quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Nem vape nem tabaco aquecido: nicotina é tóxica para o coração em qualquer forma, diz revisão internacional

Nem vapor, nem sachê, nem tabaco aquecido. A nicotina é tóxica para o coração e para os vasos sanguíneos em qualquer forma de consumo, e a ideia de que existiriam versões “mais seguras” desse tipo de produto não se sustenta à luz das evidências científicas.

Essa é a principal conclusão de um artigo internacional publicado nesta quinta-feira (18) na revista científica “European Heart Journal”, que reúne resultados de décadas de pesquisas sobre os efeitos da nicotina no sistema cardiovascular.

O trabalho foi liderado por pesquisadores do University Medical Center Mainz, na Alemanha, e envolveu especialistas de centros de pesquisa da Europa e dos Estados Unidos. Os autores afirmam que há hoje um consenso científico de que a nicotina, independentemente da forma de consumo, é tóxica para o sistema cardiovascular.

<><> Nicotina como toxina cardiovascular

De acordo com o estudo, a nicotina:

•        ativa o sistema nervoso simpático,

•        eleva a pressão arterial,

•        aumenta a rigidez das artérias e

•        causa disfunção do endotélio — a camada interna dos vasos sanguíneos, considerada um marcador precoce de doença cardiovascular.

“A nicotina não é um estimulante inofensivo; é uma toxina cardiovascular direta. Em cigarros, vapes, tabaco aquecido e sachês de nicotina, observamos de forma consistente aumento da pressão arterial, danos aos vasos sanguíneos e maior risco de doenças cardíacas. Nenhum produto que forneça nicotina é seguro para o coração", afirma o pesquisador Thomas Münzel. "A narrativa da ‘nicotina mais segura’ precisa acabar."

<><> Jovens no centro da nova epidemia

O consenso chama atenção para o crescimento acelerado do uso de vapes e bolsas de nicotina entre adolescentes e adultos jovens. Dados reunidos no estudo indicam que até 75% dos jovens que usam cigarros eletrônicos nunca haviam fumado antes, o que contraria o discurso de redução de danos.

Segundo os autores, sabores atrativos, marketing em redes sociais e brechas regulatórias têm impulsionado uma nova geração de dependentes de nicotina, com potenciais impactos de longo prazo na saúde cardiovascular.

<><> Exposição passiva também preocupa

Outro ponto destacado é o risco da exposição passiva à fumaça e aos aerossóis. Mesmo exposições breves podem causar alterações vasculares mensuráveis em não usuários, especialmente crianças, gestantes e pessoas com doenças cardíacas prévias.

O estudo defende que leis antifumo devem ser ampliadas para incluir também cigarros eletrônicos, tabaco aquecido e narguilé.

<><> Metodologia e limitações

O artigo é uma revisão sistemática e relatório de consenso, baseada na análise de estudos epidemiológicos, ensaios clínicos, experimentos laboratoriais e dados globais de carga de doença.

Os autores reconhecem que os efeitos de longo prazo de alguns produtos mais recentes ainda estão em investigação e que o uso combinado de diferentes formas de nicotina dificulta análises isoladas.

Ainda assim, o grupo afirma que o conjunto das evidências é suficiente para uma conclusão clara: não existe produto com nicotina que seja seguro para o sistema cardiovascular.

<><> Chamado à regulação

Os pesquisadores defendem medidas como banimento de sabores, tributação proporcional ao teor de nicotina, embalagens padronizadas, restrições à publicidade digital e integração da prevenção ao uso de nicotina nas políticas de saúde cardiovascular.

Para eles, sem ação regulatória, o mundo corre o risco de enfrentar “a maior onda de dependência de nicotina desde os anos 1950”

•        'Veneno suficiente para causar doenças': especialista alerta sobre mito do 'vapor inofensivo' dos vapes

Vapes concentram nicotina até três vezes maior que o cigarro comum, além de metais e químicos ligados a câncer, ansiedade e depressão, alerta especialista.

A crescente popularidade dos cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, tem mascarado uma realidade alarmante: longe de serem inofensivos, esses dispositivos contêm substâncias tóxicas que causam dependência rápida e severos danos à saúde física e mental, especialmente entre os jovens brasileiros.

Cerca de 27 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais fumam cigarro convencional ou vape, o cigarro eletrônico. Após décadas de queda no tabagismo entre adolescentes, a chegada dos eletrônicos reverteu essa tendência de forma preocupante.

A venda de vape é proibida pela Anvisa desde 2009. A legalização em outros países não reduziu riscos: apenas ampliou o mercado, inclusive com forte presença de produtos no mercado ilegal.

O pneumologista Carlos Leonardo Pessôa, da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, desmistifica a ideia inicial de que o vape seria “só um vaporzinho” e explica o que realmente há por trás do design moderno e das essências saborizadas que atraem os jovens.

<><> Substâncias tóxicas escondidas no vapor

Um estudo do Laboratório de Química Atmosférica da PUC do Rio analisou modelos descartáveis e recarregáveis e revelou uma mistura perigosa:

•        Nicotina em altas concentrações – até três vezes mais que no cigarro comum, gerando dependência mais rápida e agressiva.

•        Metais pesados como níquel, prata e cromo – que aumentam o risco de câncer.

•        Substâncias antioxidantes – associadas ao desenvolvimento de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica).

•        Glicerina e diacetil – ligados à bronquiolite obliterante, conhecida como “pulmão de pipoca”.

•        Acroleína – irritante com alto potencial nocivo.

“O vape não tem as 9 mil substâncias do cigarro convencional, mas já foram catalogadas pelo menos 80, suficientes para causar as mesmas doenças”, afirmou Pessôa. Ele resume em uma analogia direta: “Não tem muita diferença entre tomar três copos de veneno ou um copo. O resultado será igual”, diz Pessôa.

<><> A porta de entrada para o cigarro

Um dado da Universidade de Michigan é decisivo: adolescentes que usam vape têm 30 vezes mais risco de se tornarem fumantes habituais de cigarro convencional.

O fenômeno repete estratégias antigas da indústria. Nos anos 1950 e 60, vendeu-se a ideia de que o filtro tornava o cigarro menos nocivo. Depois vieram as piteiras. Nos anos 70, os “cigarros light”. Hoje, o discurso é o mesmo: o vape seria uma alternativa “segura”. Mas o resultado é sempre dependência.

“É o mesmo filme. Só muda a geração de jovens vulneráveis”, alerta o pneumologista.

<><> Impactos na saúde mental

O problema não se limita aos pulmões. Pesquisas já demonstram relação direta entre o uso de vapes e ansiedade e depressão, condições que já afetam fortemente a juventude atual.

Segundo Pessôa, 70% dos tabagistas em tratamento no programa da Universidade Federal Fluminense apresentam algum transtorno psíquico associado.

“A nicotina parece calmante, mas é mais ansiogênica do que ansiolítica. O cérebro se acostuma à dopamina artificial e para de produzi-la naturalmente. Quando o jovem tenta parar, entra em abstinência e o ciclo de dependência se retroalimenta”, afirma.

<><> O apelo aos jovens: design, sabores e influência social

Entre os motivos da popularidade dos vapes estão:

•        Design moderno – semelhante a um pendrive, discreto e associado à ideia de tecnologia.

•        Sabores artificiais – tutti-frutti, maçã verde, entre outros, que mascaram o gosto amargo da nicotina.

•        Influência social – muitos relatam que foram apresentados por amigos, repetindo o padrão de iniciação do cigarro tradicional.

<><> Caminhos para parar

O pneumologista reforça que o primeiro passo é reconhecer a dependência. O tratamento envolve três frentes:

1.       Química – com adesivos, gomas e pastilhas de nicotina, vendidos em farmácias e disponíveis no SUS, gratuitamente.

2.       Comportamental – terapia cognitivo-comportamental para dissociar gatilhos (como café e álcool) do hábito de fumar e estimular atividade física como fonte de prazer.

3.       Psicológica – apoio para lidar com abstinência e reforço da motivação.

A porta de entrada é o posto de saúde mais próximo ou, no setor privado, um pneumologista.

<><> Informação e prevenção

Para conter o avanço, o médico defende campanhas em massa, tanto na TV aberta quanto nas redes sociais, combinando anúncios impactantes que mostram as consequências graves do uso e conteúdos claros e educativos.

Ele também sugere engajar “influenciadores do bem” que possam repercutir a mensagem para milhões de jovens.

<><> Uma escolha que pode mudar destinos

O recado final é direto: não existe forma segura de consumir nicotina. Quem ainda não começou deve evitar o primeiro contato. Quem já usa deve interromper o quanto antes, com apoio médico se necessário.

“Hoje sabemos que há tratamento e recursos para ajudar quem quer parar. Nunca é tarde para interromper o uso”, conclui Pessôa.

 

Fonte: g1

 

Nenhum comentário: