quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Zohran Mamdani começa teste de fogo para 'nova esquerda' global ao assumir prefeitura de Nova York

Zohran Mamdani tomou posse em 1° de janeiro de 2026, como o 111° prefeito de Nova York, nos Estados Unidos. Com 34 anos, ele é o primeiro prefeito muçulmano da cidade e o mais jovem em mais de um século.

O juramento histórico ocorre em uma cerimônia reservada, em uma estação de metrô abandonada no subsolo da prefeitura, com a presença da família de Mamdani.

Em cerimônia conduzida pela procuradora-geral de Nova York, Letitia James, o novo prefeito presta seu juramento exatamente à meia-noite do Dia de Ano Novo.

Mais tarde, no mesmo dia, Mamdani será publicamente empossado pelo senador Bernie Sanders e irá discursar em uma cerimônia de posse, na escadaria da prefeitura, perto das 13 horas, hora local (15h de Brasília).

O público foi convidado a comparecer a uma festa nas ruas na Broadway, que leva à prefeitura.

A campanha eleitoral para a prefeitura, em novembro, atraiu ainda mais atenção do que de costume.

Mamdani é congressista do Estado de Nova York. Ele começou o ano como um candidato quase desconhecido, até disparar para o topo das pesquisas.

Sua eleição foi um divisor de águas para os progressistas, sinalizando uma mudança do centro de gravidade na política da cidade.

Mamdani se apresentou como candidato do povo e líder comunitário.

Antes de entrar na política, Mamdani trabalhou como consultor no setor de habitação. Ele ajudava moradores de baixa renda no Queens a evitar que fossem despejados.

Filho de pais indianos nascido na capital de Uganda, Kampala, ele se mudou com a família para Nova York com sete anos de idade.

Mamdani cursou o Ensino Médio de ciências no Bronx e se formou posteriormente em Estudos Africanos no Bowdoin College. Lá, ele foi um dos fundadores da seção dos Estudantes para a Justiça na Palestina do campus.

Sua mãe, Mira Nair, é uma reconhecida diretora de cinema e seu pai, o professor Mahmood Mamdani, leciona na Universidade de Columbia. Ambos são ex-alunos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

<><> Casado com uma artista americana com raízes na Síria

Mamdani e sua esposa se conheceram no aplicativo de encontros Hinge.

A artista Rama Duwaji, moradora do Brooklyn, tem 28 anos de idade.

Ela nasceu em Houston, no Estado americano do Texas. Com nove anos de idade, ela se mudou para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de frequentar rapidamente a escola no Catar.

Seus pais são muçulmanos sírios originalmente de Damasco, segundo a imprensa árabe.

Duwaji se formou na Universidade da Comunidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e fez um mestrado em Ilustração na Escola de Artes Visuais, em Nova York.

Ela preferiu se manter longe dos holofotes e raramente dá entrevistas à imprensa, mesmo com a ascensão do marido. Mas o que se comenta é que ela tem sido uma força importante nos bastidores, segundo a rede de TV americana CNN.

Como artista com raízes na Síria, Duwaji costuma explorar temas do Oriente Médio em seus trabalhos. Suas obras já apareceram na BBC News, nos jornais The New York Times e The Washington Post, na revista Vice e no museu Tate Modern, em Londres.

"Rama não é apenas minha esposa. É uma artista incrível, que merece ser conhecida pelo seu trabalho", escreveu Mamdani nas redes sociais em 12 de maio, ao anunciar que eles haviam se casado três meses antes.

Em recente entrevista à revista The Cut, ela descreveu a experiência de se tornar primeira-dama de Nova York como "surreal".

"Quando ouvi pela primeira vez, parecia tão formal. Não que eu não me sentisse merecedora, mas parecia... 'eu?' Agora, aceito um pouco mais e digo simplesmente: 'Existem diferentes formas de ser primeira-dama.'"

<><> A promessa de uma 'nova era'

Mamdani é um millennial progressista. Ele será o primeiro prefeito de Nova York muçulmano e com origem no sul da Ásia — e se manteve fiel às suas raízes, em uma cidade tão diversificada.

Ele fez da sua fé muçulmana uma parte visível da sua campanha eleitoral. Mamdani visitou mesquitas regularmente e publicou um vídeo de campanha em idioma urdu, sobre a crise do custo de moradia da cidade.

"Sabemos que se apresentar em público como muçulmano também é sacrificar a segurança que, às vezes, podemos encontrar nas sombras", declarou ele, em um comício de campanha.

Mamdani declarou que os eleitores da cidade mais cara dos Estados Unidos desejam que os democratas se concentrem no custo de vida.

"Esta é uma cidade que tem um em cada quatro de seus habitantes morando na pobreza, uma cidade em que 500 mil crianças vão dormir com fome todas as noites", destacou ele à BBC, em um evento recente.

"E, em última análise, é uma cidade que está em perigo de perder o que a torna tão especial."

Entre suas propostas, destacam-se:

•        Serviço de ônibus com tarifa zero em toda a cidade;

•        Congelamento dos aluguéis e prestação de contas mais rigorosa para os senhorios negligentes;

•        Rede de mercearias municipais, com preços baixos;

•        Serviço de creche universal para crianças entre seis semanas e cinco anos;

•        Triplicar a produção de moradias construídas pelos sindicatos, com aluguéis estáveis.

Seu plano também inclui "reformular" a prefeitura para responsabilizar os proprietários de imóveis e expandir massivamente as moradias permanentemente acessíveis.

Durante a sua campanha, ele relacionou essas políticas a gestos altamente visuais e virais.

Mamdani mergulhou no Oceano Atlântico para dramatizar o congelamento dos aluguéis e quebrou o jejum do Ramadã em um trem de metrô com um burrito, para destacar a insegurança alimentar.

Dias antes das eleições primárias, ele caminhou por toda Manhattan, parando para tirar selfies com eleitores.

Mamdani defende que pode reduzir o custo de vida na cidade, mas os críticos questionam suas ambiciosas promessas.

O então candidato a prefeito Andrew Cuomo e outros críticos afirmaram que Mamdani não tem experiência e é radical demais para uma cidade com um orçamento de US$ 115 bilhões (cerca de R$ 631 bilhões) e mais de 300 mil funcionários municipais.

Apoiado por grandes doadores e personalidades de centro, como o ex-presidente americano Bill Clinton (1993-2001), Cuomo insiste na importância da experiência.

Para ele, "a experiência, a competência, saber como fazer o trabalho, saber como lidar com Trump, saber como lidar com Washington, saber como lidar com o legislativo estadual, tudo isso é o básico. Acredito no treinamento durante o trabalho, mas não como prefeito de Nova York."

O jornal The New York Times não apoiou nenhum candidato nas eleições primárias para prefeito da cidade e criticou todos os postulantes.

Em editorial, o jornal declarou que a agenda de Mamdani é "excepcionalmente inadequada para os desafios da cidade" e "ignora frequentemente os compromissos da governança".

O congelamento dos aluguéis restringiria a oferta de moradia, segundo o editorial do famoso jornal de Nova York.

<><> Israel e Palestina

Em um recente evento de campanha de Mamdani em um parque em Jackson Heights, uma das comunidades mais diversificadas do país, crianças corriam e brincavam nos balanços, enquanto ambulantes de origem latina vendiam sorvete e lanches.

De muitas formas, a cena capturava perfeitamente a diversidade local, que muitos democratas consideram o maior patrimônio de Nova York. Mas a cidade não está livre de tensões políticas e raciais.

Mamdani conta que recebe ameaças islamofóbicas todos os dias, algumas delas dirigidas à sua família. A polícia informou que há uma investigação em andamento sobre crimes de ódio relativos a essas ameaças.

O prefeito eleito declarou à BBC que o racismo é um indicador do que está errado na política americana. Ele também criticou o Partido Democrata, "que permitiu a reeleição de Donald Trump" e falhou ao defender trabalhadores, "independentemente de quem são ou de onde eles vieram".

A posição dos candidatos sobre a guerra na Faixa de Gaza provavelmente também esteve na mente dos eleitores. E o forte apoio de Mamdani aos palestinos e suas críticas a Israel contrariam a maior parte do Partido Democrata.

O congressista apresentou um projeto de lei para pôr fim à isenção de impostos às organizações beneficentes de Nova York ligadas a assentamentos israelenses que violem a legislação internacional sobre direitos humanos.

Ele também afirmou acreditar que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, deveria ser preso.

Mamdani foi pressionado inúmeras vezes em entrevistas na imprensa, para que declarasse se apoia o direito de Israel de existir como Estado judeu. E, certa vez, ele respondeu:

"Não me sinto confortável para apoiar qualquer Estado que tenha uma hierarquia de cidadania baseada na religião ou em qualquer outra coisa. Acho que, da forma que temos neste país, a igualdade deve ser consagrada em todos os países do mundo. É nisso que acredito."

Mamdani também declarou que não há espaço para o antissemitismo na cidade de Nova York e destacou que, se fosse eleito, aumentaria as verbas para o combate a crimes de ódio.

•        O que Mandani defendeu durante a campanha

Ohran Mamdani tomou posse como o 111º prefeito de Nova York à meia-noite em ponto, o primeiro prefeito muçulmano, bem como o primeiro a assumir o cargo como democrata com credenciais de socialista democrático.

O homem de 34 anos foi empossado por Letitia James, procuradora-geral do estado, em uma estação de metrô desativada sob a prefeitura, que serve como ponto de retorno para a linha 5 do metrô, e em seguida houve uma festa de rua inédita ao longo do "Canyon of Heroes" da Broadway.

“Mal posso esperar para ver todos vocês amanhã, quando começarmos nosso mandato”, disse Mamdani de uma ampla escadaria do metrô. “Esta é verdadeiramente a honra e o privilégio de uma vida inteira.”

Mamdani afirmou no ano passado que sua campanha eleitoral seria "em poesia", ou seja, com um senso de idealismo, mas que governaria "em prosa", ou seja, com praticidade. Agora começa o trabalho de governar, e navegar pelo terreno politicamente complexo da maior cidade dos Estados Unidos, onde princípios ideológicos podem não se traduzir facilmente em uma governança eficaz.

Mamdani e sua equipe de transição nomearam mais de 400 nova-iorquinos para atuarem como conselheiros em assuntos de pessoal e políticas públicas. O tema central é cumprir a agenda do prefeito de acessibilidade, ou direitos econômicos. A plataforma de Mamdani, segundo seu site , baseia-se na premissa de que “Nova York é muito cara. Zohran reduzirá os custos e tornará a vida mais fácil”.

<><> Congele o aluguel

A campanha do prefeito destacou que 2 milhões de nova-iorquinos vivem em apartamentos com aluguel estabilizado e que “essas moradias deveriam ser a base da segurança econômica da classe trabalhadora da cidade”. Ele prometeu congelar os aumentos de aluguel, mas não tem poder direto para isso e precisa contornar a comissão responsável pelas diretrizes de aluguel.

Mamdani também prometeu triplicar a produção da cidade de "moradias permanentemente acessíveis, construídas por sindicatos e com aluguel estabilizado" – construindo 200.000 novas unidades na próxima década – e reprimir os proprietários negligentes.

<><> Segurança da comunidade

Mamdani afirma que todo nova-iorquino merece estar seguro e que isso exige “criar estabilidade econômica, trabalho digno e bairros bem estruturados”. Um recém-criado Departamento de Segurança Comunitária será encarregado de “prevenir a violência antes que ela aconteça, adotando uma abordagem de saúde pública para a segurança”. Na prática, isso pode significar o envio de profissionais civis de saúde mental – e não da polícia ou do corpo de bombeiros – para intervir em crises de saúde mental.

<><> Acessibilidade

Mamdani propõe que supermercados municipais, utilizando prédios de propriedade da cidade e vendendo a preços de atacado, ajudariam a reduzir o aumento dos custos dos alimentos. Ele estima que um em cada cinco nova-iorquinos tem dificuldades para pagar o transporte público. Ele planeja eliminar as tarifas de ônibus em todos os ônibus da cidade e construir novas faixas exclusivas para ônibus, a fim de torná-los mais rápidos. Ele também planeja reprimir a publicidade enganosa e os contratos abusivos, e proibir todas as taxas ocultas. Em sua posse, Mamdani nomeou o experiente planejador urbano Mike Flynn como o novo secretário de transportes de Nova York.

<><> Educação infantil e educação

Mamdani afirma que o maior custo para os nova-iorquinos que trabalham, depois do aluguel, são os custos com creche, e que isso está expulsando famílias com crianças da cidade. Ele propõe creche gratuita para todos os nova-iorquinos de seis semanas a cinco anos de idade. Com 125 mil bebês nascidos anualmente na cidade, as novas mães receberão “um conjunto de bens e recursos essenciais, gratuitamente, incluindo itens como fraldas, lenços umedecidos, absorventes para amamentação, absorventes pós-parto, cueiros e livros”. Ele também planeja financiar a expansão dos serviços de educação infantil do ensino fundamental e médio.

<><> Pagar por isso

O custo do programa de Mamdani é estimado em US$ 10 bilhões por ano. Mas a cidade é essencialmente subordinada ao estado e não há garantia de que o governo estadual concordará. Mamdani planeja aumentar a alíquota máxima do imposto corporativo de 7,25% para 11,5% – um aumento que, segundo suas estimativas, arrecadará US$ 5 bilhões por ano. Ele também planeja aumentar o imposto de renda para o 1% mais rico da população, ou cerca de 34.000 famílias com renda superior a US$ 1 milhão por ano, em 2%. Mamdani estima que isso arrecadará mais US$ 4 bilhões.

<><> Aumentar o salário mínimo

Mamdani afirma que pretende defender uma nova lei municipal para elevar o salário mínimo a US$ 30 por hora até 2030. "Na cidade mais rica do mundo, receber o salário mínimo não deveria significar viver na pobreza", argumenta seu manifesto. "Mas é exatamente isso que significa para os trabalhadores hoje em dia."

Nova York à prova de Trump

Apesar do encontro surpreendentemente festivo com Donald Trump na Casa Branca em novembro, Mamdani afirma que o presidente "está destruindo o tecido social da cidade de Nova York". Ele planeja "combater as tentativas de Trump de explorar a classe trabalhadora", fortalecer o aparato de proteção às cidades-santuário, retirar o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) das instalações da cidade, encerrar qualquer cooperação com o ICE e ampliar os serviços jurídicos de imigração para cerca de 400 mil nova-iorquinos que correm o risco de deportação.

 

Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

 

Nenhum comentário: