quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hebe Ayyad: Fabricando o medo - como Netanyahu transforma a guerra em campanha eleitoral

Netanyahu tenta enquadrar as próximas eleições em uma atmosfera de emergência, em que perguntas como “Quem é o mais capaz de gerenciar a guerra?” e “Quem é o mais durão?” passam a ser feitas em vez da pergunta fundamental: “Quem arcará com a responsabilidade pelo fracasso?”

À medida que Israel se aproxima de mais uma eleição, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu parece estar não apenas administrando os assuntos de Estado como chefe de governo, mas também, cada vez mais, manipulando a opinião pública israelense por meio de uma política sistemática de manutenção de um estado de tensão e conflito, sem escalar para uma guerra declarada — parte integrante de sua estratégia eleitoral.

Portanto, a crescente retórica bélica contra o Irã na mídia israelense não pode ser vista isoladamente dos preparativos políticos para as próximas eleições. Como escreveu Ofer Shelah, pesquisador do Instituto Israelense de Estudos de Segurança Nacional e ex-membro do Knesset: “Os ventos belicistas que sopram na mídia israelense derivam mais de considerações internas do que de uma ameaça clara e imediata vinda do Oriente.” Essa descrição resume a essência da fase atual: uma ameaça exagerada, um perigo controlado e uma função política clara.

O confronto de doze dias entre Israel e Irã confirmou uma verdade que se tornou quase universalmente aceita nos círculos políticos e de segurança israelenses e ocidentais: o cerne do conflito com o Irã não se limita ao programa nuclear ou aos mísseis balísticos, mas diz respeito à própria natureza do regime. Contudo, a conclusão mais importante é que a guerra não é o meio adequado para derrubar esse regime.

A experiência tem demonstrado que qualquer confronto militar direto com o Irã não enfraquece o regime; pelo contrário, concede-lhe maior legitimidade interna e fornece-lhe razões para perseverar e angariar apoio popular, inclusive em setores da oposição. A cada confronto, o regime iraniano emerge mais coeso e mais capaz de controlar seus assuntos internos — e não o contrário.

Além disso, avaliações israelenses indicam que qualquer futura rodada militar será mais violenta e brutal do que as anteriores e mais custosa para Israel, sem garantir uma verdadeira vitória estratégica.

No plano regional, o ambiente circundante não suportaria uma guerra em larga escala entre Israel e Irã. A maioria dos países da região, especialmente os Estados do Golfo, não tem interesse em um confronto aberto que alteraria o cenário e tornaria seus territórios alvos potenciais.

Ademais, os Estados Unidos não parecem convencidos de que a “ameaça iraniana” possa ser eliminada por meio de um ataque militar decisivo; caso contrário, não teriam parado nos limites da rodada anterior. Ficou claro que eliminar a ameaça sem derrubar o regime é impossível, e derrubá-lo pela força militar é irrealista.

Sob essa perspectiva, as táticas de pressão econômica e diplomática surgem como uma opção mais eficaz a longo prazo, enquanto a dependência da força militar — que comprovadamente concede ao regime iraniano o que ele precisa para sobreviver, e não para cair — tende a diminuir.

Quanto à ideia de lançar um ataque militar a cada ano ou a cada seis meses, segundo a chamada teoria de “aparar a grama”, sua eficácia se reduziu, pois nem Israel, nem o Oriente Médio, nem os Estados Unidos podem se dar ao luxo de uma guerra de desgaste prolongada.  Apesar dessas convicções, a tensão contínua com o Irã desempenha uma função política interna crucial: reforçar a imagem de Netanyahu como guardião da segurança nacional diante de uma “ameaça existencial”. Historicamente, a sociedade israelense tende a se unir em torno da liderança vigente, em vez de buscar mudanças em tempos de ameaça.

Da mesma forma, manter a frente norte com o Líbano à beira de uma explosão cria uma sensação constante de que a guerra ainda não terminou e de que mudar a liderança neste momento seria uma aposta imprudente.

Quanto a Gaza, o governo israelense não está buscando seriamente uma “segunda fase” nem implementando um caminho claro para o fim da guerra, mas sim administrando um conflito de desgaste prolongado.

Isso inclui não se retirar da Faixa, consolidar sua divisão em leste e oeste ao longo da “linha amarela”, manter a população em condições humanitárias precárias, impedir a transição para a recuperação e reconstrução e manter a ausência de qualquer perspectiva política.

Todos esses elementos perpetuam a “ameaça” e justificam a continuidade da retórica de linha-dura em matéria de segurança, servindo, assim, ao propósito de Netanyahu de convencer o eleitorado israelense de que “a missão ainda não está completa”.

Nesse contexto, a escalada com o Irã, assim como com Gaza e o Líbano, deixa de ser uma questão puramente de segurança e passa a ser, cada vez mais, uma questão de cálculos políticos internos de Netanyahu. Nos próximos meses, ele tentará impor uma única agenda política ao público israelense: a guerra não acabou.

O objetivo é claro: impedir que a oposição redirecione a atenção para questões que enfraquecem Netanyahu politicamente, sobretudo o fiasco de 7 de outubro, os casos de corrupção e o julgamento, além da crise do recrutamento militar dos ultraortodoxos, que ameaça a coesão da coalizão. Em uma atmosfera de perigo, as questões de responsabilização perdem força e a retórica da “unidade sob a liderança” assume o protagonismo.

Ao mesmo tempo, Netanyahu não hesita em atacar pessoalmente seus rivais políticos, como tem feito com Naftali Bennett em relação à suposta invasão iraniana de sua conta no Telegram, no contexto de uma campanha eleitoral antecipada.

Netanyahu busca entrar nas próximas eleições em uma atmosfera que se assemelha a um estado de emergência permanente, em que questões como “Quem é mais capaz de gerenciar a guerra?” e “Quem é mais duro com os ‘inimigos’?” são levantadas, em vez das questões fundamentais: “Quem é o responsável pelo fracasso?”, “Quem resolverá as crises internas?” e “Quem acabará com a divisão social?”.

Nesse sentido, a tensão militar e política externa não é resultado de uma avaliação de segurança confusa, mas de uma escolha estratégica consciente que serve à continuidade do governo de Netanyahu. Enquanto o medo prevalecer e a guerra permanecer presente na consciência pública, Netanyahu se mantém em sua posição preferida: a posição da segurança e da ameaça existencial, em que a política recua e o instinto de segurança prevalece.

Ele procura, assim, entrar nas próximas eleições em uma atmosfera que remete a um estado de emergência permanente, no qual a política se sobrepõe ao debate racional. Em Israel hoje, as guerras não são travadas apenas nos campos de batalha, mas também nas urnas — antes mesmo de serem abertas.

•        Israel ameaça proibir 37 ONGs em Gaza; países pedem medidas urgentes contra crise humanitária

Após a visita do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a Washington, na terça (29/12), o presidente norte-americano, Donald Trump, prometeu que o Hamas pagará “um preço alto se não entregar as armas”. Este é um dos principais pontos da segunda fase do acordo de paz negociado pelos EUA com Israel, que entrou em vigor em outubro e inclui também a reconstrução do enclave. Mas o ceticismo reina entre a população de Gaza, onde a situação humanitária continua catastrófica.

O cotidiano dos palestinos em Gaza se resume à sobrevivência. Em um acampamento improvisado à beira-mar, Oum Ahed, 50 anos, moradora do enclave, lamenta a precariedade nos assentamentos. “Essas pequenas tendas doadas para a gente foram levadas pelo vento dos últimos dias”, relata. “À noite, as pessoas gritam porque a água sobe e leva tudo, inclusive as barracas e os móveis. Queremos abrigos mais sólidos, porque ainda vamos ficar aqui por anos, dois, cinco ou talvez dez”, diz.

Hamdi Ali, outro morador do enclave, diz não ter grandes expectativas em relação às negociações com Israel. Sua única preocupação é sustentar a família de oito pessoas. “Não temos ideia do que nos espera e não confiamos em ninguém, além de Deus. Os países estrangeiros zombam da gente”, lamenta. “Há sempre essa vontade dos Estados Unidos de avançar com seus projetos estratégicos e econômicos na região. Isso deveria facilitar a manutenção do cessar-fogo e a reconstrução de Gaza. Mas tudo isso está comprometido por desafios técnicos e logísticos: questões financeiras ainda precisam ser resolvidas, sem contar que será necessário cuidar de todas as pessoas aqui”, explica o cientista político e economista Mohamed Abou Jiab.

<><> Trinta e sete ONGs ameaçadas

As organizações devem enviar  a lista de seus funcionários palestinos, apesar da crise humanitária que afeta 2,2 milhões de habitantes do território. O governo israelense acusa dois membros da ONG francesa Médicos Sem Fronteiras (MSF) de “vínculos com organizações terroristas”. Segundo comunicado do Ministério da Diáspora e da Luta contra o Antissemitismo, as organizações que “se recusarem a enviar a lista de seus funcionários palestinos, para excluir qualquer vínculo com o terrorismo terão suas licenças canceladas a partir de 1º de janeiro”. As ONGs afetadas “deverão encerrar todas as atividades até 1º de março de 2026”. A União Europeia alertou nesta quarta-feira que a suspensão de ONGs vai impedir o envio de ajuda vital. “A UE foi clara: a lei sobre registro de ONGs não pode ser aplicada em sua forma atual”, escreveu a comissária europeia Hadja Lahbib no X. “Todos os obstáculos ao acesso à ajuda humanitária devem ser eliminados”, acrescentou.

Reino Unido, Canadá e outros países pediram que Israel tome medidas urgentes diante da situação catastrófica em Gaza. O comunicado, publicado pelo Ministério das Relações Exteriores britânico, insta Israel a permitir que organizações não governamentais atuem de forma sustentável e previsível e garanta que a ONU possa continuar seu trabalho no enclave. “Expressamos nossa profunda preocupação com a nova deterioração da situação humanitária em Gaza, que continua catastrófica”, afirmam os ministros das Relações Exteriores do Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Islândia, Japão, Noruega, Suécia, Suíça e Reino Unido. De acordo com o texto, os israelenses devem suspender as “restrições desproporcionais” impostas a certas importações, como material médico e abrigos, e abrir as passagens fronteiriças para aumentar o fluxo de ajuda humanitária aos palestinos.

<><> ‘Atividades terroristas’

O ministério israelense afirmou que apenas 15% das ONGs são alvo das restrições e acrescentou que “atos de deslegitimação de Israel, processos judiciais contra soldados de Tsahal (Exército israelense), negação do Holocausto e dos eventos de 7 de outubro constituem motivos para a retirada de licença”. As autoridades afirmam que “algumas organizações internacionais estiveram envolvidas em atividades terroristas” e acusam diretamente a MSF de ter empregado pessoas “com vínculos com organizações terroristas”. De acordo com o Ministério da Diáspora e da Luta contra o Antissemitismo, “um membro da Jihad Islâmica Palestina foi identificado” em junho de 2024 como funcionário da ONG. Em setembro de 2024, “outro funcionário da MSF foi identificado como atirador do Hamas”.

<><> MSF se defende

A Médico Sem Fronteiras afirmou que “jamais empregaria conscientemente pessoas envolvidas em atividades militares” e disse “manter diálogo com as autoridades israelenses”, acrescentando que já expressou suas “preocupações” sobre a exigência de envio obrigatório das identidades. ONGs internacionais já haviam alertado, em meados de dezembro, que temiam não poder mais atuar na Faixa de Gaza, devastada por dois anos de guerra, devido a essas novas regras.

•        Especialistas dizem que a proibição israelense às agências de ajuda humanitária em Gaza terá consequências "catastróficas"

A nova proibição de Israel a dezenas de organizações humanitárias que atuam em Gaza terá consequências “catastróficas” para a prestação de serviços vitais no território devastado e colocará vidas palestinas “em risco iminente”, afirmam diplomatas, trabalhadores humanitários e especialistas. Trinta e sete ONGs atuantes em Gaza foram informadas pelo Ministério da Diáspora de Israel, de que teriam que cessar todas as operações no território em 60 dias, a menos que cumprissem novas e rigorosas regulamentações, que incluem a divulgação de dados pessoais de seus funcionários. Em comunicado, o ministério afirmou que as medidas visavam impedir que ONGs empregassem funcionários com ligações a organizações extremistas e eram necessárias para garantir que o Hamas não explorasse a ajuda internacional.

Israel tem afirmado repetidamente que o Hamas desviou sistematicamente suprimentos de ajuda humanitária para fins militares ou políticos e se infiltrou em organizações de ajuda, mas apresentou poucas evidências para sustentar essas alegações.

Organizações humanitárias afirmaram que vêm mantendo contato com autoridades israelenses há vários meses. “Fizemos esforços consideráveis para cumprir essas exigências, mesmo que elas não sejam feitas em nenhum outro lugar. Realizamos uma verificação rigorosa de antecedentes. Seria desastroso para nós ter combatentes armados ou pessoas ligadas a grupos armados em nossa equipe”, disse Athena Rayburn, diretora executiva da Associação de Agências Internacionais de Desenvolvimento, que representa mais de 100 ONGs que atuam em Gaza e na Cisjordânia ocupada. “Já implementamos medidas muito rigorosas e propusemos alternativas às autoridades israelenses que atenderiam a essa exigência, mas elas recusaram.”

Autoridades israelenses afirmaram que as ONGs afetadas pela proibição forneceram apenas 15% da assistência urgentemente necessária em Gaza, que sofre uma grave crise humanitária após dois anos de guerra devastadora. Autoridades humanitárias afirmaram que esse cálculo era enganoso, pois a maioria das ONGs afetadas pela proibição não prestava serviços próprios, mas sim era contratada pela ONU para administrar clínicas de saúde básica, triagem de desnutrição, apoio com higiene e abrigo, entre outras atividades. Um alto funcionário da ONU afirmou que a proibição "paralisaria" as operações de ajuda humanitária. Ele acrescentou que as leis israelenses que proíbem a UNRWA, principal agência da ONU para assuntos palestinos, de atuar em Gaza já tiveram um impacto significativo.

Rayburn afirmou que a proibição acarretaria um "colapso catastrófico dos serviços humanitários" e que as autoridades israelenses foram "totalmente informadas" das possíveis consequências. Nos termos do acordo de 20 pontos que permitiu a entrada em vigor de um frágil cessar-fogo em outubro, Israel é obrigado a permitir que “ajuda integral” seja “enviada imediatamente para Gaza”. O cessar-fogo pôs fim a dois anos de conflito implacável, mas o progresso rumo a um acordo de paz duradouro estagnou. Israel afirma que não se retirará dos 53% do território de Gaza que ainda controla até que o Hamas se desarme e devolva os restos mortais do último refém que mantém em poder. A organização militante islâmica se recusa, até o momento, a se comprometer com o desarmamento total.

Alguns funcionários de organizações humanitárias disseram que seriam capazes de encontrar "soluções alternativas" para mitigar os piores efeitos da proibição, mas que era necessária assistência urgente em Gaza, onde tempestades recentes destruíram tendas que eram o único abrigo para cerca de 500 mil pessoas, os alimentos são caros e a água potável, escassa. Volker Türk, chefe de direitos humanos da ONU, afirmou em comunicado que a medida de Israel era "ultrajante", alertando que "tais suspensões arbitrárias tornam uma situação já intolerável ainda pior para o povo de Gaza".

A UE alertou que a nova lei de registo de ONGs que levou à proibição "não pode ser implementada na sua forma atual". Mas as autoridades israelenses insistiram que a lei era necessária. "Eles [as ONGs] se recusam a fornecer listas de seus funcionários palestinos porque sabem, assim como nós, que alguns deles estão envolvidos com terrorismo ou ligados ao Hamas", disse Gilad Zwick, porta-voz do Ministério de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo, à AFP. Médicos Sem Fronteiras (MSF), a principal organização de assistência médica, está entre os que enfrentam a proibição. Autoridades israelenses alegam que indivíduos ligados à MSF têm vínculos com o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina. A MSF rejeita as acusações como infundadas, acrescentando que jamais empregaria conscientemente alguém envolvido em atividades militares.

Shaina Low, porta-voz do Conselho Norueguês para Refugiados, que tem ampla atuação em Gaza, afirmou que seria impossível cumprir as novas exigências israelenses. “É uma questão de segurança e uma questão legal… e tudo isso desvia a atenção do auxílio que realmente precisa ser prestado às pessoas que necessitam”, disse ela.

Em maio, a agência humanitária Oxfam afirmou que a exigência de compartilhar informações sobre seus funcionários levantava preocupações quanto à proteção, após ataques contra trabalhadores humanitários em Gaza. Vários funcionários de organizações humanitárias relataram que, durante a guerra em Gaza, foram solicitados por militares israelenses a fornecer detalhes sobre o paradeiro de seus funcionários internacionais na região. Suspeitando que as informações seriam usadas para justificar ataques israelenses contra escritórios onde havia apenas funcionários palestinos, a ONG se recusou. Após terem atacado a Unrwa no ano passado, Israel e os EUA apoiaram o Fundo Humanitário de Gaza, uma organização privada que distribuía ajuda a partir de um pequeno número de centros no sul de Gaza, em meio a condições caóticas que levaram à morte de mais de 1.000 pessoas por fogo israelense.

A Cogat, agência israelense responsável pela administração de Gaza, afirmou que 4.200 caminhões com ajuda humanitária continuarão a entrar semanalmente na região, por meio da ONU, de países doadores, do setor privado e de mais de 20 organizações internacionais que foram recadastradas. O ataque do Hamas que desencadeou a guerra em Gaza matou 1.200 pessoas, a maioria civis, e levou ao sequestro de 250. A subsequente ofensiva israelense matou cerca de 70.000 pessoas, a maioria civis, e centenas mais morreram desde o cessar-fogo.

 

Fonte: Brasil 247/Opera Mundi/RFI/The Guardian

 

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