Ângela
Carrato: Reflexões sobre o ”colunismo de guerra” do Grupo Globo
Durou
uma semana a mentira da colunista Malu Gaspar, de O Globo, contra o ministro
Alexandre de Moraes, do STF, mas foi suficiente para causar muita confusão.
Sem
nada que comprovasse a sua narrativa, a colunista acusou o ministro de ter
pressionado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a favor do banco
Master liquidado extrajudicialmente pelo BC em 18 de novembro.
A
colunista diz ter se baseado em seis fontes em off e se valeu, como pano de
fundo para dar ares de veracidade à narrativa, de um suposto contrato entre o
escritório da esposa do ministro Moraes, Viviane Barce de Moraes, e o banco
Master.
A cifra
atribuída ao contrato é alta, R$ 129 milhões, e teria sido assinado em 2024,
bem antes de vir à tona a corrupção envolvendo carteiras de crédito falsas e
promessa de rendimentos agressivos, muito acima dos praticados pelo mercado que
levaram à liquidação do Master.
Quem
jogou água gelada na fogueira que a colunista criou foi o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, que na segunda-feira (29) falou em tese e deixou claro
que não há “ilicitude” em contrato firmado entre particulares, mesmo quando
envolvem parentes de ministro do STF.
Até o
momento o tal contrato não apareceu e ninguém desmente ou confirma a sua
existência.
Gonet
não se pronunciou sobre a alegada pressão que Moraes teria feito sobre
Galípolo, essa sim, se tivesse acontecido seria gravíssima.
Como
tanto Moraes quanto Galípolo negam que ela tenha ocorrido, a crise bateu na
trave.
Já se
tornou rotina na mídia corporativa brasileira o desmascaramento de mentiras
induzidas ou plantadas por seus colunistas não envolverem o clássico “erramos”
e muito menos pedidos de desculpas aos atingidos.
Errar é
humano, insistir no erro é burrice, diz o ditado popular.
Lamentavelmente,
no caso da mídia corporativa brasileira, não se trata só de erro ou burrice.
Trata-se
de “colunismo de guerra”, um item do “jornalismo de guerra” que esta mídia
pratica contra governos progressistas e que tem na mentirosa Operação Lava Jato
(2014-2021) o exemplo mais eloquente.
Sem
quaisquer provas, a Lava Jato destruiu a economia brasileira, prendeu sem
provas o então ex-presidente Lula e viabilizou a vitória de Jair Bolsonaro nas
eleições de 2018.
Além de
Malu Gaspar outros colunistas de O Globo, como Lauro Jardim, Merval Pereira e
Carlos Alberto Sardenberg, entraram na denúncia em apoio à colega. O mesmo se
dando com a colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo.
As
suspeitas lançadas e reiteradas sobre o ministro o colocaram no centro de um
ringue, onde a oposição acreditou que poderia fazer a festa e liquidar com a
figura que mais odeiam.
Moraes
foi fundamental para o indiciamento, julgamento e penas de prisão para os
golpistas de 8 de janeiro de 2023, entre eles Bolsonaro e vários generais, fato
inédito no Brasil.
De
quebra, o “colunismo de guerra” parece ter acreditado que o próprio presidente
Lula sairia combalido deste processo, por já ter anunciado que vai vetar o
projeto da dosimetria, uma espécie de anistia branca aos golpistas, aprovado
pelo Congresso Nacional.
A
relação é simples: se a desmoralização de Moraes se consumasse, a adoção da
dosimetria seria inevitável, com Lula e o próprio STF sem força para detê-la.
Na
tentativa de mudar de assunto, já que a narrativa contra Moraes não se
sustentou, o Globo passou a enfocar o pedido de acareação feito pelo também de
ministro do STF, Dias Toffoli, envolvendo o dono do Master, Daniel Vorcaro, o
ex-dirigente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa, que cogitava comprar o
Master, e o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino.
A
acareação foi inicialmente apresentada como um deus nos acuda, que poderia
desembocar até mesmo no fim da liquidação do Master.
De
novo, muita fumaça. Muita convicção e nenhuma informação.
A
acareação não deve provocar problema para o BC, uma vez que a liquidação foi
aprovada por todos os diretores da instituição, inclusive seu presidente. No
mais, a mídia não foi sempre favorável à autonomia do BC? Terá mudado de
opinião agora, justamente no momento em que se busca aprofundar a extensão da
fraude do dono do Master e de seus parceiros no esquema!?
As
ilações mentirosas divulgadas pela colunista de O Globo e reforçadas por seus
colegas permitem algumas reflexões, que precisam ser levadas em conta tanto
pelos setores competentes da República, quanto pela chamada opinião pública.
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REFLEXÃO 1: O STF PRECISA DE CÓDIGO DE ÉTICA PARA SEUS INTEGRANTES
Em
países democráticos, integrantes de Suprema Corte se pautam por código de
ética. Sem ele, a mídia brasileira continuará criando crises sempre que as
ações de ministros desagradarem aos seus interesses ou aos interesses de
setores que lhes são próximos.
No caso
brasileiro, mídia corporativa e classe dominante, o chamado “andar de cima” se
confundem.
Quase
todos os atuais ministros do STF têm escritórios de familiares advogando na
Corte.
No
passado também era assim. Nunca isso foi visto como problema aos olhos da
família Marinho, proprietária do grupo Globo e nem para qualquer outro veículo
da mídia corporativa.
Agora,
por conveniência contra Moraes, foi transformado em falta gravíssima e por
pouco não chegou ao status de deflagrar um crise de proporções inéditas.
Ciente
desta necessidade, o presidente do STF, Edson Fachin, já havia se antecipado e
lançado a proposta de se criar o tal Código de Ética. Acusado de jogar para a
plateia, sua proposta se faz realmente necessária.
Existem
parâmetros éticos para todos os integrantes do Poder Executivo, do presidente
da República ao mais simples funcionário.
No
Congresso Nacional, hoje dominado pelo golpismo da extrema-direita, o código de
ética existe, mesmo sendo sistematicamente desrespeitado. Basta lembrar
episódios recentes envolvendo deputados como Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro,
Sóstenes Cavalcante ou o senador Marcos Rogério.
Por que
o STF deveria ficar de fora?
Espero
que a proposta de código de Ética prospere. Ele é de enorme importância diante
do papel que a Corte desempenha em defesa da Constituição e da nossa democracia
e diante também da venalidade de parcela do Parlamento e do jornalismo de
guerra adotado pela mídia corporativa brasileira.
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REFLEXÃO 2: MÍDIA CORPORATIVA TROCOU O JORNALISMO INVESTIGATIVO PELO COLUNISMO
Esta
troca é muito grave, porque o achismo, a opinião e a convicção tomaram o lugar
dos fatos e de sua comprovação.
O off é
um recurso que a nossa Constituição garante. O sigilo da fonte é sagrado. O que
não significa que um jornalista possa fazer um texto inteiro em off e não
apresentar qualquer materialidade, naquele texto ou nos seguintes, que possa
comprovar o que diz.
Todos
os casos sérios de reportagens envolvendo offs foram seguidos por algum tipo de
comprovação: depoimentos, documentos, cruzamentos de dados etc.
O
colunismo (ou melhor seria calunismo?) de Malu Gaspar ficou só na convicção.
E a
convicção era tanta da parte de uns e outros ao tentar defendê-la, que não
faltaram situações absurdas como a de comparar suas “denúncias” ao Caso
Watergate, paradigma internacional para jornalismo investigativo.
O
grande escândalo político envolvendo a administração do presidente dos Estados
Unidos, Richard Nixon, foi coberto pelos repórteres Carl Bernstein e Bob
Woodward, do jornal The Washington Post. A cobertura começou em 1972 e
finalmente levou à renúncia de Nixon em 1974, para escapar do impeachment.
Os que
tentaram estabelecer qualquer paralelo entre as “denúncias” da colunista de O
Globo e este caso demonstram total desconhecimento do assunto ou até má-fé.
As
denúncias levadas a cabo pelos dois repórteres sempre foram checadas junto a
várias fontes e eram seguidas por comprovações materiais (documentos, atas,
perícias).
O
célebre “Garganta Profunda” não foi a fonte em off dos repórteres.
Mark
Felt seu nome verdadeiro, um ex-dirigente do FBI, resolveu acabar com o
anonimato que o cercava em 2005, aos 91 anos de idade, em um artigo para a
revista Vanity Fair.
Lá
deixou claro como atuou: tirava dúvidas dos repórteres sobre caminhos a seguir,
sem nunca lhes fornecer dados ou emitir opiniões a serem publicadas.
É
lamentável que passados 41 anos deste caso e existindo farta literatura, livro
famoso escrito pelos dois repórteres do The Washington Post em 1974 e até um
filme de 1976 cujo título em português é “Todos os Homens do Presidente”,
estrelado pelos premiadíssimos atores Robert Redford e Dustin Hoffman, a
desinformação ainda prevaleça.
Quem
sabe o objetivo seja mesmo confundir?
Se a
mídia corporativa brasileira quisesse fazer jornalismo, o que não é e nunca foi
o caso, o melhor caminho seria bancar investigações sérias.
Assuntos
para não faltam.
Quer
exemplos?
Que tal
investigar a real doença de Bolsonaro, mistério que ele atribui à tal facada?
Que tal
investigar a própria facada?
Por que
o seu autor, Adélio Bispo, continua preso e incomunicável com base em lei de
segurança nacional?
Quem
são os financiadores da tentativa golpista em 8 de Janeiro de 2023?
Qual a
real situação de fintechs acusadas pela Polícia Federal de lavarem dinheiro
para grupos criminosos como o PCC?
Quais
governadores e parlamentares estão envolvidos no esquema fraudulento do banco
Master?
Quais
parlamentares estão na mira do ministro do STF, Flávio Dino, e da Polícia
Federal devido a emendas milionárias sem qualquer transparência?
A lista
é interminável, mas a mídia corporativa prefere dar espaço a seus colunistas
amestrados.
Jornalismo
investigativo custa tempo e dinheiro e as investigações quase sempre
surpreendem. Daí os patrões preferirem o colunismo dito político, prática que
remonta ao velho colunismo social.
Um dos
seus criadores e expoente do gênero no Brasil, Ibrahim Sued (1924-1995) adorava
dizer que “em sociedade tudo se sabe”.
De 1954
a 1995, Sued manteve coluna nas páginas do mesmo O Globo, que hoje abriga Malu
Gaspar, Lauro Jardim, Merval Pereira e toda uma tropa pronta para o combate no
impresso e no digital, sempre que for da conveniência da família Marinho.
Depois
de umas doses a mais de uísque ou de exagero nas taças de vinho, muitas
verdades, mentiras e intrigas são faladas. O dever do jornalista é apurá-las e
não publicá-las da forma como foram ditas ou lhes chegou ao conhecimento.
Uma das
reflexões possíveis a partir deste episódio é que o Brasil precisa, com
urgência, regular democraticamente a mídia e não apenas as redes sociais.
Aquele
papo do grupo Globo de que sempre apura e separa fato de fake é puro fake. É
marketing para tentar vender seu suposto selo de qualidade.
As
ilações mentirosas divulgadas por sua colunista são a prova cabal de que o
Grupo Globo divulga sem checar tudo o que é do seu interesse.
As
ilações mentirosas começaram em O Globo e foram seguida pelos demais veículos
da mídia corporativa. O papel das redes sociais foi lateral.
Enquanto
a atuação dos veículos de mídia continuar totalmente desregulada, as mentiras
vão proliferar, levantando dúvidas, abalando ou destruindo reputações e
colocando em risco a nossa democracia.
Enfrentar
esta questão não é simples. O desafio está colocado e talvez ele seja um dos
motivos para que a mídia tente desacreditar com tanta veemência Lula, seu
governo e a própria ação do STF e de ministros como Alexandre de Moraes e
Flávio Dino.
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REFLEXÃO 3: A MÍDIA INDEPENDENTE TAMBÉM TEM O DEVER DE APURAR
São
gigantes as diferenças entre a mídia alternativa do final dos anos 1960 e até o
início dos anos 1980 no Brasil e a mídia independente dos dias atuais.
A
primeira diferença parece óbvia. Ela era impressa, feita em condições precárias
e alvo da truculência da censura dos governos militares.
Edições
inteiras de jornais como Opinião, Movimento e Em Tempo foram apreendidas e seus
responsáveis ameaçados e presos.
O
Pasquim, notório por seu humor implacável e por grandes entrevistas que
desnudavam os poderosos de plantão, teve toda a sua redação colocada atrás das
grades. O genial jornalista, cartunista, humorista, autor e tradutor Millôr
Fernandes que o diga.
Até o
final da censura prévia em 1979, mídia corporativa e mídia independente
pareciam jogar no mesmo time.
O fim
da censura trouxe a esperança de que a mídia corporativa pudesse voltar a
informar. Esperança não confirmada, mas decisiva para o declínio da mídia
alternativa. No início dos anos 1990, ela não existia mais, ao passo que a
chamada grande mídia reforçava seus interesses com o grande capital e vendia a
alma para o Tio Sam.
A mídia
independente brasileira atual é bem mais complexa. Caracteriza-se por sites,
portais, podcasts e pós-TVs alojadas nas plataformas das big techs, controladas
de fora do Brasil.
Os
bilionários proprietários destas plataformas se apresentam como “libertários” e
avessos a quaisquer tipos de regulação ou de limites, mas na prática adotam uma
política que privilegia os veículos alinhados com teses neoliberais e
interesses dos Estados Unidos.
Não por
acaso, na primeira fileira na posse de Donald Trump, em lugar antes reservados
aos magnatas do petróleo e aos banqueiros, estavam Elon Musk (dono do X), Jeff
Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple) e Sundar Pichai
(Google).
Se a
mídia alternativa de antes era de esquerda, a mídia independente atual envolve
um espectro bem mais amplo, com inegável predominância da extrema-direita.
Enquanto os blogs e veículos da extrema-direita costumam ter milhões de
seguidores e de visualizações, os veículos à esquerda apresentam cifras
modestas.
Utilizarem
estas plataformas não chega a ser uma escolha por parte de muitos destes
veículos, se levado em conta que historicamente os setores conservadores
dominaram e continuam dominando a radiodifusão aberta no Brasil (rádio e TV).
É
dentro deste quadro que entra em cena o efeito “sombra” (shadowban), a ação
deliberada das plataformas para limitar a visibilidade de um usuário. Os
indevassáveis algoritmos tendem a expor conteúdos de direita e a esconder os
atribuídos à esquerda.
Se este
já se constitui em problema e justifica a ação proposta pelo governo Lula e
pelo STF para regular a atuação das big techs, existe outro agravante.
Grande
número de veículos ditos progressistas ou de esquerda nestas plataformas se
limita a comentar as notícias trazidas pela mídia corporativa.
Não
dispõem de apuração própria.
Agindo
assim, acabam servindo, muitas vezes, como “câmara de eco” para a mídia
corporativa brasileira e todo o golpismo que ela representa.
“Câmara
de eco” é uma metáfora para espaços digitais onde os algoritmos e as próprias
interações filtram conteúdos, apresentando apenas o que confirma as crenças
pré-existentes do usuário, sem debate ou questionamento.
Não há
duvida de que são muitos os problemas a serem enfrentados, mas parte deles
passa pela mídia alternativa progressista investir em apuração, na busca pelos
fatos e não se contentar com emitir comentários a partir do cardápio servido
pela mídia golpista.
Por
isso, não faz sentido se falar em regular a atuação das big techs e de suas
plataformas e deixar de fora a velha mídia, também conhecida como mídia
tradicional, mídia oligárquica, mídia hereditária ou aquela em que prevalecem
os interesses do patrão e o dinheiro dos anunciantes.
O
episódio envolvendo Malu Gaspar e os colunistas dos demais veículos desta velha
mídia é prova disso.
Fonte:
Viomundo

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