quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O cérebro ajuda no controle do diabetes?

O caminho para um controle eficaz do diabetes tipo 1 e tipo 2 exige uma mudança de estilo de vida. Isso inclui melhor alimentação, mais exercícios e atenção ao sono. No entanto, o jornalista Tom Bueno, no episódio do podcast DiabetesCast, levanta uma questão essencial: por que é tão difícil manter essas mudanças? A inércia e a tendência humana de se apegar a velhos hábitos tornam essa jornada desafiadora.

Para desvendar os mecanismos cerebrais por trás dessa dificuldade, Tom Bueno entrevistou o psiquiatra Daniel Martinez, formado pela USP e com certificação em medicina do estilo de vida. O especialista ressalta que “mudar o estilo de vida é uma das coisas mais difíceis dessa vida mesmo“. Portanto, entender o funcionamento da nossa mente é o primeiro passo para o sucesso.

<><> Pilares de um estilo de vida saudável: o “bolo” da saúde

Ao abordar a mudança de estilo de vida, o Dr. Martinez utiliza a analogia do bolo. Ele explica que os ingredientes básicos são os pilares essenciais da saúde. Além disso, esses pilares devem estar sempre presentes, embora adaptáveis às preferências de cada pessoa.

O especialista cita os seis pilares da medicina do estilo de vida. Afinal, todos têm sólida base científica:

        Sono: Cuidar da qualidade do sono para ter um bom dia.

        Alimentação: Focar em uma nutrição adequada e individualizada. Por exemplo, é preciso evitar alimentos ultraprocessados e industrializados.

        Atividade física: Focar no movimento e na consistência.

        Uso de substâncias: Evitar o álcool e o tabaco.

        Contato social: Manter a conexão com pessoas importantes.

        Manejo do estresse: Encontrar formas eficazes de lidar com as pressões do dia a dia.

Segundo o psiquiatra, cada pessoa deve identificar qual desses pilares está mais carente em seu momento de vida. Dessa forma, é importante priorizar a mudança. “Conforme vai passando o tempo de vida, qual pilar você sente que está fazendo mais falta naquele momento?“, questiona o Dr. Martinez.

<><> A mente e o diagnóstico: como o cérebro reage

O Dr. Daniel Martinez explica a reação do cérebro ao receber um diagnóstico, como o diabetes. Ele chama isso de “reflexo de correção“. Essa é uma resposta natural de quem quer estar no controle e não gosta de ser “mandado” a fazer algo.

“Imagina que venha um diagnóstico externo, por exemplo, o diabetes,” contextualiza o psiquiatra. Ele explica que “a partir de agora eu não posso fazer tal coisa”.

Consequentemente, a primeira reação pode ser de raiva, frustração ou desespero. Isso leva a um embate inicial onde a pessoa pode tentar fazer o oposto. A tentativa é inconsciente, com o objetivo de recuperar a sensação de controle.

Essa mudança de estilo de vida é encarada como uma perda ou luto. Assim, exige um período de adaptação e aceitação da nova realidade. O processo de mudança se torna mais sustentável com a aceitação. Portanto, é necessário buscar ativamente soluções e abandonar o desejo de combater a própria condição de saúde.

<><> Superando a inércia: motivação interna para a mudança

Para aqueles que acreditam não conseguir mudar, o Dr. Martinez afirma que o cérebro pode ser “reaprendido”. Embora seja difícil, a neuroplasticidade permite a adaptação. Ele usa a metáfora de uma pessoa que precisa reaprender a escrever. Analogamente, o esforço é maior, mas a mudança é possível.

A chave para o sucesso é a motivação interna. Ela ajuda a manter a mudança de estilo de vida mesmo diante das inevitáveis barreiras. O especialista diferencia dois tipos de motivação, que é um ponto central da entrevista:

        Externa: Mudar por medo de complicações ou porque o médico mandou. No entanto, Martinez afirma que a “metrinha do medo não funciona muito no médio prazo.”

        Interna: Mudar por um desejo pessoal. Por exemplo, é o caso de querer ter energia para brincar com os netos.

“Quando eu estou com a motivação interna ativada, a chance de eu desistir é menor“, afirma o psiquiatra. Isso ocorre porque o motivo que eu realmente quero mudar deve ser ativado. A busca por um propósito maior, um “porquê” por trás da mudança, é crucial.

<><> O papel da aceitação: recaídas e a teoria do copo

Um dos pontos mais importantes é a necessidade de aceitar as recaídas. Elas são parte do processo. “A recaída faz parte do processo. É mais comum as pessoas terem recaídas do que começar e ir sempre direto,” explica o Dr. Martinez. Afinal, barreiras, sejam externas (como uma doença) ou internas (como a ambivalência), sempre virão.

O psiquiatra introduz a “teoria do copo” para enfrentar as frustrações. Se o copo é o “pote das emoções”, a solução não é apenas tentar tirar o que é ruim. Contudo, é preciso diluir o conteúdo com coisas boas. Martinez cita lazer, hobbies, meditação e contato social.

Sobre a sustentabilidade da mudança de estilo de vida, o plano deve ser realista. “Qual que é a melhor dieta? Será que eu consigo seguir por mais tempo?” questiona. Ele aconselha: “Comece da forma que você gostaria de terminar e continuar“. Um plano irrealista levará à frustração e à desistência.

<><> Dicas para começar: planejamento SMART e autonomia

Para quem deseja iniciar a mudança de estilo de vida, o Dr. Martinez oferece uma dica tática. É o planejamento SMART, expandido para incluir o fator afetivo e a autonomia:

1.       S (Específica): A meta deve ser clara. Por exemplo, “Caminhar”, e não apenas “fazer exercício”.

2.       M (Mensurável): Deve ser possível medir o progresso. Ex.: “Caminhar duas vezes por semana”.

3.       A (Atingível): Deve ser uma meta realista para o seu momento.

4.       R (Realista/Relevante): Deve ser relevante para a pessoa.

5.       T (Tempo): Deve ter um prazo definido. Ex.: “30 minutos, começando na próxima semana”.

O psiquiatra acrescenta os “3 As”: a meta deve ser Autêntica, Afetiva (trazer prazer ou afeto) e com Autonomia (depender apenas da pessoa). Em suma, “O seu parâmetro é você,” finaliza o especialista. Ele incentiva a comparação consigo mesmo e a celebração dos pequenos avanços.

        Inteligência artificial no tratamento do diabetes: uma nova era de cuidados

A inteligência artificial (IA) está remodelando os cuidados para quem tem diabetes. Ela aprimora desde o diagnóstico até as ferramentas que aliviam a gestão diária. Para especialistas, o uso da inteligência artificial no tratamento do diabetes já é uma realidade clínica em rápida evolução.

Um dos maiores benefícios da IA na gestão do diabetes é o amadurecimento dos sistemas híbridos de circuito fechado. Estes sistemas combinam bombas de insulina e monitores contínuos de glicose. Com o avanço deles, o objetivo é automatizar ainda mais o controle glicémico. Além disso, busca-se otimizar a dosagem de insulina, oferecendo assim maior flexibilidade aos utilizadores.

Em um artigo recente, Francisco Javier Pasquel, MD, da Faculdade de Medicina da Universidade Emory em Atlanta, detalhou o valor atual e futuro da IA nos cuidados com a saúde de quem tem diabetes. “A IA clinicamente relevante avança rapidamente na triagem, previsão de risco e apoio à decisão“, explicou ele. Consequentemente, reguladores e sistemas de saúde já começam a adotar estas ferramentas.

<><> Como a IA ajuda hoje

Pasquel e os seus colegas observaram que as ferramentas de IA são especialmente úteis para diagnosticar a retinopatia em quem tem diabetes. Atualmente, sistemas de IA aprovados pela FDA nos EUA já realizam avaliações automatizadas da retina. Em ambientes controlados, a sua precisão se aproxima da de um especialista.

“Esta tecnologia expande o acesso a rastreios atempados“, observou Pasquel. Isso é crucial, principalmente, em cuidados primários e locais com poucos recursos. Assim, é possível enfrentar a escassez de oftalmologistas. No entanto, ele alertou que muitas outras aplicações de IA ainda estão em fases iniciais de desenvolvimento.

Adicionalmente, modelos de machine learning estão sendo estudados para ajudar a identificar isquemia e infeção em lesões da pele. Os modelos preditivos também melhoram a estratificação de risco para novos casos da condição, complicações e hospitalizações. Como resultado, os médicos conseguem direcionar melhor os cuidados preventivos.

<><> Algoritmos de nova geração e suporte ao paciente

Pasquel também destacou a promessa dos algoritmos de administração de insulina de última geração. Estes sistemas visam detetar e responder a refeições não anunciadas. Além disso, integram dados contextuais, como exercício ou padrões de sono, para otimizar a entrega de insulina e, assim, reduzir o risco de hipoglicemia.

Por outro lado, a capacidade de processar dados é uma das áreas mais promissoras. “As ferramentas de IA mais promissoras permitem-nos sintetizar as grandes quantidades de dados que os pacientes geram“, disse Kumah-Crystal, MD, professor associado de Informática Biomédica e Endocrinologia Pediátrica no Vanderbilt University Medical Center em Nashville, Tennessee, EUA. Por exemplo, é possível correlacionar as leituras de um smartwatch com a frequência cardíaca para avaliar os efeitos dos medicamentos. À medida que estas ferramentas amadurecem, a IA poderá atuar como uma “treinadora”, engajando os pacientes no seu próprio cuidado.

<><> Desafios persistentes e como enfrentá-los

Apesar do otimismo, o uso de ferramentas de IA enfrenta limitações. Isto é particularmente verdade em pediatria e condições endócrinas raras. “Muitos modelos de linguagem podem não entender a patologia de condições raras e, por isso, podem ‘alucinar’ e inventar informações“, alertou Kumah-Crystal.

Pasquel apontou ainda outros obstáculos. Entre eles estão o desempenho inconsistente, a qualidade variável dos dados e preocupações com privacidade. Portanto, ele defende práticas de desenvolvimento padronizadas e supervisão humana contínua. Os desafios da inteligência artificial no tratamento do diabetes exigem, sem dúvida, uma abordagem cuidadosa.

<><> Destaque de pesquisa: o primeiro ensaio clínico com IA

Recentemente, as evidências sobre o impacto da IA começaram a surgir. Kevin Pantalone, DO, diretor de iniciativas de diabetes na Cleveland Clinic, Cleveland, EUA, relatou um ensaio randomizado de 52 semanas com um programa habilitado para IA em adultos com diabetes tipo 2.

A intervenção usou uma aplicação de smartphone com quatro sensores conectados. O sistema fornecia recomendações personalizadas. Após 12 meses, os resultados foram impressionantes. No grupo de IA, 71% dos participantes atingiram uma HbA1c < 6,5% sem a maioria dos medicamentos, em comparação com apenas 2,4% no grupo de cuidados habituais.

<><> Colocando em prática

Pantalone citou o acesso e a adoção como as maiores barreiras para a expansão da inteligência artificial no tratamento do diabetes. Atualmente, o sistema do seu estudo não pode ser adquirido de forma independente por indivíduos. Ele está disponível apenas através de alguns empregadores e planos de saúde.

Por isso, mais ensaios clínicos randomizados são necessários para apoiar os benefícios destas intervenções. “Agora que temos evidências claras de um ensaio clínico, acredito que o uso da IA na gestão do diabetes se tornará mais comum“, concluiu Pantalone.

 

Fonte: UmDiabético

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