O
cérebro ajuda no controle do diabetes?
O
caminho para um controle eficaz do diabetes tipo 1 e tipo 2 exige uma mudança
de estilo de vida. Isso inclui melhor alimentação, mais exercícios e atenção ao
sono. No entanto, o jornalista Tom Bueno, no episódio do podcast DiabetesCast,
levanta uma questão essencial: por que é tão difícil manter essas mudanças? A
inércia e a tendência humana de se apegar a velhos hábitos tornam essa jornada
desafiadora.
Para
desvendar os mecanismos cerebrais por trás dessa dificuldade, Tom Bueno
entrevistou o psiquiatra Daniel Martinez, formado pela USP e com certificação
em medicina do estilo de vida. O especialista ressalta que “mudar o estilo de
vida é uma das coisas mais difíceis dessa vida mesmo“. Portanto, entender o
funcionamento da nossa mente é o primeiro passo para o sucesso.
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Pilares de um estilo de vida saudável: o “bolo” da saúde
Ao
abordar a mudança de estilo de vida, o Dr. Martinez utiliza a analogia do bolo.
Ele explica que os ingredientes básicos são os pilares essenciais da saúde.
Além disso, esses pilares devem estar sempre presentes, embora adaptáveis às
preferências de cada pessoa.
O
especialista cita os seis pilares da medicina do estilo de vida. Afinal, todos
têm sólida base científica:
• Sono: Cuidar da qualidade do sono para
ter um bom dia.
• Alimentação: Focar em uma nutrição
adequada e individualizada. Por exemplo, é preciso evitar alimentos
ultraprocessados e industrializados.
• Atividade física: Focar no movimento e
na consistência.
• Uso de substâncias: Evitar o álcool e o
tabaco.
• Contato social: Manter a conexão com
pessoas importantes.
• Manejo do estresse: Encontrar formas
eficazes de lidar com as pressões do dia a dia.
Segundo
o psiquiatra, cada pessoa deve identificar qual desses pilares está mais
carente em seu momento de vida. Dessa forma, é importante priorizar a mudança.
“Conforme vai passando o tempo de vida, qual pilar você sente que está fazendo
mais falta naquele momento?“, questiona o Dr. Martinez.
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A mente e o diagnóstico: como o cérebro reage
O Dr.
Daniel Martinez explica a reação do cérebro ao receber um diagnóstico, como o
diabetes. Ele chama isso de “reflexo de correção“. Essa é uma resposta natural
de quem quer estar no controle e não gosta de ser “mandado” a fazer algo.
“Imagina
que venha um diagnóstico externo, por exemplo, o diabetes,” contextualiza o
psiquiatra. Ele explica que “a partir de agora eu não posso fazer tal coisa”.
Consequentemente,
a primeira reação pode ser de raiva, frustração ou desespero. Isso leva a um
embate inicial onde a pessoa pode tentar fazer o oposto. A tentativa é
inconsciente, com o objetivo de recuperar a sensação de controle.
Essa
mudança de estilo de vida é encarada como uma perda ou luto. Assim, exige um
período de adaptação e aceitação da nova realidade. O processo de mudança se
torna mais sustentável com a aceitação. Portanto, é necessário buscar
ativamente soluções e abandonar o desejo de combater a própria condição de
saúde.
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Superando a inércia: motivação interna para a mudança
Para
aqueles que acreditam não conseguir mudar, o Dr. Martinez afirma que o cérebro
pode ser “reaprendido”. Embora seja difícil, a neuroplasticidade permite a
adaptação. Ele usa a metáfora de uma pessoa que precisa reaprender a escrever.
Analogamente, o esforço é maior, mas a mudança é possível.
A chave
para o sucesso é a motivação interna. Ela ajuda a manter a mudança de estilo de
vida mesmo diante das inevitáveis barreiras. O especialista diferencia dois
tipos de motivação, que é um ponto central da entrevista:
• Externa: Mudar por medo de complicações
ou porque o médico mandou. No entanto, Martinez afirma que a “metrinha do medo
não funciona muito no médio prazo.”
• Interna: Mudar por um desejo pessoal.
Por exemplo, é o caso de querer ter energia para brincar com os netos.
“Quando
eu estou com a motivação interna ativada, a chance de eu desistir é menor“,
afirma o psiquiatra. Isso ocorre porque o motivo que eu realmente quero mudar
deve ser ativado. A busca por um propósito maior, um “porquê” por trás da
mudança, é crucial.
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O papel da aceitação: recaídas e a teoria do copo
Um dos
pontos mais importantes é a necessidade de aceitar as recaídas. Elas são parte
do processo. “A recaída faz parte do processo. É mais comum as pessoas terem
recaídas do que começar e ir sempre direto,” explica o Dr. Martinez. Afinal,
barreiras, sejam externas (como uma doença) ou internas (como a ambivalência),
sempre virão.
O
psiquiatra introduz a “teoria do copo” para enfrentar as frustrações. Se o copo
é o “pote das emoções”, a solução não é apenas tentar tirar o que é ruim.
Contudo, é preciso diluir o conteúdo com coisas boas. Martinez cita lazer,
hobbies, meditação e contato social.
Sobre a
sustentabilidade da mudança de estilo de vida, o plano deve ser realista. “Qual
que é a melhor dieta? Será que eu consigo seguir por mais tempo?” questiona.
Ele aconselha: “Comece da forma que você gostaria de terminar e continuar“. Um
plano irrealista levará à frustração e à desistência.
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Dicas para começar: planejamento SMART e autonomia
Para
quem deseja iniciar a mudança de estilo de vida, o Dr. Martinez oferece uma
dica tática. É o planejamento SMART, expandido para incluir o fator afetivo e a
autonomia:
1. S (Específica): A meta deve ser clara.
Por exemplo, “Caminhar”, e não apenas “fazer exercício”.
2. M (Mensurável): Deve ser possível medir o
progresso. Ex.: “Caminhar duas vezes por semana”.
3. A (Atingível): Deve ser uma meta realista
para o seu momento.
4. R (Realista/Relevante): Deve ser
relevante para a pessoa.
5. T (Tempo): Deve ter um prazo definido.
Ex.: “30 minutos, começando na próxima semana”.
O
psiquiatra acrescenta os “3 As”: a meta deve ser Autêntica, Afetiva (trazer
prazer ou afeto) e com Autonomia (depender apenas da pessoa). Em suma, “O seu
parâmetro é você,” finaliza o especialista. Ele incentiva a comparação consigo
mesmo e a celebração dos pequenos avanços.
• Inteligência artificial no tratamento do
diabetes: uma nova era de cuidados
A
inteligência artificial (IA) está remodelando os cuidados para quem tem
diabetes. Ela aprimora desde o diagnóstico até as ferramentas que aliviam a
gestão diária. Para especialistas, o uso da inteligência artificial no
tratamento do diabetes já é uma realidade clínica em rápida evolução.
Um dos
maiores benefícios da IA na gestão do diabetes é o amadurecimento dos sistemas
híbridos de circuito fechado. Estes sistemas combinam bombas de insulina e
monitores contínuos de glicose. Com o avanço deles, o objetivo é automatizar
ainda mais o controle glicémico. Além disso, busca-se otimizar a dosagem de
insulina, oferecendo assim maior flexibilidade aos utilizadores.
Em um
artigo recente, Francisco Javier Pasquel, MD, da Faculdade de Medicina da
Universidade Emory em Atlanta, detalhou o valor atual e futuro da IA nos
cuidados com a saúde de quem tem diabetes. “A IA clinicamente relevante avança
rapidamente na triagem, previsão de risco e apoio à decisão“, explicou ele.
Consequentemente, reguladores e sistemas de saúde já começam a adotar estas
ferramentas.
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Como a IA ajuda hoje
Pasquel
e os seus colegas observaram que as ferramentas de IA são especialmente úteis
para diagnosticar a retinopatia em quem tem diabetes. Atualmente, sistemas de
IA aprovados pela FDA nos EUA já realizam avaliações automatizadas da retina.
Em ambientes controlados, a sua precisão se aproxima da de um especialista.
“Esta
tecnologia expande o acesso a rastreios atempados“, observou Pasquel. Isso é
crucial, principalmente, em cuidados primários e locais com poucos recursos.
Assim, é possível enfrentar a escassez de oftalmologistas. No entanto, ele
alertou que muitas outras aplicações de IA ainda estão em fases iniciais de
desenvolvimento.
Adicionalmente,
modelos de machine learning estão sendo estudados para ajudar a identificar
isquemia e infeção em lesões da pele. Os modelos preditivos também melhoram a
estratificação de risco para novos casos da condição, complicações e
hospitalizações. Como resultado, os médicos conseguem direcionar melhor os
cuidados preventivos.
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Algoritmos de nova geração e suporte ao paciente
Pasquel
também destacou a promessa dos algoritmos de administração de insulina de
última geração. Estes sistemas visam detetar e responder a refeições não
anunciadas. Além disso, integram dados contextuais, como exercício ou padrões
de sono, para otimizar a entrega de insulina e, assim, reduzir o risco de
hipoglicemia.
Por
outro lado, a capacidade de processar dados é uma das áreas mais promissoras.
“As ferramentas de IA mais promissoras permitem-nos sintetizar as grandes
quantidades de dados que os pacientes geram“, disse Kumah-Crystal, MD,
professor associado de Informática Biomédica e Endocrinologia Pediátrica no
Vanderbilt University Medical Center em Nashville, Tennessee, EUA. Por exemplo,
é possível correlacionar as leituras de um smartwatch com a frequência cardíaca
para avaliar os efeitos dos medicamentos. À medida que estas ferramentas
amadurecem, a IA poderá atuar como uma “treinadora”, engajando os pacientes no
seu próprio cuidado.
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Desafios persistentes e como enfrentá-los
Apesar
do otimismo, o uso de ferramentas de IA enfrenta limitações. Isto é
particularmente verdade em pediatria e condições endócrinas raras. “Muitos
modelos de linguagem podem não entender a patologia de condições raras e, por
isso, podem ‘alucinar’ e inventar informações“, alertou Kumah-Crystal.
Pasquel
apontou ainda outros obstáculos. Entre eles estão o desempenho inconsistente, a
qualidade variável dos dados e preocupações com privacidade. Portanto, ele
defende práticas de desenvolvimento padronizadas e supervisão humana contínua.
Os desafios da inteligência artificial no tratamento do diabetes exigem, sem
dúvida, uma abordagem cuidadosa.
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Destaque de pesquisa: o primeiro ensaio clínico com IA
Recentemente,
as evidências sobre o impacto da IA começaram a surgir. Kevin Pantalone, DO,
diretor de iniciativas de diabetes na Cleveland Clinic, Cleveland, EUA, relatou
um ensaio randomizado de 52 semanas com um programa habilitado para IA em
adultos com diabetes tipo 2.
A
intervenção usou uma aplicação de smartphone com quatro sensores conectados. O
sistema fornecia recomendações personalizadas. Após 12 meses, os resultados
foram impressionantes. No grupo de IA, 71% dos participantes atingiram uma
HbA1c < 6,5% sem a maioria dos medicamentos, em comparação com apenas 2,4%
no grupo de cuidados habituais.
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Colocando em prática
Pantalone
citou o acesso e a adoção como as maiores barreiras para a expansão da
inteligência artificial no tratamento do diabetes. Atualmente, o sistema do seu
estudo não pode ser adquirido de forma independente por indivíduos. Ele está
disponível apenas através de alguns empregadores e planos de saúde.
Por
isso, mais ensaios clínicos randomizados são necessários para apoiar os
benefícios destas intervenções. “Agora que temos evidências claras de um ensaio
clínico, acredito que o uso da IA na gestão do diabetes se tornará mais comum“,
concluiu Pantalone.
Fonte:
UmDiabético

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