O
avanço do diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes acende alerta global e
desafia o futuro da saúde pública
Durante
décadas, a presença de glicose elevada na infância levantava quase sempre a
suspeita de diabetes tipo 1. No entanto, a medicina observa uma mudança
drástica nesse cenário. Atualmente, a ciência confirma que o avanço do diabetes
tipo 2 entre crianças e adolescentes acende alerta global e desafia o futuro da
saúde pública.
Estudos
internacionais apontam que a incidência dessa condição cresceu de forma
acelerada nas últimas duas décadas, afetando principalmente países de média
renda. Uma revisão importante, publicada no New England Journal of Medicine,
demonstrou que esse aumento acompanha diretamente a alta da obesidade infantil
e as mudanças no estilo de vida.
No
Brasil, a realidade não é diferente. Pesquisas como o estudo ERICA, que avaliou
jovens de 12 a 17 anos, encontraram uma prevalência significativa de
pré-diabetes e diabetes tipo 2. Esses dados revelam que a condição já faz parte
do cotidiano dos jovens brasileiros.
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Por que a condição é mais agressiva em jovens?
Um
ponto crítico que exige atenção é a agressividade do diabetes tipo 2 entre
crianças e adolescentes. Pesquisas de acompanhamento em longo prazo indicam que
a condição tende a progredir mais rápido nessa faixa etária.
Consequentemente,
jovens diagnosticados apresentam perda acelerada da função das células beta do
pâncreas. Além disso, estudos observacionais mostram riscos elevados de
complicações precoces, tais como:
• Doença renal precoce;
• Alterações cardiovasculares antes dos 30
anos;
• Retinopatia mais rápida;
• Necessidade de intensificar o tratamento
em poucos anos.
Portanto,
o diagnóstico precoce deixa de ser apenas uma recomendação médica. Ele se torna
uma estratégia vital de saúde pública para evitar complicações incapacitantes
no futuro.
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Fatores de risco: obesidade e ambiente
A
literatura científica é consistente ao apontar os motivos para esse surgimento
tão cedo. A obesidade e o excesso de peso atuam como o principal motor da
resistência à insulina, especialmente devido à gordura visceral.
Somado
a isso, durante a puberdade, o corpo passa por uma resistência fisiológica
natural à insulina. Quando essa fase se combina ao sedentarismo e à má
alimentação, o risco aumenta exponencialmente. O ambiente também desempenha um
papel crucial. Longas horas em telas e o acesso facilitado a alimentos
ultraprocessados criam um cenário hostil ao equilíbrio metabólico.
Além
disso, o histórico familiar é determinante. Quando parentes de primeiro grau
têm diabetes tipo 2, o risco para a criança se apresenta ainda mais cedo. É
fundamental entender que a condição não nasce apenas de falta de cuidado
individual, mas de um ambiente social que estrutura esse risco.
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Diferenças entre tipo 1 e tipo 2
Em meio
ao debate, é essencial esclarecer as diferenças. O diabetes tipo 1 é uma
condição autoimune onde o corpo para de produzir insulina, exigindo reposição
imediata.
Por
outro lado, no diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes, o organismo ainda
produz insulina. Contudo, ela não consegue agir adequadamente devido à
resistência. O início deste quadro costuma ser silencioso, muitas vezes sem
sintomas claros, o que dificulta a identificação rápida.
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Tratamentos medicamentosos disponíveis
O
tratamento medicamentoso para o público pediátrico avançou. Atualmente,
agências regulatórias internacionais e a literatura científica reconhecem
opções seguras e eficazes:
• Metformina: É o medicamento oral mais
estudado e utilizado. Aprovado a partir de 10 anos em diversos países,
inclusive no Brasil, ele reduz a resistência à insulina.
• Insulina: Utilizada quando há glicemias
muito altas ou falha na resposta à metformina. Ela é segura e muitas vezes
necessária no início do tratamento.
• Agonistas de GLP-1 (como liraglutida):
Aprovados para adolescentes em vários países. Estudos mostram redução da
hemoglobina glicada e melhora do peso corporal.
Ademais,
pesquisas seguem em andamento com outras classes, como a semaglutida e
inibidores de SGLT2. Embora a aprovação ampla ainda esteja em processo, os
resultados são promissores para a melhora metabólica. Vale ressaltar que nenhum
medicamento deve ser usado sem estrita indicação médica.
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Desafios e o caminho para o futuro
O
aumento de casos representa um alerta social. Crianças diagnosticadas hoje
podem viver décadas com a condição, acumulando riscos se o controle não for
adequado. Infelizmente, muitos sistemas de saúde ainda estão despreparados, com
protocolos focados apenas no adulto.
Para
transformar essa realidade, ações conjuntas são necessárias. Isso inclui
implementar políticas públicas de alimentação saudável e criar programas de
detecção precoce nas escolas. Informar e preparar a sociedade é o único caminho
para evitar que uma geração inteira sofra com uma condição silenciosa e cada
vez mais frequente.
• Cresce a incidência de diabetes tipo 2
entre crianças e adolescentes
De
alguns anos para cá, médicos começaram a perceber um aumento da incidência de
diabetes mellitus tipo 2 (DM2) entre crianças e adolescentes. Apesar de isso
estar ocorrendo em várias regiões do mundo, os motivos para esse aumento ainda
são desconhecidos, mas acredita-se que esteja associado ao aumento marcante da
obesidade nesta faixa etária. Os casos ocorrem principalmente em crianças com
mais de 10 anos e são mais comuns em determinadas etnias (negros, asiáticos,
hispânicos e índios) e no sexo feminino, com antecedente familiar para DM2. O
diagnóstico desse tipo de diabetes, mais associado a fatores ambientais e
marcado por uma resistência do organismo à ação da insulina, é mais comum após
os 40 anos. Já o diabetes tipo 1, doença autoimune que ocorre quando o pâncreas
não produz esse hormônio, é mais associado a grupos mais jovens.
“É
provável que o aumento dos casos de DM2 entre adolescentes esteja associado ao
sedentarismo e à obesidade”, explica dra. Jaqueline Araujo, coordenadora do
Departamento de Diabetes Tipo 1 em Crianças e Adolescentes da Sociedade
Brasileira de Diabetes.
Pesquisa
publicada em dezembro do ano passado no The BMJ, feita tendo como base dados do
estudo Carga Global de Doenças, apontou que a taxa de diabetes tipo 2 entre
adolescentes e adultos jovens (de 15 a 39 anos) cresceu 56% em todo o mundo
entre 1990 e 2019 – passou de 117 casos a cada 100 mil pessoas para 183 a cada
100 mil. No Brasil, um estudo multicêntrico feito 2019 e publicado no Pediatric
Diabetes Journal, mostrou que as prevalências de pré-diabetes e DM2 foram de
22,0% (intervalo de confiança [IC] de 95% 20,6%-23,4%) e 3,3% (IC de 95%
2,9%-3,7%), respectivamente. Estima-se com estes resultados que hajam 213.830
adolescentes vivendo com DM2 e 1,46 milhão de adolescentes com pré-diabetes no
país, dados estes que precisam ser confirmados com mais estudos.
Por
isso a SBD destaca a importância do diagnóstico precoce, principalmente se a
criança ou adolescente tiver casos de DM2 na família e se estiver com sobrepeso
ou obesidade. “Os pediatras devem ficar atentos e pedir exame de glicemia
rotineiramente em crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade, a partir
dos 10 anos de idade”, diz dra. Jaqueline.
O
tratamento inicial, na grande maioria dos casos, consiste em mudanças do estilo
de vida, com atenção especial à dieta e aumento de atividade física (60 minutos
de atividade física moderada diariamente). Também pode ser necessário o uso de
medicamento, como a metformina ou análogos do GLP1.
Há
casos mais graves, porém, em que o médico já recomenda o uso de insulina.
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Dupla diabetes
Mais
raro são os casos em que uma pessoa pode ter tanto diabetes tipo 1 quanto
diabetes tipo 2, o que é conhecido como diabetes duplo. Isso ocorre quando a
pessoa é inicialmente diagnosticada com diabetes tipo 1 e depois desenvolve
resistência à insulina, uma característica comum do diabetes tipo 2. Isso pode
ocorrer tanto com crianças e adolescentes quanto com adultos.
“Existem
algumas razões para isso acontecer”, explica dra. Jaqueline. Ela cita os
seguintes fatores:
Genética
e histórico familiar: Algumas pessoas com diabetes tipo 1 podem ter uma
predisposição genética para desenvolver diabetes tipo 2, principalmente se
houver histórico familiar de diabetes tipo 2;
Obesidade:
o excesso de peso, fator associado ao diabetes tipo 2, também pode ocorrer em
pessoas com diabetes tipo 1, especialmente se não houver uma alimentação
balanceada ou se houver falta de atividade física. A obesidade pode aumentar a
resistência à insulina;
Resistência
à insulina: Embora o diabetes tipo 1 seja uma doença autoimune caracterizada
pela destruição das células beta do pâncreas, que produzem insulina, algumas
pessoas com tipo 1 podem, com o tempo, desenvolver resistência à insulina — um
dos principais mecanismos do diabetes tipo 2;
Uso
prolongado de insulina: O uso crônico de insulina, sem um controle adequado de
dieta e peso, pode levar a uma maior resistência à insulina;
Fatores
ambientais: Sedentarismo, má alimentação e outros fatores ambientais podem
contribuir para o desenvolvimento da resistência à insulina em indivíduos com
diabetes tipo 1.
Como se
vê, o diabetes duplo é uma combinação de uma condição autoimune com resistência
à insulina e o tratamento pode incluir tanto o uso de insulina quanto
intervenções destinadas a melhorar a sensibilidade à insulina, como
medicamentos para diabetes tipo 2, mudanças no estilo de vida e na alimentação.
Fonte:
UmDiabético/SBD

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