quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Maurici de Morais: O governo Tarcísio e as mentiras que ele te conta

A distância entre o discurso e a prática do governo Tarcísio de Freitas tem se tornado cada vez mais evidente e merece uma análise criteriosa. A dicotomia fica clara quando descolamos dessa gestão a propaganda oficial e o manto de proteção da chamada “grande imprensa”, que, sob a influência do mercado, tenta vender, a qualquer custo, uma imagem de eficiência administrativa.

Um dos exemplos mais claros em que essa falácia se impõe está na proposta de Orçamento do Estado de São Paulo para 2026, elaborada pelo governo Tarcísio e recentemente aprovada na Assembleia Legislativa. Eles insistem no mantra do “bom gestor”, com corte de gastos e enxugamento da máquina pública, uma retórica que se desfaz quando observamos os números com atenção.

O que se vê, na prática, é que pouco ou quase nada tem sido feito em duas áreas fundamentais para o desenvolvimento de São Paulo: investimentos e obras públicas.

O paradoxo é ainda maior quando se leva em conta o perfil do governador. Tarcísio de Freitas é engenheiro e foi ministro da Infraestrutura. Seria razoável esperar que investimentos estruturantes e grandes obras fossem prioridade absoluta de sua gestão. Mas não são.

No acumulado de quatro anos, o governo Tarcísio deve investir nessas duas áreas menos do que a gestão que o antecedeu. E veja que o governo anterior foi profundamente impactado pela pandemia de Covid-19, que afetou os gastos públicos e inviabilizou projetos.

Para efeito comparativo, a gestão anterior aplicou na área de investimentos R$ 98 bilhões em quatro anos. Para ao menos empatar esse desempenho, o governo Tarcísio precisa correr e executar R$ 31 bilhões até dezembro de 2026. Pelo ritmo atual, é uma meta improvável, e a realidade indica que essa linha de chegada dificilmente será cruzada.

Em obras, o governo Tarcísio de Freitas vai ainda pior. A gestão anterior investiu R$ 39 bilhões em quatro anos. Mesmo em um cenário otimista, Tarcísio deve chegar a cerca de R$ 35 bilhões até o fim do seu mandato, em dezembro de 2026. Isso representa aproximadamente 10% a menos na comparação com o seu antecessor. Menos obras significam menos empregos e estagnação no desenvolvimento regional.

Como se não bastasse a falta de ações concretas, o governo estadual ainda tenta capitalizar politicamente iniciativas que só saem do papel graças ao apoio decisivo do Governo Federal. É o caso de dois projetos frequentemente utilizados como vitrine pela atual gestão: o túnel Santos–Guarujá e o Trem Intercidades entre Campinas e São Paulo.

O túnel da Baixada Santista, orçado em R$ 6,8 bilhões, só se viabiliza porque há uma composição robusta de recursos. O Governo do Estado entra com R$ 2,5 bilhões, exatamente o mesmo valor aportado pelo Governo Federal, sob a gestão do presidente Lula. Ou seja, metade do investimento público é federal, enquanto o restante será bancado pela iniciativa privada, que ficará com a concessão. Vender essa obra como mérito exclusivo do governo Tarcísio é, no mínimo, desonesto.

O mesmo ocorre com o Trem Intercidades, estimado em R$ 14 bilhões. Nada menos que 45% desse montante será viabilizado pelo BNDES, banco público federal especializado em financiar projetos estruturantes de longo prazo, capazes de induzir desenvolvimento econômico e social. Sem esse suporte, o projeto simplesmente não se sustentaria. Ainda assim, o governo estadual tenta apagar o papel central da União nessa equação.

Esses “detalhes” raramente aparecem na propaganda oficial. Mas eles importam, e muito. Porque governar não é construir narrativas, é apresentar resultados concretos. São Paulo precisa de investimentos reais, obras executadas, planejamento estratégico e transparência. Não de marketing, nem de apropriação indevida do esforço alheio.

Em bom português, a verdade é que o governo Tarcísio fala muito e faz menos do que promete. E, quando faz, muitas vezes depende do apoio federal, que prefere esconder.

A população paulista merece mais do que slogans e discursos bem ensaiados. Merece um governo que assuma responsabilidades, invista de fato no futuro do Estado e tenha a coragem de dizer a verdade. Sem maquiagem, sem atalhos e sem propaganda enganosa.

•        Com dívidas de mais de R$ 300 bi em São Paulo, Tarcísio recua e adere ao programa de Lula. Por Letícia Cotta

Após meses de resistência pública e com um estado endividado em R$ 300 bilhões, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), sancionou a Lei nº 18.380/2025, que autoriza o estado a aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), mecanismo criado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para renegociar débitos bilionários dos estados com a União.

A decisão representa um recuo político do governador, que no início do ano havia descartado a adesão e criticado duramente os termos do refinanciamento federal, e a sanção foi publicada no Diário Oficial do Estado na última sexta-feira (26), após a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovar o projeto.

Com uma dívida que ultrapassa os R$ 300 bilhões, São Paulo lidera o ranking nacional de estados devedores e poderá deixar de pagar cerca de R$ 63 bilhões à União ao longo do novo acordo, segundo estimativas do Tesouro Nacional.

A adesão de Tarcísio acompanha a decisão de outros governadores aliados do bolsonarismo, como Cláudio Castro (PL-RJ) e Romeu Zema (Novo-MG). O programa enfrentou resistência inicial de diversos chefes de Executivo estadual, mas passou a ganhar adesões após o afrouxamento das regras pelo Congresso Nacional.

Cotado como alternativa de “terceira via” da Faria Lima para as eleições presidenciais de 2026 apesar do apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador de São Paulo acaba aderindo a um programa desenhado e defendido pelo governo Lula, após meses de críticas. Na prática, o recuo expõe a tendência de governadores que se dizem “contra Lula” se curvarem e, mais uma vez, buscarem o auxílio do presidente quando as contas apertam em detrimento da realidade fiscal – ainda que digam que conseguem atuar sozinhos.

<><> Mudança de discurso e pressão fiscal

No começo de 2025, Tarcísio chegou a afirmar que São Paulo não aderiria ao Propag, alegando insegurança jurídica e impacto negativo nas finanças estaduais. O Palácio dos Bandeirantes chegou, inclusive, a divulgar oficialmente que ficaria fora do programa. A mudança de posição ocorreu após o Congresso Nacional derrubar vetos do presidente Lula ao projeto, flexibilizando regras centrais da renegociação.

Com a derrubada dos vetos, os estados passaram a poder utilizar recursos futuros do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) para amortizar parte das dívidas. No caso paulista, o mecanismo permite abater até 20% do estoque da dívida, além de garantir redução significativa nas taxas de juros, tornando o acordo financeiramente mais vantajoso.

<><> Como funciona o Propag

Criado pela Lei Complementar nº 212/2025, o Propag funciona como uma espécie de “Refis dos estados”. O programa prevê a revisão do modelo de correção monetária das dívidas estaduais com a União, com redução dos juros e alongamento dos prazos de pagamento.

Em contrapartida, os estados se comprometem a aplicar parte dos valores economizados em áreas estratégicas, como investimentos públicos e políticas de desenvolvimento regional. O objetivo do governo federal é aliviar a pressão fiscal dos estados sem comprometer o equilíbrio das contas da União no médio e longo prazo.

<><> Petróleo, gás e garantias

No caso de São Paulo, a lei sancionada por Tarcísio autoriza o uso de recebíveis originados da exploração de petróleo e gás natural para o pagamento das parcelas renegociadas, mecanismo considerado central para viabilizar o acordo. A norma também permite a manutenção das garantias já existentes nos contratos ou a concessão de novas garantias, conforme previsto na legislação federal.

A lei estadual nº 18.380/2025, autoriza formalmente o Executivo paulista a celebrar contratos e termos aditivos de refinanciamento no âmbito do Propag, além de disciplinar os instrumentos financeiros que poderão ser utilizados para a amortização da dívida

 

Fonte: Brasil 247/Fórum

 

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