Paulo
Kliass: Qual equilíbrio fiscal?
Durante
os últimos dias de 2025, o Banco Central (BC) voltou às páginas e às telas dos
grandes meios de comunicação. O escândalo multifacetado envolvendo o Banco
Master passou a receber destaques e holofotes, tendo em vista os valores
bilionários envolvidos nas operações desta empresa do financismo. Trata-se de
um caso complexo, com possibilidade de que a crise possa respingar em grupos de
interesse e personalidades de grande cacife no mundo empresarial, político e
jurídico.
A
estratégia empresarial do banco presidido por Daniel Vorcaro já era amplamente
conhecida por todos aqueles que tinham alguma intimidade com o modus operandi
do grupo no mercado financeiro. Até as belas peças de mármore que servem como
piso de entrada nos edifícios da Faria Lima sabiam que aquele modelo era
insustentável, caso não contasse com apoio e cumplicidade de gente muito
poderosa na estrutura do Estado brasileiro. Vorcaro contava com esse elemento
para arriscar ainda mais na conduta irresponsável, de modo a atrair mais e mais
clientes para seu banco. No final, uma multiplicidade de fraudes foi apontada
pelos investigadores e pelo Ministério Público na ação que levou à sua prisão
em novembro passado. No entanto, graças à intensa rede de contatos que sempre
manteve bastante azeitada, o banqueiro conseguiu ser liberado logo em seguida.
Mas as investigações prosseguem.
Enfim,
uma das causas para esse escândalo ter conseguido sobreviver por tanto tempo —
sem que nenhum tipo de ação em sentido contrário tenha sido adotado por parte
do Estado brasileiro — reside exatamente na absoluta complacência do órgão que
deveria regular e fiscalizar o sistema bancário e financeiro. Apesar de todas
as evidências apontando para a prática de crimes em andamento contínuo sob as
suas barbas, o BC nada fez para impedir tais condutas. Permanece com a mesma
cara de paisagem que o órgão apresenta quando se trata de spreads monumentais
praticados pela banca ou quando o tema são as tarifas absurdas cobradas dos
clientes em suas operações no sistema.
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BC sempre a favor do rentismo e do financismo
É bem
verdade que tal impunidade do BC vem de longe e não pode ser caracterizada como
uma particularidade da gestão de Galípolo. Trata-se de mais uma manifestação do
fenômeno que os estudiosos classificam como “captura das agências reguladoras”.
Elas passam a defender os interesses das grandes empresas que operam no ramo ou
setor que deveriam regular, justamente para defender os interesses dos
usuários, dos cidadãos e do conjunto da sociedade. Os dirigentes de tais
instituições públicas são capturados pelo capital privado, e a lógica da
regulamentação fica de cabeça para baixo. Ou seja, estamos diante de algo muito
semelhante ao que ocorre na relação da SUSEP com as seguradoras, da ANATEL com
as empresas de telefonia, da ANEEL com as empresas de energia elétrica, da ANS
com as empresas de planos de saúde privados etc.
No
entanto, o BC também costuma frequentar as manchetes da imprensa por outra
ordem de razões. Refiro-me aqui às atribuições do Comitê de Política Monetária
(COPOM). Afinal, os integrantes do colegiado que tem por responsabilidade a
definição do patamar da taxa oficial de juros são os próprios diretores do
banco. A cada 45 dias, eles trocam de boné, fecham-se em uma longa reunião
durante uma terça e uma quarta-feira e, logo em seguida, o país fica conhecendo
qual será o nível da SELIC para o próximo período.
Todos
sabemos da profunda irresponsabilidade do colegiado ao estabelecer, de forma
sistemática, a taxa referencial nos atuais 15% ao ano. Com tal decisão, fica
estabelecido que o Brasil continua mantendo o vergonhoso segundo lugar no
campeonato mundial da taxa real de juros. Como a inflação está situada em torno
de 5%, a remuneração financeira mínima, em termos reais, é de aproximadamente
10%. Uma loucura! Ao arbitrar a rentabilidade mínima do sistema financeiro
nesse nível, o COPOM insiste na priorização das alocações de recursos no âmbito
financeiro, em detrimento do necessário estímulo aos investimentos no setor
real da economia.
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Despesas com juros na faixa do trilhão
Porém,
a mesma decisão relativa à SELIC provoca uma explosão das despesas financeiras
do governo federal. Afinal, os gastos com juros da dívida pública têm o mesmo
impacto sobre o Orçamento Geral da União (OGU) que os dispêndios com saúde,
previdência social, educação e outros. A única diferença é que os últimos são
classificados com o adjetivo “primário”, ao passo que os gastos financeiros
recebem o carimbo de “não primários”. Como as regras jurídicas e institucionais
das últimas décadas seguem sendo orientadas segundo as determinações do já
extinto Consenso de Washington, não há limite, nem teto, nem contingenciamento
para as despesas com juros.
Dessa
forma, as Atas do COPOM se metem a dar lição de moral a respeito da política
fiscal, ainda que isso fuja completamente ao escopo e às atribuições do
colegiado. Por exemplo, desde a 271ª reunião realizada em junho deste ano,
quando o COPOM decidiu elevar a SELIC para 15%, a menção à política fiscal se
faz por um explícito movimento de copiar e colar do item. O parágrafo versando
a respeito da política fiscal é repetido de forma monotônica em todas as Atas
do colegiado.
(...) A
política fiscal tem um impacto de curto prazo, majoritariamente por meio de
estímulo à demanda agregada, e uma dimensão mais estrutural, que tem potencial
de afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e impactar o prêmio a
termo da curva de juros. Uma política fiscal que atue de forma contracíclica e
contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação
à meta. O Comitê reforçou a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas
estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as
incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a
taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da
política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos
de atividade. O Comitê manteve a firme convicção de que as políticas devem ser
previsíveis, críveis e anticíclicas. Em particular, o debate do Comitê
evidenciou, novamente, a necessidade de políticas fiscal e monetária
harmoniosas. (...) [GN]
Efeitos
de dificuldade com o economês à parte, o fato é que o comitê responsabiliza o
governo, o Congresso Nacional e a própria sociedade pela alta dos custos
financeiros. Afinal, o aumento da dívida pública tem sido resultado direto do
elevado custo de rolagem da mesma, em função da SELIC nas estratosferas. É o
popular caso de enxugar gelo ou do cachorro correndo atrás do próprio rabo. A
taxa oficial elevada aumenta as despesas orçamentárias de natureza financeira,
que provocam déficit fiscal, que aumenta o endividamento público. E, por isso,
na próxima reunião, o COPOM aumenta ou não diminui a SELIC por conta das
“incertezas sobre a estabilização da dívida púbica” (sic).
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Gastos com juros têm tratamento VIP
O
último Relatório Fiscal do BC divulgado neste ano traz informações trágicas a
esse respeito. No mês de novembro, o volume de despesas do governo federal com
juros da dívida pública atingiu o total de R$ 87 bilhões. Isso significa uma
média diária de dispêndio dessa natureza de R$ 3,8 bi. Uma loucura imaginarmos
que, a cada dia útil de novembro, o volume de gastos seja superior à maioria
das cifras anuais que ganham manchetes nos jornais, com gritos acusadores de
“gastança irresponsável”, sempre que se trata de rubricas de natureza social.
Já o
acumulado dos últimos 12 meses se aproxima perigosamente da marca de R$ 1
trilhão — desta vez estamos com R$ 982 bi. Ao longo dos primeiros 11 meses de
2025, a soma registra R$ 886 bi, uma média mensal de R$ 77 bi. Mais do que uma
referência simbólica, esse valor escancara a falácia do esforço da austeridade
fiscal, tão propalada por Haddad e mesmo por Lula. Eles insistem em bater no
próprio peito por tal compromisso com um suposto rigor na condução das contas
públicas. Mas o fato é que, apesar de o governo ter enviado um compromisso no
Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias estipulando uma meta de superávit
fiscal primário de 0,25%, o resultado fiscal nominal — aquele que efetivamente
interessa em termos macroeconômicos — é de um déficit trilionário.
E o
mais contraditório dessa novela toda é que isso não significa que estejamos nos
aproximando do fim do mundo ou da antessala do apocalipse. O Brasil vem
apresentando déficit nominal de forma sistemática há décadas, assim como tem
ocorrido mais recentemente com os países desenvolvidos. E isso não é um
problema, uma vez que mais de 95% de nossa dívida pública é denominada em moeda
nacional, em reais. Isso significa que, ao contrário do que acontecia conosco
antes do Plano Real de 1994 e do que ocorre ainda hoje com a maioria dos países
do chamado Terceiro Mundo, não precisamos realizar um grande esforço nacional
para gerar divisas e honrar compromissos em moeda estrangeira. Ao contrário do
que nos querem fazer crer os arautos do financismo, o calcanhar de Aquiles
deste imbróglio não é o valor do estoque do endividamento público, mas o custo
do fluxo de seu serviço — os juros — em razão da SELIC elevada.
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Novo Arcabouço Fiscal não resolve: seguimos com déficit nominal
Por
outro lado, estamos muito longe da relação dívida pública/PIB exibida por
países como os Estados Unidos, os integrantes da União Europeia, a Inglaterra,
o Japão, o Canadá e outros. De acordo com o Tesouro Nacional, a participação da
Dívida Líquida do Setor Público sobre o PIB é inferior a 70%, quando os países
acima mencionados variam entre 120% e 200%. E ninguém quebrou até o momento por
essa razão. Assim, o clima de catastrofismo criado pelo povo do financismo e
reproduzido pelos responsáveis da área econômica do governo só serve para
aprofundar a austeridade fiscal de forma desnecessária e transferir recursos do
orçamento governamental para os setores do topo da nossa pirâmide da
desigualdade.
A
retórica de um suposto compromisso com a austeridade fiscal não se sustenta.
Apesar do rigor no controle das contas públicas, o Brasil ainda apresenta um
déficit nominal expressivo. Mas isso não é preocupante. O fundamental seria
reverter a orientação da política econômica com vistas a buscar o
desenvolvimento econômico, social e ambiental. Não há razões para se
criminalizar o gasto público e conviver eternamente com o suposto fantasma do
déficit e da dívida a nos atormentar. Estamos há décadas operando sob um
ambiente de déficit fiscal nominal, e nem por isso os entes apocalípticos
desceram dos céus para nos apresentar o fim dos tempos.
• Maioria dos bancos espera desaceleração
gradual do crédito em 2026
A
maioria dos bancos espera que a carteira de crédito total em 2025 feche o ano
com alta de 9,2%, e desacelere de forma bem gradual em 2026, chegando a 8,2%.
Esta projeção está em linha com os números recentes do mercado de crédito, que
tem apresentado um alto crescimento anual do saldo total, apesar da alta da
Selic. É o que aponta a Pesquisa de Economia Bancária e Expectativas da
Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), que ouviu 20 bancos entre 17 e 19
de dezembro.
No
levantamento anterior, a expectativa para 2025 era de uma alta de 8,9%. A
estimativa de 9,2% reflete o aumento da expectativa de crescimento do crédito
direcionado, com a projeção subindo de 10,1% para 10,9%. Esse movimento é
explicado pelo crédito PJ (15,3%, ante 13,6%), que segue com alto nível de
expansão, sustentado pelos programas governamentais.
Ainda
sobre o saldo de crédito em 2025, na carteira direcionada para famílias, a
expectativa de crescimento também subiu, de 8,4% para 8,7%, refletindo a
resiliência do crédito habitacional, compensando o menor dinamismo do crédito
rural.
Na
carteira livre, também sobre o saldo estimado para 2025, a expectativa de
crescimento caiu marginalmente de 8,1% para 8,0%. A revisão decorreu do menor
crescimento esperado para a carteira PJ, que recuou de 5,1% para 3,6%, em razão
das condições financeiras mais apertadas, elevação do IOF e da concorrência com
as operações direcionadas e o mercado de capitais.
A
projeção de crescimento da carteira Livre PF avançou de 10,3% para 11,0%, em
função do bom dinamismo apresentado pela carteira em 2025, embora com uma piora
de composição (aumento de linhas rotativas).
Para
2026, uma parcela expressiva (73,7%) dos analistas acredita que o saldo total
deve desacelerar, mas apenas de forma gradual. Além disso, 15,8% dos
participantes esperam que o crédito mantenha o ritmo atual de expansão no
próximo ano. Com isso, a pesquisa também captou um aumento na projeção de
crescimento do saldo de crédito total, que subiu de 7,9% para 8,2%, com melhora
tanto na carteira livre (de 7,4% para 7,6%) quanto na direcionada (de 9,0% para
9,4%).
“A alta
das projeções do saldo do crédito para 2026 vem em linha com as divulgações
recentes, que mostram que 2025 foi marcado por uma moderação bastante gradual
do mercado de crédito, que permaneceu com um crescimento razoavelmente robusto,
mesmo com o elevado nível da taxa Selic. Este crescimento foi sustentado pelos
programas governamentais para as MPMEs e linhas de consumo para as famílias”,
avalia Rubens Sardenberg, diretor de Economia, Regulação Prudencial e Riscos da
Febraban.
“Para
2026, a expectativa é que essa desaceleração gradual prossiga ao longo do ano,
levando a um crescimento de 8,2%, com o movimento sendo liderado pela carteira
Direcionada PJ, dada a elevada base de comparação deste segmento, que tende a
fechar 2025 com alta superior a 15%”, complementa Sardenberg.
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Taxa Selic e inflação
A
pesquisa, realizada sempre após a divulgação da Ata da última reunião do Comitê
de Política Monetária (Copom), também aponta que a maioria dos bancos (70%)
acredita que o início do ciclo de queda da taxa Selic deverá ocorrer apenas na
reunião do Copom de março. Assim, a taxa Selic deve permanecer em 15% ao ano no
COPOM de janeiro, com reduções consecutivas de 0,50 pp a partir da segunda
reunião do ano.
O
levantamento mostra ainda que, para 50% dos participantes, a inflação em 2026
deve seguir em linha com o consenso do mercado, ou seja, permanecendo acima da
meta, devido aos estímulos fiscais e de crédito. Por outro lado, 35% projetam
uma inflação abaixo do consenso, sugerindo uma continuidade do viés de queda
das projeções.
“A
evolução recente do cenário econômico, somado à comunicação do BC, tem levado o
mercado a convergir para uma expectativa de início do ciclo de corte da taxa
Selic a partir de março. A principal questão agora parece ser qual velocidade o
Copom conseguirá cortar os juros ao longo do ano. Por ora, as expectativas
ainda são conservadoras e indicam uma trajetória moderada de corte dos juros,
apesar do alto nível da Selic.”, avalia Rubens Sardenberg, diretor de Economia,
Regulação Prudencial e Riscos da Febraban.
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Atividade econômica, meta fiscal e inadimplência
Em
relação à atividade, a Pesquisa captou uma melhora do sentimento dos
participantes para 2026. O percentual de analistas que projetam um crescimento
de 1,8% para o ano subiu de 36,4% para 55%. Por outro lado, caiu de 45,5% para
30% a proporção daqueles que esperam um crescimento inferior ao esperado pelo
consenso do mercado.
Apesar
de nenhum participante esperar que o governo descumpra a meta fiscal de 2026,
80% acreditam que o governo precisará de medidas adicionais para cumprir a
meta, sendo que 45% esperam que agenda seja focada em medidas do lado das
despesas (bloqueios e contingenciamentos, ou ainda, retirada de despesas do
arcabouço fiscal, por ex.).
A
trajetória da taxa de inadimplência segue como um ponto de atenção. A projeção
do indicador para a carteira com recursos livres em 2025 permaneceu em 5,1%,
enquanto para 2026, subiu para 5,2% (ante 5,1%). Este patamar é um pouco
inferior ao reportado pelo Banco Central para o mês de outubro, quando a taxa
ficou em 5,3%.
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EUA
Para os
Estados Unidos, a maior parte (60%) dos bancos pesquisados espera que o Fed
realize dois cortes de 0,25 pontos percentuais nos Fed Funds em 2026, em razão
da moderação da atividade econômica e do mercado de trabalho do país, embora a
inflação acima da meta não deva permitir um ciclo tão agressivo.
Fonte:
Brasil 247

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