A
biopolítica do ultraimperialismo
O
conceito de ultraimperialismo descreve a hegemonia norte-americana como um
sistema que transcende o controle econômico para colonizar o inconsciente,
manipulando o desejo e fragmentando a resistência social...
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Imperialismo e terraplanismo
Na
atual época do Ocidente terraplanista mais do que nunca é indispensável
compreender a importância irrecusável da negação da negação, relativamente ao
sistema imperialista, que defino como o colonialismo na era do capitalismo
mundial integrado, sendo que a sua versão dominante, a estadunidense, tem como
principal “colônia” o inconsciente e com este o desejo deslocado da economia
política e, portanto, das relações sociais de produção.
É,
pois, a total negação do mundo que domina no contemporâneo. Trata-se de um tipo
especial de servidão voluntária, para lembrar o título de uma obra de Étienne
de La Boétie, autor de Discurso sobre a servidão voluntária,
porque se expressa como representação sem lastro algum na realidade, como
ficção, como cinema total; irrealidade total, irracionalismo total; e, nesse
contexto como racismo total contra a realidade humana e natural.
Desde
seus primeiros formuladores como John Hobson, de Imperialism: a
study (1902), seguido por Rodolph Hilferding de O capital financeiro(1910),
assim como Rosa Luxemburgo de A acumulação do capital (1913), Karl
Kautsky de “Ultraimperialismo” (1914) e Vladímir Lênin de Imperialismo:
etapa final do capitalismo (1916), não obstante as significativas
diferenças interpretativas, um consenso estava pressuposto no que tange à
análise da emergência do período imperialista do capitalismo ocidental, a
saber: o imperialismo exporta capitais e capitais são ao fim e ao cabo a
expressão financeira da civilização perante a barbárie, compreendendo como
civilização a, obviamente, ocidental; e como barbárie os povos que foram
colonizados no período expansionista europeu, o colonial, razão pela qual o
imperialismo é uma particularidade ocidental, não podendo sob hipótese alguma
ser identificado com a China e a Rússia, por exemplo, países que historicamente
foram e são alvos do sistema colonial, capitalista e imperialista europeu-estadunidense.
O
ocidental imperialismo “exporta”, também, populações, reatualizando os modelos
coloniais de colonização de exploração e de povoamento, como foi o caso do
Mandato britânico sobre a Palestina histórica e seu efeito fatal com o
empoderamento do sionismo.
Essa
ideologia da terra prometida, na era ianque da colonização do inconsciente,
tornou-se o desejo comum, com as devidas diferenças, tanto da extrema direita
quanto da esquerda woke com suas “diversidades” de gênero,
étnica, ecológica; o desejo de um retorno romântico-reacionário ao Antigo
Testamento, caso da primeira, da extrema direita; e o desejo ao retorno
mítico-místico a 1620, como se fossem herdeiros escolhidos a dedo, como na Arca
de Noé, para embarcar do Mayflower direto para excepcionalismo
estadunidense, caso do esquerdismo woke, com o seu desejo de
habitar em bolhas virtuais, imunes à realidade histórico-social.
A crise
engendrada pela disputa interpaíses europeus (EUA em cena) à liderança do
saqueio colonial dos povos, como é possível evidenciar considerando o seguinte
fragmento de La expansión de Europa (1830-1914), obra de David K.
Fieldhouse: “Antes de 1830, só existem cinco potências coloniais importantes.
Em 1914 existiam dez, incluindo EUA, uma ex-colônia convertida em potência
imperial” (FIELDHOUSE, 1990, p. 8).
A dupla
crise do capitalismo, a interna, com a organização da classe trabalhadora; e a
externa, com as guerras neocoloniais contra a maioria global, tornou-se dois
referenciais inseparáveis a serem administrados pela burocracia imperialista do
capital monopólico, razão por que a sua principal tarefa doravante deveria ser
a negação total da história, compreendida como movimento, mudança, devir; e
negação total da existência de classes sociais.
Isso na
prática ocorreu da seguinte maneira com a vanguarda da Inglaterra: a
manipulação do desejo entre segmentos medianos da classe operária de se tornar
uma aristocracia operária ( sem jamais designar-se como tal) sem lastro algum
na realidade concreta; e a criação do fascismo, tendo como alvo e cenário parte
significativa da classe operária que passaria a ser, no âmbito do inconsciente,
a vanguarda do ódio à realidade histórico-social, de ódio à humanidade, à
natureza, ao operariado, ao mundo.
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As duas negações das três negações imperialistas
Analiso
o imperialismo, sempre ocidental, como um metacapitalismo e um
metacolonialismo; e “meta” no sentido de mudança, de reflexão sobre, de além
de, como metalinguagem. A burocracia imperialista (financeira, econômica,
militar, educacional, midiática) bem entendido se constitui como metaburocracia
ou, dito de outro modo, como um holding ou escritório central
do metacapitalismo e metacolonialismo. Sua tarefa principal é a de negação
total e cínica da realidade histórica existente, separando o Ocidente europeu e
norte-americano (o Jardim do Éden) da Maioria Global (a selva).
O
primeiro, o Ocidente mitificado, marca-se como a bolha ou a redoma de vidro,
fora da realidade; o segundo, a classe trabalhadora, os povos, transformou-se
na realidade a ser odiada, destruída, objeto implacável de um novo tipo de
racismo: o racismo ao mundo, aos povos, evidenciado na expiação televisionada
do povo palestino que, a rigor, é uma metonímia do Sul Global, de ódio racista
à América Latina, à África à Ásia, à Terra.
A
dialética imperialista está, pois, servida à mesa do cemitério do mundo:
exporta “capital”, pela exaltação supremacista dos imunizados, o próprio
Ocidente arcádico, fora da história e da realidade; e exporta o ódio , à
história e às classes sociais.
A
(des)cultura woke é o capital especulativo comportamental da
primeira exportação imperialista de capital, a ser adquirida pelas pequenas
burguesias e importada pelas universidades da maioria global (sítio das bolsas
de ações identitárias), embaladas como mercadorias epistêmicas, sob, por
exemplo, a forma de ancestralidade e decolonialismo; a, por sua vez, exportação
especulativa de ódio ao mundo (um niilismo suicidário) tem como consumidor-alvo
a classe trabalhadora superexplorada, que deve assumir a condição, sempre como
desejo de, de sujeito da destruição das instituições e do contrato social –
qualquer semelhança com o 8 de janeiro de 2023 e o bolsonarismo no Brasil não é
mera coincidência.
O
imperialismo é, pois, a categoria a ser negada (negação da negação) mais
importante para a inteligência e práxis emancipadoras do mundo
moderno e pós-moderno. Do primeiro, o moderno, o imperialismo em questão é o
europeu, constituído pelo sistema colonial e capitalista europeu; e já
administrado, a partir do final do século XIX, pela metaburocracia
imperialista; uma administração em processo de constituição, em formação.
Do
segundo, o pós-moderno, o imperialismo é o norte-americano, de tal modo que
seja possível afirmar que a pós-modernidade nada mais seja que a dominação
cultural, política, tecnológica e econômica dos Estados Unidos.
Diferentemente
da modernidade imperialista europeia, a estadunidense é integralmente um
metaburocrático holding total, que não separa mais Estado de
capital privado, realidade de ficção, inconsciente de consciente, razão e sua
ausência, verdade e mentira, dedicada que está a subsumir o desejo woke pelas
bolhas, pela fuga da realidade, pelas ilhas de fantasias; e também de incendiar
o mundo com seus cavalheiros do apocalipse do inconsciente de ódio ao mundo,
indissociável da classe trabalhadora historicamente abandonada.
Por
essa razão tenho chamado o imperialismo estadunidense, ao mesmo tempo
metacolonial, metacapitalista e metaimperialista, de ultraimperialilsmo, não no
sentido de Karl Kautsky, que defendia no seu ensaio de 1914, que o
ultraimperialismo se constituiria como uma espécie de fase superior do próprio
imperialismo, de paz orquestrada entre as principais potências imperialistas;
ultraimperialista ao fim e ao cabo porque é metaimperialismo, porque se fez (
ou acreditava ser) como o holding de negação e de ódio ao
mundo.
É
preciso negar os dois imperialismos. É questão literal, de vida ou de morte,
para os povos oprimidos, como o brasileiro, por exemplo. Mas, sobretudo, é
preciso: (i) negar o segundo, o ultraimperialismo estadunidense, porque é a
força de colonização do desejo de negação total da realidade realmente
existente e dominante, na atualidade, uma vez que o imperialismo europeu está
subsumido pelo ianque, é o desejo deste tanto como expressão woke da
bolha ocidental, quanto como berço do fascismo e do nazismo; (ii) nunca
acreditar, sob hipótese alguma, nas notícias que circulam nos veículos
dominantes da sociedade do espetáculo norte-americana e tampouco nos produtos e
narrativas que a sociedade do espetáculo produz, como o cinema, por exemplo.
Hollywood,
a propósito, produz bem mais que filmes: realiza o efeito estético da dominação
dos trabalhadores do mundo, colonizando o inconsciente do desejo de ser bolha
irreal e também de ser a explosão de ódio ao mundo, manipulando ressentimentos
e abandonos historicamente acumulados.
Nunca
acreditar, quer dizer, para ser redundante, nunca, sobretudo se repetem uma
notícia. O holding total da metaburocracia estadunidense está
em guerra contra o mundo do trabalho. Nesse contexto, incorporar ou polemizar,
como se fosse verdade, qualquer notícia que advenha das empresas de comunicação
nacionais e internacionais, sobretudo as que estão no eixo de influência do
ultraimperialismo norte-americano, é simplesmente um suicídio social, o que
inclui, também, as notícias que circulam a partir das empresas das chamadas
Novas Tecnologias de Comunicação e Informação, como Google, Facebook, por
exemplo.
É
preciso negar resolutamente a biopolítica do estilo ianque de vida de vida, que
é mundial.
Em História
da sexualidade: vontade de saber (1976), Michel Foucault desenvolveu a
categoria de dispositivo comportamental, compreendida em linhas gerais como uma
transformação do próprio desejo como uma ferramenta a ser manipulada, sobretudo
tendo como eixo o dispositivo da sexualidade, acionado pelo dispositivo
confessional.
O
subtítulo do livro, “vontade de saber”, remete às instituições que se dedicam a
formar quadros profissionais para o Estado: professores, médicos, biólogos,
psiquiatras… Vontade de saber, assim, pode ser interpretada como saber sobre (
meta-saber) com objetivo de domesticar corpos, estimulando-os a confessar pelo
dispositivo da confissão ( os saberes institucionais), e, assim, produzindo
identidades etárias, de gênero, étnicas que passariam a se comportar e no
limite a desejar ser um tipo corporal humano adaptável às fábricas da Segunda
Revolução Industrial; corpos dóceis.
Na era
pós-industrial do ultraimperialismo estadunidense, o dispositivo confessional,
agenciado por seu holding burocrático total, com sua vontade
de saber total sobre o inconsciente e o desejo, já não tem como objetivo
produzir corpos dóceis.
Pelo
contrário, dois são os dispositivos confessionais da biopolítica do
ultraimperialismo norte-americano: (a) o desejo à bolha woke é
um novo dispositivo confessional de fuga da história, da realidade, devendo
odiar não propriamente a realidade, mas a classe trabalhadora “impura”, porque,
no delírio, representa um perigo ao dispositivo confessional, e sionista, de
retorno ao seu próprio corpo sagrado, à sua própria identidade puritana,
indissociável da cosmogonia da criação mítica de EUA, alegorizada como
travessia do Mar Vermelho e conquista da terra paradisíaca,
desde que os índios, esses palestinos pré-modernos, sejam eliminados.
(b) O
dispositivo confessional de ódio ao mundo, a ser incorporado, como desejo, pela
a classe trabalhadora superexplorada, designada como fascista, porque, no
limite, de fato se comporta como fascista por ter sido capturada para explodir
o mundo (chamam-se de libertarianismo), sobretudo o Estado, as instituições, os
direitos trabalhistas.
Dispositivos
de dispositivos, duas são as confissões biopolíticas sionistas do holding total
estadunidense, no contemporâneo: o dispositivo confessional woke ou
identitário e o dispositivo do operariado niilista, a confessar, na prática,
seu ódio ao mundo, instrumentalizado para destruir tudo que pode servir à
classe trabalhadora: direito à saúde, à educação, à moradia, à aposentadoria, à
dignidade.
O
primeiro dispositivo é o do esquerdismo globalista, usado de modo publicitário
para fabricar uma aparência liberal (ou neoliberal) de democracia, a partir da
transformação dos direitos civis em bolhas não relacionáveis aos direitos
sociais e econômicos e sobretudo à classe trabalhadora; o segundo dispositivo é
o de guerra total contra a realidade existente. O primeiro afirma a identidade
própria como terra prometida. O segundo quer colocar fogo no mundo para
instaurar o retorno ao Antigo Testamento sionista.
Ambos,
como negação da realidade, são antes de tudo dispositivos biopolíticos de
guerra total do ultraimperialismo norte-americano contra a emergência do mundo
multipolar, contra a China, contra a Rússia, contra o Brics +, contra a
Organização para Cooperação de Xangai, contra o Sul Global, contra a Maioria
Global, contra a dignidade humana e dos seres; contra o empoderamento da classe
trabalhadora mundial, o único que realmente importa, sob forma política do
socialismo, do comunismo.
Nesse
contexto, qualquer conversa consequente, assim como qualquer militância,
pesquisa; ou qualquer legítimo e necessário desejo de um mundo de justiças
sociais, étnicas de gênero, devem começar pela negação do imperialismo e
sobretudo do ultraimperialismo estadunidense, afirmando o porvir, sem retornos
a terras prometidas; afirmando o Sul Global, a multipolaridade, o socialismo.
Do contrário, é ou será um dispositivo confessional a serviço do ódio racista
ao mundo.
Fonte:
Por Luis Eustáquio Soares, em A Terra é Redonda

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