quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O avanço do diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes acende alerta global e desafia o futuro da saúde pública

Durante décadas, a presença de glicose elevada na infância levantava quase sempre a suspeita de diabetes tipo 1. No entanto, a medicina observa uma mudança drástica nesse cenário. Atualmente, a ciência confirma que o avanço do diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes acende alerta global e desafia o futuro da saúde pública.

Estudos internacionais apontam que a incidência dessa condição cresceu de forma acelerada nas últimas duas décadas, afetando principalmente países de média renda. Uma revisão importante, publicada no New England Journal of Medicine, demonstrou que esse aumento acompanha diretamente a alta da obesidade infantil e as mudanças no estilo de vida.

No Brasil, a realidade não é diferente. Pesquisas como o estudo ERICA, que avaliou jovens de 12 a 17 anos, encontraram uma prevalência significativa de pré-diabetes e diabetes tipo 2. Esses dados revelam que a condição já faz parte do cotidiano dos jovens brasileiros.

<><> Por que a condição é mais agressiva em jovens?

Um ponto crítico que exige atenção é a agressividade do diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes. Pesquisas de acompanhamento em longo prazo indicam que a condição tende a progredir mais rápido nessa faixa etária.

Consequentemente, jovens diagnosticados apresentam perda acelerada da função das células beta do pâncreas. Além disso, estudos observacionais mostram riscos elevados de complicações precoces, tais como:

•        Doença renal precoce;

•        Alterações cardiovasculares antes dos 30 anos;

•        Retinopatia mais rápida;

•        Necessidade de intensificar o tratamento em poucos anos.

Portanto, o diagnóstico precoce deixa de ser apenas uma recomendação médica. Ele se torna uma estratégia vital de saúde pública para evitar complicações incapacitantes no futuro.

<><> Fatores de risco: obesidade e ambiente

A literatura científica é consistente ao apontar os motivos para esse surgimento tão cedo. A obesidade e o excesso de peso atuam como o principal motor da resistência à insulina, especialmente devido à gordura visceral.

Somado a isso, durante a puberdade, o corpo passa por uma resistência fisiológica natural à insulina. Quando essa fase se combina ao sedentarismo e à má alimentação, o risco aumenta exponencialmente. O ambiente também desempenha um papel crucial. Longas horas em telas e o acesso facilitado a alimentos ultraprocessados criam um cenário hostil ao equilíbrio metabólico.

Além disso, o histórico familiar é determinante. Quando parentes de primeiro grau têm diabetes tipo 2, o risco para a criança se apresenta ainda mais cedo. É fundamental entender que a condição não nasce apenas de falta de cuidado individual, mas de um ambiente social que estrutura esse risco.

<><> Diferenças entre tipo 1 e tipo 2

Em meio ao debate, é essencial esclarecer as diferenças. O diabetes tipo 1 é uma condição autoimune onde o corpo para de produzir insulina, exigindo reposição imediata.

Por outro lado, no diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes, o organismo ainda produz insulina. Contudo, ela não consegue agir adequadamente devido à resistência. O início deste quadro costuma ser silencioso, muitas vezes sem sintomas claros, o que dificulta a identificação rápida.

<><> Tratamentos medicamentosos disponíveis

O tratamento medicamentoso para o público pediátrico avançou. Atualmente, agências regulatórias internacionais e a literatura científica reconhecem opções seguras e eficazes:

•        Metformina: É o medicamento oral mais estudado e utilizado. Aprovado a partir de 10 anos em diversos países, inclusive no Brasil, ele reduz a resistência à insulina.

•        Insulina: Utilizada quando há glicemias muito altas ou falha na resposta à metformina. Ela é segura e muitas vezes necessária no início do tratamento.

•        Agonistas de GLP-1 (como liraglutida): Aprovados para adolescentes em vários países. Estudos mostram redução da hemoglobina glicada e melhora do peso corporal.

Ademais, pesquisas seguem em andamento com outras classes, como a semaglutida e inibidores de SGLT2. Embora a aprovação ampla ainda esteja em processo, os resultados são promissores para a melhora metabólica. Vale ressaltar que nenhum medicamento deve ser usado sem estrita indicação médica.

<><> Desafios e o caminho para o futuro

O aumento de casos representa um alerta social. Crianças diagnosticadas hoje podem viver décadas com a condição, acumulando riscos se o controle não for adequado. Infelizmente, muitos sistemas de saúde ainda estão despreparados, com protocolos focados apenas no adulto.

Para transformar essa realidade, ações conjuntas são necessárias. Isso inclui implementar políticas públicas de alimentação saudável e criar programas de detecção precoce nas escolas. Informar e preparar a sociedade é o único caminho para evitar que uma geração inteira sofra com uma condição silenciosa e cada vez mais frequente.

•        Cresce a incidência de diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes

De alguns anos para cá, médicos começaram a perceber um aumento da incidência de diabetes mellitus tipo 2 (DM2) entre crianças e adolescentes. Apesar de isso estar ocorrendo em várias regiões do mundo, os motivos para esse aumento ainda são desconhecidos, mas acredita-se que esteja associado ao aumento marcante da obesidade nesta faixa etária. Os casos ocorrem principalmente em crianças com mais de 10 anos e são mais comuns em determinadas etnias (negros, asiáticos, hispânicos e índios) e no sexo feminino, com antecedente familiar para DM2. O diagnóstico desse tipo de diabetes, mais associado a fatores ambientais e marcado por uma resistência do organismo à ação da insulina, é mais comum após os 40 anos. Já o diabetes tipo 1, doença autoimune que ocorre quando o pâncreas não produz esse hormônio, é mais associado a grupos mais jovens.

“É provável que o aumento dos casos de DM2 entre adolescentes esteja associado ao sedentarismo e à obesidade”, explica dra. Jaqueline Araujo, coordenadora do Departamento de Diabetes Tipo 1 em Crianças e Adolescentes da Sociedade Brasileira de Diabetes.

Pesquisa publicada em dezembro do ano passado no The BMJ, feita tendo como base dados do estudo Carga Global de Doenças, apontou que a taxa de diabetes tipo 2 entre adolescentes e adultos jovens (de 15 a 39 anos) cresceu 56% em todo o mundo entre 1990 e 2019 – passou de 117 casos a cada 100 mil pessoas para 183 a cada 100 mil. No Brasil, um estudo multicêntrico feito 2019 e publicado no Pediatric Diabetes Journal, mostrou que as prevalências de pré-diabetes e DM2 foram de 22,0% (intervalo de confiança [IC] de 95% 20,6%-23,4%) e 3,3% (IC de 95% 2,9%-3,7%), respectivamente. Estima-se com estes resultados que hajam 213.830 adolescentes vivendo com DM2 e 1,46 milhão de adolescentes com pré-diabetes no país, dados estes que precisam ser confirmados com mais estudos.

Por isso a SBD destaca a importância do diagnóstico precoce, principalmente se a criança ou adolescente tiver casos de DM2 na família e se estiver com sobrepeso ou obesidade. “Os pediatras devem ficar atentos e pedir exame de glicemia rotineiramente em crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade, a partir dos 10 anos de idade”, diz dra. Jaqueline.

O tratamento inicial, na grande maioria dos casos, consiste em mudanças do estilo de vida, com atenção especial à dieta e aumento de atividade física (60 minutos de atividade física moderada diariamente). Também pode ser necessário o uso de medicamento, como a metformina ou análogos do GLP1.

Há casos mais graves, porém, em que o médico já recomenda o uso de insulina.

<><> Dupla diabetes

Mais raro são os casos em que uma pessoa pode ter tanto diabetes tipo 1 quanto diabetes tipo 2, o que é conhecido como diabetes duplo. Isso ocorre quando a pessoa é inicialmente diagnosticada com diabetes tipo 1 e depois desenvolve resistência à insulina, uma característica comum do diabetes tipo 2. Isso pode ocorrer tanto com crianças e adolescentes quanto com adultos.

“Existem algumas razões para isso acontecer”, explica dra. Jaqueline. Ela cita os seguintes fatores:

Genética e histórico familiar: Algumas pessoas com diabetes tipo 1 podem ter uma predisposição genética para desenvolver diabetes tipo 2, principalmente se houver histórico familiar de diabetes tipo 2;

Obesidade: o excesso de peso, fator associado ao diabetes tipo 2, também pode ocorrer em pessoas com diabetes tipo 1, especialmente se não houver uma alimentação balanceada ou se houver falta de atividade física. A obesidade pode aumentar a resistência à insulina;

Resistência à insulina: Embora o diabetes tipo 1 seja uma doença autoimune caracterizada pela destruição das células beta do pâncreas, que produzem insulina, algumas pessoas com tipo 1 podem, com o tempo, desenvolver resistência à insulina — um dos principais mecanismos do diabetes tipo 2;

Uso prolongado de insulina: O uso crônico de insulina, sem um controle adequado de dieta e peso, pode levar a uma maior resistência à insulina;

Fatores ambientais: Sedentarismo, má alimentação e outros fatores ambientais podem contribuir para o desenvolvimento da resistência à insulina em indivíduos com diabetes tipo 1.

Como se vê, o diabetes duplo é uma combinação de uma condição autoimune com resistência à insulina e o tratamento pode incluir tanto o uso de insulina quanto intervenções destinadas a melhorar a sensibilidade à insulina, como medicamentos para diabetes tipo 2, mudanças no estilo de vida e na alimentação.

 

Fonte: UmDiabético/SBD

 

Nenhum comentário: