quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

As táticas de Putin para manter o apoio dos bilionários russos

Durante a guerra contra a Ucrânia, o número de bilionários na Rússia atingiu um recorde histórico. Mas nos 25 anos em que Vladimir Putin está no poder, os ricos e poderosos da Rússia — conhecidos como oligarcas — perderam quase toda a sua influência política.

Tudo isso é uma boa notícia para o presidente russo. As sanções ocidentais não conseguiram transformar os super-ricos em seus oponentes, e suas políticas de recompensa e punição os transformaram em apoiadores silenciosos.

O ex-banqueiro bilionário Oleg Tinkov sabe exatamente como funcionam as regras do jogo.

No dia seguinte ao que ele criticou a guerra como "loucura" em uma publicação no Instagram, seus executivos foram contatados pelo Kremlin. Foi-lhes dito que o Tinkoff Bank, o segundo maior banco da Rússia na época, seria nacionalizado, a menos que todos os laços com seu fundador fossem cortados.

"Não pude discutir o preço", disse Tinkov ao New York Times. "Era como um refém: você aceita o que lhe oferecem. Não pude negociar."

Em uma semana, uma empresa ligada a Vladimir Potanin — atualmente o quinto empresário mais rico da Rússia, fornecedor de níquel para motores de caças a jato — anunciou que estava comprando o banco. Ele foi vendido por apenas 3% do seu valor real, afirma Tinkov.

No final, Tinkov perdeu quase US$ 9 bilhões (R$ 50 bilhões) da fortuna que possuía e deixou a Rússia.

Isso está muito longe de como as coisas eram antes de Putin se tornar presidente.

Nos anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, alguns russos enriqueceram muito ao assumir a propriedade de grandes empresas anteriormente pertencentes ao Estado e ao explorar as oportunidades do capitalismo nascente em seu país.

A riqueza recém-adquirida trouxe influência e poder durante um período de turbulência política, e eles ficaram conhecidos como oligarcas.

O oligarca mais poderoso da Rússia, Boris Berezovsky, afirmou ter orquestrado a ascensão de Putin à presidência em 2000 e, anos mais tarde, pediu perdão por isso: "Não vi nele o futuro tirano ganancioso e usurpador, o homem que pisaria a liberdade e impediria o desenvolvimento da Rússia", escreveu ele em 2012.

Berezovsky pode ter exagerado seu papel nessa história, mas é fato que os oligarcas russos eram mais capazes de influenciar os mais altos escalões do poder.

Pouco mais de um ano após seu pedido de desculpas, Berezovsky foi encontrado morto em circunstâncias misteriosas no exílio no Reino Unido. Naquela época, a oligarquia russa também estava morta.

Então quando Putin reuniu os mais ricos da Rússia no Kremlin, horas depois de ordenar a invasão em grande escala da Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, pouco se podia fazer para se opor, mesmo sabendo que suas fortunas estavam prestes a sofrer um prejuízo.

"Espero que, nessas novas condições, continuemos trabalhando juntos tão bem e com a mesma eficácia", disse Putin ao grupo.

Um repórter presente na reunião descreveu os bilionários reunidos como "pálidos e privados de sono".

O período que antecedeu a invasão tinha sido muito ruim para os bilionários russos, assim como suas consequências imediatas.

De acordo com a revista Forbes, até abril de 2022, o número de bilionários caiu de 117 para 83 devido à guerra, às sanções e ao enfraquecimento do rublo. Coletivamente, eles perderam US$ 263 bilhões (R$ 1,4 trilhão) — ou 27% de sua riqueza, em média.

Mas os anos que se seguiram mostraram que havia imensos benefícios por fazer parte da economia de guerra de Putin.

Os gastos generosos com a guerra impulsionaram o crescimento econômico de mais de 4% ao ano na Rússia em 2023 e 2024. Isso foi bom até mesmo para aqueles entre os ultra-ricos da Rússia que não estavam ganhando bilhões diretamente com contratos de defesa.

Em 2024, mais da metade dos bilionários da Rússia desempenhou algum papel no abastecimento militar ou se beneficiou da invasão, afirma Giacomo Tognini, da revista Forbes.

"Isso sem contar aqueles que não estão diretamente envolvidos, mas precisam ter algum tipo de relação com o Kremlin. E acho justo dizer que qualquer pessoa que tenha um negócio na Rússia precisa ter uma relação com o governo", disse ele à BBC.

Este ano registrou o maior número de bilionários da Rússia — 140 — na lista da Forbes. Seu patrimônio coletivo (US$ 580 bilhões ou R$ 3,2 trilhões) ficou apenas US$ 3 bilhões (R$ 16,6 bilhões) abaixo do recorde histórico registrado no ano anterior à invasão.

Ao mesmo tempo em que permite que os partidários obtenham lucros, Putin tem punido consistentemente aqueles que se recusam a seguir suas orientações.

Os russos se lembram muito bem do que aconteceu ao magnata do petróleo Mikhail Khodorkovsky, alguém que já foi o homem mais rico da Rússia e depois passou 10 anos na prisão, após ter criado uma organização pró-democracia em 2001.

Desde a invasão, quase todos os mega-ricos da Rússia permaneceram em silêncio, e os poucos que se opuseram publicamente tiveram que abandonar seu país e grande parte de sua riqueza.

Os mais ricos da Rússia são claramente fundamentais para o esforço de guerra de Putin, e muitos deles, incluindo os 37 empresários convocados ao Kremlin em 24 de fevereiro de 2022, foram alvos de sanções ocidentais.

Mas se o Ocidente queria torná-los mais pobres e colocá-los contra o Kremlin, ele falhou, dado que suas riquezas permaneceram e não houve dissidência entre os bilionários russos.

Se algum deles tivesse considerado desertar para o Ocidente com seus bilhões, as sanções tornaram isso impossível.

"O Ocidente fez tudo o que estava ao seu alcance para garantir que os bilionários russos se unissem em torno da bandeira", afirma Alexander Kolyandr, do Centro de Análise Política Europeia (CEPA).

"Não havia nenhum plano, nenhuma ideia, nenhum caminho claro para qualquer um deles abandonar o barco. Os ativos foram sancionados, as contas congeladas, os bens confiscados. Tudo isso ajudou Putin a mobilizar os bilionários, seus ativos e seu dinheiro, e usá-los para apoiar a economia de guerra russa", disse ele à BBC.

O êxodo de empresas estrangeiras na sequência da invasão da Ucrânia criou um vazio rapidamente preenchido por empresários amigos do Kremlin, a quem foi permitido comprar ativos altamente lucrativos a preços baixos.

Isso criou um novo "exército de leais influentes e ativos", argumenta Alexandra Prokopenko, do Carnegie Russia Eurasia Center.

"O bem-estar futuro deles depende da continuação do confronto entre a Rússia e o Ocidente", enquanto o seu maior medo é o regresso do antigo proprietário, afirma ela.

Só em 2024, 11 novos bilionários surgiram na Rússia dessa forma, segundo Giacomo Tognini.

O líder da Rússia manteve um controle firme sobre as principais figuras influentes do país, apesar da guerra e das sanções ocidentais — e, em alguns aspectos, por causa delas.

¨      Conquistas russas fortalecem posição de Moscou em negociações de paz, diz analista

Retomada de áreas estratégicas no leste e sul da Ucrânia fortalece Moscou no campo de batalha e na mesa de negociações.

As recentes conquistas do Exército russo em Dimitrov, em Donetsk, em Gulyaipole e Stepnogorsk, na região de Zaporozhie, além de novas áreas da região de Carcóvia, indicam que a Rússia vem consolidando sua vantagem militar no conflito, afirmou o analista Aleksandr Mikhailov.

Segundo ele, os avanços são relevantes não apenas do ponto de vista estratégico, mas também pelo impacto direto nas negociações de paz.

De acordo com o especialista, essas vitórias criam "um novo fator adicional contra a posição do regime de Kiev". Quanto mais a Rússia avança para o oeste, mais "cartas na manga" passa a ter à mesa de negociações.

A retomada de Gulyaipole, o segundo maior assentamento da região e um importante ponto fortificado, abre caminho para avanços em Zaporozhie e Dnipropetrovsk.

Já Dimitrov, parte da aglomeração Pokrovsk–Krasnoarmeysk, era até recentemente uma das últimas grandes áreas fortificadas sob controle ucraniano no Donbass, e sua captura deixa as forças russas às portas de Slavyansk e Kramatorsk.

Mikhailov destacou ainda que os avanços são particularmente significativos diante da intensa presença de drones no campo de batalha, que dificulta o combate e a movimentação das tropas. Ainda assim, segundo ele, a Rússia vem superando esse obstáculo ao alcançar superioridade aérea e suprimir as capacidades de veículos aéreos não tripulados do inimigo.

Para o analista, Vladimir Zelensky evita discutir seriamente um acordo de paz, temendo perder o poder. Ele acrescenta que, independentemente de quantas propostas de cessar-fogo ou acordos sejam apresentadas por Kiev, a Rússia mantém o ímpeto militar para alcançar seus objetivos, enquanto o regime ucraniano segue fortemente dependente do apoio financeiro e militar do Ocidente.

<><> Falta de pessoal e ausência de rotação regular minam moral das forças ucranianas, diz mídia

Os militares ucranianos não conseguem deixar suas posições durante muitos meses devido aos bombardeios russos, escreve o jornal The New York Times.

O jornal aponta que lutar sem rotação mina o moral dos militares. A deserção e o esgotamento emocional se tornaram um verdadeiro desastre para as Forças Armadas da Ucrânia.

Nesse contexto, o artigo menciona o fato de que um dos soldados ucranianos precisou passar quase 500 dias em um bunker na linha de frente devido à superioridade dos drones russos no céu.

"As longas rotações têm sido um problema para a Ucrânia na luta contra as forças russas, já que Kiev tem enfrentado escassez de tropas", ressalta a publicação.

Observa-se que a presença constante de drones russos agravou a situação, tornando quase impossível que os soldados ucranianos se movimentem sem serem detectados.

De acordo com um militar ucraniano entrevistado pelo jornal, ficar tantos dias na linha de frente, em condições extremamente duras, ultrapassa os limites da resistência humana e é algo inadmissível.

Para os ucranianos, a fase atual do conflito com a Rússia é marcada por combates intensos e uma grave falta de pessoal, destaca a matéria.

Anteriormente, o jornal britânico The Telegraph relatou que as Forças Armadas da Ucrânia perderam a iniciativa no campo de batalha e, mesmo com a retomada da ajuda militar norte-americana, os ucranianos teriam pouca chance de parar os avanços do Exército russo.

<><> Elites da UE são ideologizadas e tomam decisões incorretas em relação à Rússia e Ucrânia, diz político

A União Europeia (UE) há muito deixou de ser uma comunidade de cooperação econômica e social, disse à mídia russa Steffen Kotré, membro do Bundestag (parlamento da Alemanha) pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão).

Kotré apontou que a UE se tornou um instrumento de orientação política unilateral dos países europeus.

"Se a UE continuar no caminho do confronto com a Rússia e transformar a Ucrânia em um instrumento [contra Moscou], é bem possível que ela seja admitida na UE, apesar de não cumprir os requisitos, em detrimento de todos os Estados-membros", ressaltou.

Dessa forma, o político sublinhou que este passo vai acelerar o processo de desintegração do bloco europeu. Assim, os funcionários da UE agem de forma irracional, pois a histeria militarista deles não tem nada a ver com a realidade.

Segundo ele, não há qualquer evidência de que a Rússia planeje atacar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). As elites europeias estão presas à sua própria ideologia, agem com base em suposições falsas e tiram conclusões erradas.

"[Os europeus] raciocinam como moralistas, não em termos de 'Realpolitik'. Nesse sentido, não se importam com a própria economia", concluiu.

Anteriormente, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que Moscou e Washington chegaram a um entendimento de que a Ucrânia deve retornar aos fundamentos de não-alinhamento, neutralidade e ausência de armas nucleares. Foi na condição de neutralidade que a Rússia reconheceu a independência da Ucrânia em 1991.

<><> Zelensky dita seus termos sobre paz com Rússia, mas não está em posição de fazê-lo, diz analista

O atual líder ucraniano Vladimir Zelensky não tem chance de avançar seu plano para resolver o conflito russo-ucraniano, disse em seu canal no YouTube o tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA Daniel Davis.

Davis destacou que as exigências de Zelensky sobre garantias de segurança, questões territoriais e adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não são construtivas e não consideram a situação real da Ucrânia nas negociações.

"Não há chance de a Rússia concordar [com as exigências de Kiev]", ressaltou o especialista militar dos EUA.

Além disso, o analista salientou que Zelensky não está em posição de apresentar quaisquer condições.

Nesse contexto, o analista lembrou que desde o verão de 2025, o presidente russo, Vladimir Putin, tem dito repetidamente, tanto em nível diplomático quanto pessoalmente, que não pode haver negociações sobre esses pontos.

O vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov, afirmou que o plano ucraniano para resolver o conflito difere significativamente do discutido com os Estados Unidos.

Segundo ele, o documento de 20 pontos, distribuído pela mídia, teria supostamente sido entregue aos jornalistas pelo próprio Zelensky.

Entre suas disposições, estão exigências de garantias de segurança do tipo da OTAN, a gestão conjunta da usina nuclear de Zaporozhie com Washington e a recusa em estabelecer um acordo de não agressão com Moscou na legislação ucraniana.

<><> Negociações de paz com a Ucrânia estão em fase final, diz Trump

Em declarações à imprensa antes de um encontro com Vladimir Zelensky em Mar-a-Lago, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que um acordo de paz para a Ucrânia está se aproximando e poderia beneficiar todos os lados. Trump descreveu as negociações como "complexas, mas não tão complexas assim", além de dizer que um acordo incluiria as nações europeias nas medidas de segurança para a Ucrânia.

"As negociações com a Ucrânia estão em fase final, caso contrário o conflito se prolongará por muito tempo"

Trump ressaltou a importância das conversas, afirmando que através da paz a Ucrânia obteria grandes benefícios econômicos e auxílio na reconstrução do pais. Mais cedo, o presidente norte-americano conversou com o presidente da Federação da Rússia, Vladimir Putin, sobre a conversa que teria com Zelensky.

Segundo Yuri Ushakov, assessor presidencial, os líderes também discutiram as perspectivas econômicas entre os EUA, a Rússia e a Ucrânia. Um novo telefonema com Putin está previsto para após o término da reunião com Zelensky.

A reunião entre Putin e Trump teria preocupado auxiliares de Zelensky, reportou o Financial Times. Segundo o meio, há receios de que um desentendimento como o de fevereiro se repita. Na ocasião, Trump e Zelensky tiveram uma discussão acalorada em frente às câmeras da imprensa mundial.

 

Fonte: Por Vitaly Shevchenko,  editor da BBC Monitoring Russia/Sputnik Brasil

 

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