Zohran
Mamdani começa teste de fogo para 'nova esquerda' global ao assumir prefeitura
de Nova York
Zohran
Mamdani tomou posse em 1° de janeiro de 2026, como o 111° prefeito de Nova
York, nos Estados Unidos. Com 34 anos, ele é o primeiro prefeito muçulmano da
cidade e o mais jovem em mais de um século.
O
juramento histórico ocorre em uma cerimônia reservada, em uma estação de metrô
abandonada no subsolo da prefeitura, com a presença da família de Mamdani.
Em
cerimônia conduzida pela procuradora-geral de Nova York, Letitia James, o novo
prefeito presta seu juramento exatamente à meia-noite do Dia de Ano Novo.
Mais
tarde, no mesmo dia, Mamdani será publicamente empossado pelo senador Bernie
Sanders e irá discursar em uma cerimônia de posse, na escadaria da prefeitura,
perto das 13 horas, hora local (15h de Brasília).
O
público foi convidado a comparecer a uma festa nas ruas na Broadway, que leva à
prefeitura.
A
campanha eleitoral para a prefeitura, em novembro, atraiu ainda mais atenção do
que de costume.
Mamdani
é congressista do Estado de Nova York. Ele começou o ano como um candidato
quase desconhecido, até disparar para o topo das pesquisas.
Sua
eleição foi um divisor de águas para os progressistas, sinalizando uma mudança
do centro de gravidade na política da cidade.
Mamdani
se apresentou como candidato do povo e líder comunitário.
Antes
de entrar na política, Mamdani trabalhou como consultor no setor de habitação.
Ele ajudava moradores de baixa renda no Queens a evitar que fossem despejados.
Filho
de pais indianos nascido na capital de Uganda, Kampala, ele se mudou com a
família para Nova York com sete anos de idade.
Mamdani
cursou o Ensino Médio de ciências no Bronx e se formou posteriormente em
Estudos Africanos no Bowdoin College. Lá, ele foi um dos fundadores da seção
dos Estudantes para a Justiça na Palestina do campus.
Sua
mãe, Mira Nair, é uma reconhecida diretora de cinema e seu pai, o professor
Mahmood Mamdani, leciona na Universidade de Columbia. Ambos são ex-alunos da
Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
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Casado com uma artista americana com raízes na Síria
Mamdani
e sua esposa se conheceram no aplicativo de encontros Hinge.
A
artista Rama Duwaji, moradora do Brooklyn, tem 28 anos de idade.
Ela
nasceu em Houston, no Estado americano do Texas. Com nove anos de idade, ela se
mudou para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de frequentar rapidamente a
escola no Catar.
Seus
pais são muçulmanos sírios originalmente de Damasco, segundo a imprensa árabe.
Duwaji
se formou na Universidade da Comunidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e fez
um mestrado em Ilustração na Escola de Artes Visuais, em Nova York.
Ela
preferiu se manter longe dos holofotes e raramente dá entrevistas à imprensa,
mesmo com a ascensão do marido. Mas o que se comenta é que ela tem sido uma
força importante nos bastidores, segundo a rede de TV americana CNN.
Como
artista com raízes na Síria, Duwaji costuma explorar temas do Oriente Médio em
seus trabalhos. Suas obras já apareceram na BBC News, nos jornais The New York
Times e The Washington Post, na revista Vice e no museu Tate Modern, em
Londres.
"Rama
não é apenas minha esposa. É uma artista incrível, que merece ser conhecida
pelo seu trabalho", escreveu Mamdani nas redes sociais em 12 de maio, ao
anunciar que eles haviam se casado três meses antes.
Em
recente entrevista à revista The Cut, ela descreveu a experiência de se tornar
primeira-dama de Nova York como "surreal".
"Quando
ouvi pela primeira vez, parecia tão formal. Não que eu não me sentisse
merecedora, mas parecia... 'eu?' Agora, aceito um pouco mais e digo
simplesmente: 'Existem diferentes formas de ser primeira-dama.'"
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A promessa de uma 'nova era'
Mamdani
é um millennial progressista. Ele será o primeiro prefeito de Nova York
muçulmano e com origem no sul da Ásia — e se manteve fiel às suas raízes, em
uma cidade tão diversificada.
Ele fez
da sua fé muçulmana uma parte visível da sua campanha eleitoral. Mamdani
visitou mesquitas regularmente e publicou um vídeo de campanha em idioma urdu,
sobre a crise do custo de moradia da cidade.
"Sabemos
que se apresentar em público como muçulmano também é sacrificar a segurança
que, às vezes, podemos encontrar nas sombras", declarou ele, em um comício
de campanha.
Mamdani
declarou que os eleitores da cidade mais cara dos Estados Unidos desejam que os
democratas se concentrem no custo de vida.
"Esta
é uma cidade que tem um em cada quatro de seus habitantes morando na pobreza,
uma cidade em que 500 mil crianças vão dormir com fome todas as noites",
destacou ele à BBC, em um evento recente.
"E,
em última análise, é uma cidade que está em perigo de perder o que a torna tão
especial."
Entre
suas propostas, destacam-se:
• Serviço de ônibus com tarifa zero em
toda a cidade;
• Congelamento dos aluguéis e prestação de
contas mais rigorosa para os senhorios negligentes;
• Rede de mercearias municipais, com
preços baixos;
• Serviço de creche universal para
crianças entre seis semanas e cinco anos;
• Triplicar a produção de moradias
construídas pelos sindicatos, com aluguéis estáveis.
Seu
plano também inclui "reformular" a prefeitura para responsabilizar os
proprietários de imóveis e expandir massivamente as moradias permanentemente
acessíveis.
Durante
a sua campanha, ele relacionou essas políticas a gestos altamente visuais e
virais.
Mamdani
mergulhou no Oceano Atlântico para dramatizar o congelamento dos aluguéis e
quebrou o jejum do Ramadã em um trem de metrô com um burrito, para destacar a
insegurança alimentar.
Dias
antes das eleições primárias, ele caminhou por toda Manhattan, parando para
tirar selfies com eleitores.
Mamdani
defende que pode reduzir o custo de vida na cidade, mas os críticos questionam
suas ambiciosas promessas.
O então
candidato a prefeito Andrew Cuomo e outros críticos afirmaram que Mamdani não
tem experiência e é radical demais para uma cidade com um orçamento de US$ 115
bilhões (cerca de R$ 631 bilhões) e mais de 300 mil funcionários municipais.
Apoiado
por grandes doadores e personalidades de centro, como o ex-presidente americano
Bill Clinton (1993-2001), Cuomo insiste na importância da experiência.
Para
ele, "a experiência, a competência, saber como fazer o trabalho, saber
como lidar com Trump, saber como lidar com Washington, saber como lidar com o
legislativo estadual, tudo isso é o básico. Acredito no treinamento durante o
trabalho, mas não como prefeito de Nova York."
O
jornal The New York Times não apoiou nenhum candidato nas eleições primárias
para prefeito da cidade e criticou todos os postulantes.
Em
editorial, o jornal declarou que a agenda de Mamdani é "excepcionalmente
inadequada para os desafios da cidade" e "ignora frequentemente os
compromissos da governança".
O
congelamento dos aluguéis restringiria a oferta de moradia, segundo o editorial
do famoso jornal de Nova York.
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Israel e Palestina
Em um
recente evento de campanha de Mamdani em um parque em Jackson Heights, uma das
comunidades mais diversificadas do país, crianças corriam e brincavam nos
balanços, enquanto ambulantes de origem latina vendiam sorvete e lanches.
De
muitas formas, a cena capturava perfeitamente a diversidade local, que muitos
democratas consideram o maior patrimônio de Nova York. Mas a cidade não está
livre de tensões políticas e raciais.
Mamdani
conta que recebe ameaças islamofóbicas todos os dias, algumas delas dirigidas à
sua família. A polícia informou que há uma investigação em andamento sobre
crimes de ódio relativos a essas ameaças.
O
prefeito eleito declarou à BBC que o racismo é um indicador do que está errado
na política americana. Ele também criticou o Partido Democrata, "que
permitiu a reeleição de Donald Trump" e falhou ao defender trabalhadores,
"independentemente de quem são ou de onde eles vieram".
A
posição dos candidatos sobre a guerra na Faixa de Gaza provavelmente também
esteve na mente dos eleitores. E o forte apoio de Mamdani aos palestinos e suas
críticas a Israel contrariam a maior parte do Partido Democrata.
O
congressista apresentou um projeto de lei para pôr fim à isenção de impostos às
organizações beneficentes de Nova York ligadas a assentamentos israelenses que
violem a legislação internacional sobre direitos humanos.
Ele
também afirmou acreditar que o primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, deveria ser preso.
Mamdani
foi pressionado inúmeras vezes em entrevistas na imprensa, para que declarasse
se apoia o direito de Israel de existir como Estado judeu. E, certa vez, ele
respondeu:
"Não
me sinto confortável para apoiar qualquer Estado que tenha uma hierarquia de
cidadania baseada na religião ou em qualquer outra coisa. Acho que, da forma
que temos neste país, a igualdade deve ser consagrada em todos os países do
mundo. É nisso que acredito."
Mamdani
também declarou que não há espaço para o antissemitismo na cidade de Nova York
e destacou que, se fosse eleito, aumentaria as verbas para o combate a crimes
de ódio.
• O que Mandani defendeu durante a
campanha
Ohran
Mamdani tomou posse como o 111º prefeito de Nova York à meia-noite em ponto, o
primeiro prefeito muçulmano, bem como o primeiro a assumir o cargo como
democrata com credenciais de socialista democrático.
O homem
de 34 anos foi empossado por Letitia James, procuradora-geral do estado, em uma
estação de metrô desativada sob a prefeitura, que serve como ponto de retorno
para a linha 5 do metrô, e em seguida houve uma festa de rua inédita ao longo
do "Canyon of Heroes" da Broadway.
“Mal
posso esperar para ver todos vocês amanhã, quando começarmos nosso mandato”,
disse Mamdani de uma ampla escadaria do metrô. “Esta é verdadeiramente a honra
e o privilégio de uma vida inteira.”
Mamdani
afirmou no ano passado que sua campanha eleitoral seria "em poesia",
ou seja, com um senso de idealismo, mas que governaria "em prosa", ou
seja, com praticidade. Agora começa o trabalho de governar, e navegar pelo
terreno politicamente complexo da maior cidade dos Estados Unidos, onde
princípios ideológicos podem não se traduzir facilmente em uma governança
eficaz.
Mamdani
e sua equipe de transição nomearam mais de 400 nova-iorquinos para atuarem como
conselheiros em assuntos de pessoal e políticas públicas. O tema central é
cumprir a agenda do prefeito de acessibilidade, ou direitos econômicos. A
plataforma de Mamdani, segundo seu site , baseia-se na premissa de que “Nova
York é muito cara. Zohran reduzirá os custos e tornará a vida mais fácil”.
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Congele o aluguel
A
campanha do prefeito destacou que 2 milhões de nova-iorquinos vivem em
apartamentos com aluguel estabilizado e que “essas moradias deveriam ser a base
da segurança econômica da classe trabalhadora da cidade”. Ele prometeu congelar
os aumentos de aluguel, mas não tem poder direto para isso e precisa contornar
a comissão responsável pelas diretrizes de aluguel.
Mamdani
também prometeu triplicar a produção da cidade de "moradias
permanentemente acessíveis, construídas por sindicatos e com aluguel
estabilizado" – construindo 200.000 novas unidades na próxima década – e
reprimir os proprietários negligentes.
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Segurança da comunidade
Mamdani
afirma que todo nova-iorquino merece estar seguro e que isso exige “criar
estabilidade econômica, trabalho digno e bairros bem estruturados”. Um
recém-criado Departamento de Segurança Comunitária será encarregado de
“prevenir a violência antes que ela aconteça, adotando uma abordagem de saúde
pública para a segurança”. Na prática, isso pode significar o envio de
profissionais civis de saúde mental – e não da polícia ou do corpo de bombeiros
– para intervir em crises de saúde mental.
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Acessibilidade
Mamdani
propõe que supermercados municipais, utilizando prédios de propriedade da
cidade e vendendo a preços de atacado, ajudariam a reduzir o aumento dos custos
dos alimentos. Ele estima que um em cada cinco nova-iorquinos tem dificuldades
para pagar o transporte público. Ele planeja eliminar as tarifas de ônibus em
todos os ônibus da cidade e construir novas faixas exclusivas para ônibus, a
fim de torná-los mais rápidos. Ele também planeja reprimir a publicidade
enganosa e os contratos abusivos, e proibir todas as taxas ocultas. Em sua
posse, Mamdani nomeou o experiente planejador urbano Mike Flynn como o novo
secretário de transportes de Nova York.
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Educação infantil e educação
Mamdani
afirma que o maior custo para os nova-iorquinos que trabalham, depois do
aluguel, são os custos com creche, e que isso está expulsando famílias com
crianças da cidade. Ele propõe creche gratuita para todos os nova-iorquinos de
seis semanas a cinco anos de idade. Com 125 mil bebês nascidos anualmente na
cidade, as novas mães receberão “um conjunto de bens e recursos essenciais,
gratuitamente, incluindo itens como fraldas, lenços umedecidos, absorventes
para amamentação, absorventes pós-parto, cueiros e livros”. Ele também planeja
financiar a expansão dos serviços de educação infantil do ensino fundamental e
médio.
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Pagar por isso
O custo
do programa de Mamdani é estimado em US$ 10 bilhões por ano. Mas a cidade é
essencialmente subordinada ao estado e não há garantia de que o governo
estadual concordará. Mamdani planeja aumentar a alíquota máxima do imposto
corporativo de 7,25% para 11,5% – um aumento que, segundo suas estimativas,
arrecadará US$ 5 bilhões por ano. Ele também planeja aumentar o imposto de
renda para o 1% mais rico da população, ou cerca de 34.000 famílias com renda
superior a US$ 1 milhão por ano, em 2%. Mamdani estima que isso arrecadará mais
US$ 4 bilhões.
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Aumentar o salário mínimo
Mamdani
afirma que pretende defender uma nova lei municipal para elevar o salário
mínimo a US$ 30 por hora até 2030. "Na cidade mais rica do mundo, receber
o salário mínimo não deveria significar viver na pobreza", argumenta seu
manifesto. "Mas é exatamente isso que significa para os trabalhadores hoje
em dia."
Nova
York à prova de Trump
Apesar
do encontro surpreendentemente festivo com Donald Trump na Casa Branca em
novembro, Mamdani afirma que o presidente "está destruindo o tecido social
da cidade de Nova York". Ele planeja "combater as tentativas de Trump
de explorar a classe trabalhadora", fortalecer o aparato de proteção às
cidades-santuário, retirar o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) das
instalações da cidade, encerrar qualquer cooperação com o ICE e ampliar os
serviços jurídicos de imigração para cerca de 400 mil nova-iorquinos que correm
o risco de deportação.
Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

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