A
fome, o dragão e o Mercosul: o Brasil na encruzilhada da nova ordem mundial
O sonho
da integração sul-americana virou pesadelo ou apenas mudou de dono? Enquanto
Brasília e Buenos Aires hesitam entre a cooperação histórica e o distanciamento
ideológico, um novo ator redesenha o mapa do Cone Sul não com discursos
diplomáticos, mas com infraestrutura e demanda por commodities: a China. Em
meio a esse reordenamento tectônico, o Brasil enfrenta seu paradoxo mais cruel
— bater recordes de produção no agronegócio enquanto luta para manter sua
própria população fora do Mapa da Fome.
Para
decifrar este cenário onde a segurança alimentar colide com a geopolítica, o
historiador Thiago Gama, doutorando pelo Programa de Pós-graduação em História
Comparada da UFRJ, entrevistou com exclusividade para o Instituto Humanitas
Unisinos — IHU um dos maiores especialistas brasileiros em Economia Política
Internacional e Estratégia.
Trata-se
do Prof. Dr. Fernando Roberto de Freitas Almeida. Uma autoridade que combina o
rigor acadêmico com a experiência de campo na análise econômica. Doutor em
História Política pela Uerj e Mestre em Relações Internacionais, Almeida é
professor associado do Instituto de Estudos Estratégicos (INEST) da
Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua trajetória é marcada por uma
profunda imersão nos dados reais da economia agrária: atuou por mais de duas
décadas como economista na Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde foi redator da
Agroanalysis e consultor da FAO e do Banco Mundial.
Nesta
conversa urgente, o professor desmonta o mito de que a “Revolução Verde”
resolveu o problema da fome, analisa como a presença chinesa “desestruturou
cadeias produtivas” locais e alerta para o perigo de uma reprimarização que
transformou o Cerrado em uma monocultura de exportação. Mais do que uma
entrevista, este é um diagnóstico de sobrevivência nacional: como o Brasil pode
evitar a profecia de Perón e chegar ao futuro “unido” em vez de “dominado”?
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Eis a entrevista.
• Diante das recentes tensões políticas e
econômicas no Mercosul e das mudanças de governo em ambos os países, quais são
os principais desafios e perspectivas para a relação bilateral e para o futuro
da integração regional?
Brasil
e Argentina sempre foram considerados o eixo para a integração sul-americana e
o Mercosul deriva de propostas de integração dos dois, nos governos
socialdemocratas de José Sarney e Raúl Alfonsín, logo após o encerramento de
suas ditaduras militares. Buscava-se apoio mútuo às democracias e
fortalecimento internacional do subcontinente. Houve, na ocasião, vários
protocolos, chegando-se até a pensar numa moeda comum. As regras da Associação
Latino-Americana de Integração permitiam que se avançasse, com criatividade, o
que foi feito, e os dois países de economia menor no Cone Sul, o Paraguai e o
Uruguai aderiram ao processo, culminando com a assinatura do Tratado de
Assunção, já no governo neoliberal de Fernando Collor de Mello, em 26 de março
de 1991. Sua sede administrativa foi colocada em Montevidéu, mostrando a
preocupação de equilíbrio entre Brasília e Buenos Aires, mas o momento
histórico, apenas cinco anos depois do início das tratativas, já era bem
diferente, com a capitulação dos países latino-americanos ao receituário do
Consenso de Washington, abandonando o Desenvolvimentismo. A própria Cepal
mudara, adotando o conceito de “regionalismo aberto”, por muitos considerado um
oxímoro.
Momentos
de aproximação e de afastamento sempre houve entre o Brasil e a Argentina. Por
vezes, com integração espúria, como foi o caso da Operação Condor nas duas
ditaduras. Observe-se que, no processo de substituição de importações que
haviam adotado, industrializaram-se de modo concorrencial, não cooperativo.
Atraíram grandes corporações estrangeiras, mais ligadas a suas matrizes. Com a
aproximação, desde meados dos anos 1980, o setor automotivo foi-se tornando
mais relevante na integração de cadeias industriais, mas sem empresas de
capital local e o trigo foi a cadeia agroindustrial mais relevante. No início
do século XXI, com o fracasso dos governos neoliberais de Carlos Menem e
Fernando Henrique Cardoso, que controlaram a inflação, mas promoveram grave
desindustrialização, vem nova orientação, em geral considerada
neodesenvolvimentista, com Lula e os Kirchner, procurando-se avançar na
integração sul-americana. Contudo, a ausência de um empresariado nacional
forte, como o existente até os anos 1990 e com menor capacidade de intervenção
estatal, novas eleições – e um golpe parlamentar no Brasil, em 2016 –
promoveram retrocessos e retorno a maior aproximação com os EUA, contrários à
associação de países que pudessem contrariar seus interesses. Bolsonaro, Macri
e, agora Milei, não se interessaram em manter as instituições de integração. Ao
contrário, algumas foram desativadas. O aspecto mais relevante nas relações
econômicas locais, atualmente, é a forte presença chinesa na região, que
desestruturou cadeias produtivas e reduziu substancialmente as exportações
industriais brasileiras para os vizinhos. Para se retomarem as discussões sobre
a integração regional, será necessária a eleição de governantes interessados na
aproximação (no caso brasileiro, a reeleição), sem o quê as pressões para a
separação continuarão. Nos anos 1950, Perón afirmou “o ano 2000 nos encontrará
unidos ou dominados”. Como estamos?
A
questão da segurança alimentar, tema recorrente em sua obra, ganhou nova
urgência com a pandemia e a guerra na Ucrânia. Como o senhor avalia a posição
do Brasil como potência agrícola nesse cenário global de instabilidade e qual o
papel do país na garantia da segurança alimentar regional e mundial?
A
preocupação com a segurança alimentar das populações existe desde sempre e, ao
longo do século XX, finalmente criaram-se instrumentos e instituições para
lidar com o tema. A necessidade de lidar com o grande salto demográfico em
escala global e o aparecimento de vários novos Estados nacionais, sem
infraestrutura, pois os antigos colonizadores não se preocuparam com isso,
levou a discussões para a emergência do problema. Desde 1904, com a criação do
Instituto Internacional da Agricultura, essa preocupação aparecia, mas o órgão
se limitava a acompanhamento estatístico. No bojo da devastação da II Guerra
Mundial, foi surgindo a ideia de uma organização internacional para promover o
combate à fome e surgiu a FAO, agência das Nações Unidas. Seus programas conseguiram
aumentar a produtividade das lavouras, aumentar a produção de alimentos, mas
nunca resolveu o problema da fome nem da inclusão dos agricultores aos
mercados. Incentivou a “Revolução Verde”, uma modernização conservadora, que
nunca alterou as relações de produção no campo.
<><><><> O Paradoxo da Fartura: O relatório mais
recente das Nações Unidas confirma a tese do professor: a produção bate
recordes, mas a insegurança alimentar persiste por falhas de distribuição
política e não por escassez.
Há
muito tempo, o mundo produz alimentos suficientes para abastecer toda a
população humana, mas o sistema não foi formatado para distribuir corretamente
a produção. O Brasil sempre foi destaque em produção agrícola, mas estava
atrasado em pesquisas para alimentação, dando um salto a partir da criação da
Embrapa, em 1973, que propiciou, entre outras coisas o avanço da soja.
Tornamo-nos exemplo de industrialização da agricultura, cada vez mais
dependente de agrotóxicos e fertilizantes, importados, dos quais poderia ser
grande produtor também. Observe-se que já houve interpretação de como
funcionaria, no mundo real, o grupo Bric original, citando: Brasil como celeiro
do mundo, Rússia como fornecedora de energia, Índia como polo de informática e
China como novo centro cíclico, tornando-se a “indústria do mundo”. Em grande
medida, isto vem acontecendo, com os EUA perdendo várias posições. Cabe ao
Brasil analisar bem como progredirá no sistema internacional, pois a China cria
sistema parecido com o predomínio inglês no século XIX, ficando na posição de
maior demandante de matérias-primas e maior exportadora de produtos
industrializados e de alta tecnologia.
<><><><>
O Dragão no Quintal: A “Nova Rota da Seda” não é apenas um projeto de
infraestrutura; é a materialização da nova hegemonia que o professor Almeida
descreve, conectando portos latino-americanos diretamente à demanda asiática.
Temos
condição de manter e avançar nossa presença, mediante negociações de nosso
interesse e atentando para as mudanças climáticas em curso. É sabido que muitas
das lavouras hoje cultivadas precisarão, ou de aprimoramento genético, ou de
mudança nas zonas de cultivo, já iniciadas. Para a segurança alimentar
regional, é preciso, em razão das enormes diferenças de renda, garantir que as
populações mais pobres tenham acesso à boa alimentação, seja por políticas de
valorização da força de trabalho, seja por políticas públicas específicas. Em
escala global, problemas graves, como a guerra citada e a pandemia, promovem
grandes oscilações nos preços das matérias-primas, que beneficiam os produtores
de alimentos, mas também os oneram, ao serem dependentes de insumos associados
ao processo de industrialização da agricultura, como vimos com os fertilizantes
de que necessitamos.
• O senhor analisou criticamente o
Desenvolvimentismo brasileiro. Considerando a centralidade do agronegócio na
pauta exportadora atual, como o senhor enxerga a sustentabilidade (ambiental,
social e econômica) desse modelo e quais os seus impactos para a política
externa e a inserção internacional do Brasil?
A
orientação da Cepal, base do Desenvolvimentismo, propunha que a maior
produtividade da indústria e a deterioração dos termos de troca para as
exportações de produtos primários recomendariam avançar na base industrial, o
que foi feito com sucesso nos maiores países latino-americanos, com destaque
para o Brasil. Desde os anos 1990, com as reformas liberais e o fim do
protecionismo alfandegário pedagógico, somos o país com a desindustrialização
mais rápida que já houve, o que foi dramático nas indústrias de base. O
complexo agroindustrial, porém, não parou de crescer, gerando receita de
exportação, mas empregando relativamente pouco. A fronteira agrícola se
expandiu na base de monoculturas diversas e a pecuária não ficou atrás. Hoje,
temos café do Cerrado, soja do cerrado, arroz do cerrado... Desapareceu o
cerrado do cerrado.
A
temática da sustentabilidade é fundamental e estratégica e muito se discute a
respeito, com a implantação de práticas de preservação diversas, algumas muito
inovadoras, como a agricultura sintrópica, com sucesso nas plantações de cacau.
Nossa política externa vinha negociando bem no âmbito do Gatt e da OMC, com
boas articulações com países em desenvolvimento, mas as negociações estão
truncadas atualmente, devido aos conflitos entre os principais atores, como
ficou claro no fracasso da chamada “Rodada do Milênio, em 1999. A inserção
internacional do Brasil depende de conseguir defender sua soberania, com
projetos que nos aproximem da vanguarda tecnológica ou, ao menos, sendo capazes
de adicionar valor às nossas exportações. Nesse aspecto, a dependência da
receita de exportações agropecuárias cria vulnerabilidades, como vimos agora,
com as tarifas impostas pelo governo Trump, além de uma forte bancada
parlamentar conservadora. Temos centros de pesquisa de excelência em algumas
áreas, mas ainda engatinhamos em projetos sustentáveis.
Seus
artigos recentes abordam a ascensão da China e seus impactos geopolíticos. Como
a crescente presença econômica chinesa na América do Sul reconfigura as
dinâmicas comerciais, especialmente a relação Brasil-Argentina, e quais as
implicações estratégicas para a região?
Até há
alguns anos, quando se analisavam as relações entre dois países, especialmente
periféricos, era necessário ver como ambos lidavam com o hegemon, os EUA. As
pesquisas que desenvolvi, no Centro de Estudos Agrícolas da FGV e, depois, na
UFF, tiveram essa característica, mas um novo agente poderoso surgiu, a China,
e é obrigatório lidar com as relações que ela estabeleceu, em especial desde
sua entrada na OMC, em 2001. Como comentei anteriormente, a pauta de
exportações de produtos manufaturados brasileiros para os vizinhos foi muito
abalada com a chegada de produtos chineses, à medida que ela se tornava o maior
parceiro comercial de quase todos eles. O sistema internacional vem-se
reconfigurando com a ascensão chinesa, que coloca o país muito à frente de seus
principais concorrentes, em praticamente todas as áreas. Evidentemente, em se
tratando de uma transição que ainda não pode ser caracterizada como de
hegemonia, dado o peso estadunidense, espera-se longo período de competição,
com o “socialismo de mercado” chinês a cada dia mais influente. Brasil e
Argentina vêm-se tornando mais dependentes da demanda daquele país e, de fato,
nunca se articularam para tirarem vantagens de suas posições como exportadores,
em conjunto, de alimentos e matérias-primas. Por exemplo, não foram capazes de
criar uma empresa binacional para a exportação de soja. Uma integração à
Iniciativa Cinturão e Rota, a Nova Rota da Seda, seria uma opção interessante
aos dois, mas o Brasil recuou na associação. Argentina, Bolívia e Chile interessam
aos chineses pelo lítio e outros minerais, o Peru recebeu investimentos
vultosos para um grande porto em Chancay e a Argentina faz parte do rol de 21
países latino-americanos ligados à Iniciativa. Em maio último, na cúpula em
Beijing entre China e América Latina, quando se discutiram projetos para maior
cooperação em energia limpa, economia digital e inteligência artificial, foram
apresentadas alternativas interessantes. Os chineses, porém, vêm reduzindo seus
investimentos na região nos últimos anos, possivelmente por problemas com danos
ambientais e também devido à evidente hostilidade dos EUA à sua presença no
subcontinente Importante destacar que o investimento chinês na produção de
carros elétricos na região também desassocia a integração na cadeia automotiva
antes existente.
• Pensando nas diferentes abordagens de
política externa e econômica dos governos brasileiros desde a redemocratização,
como o senhor analisa a trajetória da política agrícola, comercial e de
segurança alimentar, identificando continuidades ou rupturas significativas,
por exemplo, entre os governos FHC, Lula/Dilma e o período mais recente?
A
chamada “Era FHC” apresentou muitas contradições, aderindo a reformas
preconizadas pelo Consenso de Washington, mas também levando à frente um plano
de combate à inflação original, implantado no governo de Itamar Franco. Em
1993, havia sido criado o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional, o Consea, quando também foi criado o Plano de Combate à Fome e à
Miséria. Pelas restrições econômicas da época, não atuou além de tratar de
distribuição de alimentos, sendo extinto em 1995, voltando em 2003, com a posse
de Lula, enfatizando a preocupação com segurança alimentar e nutricional. Logo
evoluiu para lidar com soberania alimentar, direito humano à alimentação, povos
originários e o Plano Brasil sem Miséria. A política agrícola apoiou cada vez mais
o agronegócio, com crédito rural farto, também se preocupando com a sustentação
da agricultura familiar, importantíssima no abastecimento de gêneros no mercado
interno. O Conselho trabalhou ativamente para sua institucionalização, bastante
complexa, no bojo das preocupações sociais do governo Lula. Observe-se que o
Movimento dos Trabalhadores sem Terra, criado em 1984, teve condições políticas
favoráveis a seu desenvolvimento, com forte aprimoramento nas produções de
gêneros alimentícios, num ambiente positivo, cm que se pode citar também a
criação do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, como resposta ao neoliberal
Fórum Econômico Mundial de Davos. A eleição de Bolsonaro, com um projeto
ultraliberal, trouxe uma série de retrocessos, incluindo a extinção, mais uma
vez, do Consea, em 2019, eliminando os estoques reguladores de alimentos do
governo federal, e os armazéns oficiais, essenciais para a preservação do nível
de renda dos agricultores e a garantia de alimentos básicos à população. Deixar
de ver a alimentação como essencial à segurança nacional foi um grande erro,
com o Brasil voltando ao Mapa da Fome da ONU, em 2022. Trinta anos depois de
sua criação, o terceiro governo Lula recriou o Consea, em 2023. Logo a seguir,
a retomada do olhar cuidadoso à segurança alimentar e nutricional levou a ONU a
apontar rápida redução da insegurança alimentar no Brasil que, com as
desastrosas políticas de Bolsonaro e a calamidade da pandemia de Covid-19. Dado
o protagonismo brasileiro no mercado mundial de alimentos, haver dificuldades
no atendimento básico à população é inaceitável.
Deixar
de ver a alimentação como essencial à segurança nacional foi um grande erro,
com o Brasil voltando ao Mapa da Fome da ONU.
Fonte:
Entrevista com Fernando Roberto de Freitas Almeida, em IHU

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