Raimundo
Bonfim: Combater o golpismo, defender a democracia, os direitos e reeleger Lula
Florestan
Fernandes, em seu texto “O que é revolução?”, alerta-nos para o fato de que
palavras e conceitos utilizados de forma relativizada oferecem armadilhas. Ou
seja, quando não são especificados dentro de um contexto histórico e de classe,
produzem confusões que se assemelham a vestir o lobo com a pele de cordeiro.
Nesse
sentido, o projeto de anistia (PL da dosimetria) transforma em vítimas aqueles
que atentaram contra a democracia brasileira — esta conquistada a duras penas e
marcada pelas cicatrizes deixadas pela ditadura civil-militar, cujos lobos
ainda permanecem à espreita.
O
mecanismo da anistia já foi utilizado em nossa história. Em 1978, a anistia
ampla e irrestrita possibilitou que torturadores e assassinos de ativistas de
direitos humanos, defensores da democracia e da liberdade, bem como de
estudantes, sindicalistas e camponeses, fossem acobertados, sem sequer garantir
às suas famílias o direito de identificar os óbitos.
Por
outro lado, generais que participaram da ditadura mantiveram suas patentes e
benefícios econômicos e políticos, sendo plenamente anistiados. O contexto
implementado no pós-1978 redefiniu o pacto entre as elites políticas e
econômicas: manter uma democracia tutelada pelo capital e conduzir os avanços
sociais de forma gradual e limitada para as classes trabalhadoras.
Paralelamente,
avançaram reformas neoliberais no Estado brasileiro, aos moldes do Chile de
Pinochet e da Argentina de Jorge Rafael Videla, abrindo possibilidades de
captação de fundos públicos da União por setores empresariais, privatizando a
cidadania e esvaziando as conquistas históricas do povo.
A
anistia, no sentido etimológico da palavra — esquecimento, perdão, amnésia —,
configurou-se como uma renegociação, não em favor daqueles que defenderam a
democracia e acabaram na prisão, no exílio ou no cemitério, mas sim em
benefício dos algozes que tentaram suprimir os direitos dos trabalhadores,
torturando e assassinando lutadores por direitos e liberdades.
Os
governos do período pós-ditadura mantiveram resquícios autoritários ainda
presentes no poder. Esses setores, transformados em partidos conservadores,
herdeiros da antiga Arena, alinharam-se ao que hoje se denomina Centrão.
Vestem-se em tons pardos e amenos da política institucional, mas não disfarçam
suas posições diretas: ocupam cadeiras nas bancadas do Senado e da Câmara,
influenciando decisivamente os rumos do país.
Ainda
assim, a classe trabalhadora construiu importantes processos de resistência aos
governos neoliberais dos anos 1990, mesmo diante de duras derrotas, como a
privatização de serviços essenciais — a exemplo da energia, da água, do
saneamento e do transporte urbano — e a venda de empresas públicas estratégicas
ao mercado, como a Vale e diversos bancos estaduais.
Esse
ciclo de lutas abriu uma janela histórica que possibilitou a vitória de Lula,
em 2002, resultado da combinação entre resistência social, disputa política e
acúmulo de forças populares em defesa dos direitos sociais. Nesse processo,
mantiveram-se, a partir da pauta do povo, instrumentos fundamentais de
contraposição aos setores conservadores, que seguiram hegemonizando parcelas
significativas do poder político e econômico.
Os
governos seguintes, de Lula e Dilma, foram defendidos nas ruas justamente
porque se compreendia que, sem essa mobilização permanente, anos de história e
de conquistas na defesa de direitos seriam rapidamente desmontados.
Já
naquele período, o cenário internacional apontava para o avanço do fascismo,
abrindo espaço ao autoritarismo e a uma postura belicosa das classes
dominantes. Aqueles que atentaram contra os direitos e contra a vida, e
cometeram crimes contra o povo, permaneceram impunes, jamais julgados ou
responsabilizados.
É a
partir dessa leitura histórica que se coloca, no presente, uma tática de ação
política objetiva: organizar a luta como defesa e ofensiva ativa. Não se trata
apenas de resistir aos retrocessos, mas de defender as conquistas populares,
denunciar os projetos autoritários e avançar com as pautas históricas da classe
trabalhadora.
A
disputa política exige combinar denúncia e proposição, fortalecer a unidade dos
movimentos populares e transformar a resistência em força organizada, capaz de
enfrentar o capital, o autoritarismo e a tentativa permanente de reescrever a
história a favor dos algozes.
Em
2025, mediante uma forte aliança do nosso governo Lula com os movimentos
populares, sociais e sindicais, no enfrentamento à burguesia e ao Congresso
mais conservador da história do país, ainda assim baixamos o preço dos
alimentos, mantivemos a inflação controlada e garantimos um custo de vida
aceitável.
Estamos
vivenciando o menor desemprego, a menor desigualdade e a melhor renda das
últimas três décadas. Tiramos o Brasil do mapa da fome, reduzimos a pobreza e
impedimos a aprovação do PL da Bandidagem. Aprovamos a isenção do Imposto de
Renda para quem ganha até cinco mil reais por mês e taxamos os super-ricos.
Defendemos a soberania nacional e obrigamos os EUA a recuar do tarifaço.
Em
2025, pela primeira vez na história do Brasil, militares de alta patente foram
condenados e presos, incluindo o genocida Jair Bolsonaro. Infelizmente, a
maioria dos deputados e senadores aprovou um projeto de lei que diminui as
penas impostas pela Justiça aos golpistas.
Diante
desse cenário, é imperioso abrirmos o calendário de mobilização em 2026 já no
dia 8 de Janeiro, data em que os golpistas hoje presos tentaram o golpe em
2023. No dia 8/01, o presidente Lula fará um ato institucional no Palácio do
Planalto, em defesa da democracia. Na mesma data, às 10h, as frentes Brasil
Popular, Povo Sem Medo e partidos políticos realizarão, do lado de fora do
Palácio, um ato popular em defesa da democracia e pelo veto presidencial ao PL
da Dosimetria.
E, a
partir de 8 de Janeiro, temos o desafio de fazer de 2026 um ano de muita
resistência e luta por democracia, por mais direitos e pelo combate aos
privilégios e às desigualdades, especialmente empunhando a bandeira pelo fim da
escala 6x1.
Também
será fundamental nos prepararmos e atuarmos para vencer a batalha mais decisiva
de 2026: derrotar eleitoralmente a direita e a extrema-direita e reeleger Lula
presidente do Brasil. Raimundo Bonfim, advogado, ex-coordenador nacional da
Central de Movimentos Populares (CMP), da Frente Brasil Popular e diretor de
Participação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República.
• A democracia, os heróis e o bom
jornalismo. Por Miguel do Rosário
Desde o
começo, havia sinais de que a reportagem que acusava o ministro Alexandre de
Moraes de pressionar o presidente do Banco Central em favor do Banco Master não
tinha pé nem cabeça.
Qual o
poder de pressão de um ministro do STF sobre o presidente de um Banco Central
autônomo?
Diferente
de um chefe que intimida um subordinado, a relação entre Moraes e Gabriel
Galípolo carece de hierarquia que justifique a suposta coação.
A
inverossimilhança da denúncia se aprofunda ao imaginar um dos homens mais
politicamente expostos do país tratando de um tema não republicano por telefone
ou presencialmente. Em ambos os casos, a conversa poderia ser gravada. Se
houvesse uma manobra ilícita, a prudência recomendaria o uso de intermediários
e subterfúgios.
A base
da reportagem se apoia em seis fontes anônimas, sem apresentar uma única prova
concreta. A narrativa foi prontamente negada por todos os envolvidos, incluindo
o próprio Galípolo e o diretor da Polícia Federal, que também teria sido
supostamente pressionado e negou categoricamente.
A
reação da jornalista Malu Gaspar à repercussão negativa foi sintomática. Em vez
de apresentar novos fatos, ela optou pela vitimização e por um discurso
antipolítico.
No
primeiro artigo em que responde às repercussões — muitas delas negativas — à
sua denúncia, Gaspar brinda os leitores com um clichê desgastado da
antipolítica já no título: “A democracia não precisa de heróis”.
E vai
além, desmerecendo um dos julgamentos mais históricos do STF: “O ano de 2025
vai terminando amargo para muita gente que acreditou nos julgamentos dos
vândalos golpistas do 8 de Janeiro e dos articuladores da intentona para
impedir a posse de Lula como salvação da democracia.”
Ou
seja, em vez de baixar o tom político, ela própria eleva a temperatura do
debate. A intenção é clara: deslegitimar o sentimento, compartilhado por grande
parte dos brasileiros, de que o STF prestou nobres serviços à nossa democracia,
num momento dramático.
Por que
fazer isso? O julgamento dos golpistas não foi conduzido apenas pelo ministro
Alexandre de Moraes, nem teve qualquer relação com o caso do banco. A conexão
entre os dois assuntos visa apenas explorar a polarização, a mesma que ela
acusa de ser um dos motivos da interpretação enviesada de suas denúncias.
Malu
Gaspar rebate as críticas dizendo que suas denúncias seriam taxadas de
“lavajatismo”, como se o lavajatismo não fosse uma mancha real na imprensa
brasileira — especialmente na empresa em que ela trabalha e no trabalho dela
própria.
O
lavajatismo se tornou um problema grave justamente porque misturou moralismo
com antipolítica, denúncia vazia, clichês e lugares comuns. Fatores que muitas
pessoas identificaram não só nas suas denúncias como na reação que ela vem
demonstrando às críticas recebidas.
É
preciso reconhecer a função fiscalizadora da imprensa, que deve, sim,
investigar os poderosos. Contudo, essa função exige responsabilidade e apuração
rigorosa para não se converter em denuncismo, ou pior, tornar-se instrumento de
tentativas espúrias de desestabilizar o país.
O
episódio do contrato da esposa do ministro com o banco, embora possa levantar
questões éticas, não foi conectado a nenhuma ação ilícita de Moraes pela
reportagem. A transparência é fundamental, mas a acusação precisa de provas
para se sustentar além da insinuação.
Curiosamente,
no artigo mais recente, o tom da jornalista muda de forma notória. O foco se
desloca para o ministro Dias Toffoli e a narrativa perde a contundência inicial
contra Moraes, sugerindo um recuo estratégico.
No fim,
a sequência dos fatos expõe um jornalismo que, ao falhar em provar sua denúncia
inicial, recorreu à politização e a clichês para defender sua posição. A
sociedade, mais madura, soube receber a denúncia com o cuidado necessário,
diferenciando jornalismo sério de narrativas frágeis.
A
democracia talvez não precise de heróis, mas necessita de figuras públicas
corajosas, capazes de enfrentar perigos e obstáculos — o que o ministro
Alexandre de Moraes conseguiu provar com louvor. A admiração que parte da
sociedade nutre pelo ministro não é superficial, nem “mítica”: é o
reconhecimento de alguém que tem sido importante para a democracia brasileira.
E gratidão faz parte da cultura política de uma democracia.
Fonte:
Brasil 247

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