calcular a perda
relativa de renda (como percentagem da renda inicial), os 50% mais pobres da
população mundial suportariam 74% da perda total de renda, em comparação com 3%
para os 10% mais ricos.
Fonte:
Entrevista para Francesco Rigatelli, em La Stampa, tradução de Luisa Rabolini,
para IHU/El País/ Alternatvies Économiques

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