Confira
os temas que mais movimentaram a política brasileira em 2025
Quatro
assuntos marcaram o noticiário político brasileiro em 2025: a PEC da Segurança
Pública, o escândalo do INSS, o impacto interno gerado pelo tarifaço dos EUA e
a prisão de Jair
Bolsonaro por
tentativa de golpe de Estado.
Em
entrevista ao podcast Jabuticaba sem Caroço, da Sputnik Brasil,
analistas relembram os principais pontos das discussões que marcaram o ano.
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Prisão de Jair Bolsonaro
A
prisão de Bolsonaro é apontada como um marco na história do país por resultar
na primeira punição a militares de alta patente por abusos cometidos, como
aponta Francisco Fonseca, doutor em história social pela Universidade de
São Paulo (USP), mestre em ciência política pela Unicamp, professor da PUC-SP e
da FGV-SP e coordenador do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da
PUC-SP.
"Isso
nunca aconteceu no Brasil. Nós estamos falando aqui de mais de 200 anos de
história, todo o século XIX, o século XX, e agora já esse quarto de século XXI,
em que os militares jamais foram punidos", afirma o analista.
No
entanto, ele acrescenta que esse tema é um "jogo que ainda está sendo
jogado", pois a aprovação do projeto de lei da dosimetria, que reduz as
penas dos condenados, ainda deve passar por judicialização.
"Ainda
o presidente Lula vai vetar, possivelmente o Congresso vai derrubar [o veto],
vamos ver se isso vai ser possivelmente também judicializado, ou seja, uma
batalha que não terminou. Mas o fato objetivo de, neste momento, estarem presos
grande parte dos golpistas é um fato absolutamente marcante na vida política
brasileira."
Ele
afirma que o impacto mais simbólico da prisão, antes de tudo, é "a
ideia de que intentar um golpe tem consequências".
"Bolsonaro
perdeu as eleições e quis virar o jogo. Mais uma vez, a simbologia é esta: quem
não respeita as ordens, as normas democráticas, não pode viver em sociedade, é
por isso que precisam estar presos, porque se não estiverem presos tentarão novamente
um golpe", ressalta.
Fonseca
enfatiza que o argumento usado para deslegitimar os resultados das
eleições foi fraude nas urnas eletrônicas, mas frisa que a segurança do sistema
é reconhecida mundialmente e que a ala bolsonarista tinha conhecimento da
lisura do pleito.
"Na
verdade, quem tentou impedir, inclusive, a chegada de eleitores no Nordeste foi
o governo Bolsonaro, na figura do coordenador da Polícia Rodoviária Federal, o
Silvinei Vásquez, que por sinal está preso também. Então, eles sabiam tanto que
as urnas eram confiáveis que tiveram que impedir a chegada física dos eleitores
fazendo bloqueios nas estradas."
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Escândalo do INSS
Analisando
o escândalo do INSS, o cientista
político e professor do Ibmec-RJ Leonardo Paz afirma que o cerne do
esquema é um conluio formado no final do governo Michel Temer e início do
governo Bolsonaro por um conjunto de empresas e associações que prestam
serviços para idosos.
"Durante
esses governos você teve uma abertura de legislação que permitia com que
associações pudessem fazer descontos nas folhas de idosos beneficiários do
INSS, em tese, para oferecer serviços a eles. A ideia era oferecer, por
exemplo, a mensalidade de um clube ou algum tipo de coisa relacionada à saúde,
e aí você já poderia fazer esse desconto em folha direto. Obviamente, isso
seria permitido desde que o beneficiário, o idoso, aceitasse", explica.
Porém,
ele aponta que o conluio de criminosos começou a fazer descontos
automáticos para milhões de beneficiários, que muitas vezes eram pessoas
humildes e sem conhecimento dos detalhes do documento.
"No
final das contas, isso vai se perpetuando durante bastante tempo, porque é
difícil conseguir acessar essas pessoas e elas conseguirem identificar que
elas, de fato, estão pagando uma coisa que elas não pediram e obviamente não
estão usando. O escândalo explode agora, nesse governo do presidente Lula, e
toda a CPMI que é montada está em torno da disputa de quem é o culpado desse
processo."
Ele
afirma que o fato de o esquema ter durado tantos anos e respingado em três
governos mostra que "mega casos de corrupção não têm um só dono, mas
vários, e esses donos não têm colocação partidária, simplesmente são
criminosos".
Segundo
Paz, o desafio agora é fechar a torneira do esquema, uma vez que as CPMIs
desde a pandemia se tornaram "palcos para políticos fazerem
demagogia".
"O
problema é você não acabar mais uma CPMI simplesmente em briga política e
pouquíssima responsabilização de poderosos, que ficam usando o sistema para
corrupção", afirma.
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Efeitos do tarifaço de Trump
Já em
relação ao tarifaço dos EUA, Paz afirma que há elementos que tornam
aparentes a motivação política do tarifaço e destaca a proximidade do
governo Trump com a família Bolsonaro.
"O
Eduardo Bolsonaro, em algum momento, decidiu ir para os EUA, ele […] começa a
fazer uma política de pressão no governo americano para poder tentar aliviar a
situação do pai dele", afirma.
Paz
acrescenta que nessa época a política de imposição de tarifas
de Trump a
outros países já estava em curso, e o Brasil havia sido taxado em
10%, percentual que subiu após a intervenção de Eduardo Bolsonaro junto a
pessoas do governo Trump.
"Ele
[Eduardo] vai fazer um esforço, tanto é que quando o Brasil é comunicado que
ele sofreu uma sobretaxa de 40%, a carta que vem indicando isso, uma carta
estranhíssima, super informal para padrões diplomáticos, ela basicamente cita
questões relacionadas à política. A metade da carta fala basicamente só do
problema em relação ao combate à liberdade de expressão, ao julgamento do
ex-presidente Jair Bolsonaro."
O
cientista político afirma que a virada na relação entre Trump e Lula
ocorreu após o estadunidense entender que "o que disseram para ele não era
verdade". Segundo Paz, foi vendido a Trump um cenário no qual "já
estava tudo pronto" para um levante popular, caso Bolsonaro fosse preso.
Porém, essa leitura mudou após a prisão do ex-presidente não gerar a comoção
prometida nas ruas.
"Acho
que o presidente Trump vai imaginando: 'Olha, eu estou apostando no lado errado
aqui, não tem essa leitura que me passaram de que ele [Jair Bolsonaro] tinha um
apoio ainda brutal da sociedade, que está disposta a ir para as ruas por ele'.
Isso não se provou verdadeiro, nesse sentido eu acho que ele foi tirando o time
de campo."
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PEC da Segurança Pública
Outro
assunto que ficou entre os mais comentados de 2025 foi a PEC da Segurança
Pública.
A proposta tem como objetivo harmonizar, integrar e tornar mais eficiente a
articulação entre os diversos poderes da União na luta contra a criminalidade e
a violência, como aponta Ignácio Cano, professor do departamento de
Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do
Laboratório de Análise da Violência.
Ele
aponta que há resistência à proposta por parte de governos estaduais, que
por um lado pedem mais recursos e mais ajuda no combate ao crime organizado, e,
por outro, "resistem a qualquer nível ao que chamam de interferência do
governo federal".
"Então,
a PEC da segurança, na verdade, foi, voltou várias vezes, avançou, retrocedeu.
De qualquer forma, é bom que se diga que a PEC da Segurança não vai resolver
nossos problemas de segurança. Não é uma panaceia e não é um instrumento que
vai resolver. O que ela pode fazer é melhorar a coordenação entre os diversos
poderes, as diversas instâncias da federação."
Um dos
problemas no combate à criminalidade no Brasil, avalia o pesquisador, é
que as propostas sobre o tema respondem sempre a crises pontuais,
desencadeadas por algum evento ou operação policial, como a que deixou mais de
120 mortos no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e são usadas por atores
políticos de forma eleitoreira.
"Infelizmente,
as propostas de lei no Brasil não respondem a um diagnóstico detalhado,
respondem a um debate político que está baseado no que aconteceu ontem. E as
posições dos diversos atores também respondem a isso. Por exemplo, essa
operação com tensão aqui no Rio de Janeiro foi uma tentativa do governo do
estado do Rio de se posicionar politicamente num momento em que tinha um nível
de fraqueza considerável", afima.
Ele
considera possível o tema ser discutido em 2026, principalmente no primeiro
semestre, mas tem dúvidas quanto à continuidade do debate após iniciada a
campanha eleitoral, pois avalia que para muitos atores políticos discutir
uma proposta já é suficiente.
"Porque
ele se posiciona dizendo: 'Eu lancei a proposta, eu fui contra, eu propus isso
ou aquilo outro'. Então não precisa aprovar a PEC para ela ter um impacto
político. E com o andamento que nós tivemos até agora, a lentidão, [...] a
resistência de alguns estados, não temos nenhuma confiança de que a PEC será
aprovada."
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Tarifaço, isenção do IR: o que movimentou a economia
brasileira em 2025?
O ano
de 2025 foi movimentado no que diz respeito ao noticiário de economia
brasileiro. Entre os principais temas debatidos estão o escândalo do banco
Master, a reforma tributária que aprovou a isenção do Imposto de Renda para
pessoas que recebem até R$ 5 mil por mês e o tarifaço dos EUA ao Brasil.
Em
entrevista ao podcast Jabuticaba sem Caroço, da Sputnik Brasil,
especialistas discutem os impactos dos principais temas envolvendo a economia
deste ano.
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Isenção do Imposto de Renda
Ricardo
Gonçalves, doutor em economia pela Unicamp e analista técnico do centro de
gestão e estudos estratégicos, lembra que o Brasil passou por reformas
tributárias anteriores, e na década de 1990 promoveu mudanças de alíquotas e
regras que "beneficiaram o topo da distribuição de renda do Brasil,
ou seja, os mais ricos".
"As
alíquotas efetivas para as pessoas mais ricas no Brasil foram reduzidas ao
longo da década de 1990. Um marco foi em 1995, onde a gente teve a isenção de
lucros e dividendos distribuídos por empresas aos seus acionistas. E isso gerou
uma nova forma de distribuição de renda no país, onde essa ferramenta passou a
ser utilizada por essa população mais rica para driblar o fisco", afirma o
economista.
Ele
acrescenta que após essa mudança o topo da cadeia de distribuição, ou seja, a
parcela de 0,1% mais rica do país, passou a não contribuir com o Imposto de
Renda, o que torna a lei que amplia a isenção do Imposto
de Renda para
quem recebe até R$ 5.000 por mês, com vigência a partir de 1º de janeiro de
2026, um marco significativo na distribuição para pessoas de baixa e média
renda.
"Essa
regra que nós estamos vendo agora se implementando no Brasil é a maior reforma
de imposto de renda já feita em prol da população, [...] onde a gente percebe
uma isenção para pessoas que recebem até R $ 5.000 e um benefício para quem
recebe até R $ 7.300 e um aumento de alíquotas efetivas para essa parcela mais
rica que vai passar a contribuir com lucros e dividendos distribuídos."
Segundo
Gonçalves, a reforma da estrutura tributária equipara o Brasil ao modelo
praticado em países ricos e desenvolvidos, apontando "para uma maior
justiça tributária". Ele afirma que a proposta do governo foi aprovada
porque o Congresso percebeu que não votar a favor dessa mudança seria muito
impopular.
"Já
é percebido pela população que essa tributação do Imposto de Renda é injusta,
como ela é feita hoje. [...] O Brasil, por exemplo, distribui cerca de R$ 1
trilhão de lucros e dividendos por ano. E quase metade disso fica com os 0,1%
mais ricos. Isso mostra muito para as pessoas o que implicava aquela estrutura
tributária", explica o especialista.
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Tarifaço dos EUA
Outro
tema que movimentou o noticiário de economia em 2025 foi o tarifaço aplicado ao
Brasil pela
gestão do presidente dos EUA, Donald Trump. Para a economista Carla Beni,
professora de MBA da FGV, inicialmente, a medida foi bem-sucedida sob a ótica
do pânico generalizado que causou, especialmente por ter sido seguida da
aplicação da Lei Magnistky contra autoridades brasileiras.
Apesar
disso, ela aponta que a medida não surtiu impacto além do inicial e o
Brasil acabou exportando ainda mais neste ano e observando também o volume
de investimento interno e externo crescer além do esperado. Ela aponta como
motivo do baixo impacto o empenho do governo feito antes de Trump anunciar o
tarifaço.
"Desde
que o Lula assumiu, é bom dar uma recordada nisso, assim que ele assumiu, ele
fez durante os anos de 2023 e 2024 uma quantidade gigantesca de viagens
internacionais para abrir o mercado para o Brasil. E isso fez toda a diferença
quando o tarifaço veio", avalia a economista.
Diante
disso, afirma Beni, não houve nenhum risco para investidores e o Brasil
acabou fechando o ano com a inflação dentro da meta e o Produto Interno
Bruto (PIB) com expectativa de crescer em torno de 2,5%.
A
analista aponta que o tarifaço acabou tendo o efeito positivo de
desvencilhar o Brasil da ideia de que ainda depende totalmente dos EUA.
"Sob
essa ótica, foi uma grata surpresa o Brasil descobrir que ele pode trabalhar
com outros países. E isso daí deu um resultado muito positivo para a
gente."
Ela
acrescenta, no entanto, que alguns setores específicos, que têm no mercado
norte-americano sua principal carteira de clientes, como a produção de mel,
ainda vão levar algum tempo para encontrar novos mercados, mas destaca que, no
cenário geral, o tarifaço norte-americano não suporta muito mais do que o
primeiro ano em vigor por conta da inflação que gera dentro dos próprios
EUA.
'Esse é
um movimento muito importante e essa elevação de preços nos EUA acabou afetando
muito o dia a dia do americano, o suco de laranja, o café, a carne, então a
popularidade [de Trump] vai começando a ser balançada e as próprias eleições de
meio termo também acabaram dificultando a vida do próprio Partido
Republicano", observa.
Apesar
dos resultados positivos e do aparente distensionamento das relações entre
Trump e Lula, a economista afirma que a qualquer hora o jogo pode mudar,
uma vez que a mudança de postura "não foi uma questão de camaradagem"
de Trump, mas sim de negócios.
"O
Brasil vai ter um peso que importar ali na hora para ele, não há uma
preocupação do governo americano com o Brasil, o que a gente tem é essa questão
aí, digamos assim, geopolítica, que o governo americano quer colocar a 'pata'
em cima da América Latina de novo. Acho que a relação dele com o Brasil vai ser
sempre ok e simpática, enquanto a economia estiver funcionando. Amanhã também
ele pode acordar aí com a cachola virada e inventar mais alguma outra
coisa."
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Escândalo do banco Master
O escândalo do banco Master colocou em
evidência em 2025 a operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). O
economista Sillas de Souza Cesar afirma que o esquema praticado pelo
banco não é incomum, mas sim uma versão muito mais ampla do que outros
praticados em menor escala.
"No
caso específico do banco Master, uma instituição que montava uma carteira
teórica, uma simulação de carteira, fazia alguns documentos, dando
credibilidade contábil, fiscal a isso e levava isso a fontes, a fazer a
captação de recursos para os seus fundos em outras instituições públicas,
principalmente, como é o caso do Banco de Brasília, o BRB", explica.
Ele
afirma que o Master criava um relatório que apontava que o banco era um bom
administrador dos ativos captados, chegando a alcançar um lucro de 140% no
Certificado de Depósito Interbancário (CDI). O relatório era usado para
atrair outros bancos a comprar ativos do Master.
"Bancos
grandes não topavam, porque a auditoria ali não era muito boa, havia algum
ruído, mas os bancos públicos sujeitos a ingerências, algumas interferências
políticas, topavam. Foi o caso do BRB, que comprou lá alguns ativos sem muita
preocupação."
Cesar
afirma que essa prática de vender ativos para fundos públicos acontece há
muito tempo no Brasil, na maioria das vezes envolvendo fundos de pensão do
Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), que são fundos criados para
funcionários públicos de prefeituras, estados e estatais.
"Vamos
supor, uma prefeitura de uma cidade [...] constitui um fundo e seus
funcionários públicos começam a guardar dinheiro. Esse fundo começa a fazer
captação e fica um fundo de aposentadoria tal qual outros fundos de
aposentadoria que têm por aí. Bom, quem administra esse fundo? A lei diz que
quem deve administrar esse fundo são os próprios sócios, os próprios
associados", explica o economista.
Ele
acrescenta que as prefeituras, sobretudo de pequenas cidades, muitas vezes não
contam com um corpo técnico para administrar esses fundos, então essa
gestão é terceirizada, o que ele aponta já configurar um problema.
"O
segundo problema é que esses fundos servem como fomento para essas cidades,
para essas instâncias públicas, o que não é ruim a princípio. O problema é que
esses fundos, por servirem de fomento para essas pequenas cidades, eles estão
sujeitos à ação desses políticos."
Dessa
forma, afirma Souza, se constitui ao longo do Brasil, no interior adentro, em
todas as cidades, fundos de previdência social nos quais a influência de
políticos é muito grande.
"Então,
você tem baixa capacidade técnica de gestão, você tem muito dinheiro, porque
são funcionários públicos guardando dinheiro todos os meses, por toda a sua
carreira, mais aportes institucionais geridos sob influência política muito
forte", afirma o economista.
Fonte:
Sputnik Brasil

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