quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Raimundo Bonfim: Combater o golpismo, defender a democracia, os direitos e reeleger Lula

Florestan Fernandes, em seu texto “O que é revolução?”, alerta-nos para o fato de que palavras e conceitos utilizados de forma relativizada oferecem armadilhas. Ou seja, quando não são especificados dentro de um contexto histórico e de classe, produzem confusões que se assemelham a vestir o lobo com a pele de cordeiro.

Nesse sentido, o projeto de anistia (PL da dosimetria) transforma em vítimas aqueles que atentaram contra a democracia brasileira — esta conquistada a duras penas e marcada pelas cicatrizes deixadas pela ditadura civil-militar, cujos lobos ainda permanecem à espreita.

O mecanismo da anistia já foi utilizado em nossa história. Em 1978, a anistia ampla e irrestrita possibilitou que torturadores e assassinos de ativistas de direitos humanos, defensores da democracia e da liberdade, bem como de estudantes, sindicalistas e camponeses, fossem acobertados, sem sequer garantir às suas famílias o direito de identificar os óbitos.

Por outro lado, generais que participaram da ditadura mantiveram suas patentes e benefícios econômicos e políticos, sendo plenamente anistiados. O contexto implementado no pós-1978 redefiniu o pacto entre as elites políticas e econômicas: manter uma democracia tutelada pelo capital e conduzir os avanços sociais de forma gradual e limitada para as classes trabalhadoras.

Paralelamente, avançaram reformas neoliberais no Estado brasileiro, aos moldes do Chile de Pinochet e da Argentina de Jorge Rafael Videla, abrindo possibilidades de captação de fundos públicos da União por setores empresariais, privatizando a cidadania e esvaziando as conquistas históricas do povo.

A anistia, no sentido etimológico da palavra — esquecimento, perdão, amnésia —, configurou-se como uma renegociação, não em favor daqueles que defenderam a democracia e acabaram na prisão, no exílio ou no cemitério, mas sim em benefício dos algozes que tentaram suprimir os direitos dos trabalhadores, torturando e assassinando lutadores por direitos e liberdades.

Os governos do período pós-ditadura mantiveram resquícios autoritários ainda presentes no poder. Esses setores, transformados em partidos conservadores, herdeiros da antiga Arena, alinharam-se ao que hoje se denomina Centrão. Vestem-se em tons pardos e amenos da política institucional, mas não disfarçam suas posições diretas: ocupam cadeiras nas bancadas do Senado e da Câmara, influenciando decisivamente os rumos do país.

Ainda assim, a classe trabalhadora construiu importantes processos de resistência aos governos neoliberais dos anos 1990, mesmo diante de duras derrotas, como a privatização de serviços essenciais — a exemplo da energia, da água, do saneamento e do transporte urbano — e a venda de empresas públicas estratégicas ao mercado, como a Vale e diversos bancos estaduais.

Esse ciclo de lutas abriu uma janela histórica que possibilitou a vitória de Lula, em 2002, resultado da combinação entre resistência social, disputa política e acúmulo de forças populares em defesa dos direitos sociais. Nesse processo, mantiveram-se, a partir da pauta do povo, instrumentos fundamentais de contraposição aos setores conservadores, que seguiram hegemonizando parcelas significativas do poder político e econômico.

Os governos seguintes, de Lula e Dilma, foram defendidos nas ruas justamente porque se compreendia que, sem essa mobilização permanente, anos de história e de conquistas na defesa de direitos seriam rapidamente desmontados.

Já naquele período, o cenário internacional apontava para o avanço do fascismo, abrindo espaço ao autoritarismo e a uma postura belicosa das classes dominantes. Aqueles que atentaram contra os direitos e contra a vida, e cometeram crimes contra o povo, permaneceram impunes, jamais julgados ou responsabilizados.

É a partir dessa leitura histórica que se coloca, no presente, uma tática de ação política objetiva: organizar a luta como defesa e ofensiva ativa. Não se trata apenas de resistir aos retrocessos, mas de defender as conquistas populares, denunciar os projetos autoritários e avançar com as pautas históricas da classe trabalhadora.

A disputa política exige combinar denúncia e proposição, fortalecer a unidade dos movimentos populares e transformar a resistência em força organizada, capaz de enfrentar o capital, o autoritarismo e a tentativa permanente de reescrever a história a favor dos algozes.

Em 2025, mediante uma forte aliança do nosso governo Lula com os movimentos populares, sociais e sindicais, no enfrentamento à burguesia e ao Congresso mais conservador da história do país, ainda assim baixamos o preço dos alimentos, mantivemos a inflação controlada e garantimos um custo de vida aceitável.

Estamos vivenciando o menor desemprego, a menor desigualdade e a melhor renda das últimas três décadas. Tiramos o Brasil do mapa da fome, reduzimos a pobreza e impedimos a aprovação do PL da Bandidagem. Aprovamos a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais por mês e taxamos os super-ricos. Defendemos a soberania nacional e obrigamos os EUA a recuar do tarifaço.

Em 2025, pela primeira vez na história do Brasil, militares de alta patente foram condenados e presos, incluindo o genocida Jair Bolsonaro. Infelizmente, a maioria dos deputados e senadores aprovou um projeto de lei que diminui as penas impostas pela Justiça aos golpistas.

Diante desse cenário, é imperioso abrirmos o calendário de mobilização em 2026 já no dia 8 de Janeiro, data em que os golpistas hoje presos tentaram o golpe em 2023. No dia 8/01, o presidente Lula fará um ato institucional no Palácio do Planalto, em defesa da democracia. Na mesma data, às 10h, as frentes Brasil Popular, Povo Sem Medo e partidos políticos realizarão, do lado de fora do Palácio, um ato popular em defesa da democracia e pelo veto presidencial ao PL da Dosimetria.

E, a partir de 8 de Janeiro, temos o desafio de fazer de 2026 um ano de muita resistência e luta por democracia, por mais direitos e pelo combate aos privilégios e às desigualdades, especialmente empunhando a bandeira pelo fim da escala 6x1.

Também será fundamental nos prepararmos e atuarmos para vencer a batalha mais decisiva de 2026: derrotar eleitoralmente a direita e a extrema-direita e reeleger Lula presidente do Brasil. Raimundo Bonfim, advogado, ex-coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP), da Frente Brasil Popular e diretor de Participação Social da Secretaria-Geral da Presidência da República.

•        A democracia, os heróis e o bom jornalismo. Por Miguel do Rosário

Desde o começo, havia sinais de que a reportagem que acusava o ministro Alexandre de Moraes de pressionar o presidente do Banco Central em favor do Banco Master não tinha pé nem cabeça.

Qual o poder de pressão de um ministro do STF sobre o presidente de um Banco Central autônomo?

Diferente de um chefe que intimida um subordinado, a relação entre Moraes e Gabriel Galípolo carece de hierarquia que justifique a suposta coação.

A inverossimilhança da denúncia se aprofunda ao imaginar um dos homens mais politicamente expostos do país tratando de um tema não republicano por telefone ou presencialmente. Em ambos os casos, a conversa poderia ser gravada. Se houvesse uma manobra ilícita, a prudência recomendaria o uso de intermediários e subterfúgios.

A base da reportagem se apoia em seis fontes anônimas, sem apresentar uma única prova concreta. A narrativa foi prontamente negada por todos os envolvidos, incluindo o próprio Galípolo e o diretor da Polícia Federal, que também teria sido supostamente pressionado e negou categoricamente.

A reação da jornalista Malu Gaspar à repercussão negativa foi sintomática. Em vez de apresentar novos fatos, ela optou pela vitimização e por um discurso antipolítico.

No primeiro artigo em que responde às repercussões — muitas delas negativas — à sua denúncia, Gaspar brinda os leitores com um clichê desgastado da antipolítica já no título: “A democracia não precisa de heróis”.

E vai além, desmerecendo um dos julgamentos mais históricos do STF: “O ano de 2025 vai terminando amargo para muita gente que acreditou nos julgamentos dos vândalos golpistas do 8 de Janeiro e dos articuladores da intentona para impedir a posse de Lula como salvação da democracia.”

Ou seja, em vez de baixar o tom político, ela própria eleva a temperatura do debate. A intenção é clara: deslegitimar o sentimento, compartilhado por grande parte dos brasileiros, de que o STF prestou nobres serviços à nossa democracia, num momento dramático.

Por que fazer isso? O julgamento dos golpistas não foi conduzido apenas pelo ministro Alexandre de Moraes, nem teve qualquer relação com o caso do banco. A conexão entre os dois assuntos visa apenas explorar a polarização, a mesma que ela acusa de ser um dos motivos da interpretação enviesada de suas denúncias.

Malu Gaspar rebate as críticas dizendo que suas denúncias seriam taxadas de “lavajatismo”, como se o lavajatismo não fosse uma mancha real na imprensa brasileira — especialmente na empresa em que ela trabalha e no trabalho dela própria.

O lavajatismo se tornou um problema grave justamente porque misturou moralismo com antipolítica, denúncia vazia, clichês e lugares comuns. Fatores que muitas pessoas identificaram não só nas suas denúncias como na reação que ela vem demonstrando às críticas recebidas.

É preciso reconhecer a função fiscalizadora da imprensa, que deve, sim, investigar os poderosos. Contudo, essa função exige responsabilidade e apuração rigorosa para não se converter em denuncismo, ou pior, tornar-se instrumento de tentativas espúrias de desestabilizar o país.

O episódio do contrato da esposa do ministro com o banco, embora possa levantar questões éticas, não foi conectado a nenhuma ação ilícita de Moraes pela reportagem. A transparência é fundamental, mas a acusação precisa de provas para se sustentar além da insinuação.

Curiosamente, no artigo mais recente, o tom da jornalista muda de forma notória. O foco se desloca para o ministro Dias Toffoli e a narrativa perde a contundência inicial contra Moraes, sugerindo um recuo estratégico.

No fim, a sequência dos fatos expõe um jornalismo que, ao falhar em provar sua denúncia inicial, recorreu à politização e a clichês para defender sua posição. A sociedade, mais madura, soube receber a denúncia com o cuidado necessário, diferenciando jornalismo sério de narrativas frágeis.

A democracia talvez não precise de heróis, mas necessita de figuras públicas corajosas, capazes de enfrentar perigos e obstáculos — o que o ministro Alexandre de Moraes conseguiu provar com louvor. A admiração que parte da sociedade nutre pelo ministro não é superficial, nem “mítica”: é o reconhecimento de alguém que tem sido importante para a democracia brasileira. E gratidão faz parte da cultura política de uma democracia.

 

Fonte: Brasil 247

 

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