Pablo
Castaño: A sombra de Francisco Franco
20 de
novembro marcou o aniversário de cinquenta anos da morte de Francisco Franco, o
ditador que governou a Espanha com mão de ferro durante trinta e seis anos.
Apesar das décadas passadas desde então, a influência de sua ditadura ainda se
faz sentir na política e na sociedade espanholas.
Em
1982, o líder socialista Alfonso Guerra declarou, jubilante: “Nem mesmo a
própria mãe reconhecerá a Espanha!”, após a vitória esmagadora do seu partido
nas eleições gerais, marcando o fim da transição para a democracia iniciada com
a morte do ditador. Cinco décadas depois, se Franco ressuscitasse, ficaria
horrorizado com muitas das mudanças pelas quais o país ibérico passou.
Em
termos políticos, a Espanha é hoje uma democracia liberal comparável às do
resto da Europa. O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de
centro-esquerda, banido durante a ditadura, governa o país há mais tempo do que
qualquer outro partido político desde a década de 1970. Além disso, a
Constituição de 1978 estabeleceu um modelo territorial quase federal,
concedendo um alto grau de autonomia às regiões — o oposto do forte centralismo
nacionalista do franquismo. As línguas minoritárias do Estado (catalão, basco e
galego) também gozam de proteção legal e políticas que promovem seu uso, que
havia sido reprimido durante o regime do General Franco. Ademais, os partidos
catalão, basco e galego têm sido atores-chave na formação de governos em Madri,
juntamente com partidos de esquerda como o Podemos e o Sumar.
Ainda
mais chocante para um Franco ressuscitado seriam as opiniões de seus
compatriotas sobre gênero e diversidade sexual. A Espanha foi pioneira na
legislação contra a violência de gênero, um dos primeiros países do mundo a
legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e pesquisas mostram
consistentemente um apoio esmagador aos direitos LGBTI. Isso seria um pesadelo
para um ditador que prendeu milhares de homossexuais e elevou a submissão das
mulheres ao nível de ideologia de Estado, alicerçada em uma versão
fundamentalista do catolicismo.
A
Igreja Católica, outrora um pilar da ditadura franquista, exerce hoje pouca
influência social. A proporção de católicos praticantes caiu de 70% na década
de 1970 para apenas 17%, e mais de 80% dos espanhóis apoiam o direito ao
aborto, apesar da oposição da Igreja. Contudo, a longa sombra de Franco ainda
paira sobre alguns aspectos da Espanha contemporânea.
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De Franco ao Vox
Em 8 de
outubro de 2018, a praça de touros Vistalegre, em Madri, estava lotada com mais
de 9.000 apoiadores do Vox. Foi a primeira vez desde a transição da Espanha
para a democracia que um partido de extrema-direita conseguiu realizar um
comício de massa. Desde então, o Vox cresceu em todo o país, governou em âmbito
regional e agora aspira a liderar o país ao lado do Partido Popular.
Este
não é um fenômeno exclusivamente espanhol; a extrema-direita está em ascensão
em praticamente todos os países ocidentais e já chegou ao governo em vários
deles. Contudo, na Espanha, a extrema-direita atual está intrinsecamente ligada
à memória do franquismo. Uma sondagem recente mostrou que 21% dos espanhóis
consideram os anos da ditadura como “bons” ou “muito bons” — um número que sobe
para 61,7% entre os eleitores do Vox. Além disso, um em cada três jovens vê o
regime de Franco de forma positiva, e 21% dos homens com menos de 28 anos
identificam-se como de extrema-direita, um percentual substancialmente superior
à das mulheres jovens e de outros grupos etários. O quadro é claro: os jovens
são o setor mais à extrema-direita da sociedade espanhola, e essa ideologia
está intrinsecamente ligada à nostalgia por um franquismo que nunca
vivenciaram.
O Vox
oscila entre o legado do nacional-catolicismo de Franco — evidente na sua
oposição radical ao direito ao aborto e na sua agenda antifeminista — e os
temas privilegiados por outros partidos europeus de extrema-direita, como a
xenofobia. O partido registou um crescimento eleitoral significativo desde que
adotou a estigmatização dos migrantes como o seu principal grito de guerra em
2024. Neste verão, o partido (liderado por Santiago Abascal) chegou ao ponto de
incitar distúrbios racistas na região de Múrcia, uma ação que não reduziu o seu
apoio eleitoral.
A
relação com o passado franquista sempre foi um tema problemático para a direita
espanhola, não apenas para o Vox. O Partido Popular (PP), de centro-direita,
fundado pelo ex-ministro franquista Manuel Fraga, sempre se mostrou relutante
em condenar a ditadura, e a transição para a democracia na década de 1970 impôs
um pacto de silêncio em relação aos crimes cometidos por Franco e seus
seguidores durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e posteriormente. Mais
de 114 mil corpos de pessoas executadas permanecem em algumas das 3 mil valas
comuns espalhadas pelo país. Diversas iniciativas políticas para honrar a
memória das vítimas encontraram resistência por parte da direita que, nas
regiões onde governa, aprova leis que equiparam a Segunda República Espanhola —
o regime democrático que Franco derrubou com o apoio de Hitler e Mussolini — à
ditadura que se seguiu.
A longa
sombra do general também pode ser vista em algumas das instituições atuais. A
monarquia é um dos legados de Franco; o ditador nomeou o ex-rei Juan Carlos
como monarca e herdeiro do país. De forma mais sutil, resquícios do franquismo
podem ser encontrados no judiciário, que nunca foi expurgado após a queda do
ditador. Associações ultraconservadoras também permanecem predominantes entre
os juízes espanhóis, uma dominância ideológica que ficou evidente na dura
repressão exercida contra o movimento independentista catalão nos anos que se
seguiram ao referendo de 2017: longas penas de prisão foram impostas a
políticos e ativistas que não haviam cometido atos violentos, mas foram
acusados de tentativa de golpe de Estado. A elite judicial chegou a bloquear
tentativas de investigar crimes franquistas nos tribunais, o que constitui uma
violação da legislação internacional de direitos humanos.
Juntamente
com a Igreja, o Exército foi um dos grandes pilares da ditadura. A partir da
década de 1980, o Exército modernizou-se e gradualmente aceitou o sistema
democrático. No entanto, em algumas ocasiões, alguns oficiais fizeram
declarações ameaçadoras contra movimentos nacionalistas catalães e bascos. Além
disso, pesquisas indicam que o apoio ao Vox é cerca de cinco vezes maior entre
os militares do que na população em geral — o que levanta dúvidas sobre o
verdadeiro compromisso do Exército com a democracia.
Em
suma, se Francisco Franco ressuscitasse, não reconheceria muitas
características da Espanha atual; contudo, se observasse com mais atenção,
ficaria satisfeito ao constatar que resquícios de sua longa tirania ainda
influenciam a sociedade e a política espanholas em 2025. Em um momento de
ressurgimento global da extrema-direita, o Vox — um partido com um claro viés
nacional-católico — está crescendo e almeja governar. Preocupantemente, o
partido conta tanto com o cenário internacional a seu favor quanto com a longa
sombra de Franco, que continua obscurecendo a democracia espanhola.
Fonte:
Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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