Globalização:
a crise e as duas saídas possíveis
Nos
anos 1990, o pensamento dominante sustentou que estávamos entrando em uma era,
conhecida como globalização; que o livre comércio e os fluxos de capital sem
obstáculos, em uma economia global sem fronteiras, levariam ao melhor dos
mundos possíveis. A maior parte das elites econômicas, políticas e intelectuais
do Ocidente comprou essa visão. Ainda me lembro de como o venerável Thomas
Friedman, do New York Times, zombou daqueles que resistíamos a essa visão,
chamando-nos de “terraplanistas”. Ainda recordo a igualmente venerável revista
Economist chamando as atenções sobre mim, por ter cunhado o termo
“desglobalização”. Não para me aclamar como um profeta, mas como um tolo
pregando um retorno a um passado jurássico.
Trinta
anos depois, este terraplanista não sente orgulho algum de ter previsto o caos
em que nos metemos, no qual globalização desenfreada teve papel destacado. As
maiores taxas de desigualdade em décadas, pobreza crescente tanto no Norte
Global quanto no Sul Global, desindustrialização nos Estados Unidos e em muitos
outros países, endividamento massivo de consumidores no Norte Global e de
países inteiros no Sul Global, uma crise financeira atrás da outra, a ascensão
da extrema direita, mudança climática descontrolada e intensificação do
conflito geopolítico. A globalização não levou a uma nova ordem mundial, mas a
um Admirável Mundo Novo à moda de Huxley
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Retratos de uma Era Sombria
Retrato
nº 1: A Apple foi uma das principais beneficiárias da globalização. A empresa
iderou a fuga dos limites das economias nacionais para criar cadeias de
suprimentos globais, sustentadas por mão de obra barata. Cito o New York Times
a respeito:
A Apple
emprega 43 mil pessoas nos Estados Unidos e 20 mil no exterior, uma pequena
fração dos mais de 400 mil trabalhadores norte-americanos da General Motors nos
anos 1950, ou das centenas de milhares na General Electric nos anos 1980.
Muitas mais pessoas trabalham para as contratadas da Apple: outras 700 mil
pessoas projetam, constroem e montam iPads, iPhones e outros produtos. Mas
quase nenhuma delas trabalha nos Estados Unidos. Em vez disso, trabalham para
empresas estrangeiras na Ásia, Europa e outros lugares, em fábricas das quais
quase todas as empresas que desenham eletrônicos dependem, para fabricar seus
produtos.
A
Apple, é claro, não estava sozinha no movimento para desindustrializar os
Estados Unidos. Foi acompanhada pelas coirmãs do setor de TI – Microsoft, Intel
e Nvidia; pelas montadoras GM, Ford e Tesla; pelos gigantes farmacêuticos
Johnson & Johnson e Pfizer; e por outras líderes em outros setores e
serviços, como Procter & Gamble, Coca-Cola, Walmart e Amazon, para citar
apenas algumas. O destino favorito foi a China, onde os salários correspondiam,
à época, a 3-5% dos salários dos trabalhadores nos Estados Unidos. Estima-se,
de forma conservadora, que o “Choque da China” tenha levado à perda de 2,4
milhões de empregos norte-americanos. O emprego na manufatura caiu para 11,7
milhões em outubro de 2009, uma perda de 5,5 milhões, ou 32% de todos os
empregos no setor, a paritr de outubro de 2000. A última vez em que menos de 12
milhões de pessoas trabalharam no setor manufatureiro nos EUA foi antes da
Segunda Guerra Mundial, em 1941.
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Retrato nº 2: A remoção das barreiras ao livre fluxo de capital global levou à
crise da dívida do Terceiro Mundo no início dos anos 1980, que quase derrubou o
Citibank e outras instituições financeiras norte-americanas, e à crise financeira
asiática de 1997, que derrubou as chamadas economias milagrosas asiáticas. A
eliminação dos controles de capitais globais foi acompanhada pela
desregulamentação do sistema financeiro dos EUA, o que levou à criação de
esquemas massivos de obtenção de lucro por meio da chamada mágica da engenharia
financeira, como a negociação frenética de hipotecas subprime. Quando os
títulos subprime foram expostos como “podres”, em 2008, milhões de pessoas
faliram e perderam suas casas e todo o sistema global ficou à beira do colapso
em 2008. Foi salvo apenas pelo resgate dos bancos norte-americanos, com
dinheiro dos contribuintes, na ordem de mais de US$ 1 trilhão.
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O Retrato nº 3 é o resumo do famoso economista francês Thomas Piketty sobre a
tragédia econômica dos Estados Unidos no primeiro quartel do século XXI.
Quero
enfatizar que a palavra “colapso” [no caso dos Estados Unidos] não é um
exagero. Os 50% inferiores, na pirâmide da distribuição de renda detinham cerca
de 20% da renda nacional de 1950 a 1980; mas essa participação foi reduzida
quae à metade, caindo para apenas 12% em 2010–2015. A participação do centil
superior seguiu na direção oposta, de apenas 11% para mais de 20%.
Paralelamente
a esse aumento massivo da desigualdade nos Estados Unidos, houve um aumento da
pobreza. Globalmente, de acordo com dados disponíveis, desde as crises
financeiras de 2007-08, a desigualdade de riqueza aumentou, e agora o 1% mais
rico detém metade da riqueza total das pessoas no planeta.
Vamos
deixar de lado essa releitura nostálgica do passado e voltar à nossa boa amiga
Apple. Ela agora está liderando o chamado processo de “reshoring”
(relocalização). Leu os sinais nas estrelas e, embora isso afete negativamente
seu lucro final e desorganize suas operações, está liderando, para proteger o
restante de seus super lucros, a relocalização de suas cadeias de suprimentos,
com um investimento planejado de US$ 600 bilhões na fabricação dentro dos
Estados Unidos de iPhone, iPad, MacBook, bem como na fabricação de chips
semicondutores. Alardeando que os planos de manufatura da Apple criarão
supostamente 450 mil empregos nos Estados Unidos, o CEO Tim Cook admitiu ser um
refém da pressão de Trump para desglobalizar as operações das empresas
norte-americanas, afirmando: “O presidente disse que quer mais nos Estados
Unidos… então nós queremos mais nos Estados Unidos.” Onde a Apple vai, outros
seguem, entre elas as fabricantes de chips norte-americanas Intel e Nvidia, a
líder automotiva Tesla e a gigante farmacêutica Johnson & Johnson.
Mas as
empresas estadunidenses não são as únicas reféns da política. Entre as
companhias estrangeiras que cederam ao impulso ultraprotecionista de Trump por
meio de aumentos unilaterais de tarifas, regionalizando ou nacionalizando suas
linhas de suprimento, estão a Hyundai Motors, a Honda Motors, a Samsung
Electronics, a fabricante taiwanesa de chips TSMC e a empresa farmacêutica
Sanofi.
Embora
a relocalização tenha avançado aos tropeços na última década, sob o primeiro
governo Trump e o governo Biden, é provável que se acelere nos próximos anos,
apesar de restrições e ineficiências, à medida que o nacionalismo econômico
cresce nos Estados Unidos e no Ocidente. Em 2023, um estudo exaustivo sobre
empresas norte-americanas mostrou que mais de 90% das corporações industriais
da região haviam movido pelo menos parte de sua produção ou cadeia de
suprimentos nos últimos cinco anos. Outro estudo realizado ao mesmo tempo
mostrou que, até 2026, 65% das empresas pesquisadas estariam comprando a
maioria dos itens essenciais de fornecedores regionais, em comparação com
apenas 38% em 2023. Como Trump impôs tarifas unilaterais ao México e ao Canadá,
as empresas estão percebendo que não será suficiente mudarem-se para os
parceiros do NAFTA para apaziguar Trump. Elas terão que se realocar nos
próprios Estados Unidos, apesar da ruptura e do caos que possam acompanhar esse
processo, como o que viu 300 trabalhadores vitais para a instalação da Hyundai
na Geórgia serem presos pela ICE (Polícia de Imigração) e deportados para a
Coreia.
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A revolta: desencadeada pela esquerda, capturada pela direita
A
tremenda raiva e ressentimento globais diante da distopia à qual a globalização
liderada pelas corporações nos levou é talvez a maior razão pela qual a
desglobalização será a tendência por muito, muito tempo. Essa revolta surgiu
primeiro entre a esquerda, que infligiu um revés do qual a globalização
corporativa nunca se recuperou durante a histórica Batalha de Seattle em
dezembro de 1999. Mas foram Donald Trump e outras forças da extrema direita que
cavalgaram com sucesso essa revolta, para chegarem ao triunfo político nos
Estados Unidos e na Europa nas décadas seguintes.
Em
outras palavras, a política da revolta, e não a economia da eficiência estreita
a serviço da rentabilidade corporativa, é o que agora comanda. Nos Estados
Unidos, a globalização criou duas comunidades antagônicas: uma que se
beneficiou do processo, devido à sua educação e renda superiores, a outra que
sofreu com ela devido a suas desvantagens tanto econômicas quanto educacionais.
Esta última é o vasto setor da população que Hillary Clinton chamou de
“deploráveis”, mas que é mais conhecido como o povo do “Make America Great
Again” ou base MAGA. Essa comunidade não esquecerá facilmente nem os
sofrimentos provocados pela desindustrialização liderada pela Apple e outras
transnacionais conhecidas, nem as ofensas que sofreram de Hillary, a quem
consideram estar no bolso de Wall Street.
Uma
segunda razão para a força da onda de desglobalização é que a ordem
multilateral – que servia como biombo político ou sistema de governança para o
livre comércio e fluxos de capital sem obstáculos – está à beira do colapso. A
Organização Mundial do Comércio (OMC), que já foi descrita como a joia da coroa
do multilateralismo, não é mais capaz de governar o comércio mundial, em parte
devido a sabotagens dos Estados Unidos. Sob Obama e depois Trump e Biden.
Washington não pôde mais contar com decisões favoráveis em disputas comerciais.
O Fundo Monetário Internacional não se recuperou de sua reputação de promover a
“austeridade” nos países em desenvolvimento e seu impulso por fluxos de capital
sem freios que derrubaram as economias dos tigres asiáticos. O Banco Mundial
também está desacreditado por sua cumplicidade na imposição de medidas de
“austeridade”, bem como pela política equivocada de industrialização orientada
para a exportação para os mercados do Norte Global que prescreveu como a rota
para a prosperidade dos países em desenvolvimento. Esta rota agora é
especialmente fatal para aqueles que a seguiram, dado o ultraprotecionismo que
varre os Estados Unidos.
Em
terceiro lugar, a segurança nacional, tanto a segurança econômica quanto a
segurança militar, substituiu a prosperidade por meio do comércio e do
investimento como a principal consideração nas relações entre países. Tanto o
governo Biden quanto o governo Trump proibiram a transferência de chips de
computador avançados para a China, e mais medidas desse tipo virão. Reorganizar
e regionalizar – quando não nacionalizar – o acesso e as linhas de suprimento
para recursos-chave de tecnologias avançadas como lítio, terras raras, cobre,
cobalto e níquel é agora uma preocupação primordial, com o objetivo não apenas
de monopolizar essas commodities sensíveis, mas também de impedir que
concorrentes se apossem delas.
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Dois Caminhos para um Mundo Desglobalizado
A
questão não é a inevitabilidade da desglobalização, mas a forma que o processo
assumirá. A desglobalização marcada pelo ultraprotecionismo nas relações
comerciais, pelo unilateralismo e isolacionismo nas relações econômicas e
militares, e pela criação de um mercado interno voltado principalmente para os
interesses da maioria racial e étnica é uma maneira de desglobalizar. Esse é o
rumo para o qual Trump está liderando os Estados Unidos.
Mas
existe outra maneira de desglobalizar, cujos elementos-chave apresentei no meu
livro Desglobalização: Ideias para uma Nova Economia Mundial, há 25 anos.
Primeiro,
não exigimos um retorno à autarquia, mas sim uma participação contínua na
economia internacional, porém de forma que garanta que, em vez de inundá-la, as
forças do mercado internacional sejam aproveitadas para ajudar a construir a
capacidade de sustentar uma economia doméstica vibrante.
Segundo,
propomos que, por meio de uma combinação criteriosa de medidas redistributivas
que promovam a igualdade e de tarifas e cotas razoáveis, o mercado interno
volte a ser o motor de uma economia saudável, em vez de ser um apêndice de uma
economia orientada para a exportação.
Terceiro,
promovemos a participação em uma pluralidade de agrupamentos econômicos –
aqueles que permitem aos países manter um espaço político para o
desenvolvimento, em vez de aprisioná-los em um único organismo global, a
Organização Mundial do Comércio, com um conjunto uniforme de regras, que
favorece os interesses das corporações transnacionais em vez de os interesses
de seus cidadãos.
Quarto,
inspirados pelo trabalho de Karl Polanyi, defendemos a reinserção do mercado na
comunidade, de modo que, em vez de conduzi-la, como no capitalismo global, o
mercado fique sujeito aos valores e ritmos da comunidade.
E
finalmente, em contraste com a extrema direita, sustentamos a noção de
comunidade como aquela em que a participação não é determinada por sangue ou
etnia, mas por uma crença compartilhada em valores democráticos.
Essa é
a alternativa que oferecemos um quarto de século atrás. Esse sistema fluido de
comércio internacional capaz de permitir, especialmente às economias do Sul
Global, o espaço para buscar um desenvolvimento sustentável não está distante
do sistema comercial global flexível anterior à decolagem da globalização, no
final dos anos oitenta — o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, GATT. Vinte e
cinco anos atrás, promovíamos e continuamos a promover uma rota de
desglobalização progressiva, que evita, por um lado, o extremo da distopia
doutrinária da globalização liderada pelas corporações e, por outro, o
unilateralismo e protecionismo selvagens.
Esse
caminho para a desglobalização não é novo, nem, alguns alegariam,
particularmente radical. O consenso de senso comum de Keynes, abordando a
situação global nos anos 1930, é muito relevante para os nossos tempos: “Que as
mercadorias sejam feitas em casa sempre que for razoável e convenientemente
possível, e, acima de tudo, que as finanças sejam primordialmente nacionais.”
Se
tivéssemos seguido esse caminho, ouso dizer, é muito provável que não
estaríamos imersos no caos terrível em que o mundo se encontra hoje, com a
ameaça não apenas de guerra comercial, mas de guerra real à sua porta. Ainda há
tempo para seguir esse caminho, mas a janela de oportunidade está se fechando
rapidamente.
¨ Bifo: Para sobreviver
à avalanche (tradução de Rôney Rodrigues)
Quando
uma avalanche está prestes a se formar em uma montanha, talvez exista a
possibilidade de impedir que ela desça em direção à cidade que está lá embaixo
no vale. Mas, quando a avalanche já começou e desce rapidamente pela encosta,
de nada adianta tentar detê-la; a única coisa que você pode fazer é escapar
rapidamente e se preparar para o que vem a seguir.
A
cidade está perdida, e, se sobreviver, você terá que construir outra.
Parece-me
que essa é a situação atual.
A
democracia liberal está morta, as defesas do passado já não conseguem resistir
à força da avalanche ultrarreacionária que desce a encosta.
A
grande deportação prometida por Trump, a criação de campos de concentração para
imigrantes por toda a bacia do Mediterrâneo.
Leis de
segurança.
A
liquidação do sistema público de saúde e educação.
A
precarização da força de trabalho e o estabelecimento de bolsões de trabalho
escravo em todas as cadeias produtivas.
Essas
são as linhas de transformação que a avalanche promete provocar.
É muito
provável que o excesso de confiança e a arrogância preguem peças inesperadas e
que o grupo de mafiosos que ocupa a Casa Branca logo se veja obrigado a lidar
com sua própria nêmesis.
No
final de fevereiro, veremos também como terminam as eleições alemãs: uma
vitória de Merz significaria não apenas que o nazismo volta a ser dominante na
Alemanha, mas que todo o continente optou pelo racismo e pela deportação.
O
coração do sistema hipercolonial, os Estados Unidos e a Europa, está preso a um
frenesi que pode até provocar atos suicidas.
Mas,
por outro lado, a experiência do século passado ensina que o nacionalismo
acumula energias destrutivas que tendem a provocar a tragédia.
Dessa
explosão de demência senil da raça branca pode surgir a catástrofe definitiva
da civilização humana.
Mas,
por outro lado, poderia resultar no colapso da dominação branca sobre o mundo.
A
sociedade não pode deter a avalanche, mas pode encontrar formas de sobreviver e
se preparar para o que vem a seguir.
O que
resta a fazer é multiplicar os pontos de fuga e os refúgios onde sobreviver
durante a tempestade.
Desertar
e imaginar formas de vida frugal, em um novo horizonte de felicidade
inimaginável no momento.
Fonte:
Por Walden Bello, Foreign Policy in Focus (FPIF) | Tradução: Antonio Martins,
para Outras Palavras

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