quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Jamil Chade: Eleições em 2026 vão testar resiliência das democracias diante da extrema direita

Em 2026, a capacidade de as democracias de resistir aos movimentos de extrema direita será testada em processos eleitorais pelo mundo. Em diferentes continentes, campanhas políticas podem definir não apenas o destino domésticos dos países que vão às urnas, mas do próprio movimento ultraconservador pelo mundo.

Se a agenda política do ano promete ser tão imprevisível quanto os acontecimentos de 2025, analistas apontam que ela pode ainda ser acompanhada por um acirramento da tensão entre as principais potências.

O que processos eleitorais ainda definirão no ano que começa nas próximas horas é a dimensão da influência dos EUA de Donald Trump em diferentes pontos do planeta.

Em sua estratégia de segurança nacional, o governo americano não esconde que irá apoiar partidos de extrema direita pelo mundo, principalmente na Europa.

Eis, portanto, o calendário eleitoral e o que nos espera no ano que está prestes a chegar:

<><> Fevereiro: eleições livres em Bangladesh

As eleições em Bangladesh serão as primeiras desde que a primeira-ministra Sheikh Hasina e seu governo foram depostos do poder em agosto de 2024 por protestos liderados por estudantes. Ela dominou a política de Bangladesh por quinze anos, reprimindo a oposição e corroendo a democracia do país. Hasina foi condenada à morte por crimes contra a humanidade, mas vive exilada na Índia.

Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, foi escolhido para liderar um governo interino com o objetivo de restaurar a lei e devolver o país ao regime democrático.

Mas, para 2026, não há sequer um acordo sobre como serão aplicadas as leis eleitorais. Blocos nacionalistas, uma coalizão de partidos islâmicos, grupos que defendem a criação de uma nova república devem se enfrentar no que pode ser a primeira eleição competitiva do país em mais de uma década.

<><> Abril: extrema direita na Hungria na encruzilhada

15 anos depois de assumir o poder na Hungria, o primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán testará sua popularidade e suas manobras para se manter no poder nas eleições parlamentares no país. Mas, pela primeira vez, seu partido, o Fidesz, não aparece na preferência dos eleitores. A oposição, que levou anos para conseguir se organizar, ensaia uma estratégia para concentrar todo seu apoio em um só candidato.

Uma das apostas, porém, é um ex-aliados de Orban, Péter Magyar, que rompeu com o Fidesz diante de um escândalo de corrupção. Numa recente entrevista ao Financial Times, ele sinalizou que estaria mais próxima da UE, da OTAN e mais distante do Kremlin.

Sentindo que poderia ter seu governo ameaçado, o primeiro-ministro que se diz um admirador de Donald Trump usou a maioria no Parlamento para aprovar uma lei de redistribuição de distritos eleitorais que pode dificultar que a oposição de fato consiga sair vencedora.

<><> Maio: Colômbia e o mapa da América Latina sendo redesenhado

O mês de maio será crítico para a composição política da América Latina. Depois de a extrema direita vencer no Chile, Argentina e aliados de Donald Trump ganhar força no Paraguai, Bolívia e em vários outros países da região, o destino político da Colômbia será colocado em jogo.

Gustavo Petro não pode concorrer. Mas, abalado por fortes questionamentos internos e sob um ataque constante de Donald Trump, seu partido pena para garantir qualquer tipo de continuidade com o escolhido para concorrer ao pleito, o senador Ivan Cepeda.

A violência também voltou a ser um ponto da agenda do país, principalmente depois do assassinato do senador Miguel Uribe Turbay e que costurava uma candidatura à presidência. A oposição, desta vez, deve apresentar Sergio Fajardo, de centro-direita, e Abelardo de la Espriella, um ultraconservador, como possíveis nomes.

<><> Setembro: Suécia vira campo de testes para extrema direita europeia

E será na Suécia, em sua eleição geral de 2026, que o mundo poderá avaliar até que ponto partidos de extrema direita na Europa Ocidental se transformaram nas principais forças políticas do Velho Continente.

O atual governo – uma surpreendente aliança forjada em 2022 entre partidos de centro e a extrema-direita – passou a ser confrontado com a realidade de um aumento da violência e o desembarque da narrativa de que as mudanças estão ocorrendo por conta da imigração. Um outro dilema afeta o país: aumentar ou não os gastos militares, diante do risco de uma ameaça russa.

Por enquanto, os sociais-democratas lideram as pesquisas de opinião. Mas as urnas vão dizer se a extrema-direita se consolidará como um dos pilares incontornáveis no país.

Os Democratas Suecos (SD), um partido de extrema-direita com origens neonazistas, ainda serão acompanhados de perto pelo restante da Europa. Durante o ano de 2026, a extrema direita da França, Espanha e Alemanha buscam se posicionar para disputar o poder em seus respectivos países a partir de 2027.

<><> Outubro: o Bolsonarismo está vivo?

Em outubro, o mundo está de olho no Brasil. Para as forças democráticas, o processo eleitoral será crítico para entender como um um dos maiores países do mundo vai lidar com a pressão das plataformas digitais, a organização da extrema direita mundial e a eventual influência de forças estrangeiras.

Para a extrema direita, o Brasil representa um campo de teste fundamental, principalmente depois da condenação de Jair Bolsonaro.

Mas, acima de tudo, a eleição promete testar a política externa de Donald Trump na América Latina. O campo bolsonarista ainda aposta na ingerência da Casa Branca no processo democrático brasileiro. Já o governo Lula trabalha para neutralizar qualquer tipo de influência de Trump na eleição nacional.

<><> Outubro: o futuro de Netanyahu em jogo

O mês de outubro também será marcado pela eleição ao Parlamento de Israel. Em jogo estará o destino político de Benjamin Netanyahu. Em 2022, para poder governar, o líder israelense formou a aliança mais direitista e religiosa da história de Israel, com um pacto com os grupos mais radicais. Isso obrigou seu governo a ceder às exigências das alas mais radicais da política de Israel.

Netanyahu, que ocupou a liderança por 18 dos últimos 29 anos, ainda enfrenta um processo por corrupção. Os protestos da população contra o primeiro-ministro foram suspensos com o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. Mas a pressão sobre o político deve ganhar força nos próximos meses.

<><> Novembro: Governo Trump vive momento crítico

2026 terminará ainda com uma eleição fundamental: no dia 3 de novembro, os americanos vão às urnas para escolher seu Legislativo. Os resultados das eleições, porém, podem mudar drasticamente o rumo da política americana e mundial, colocando ou não um limite ao projeto da extrema direita.

Nas urnas, o eleitorado irá referendar ou rejeitar o caminho adotado pelo presidente. Se perder sua maioria apertada na Câmara de Deputados, Trump pode ver seus principais projetos comprometidos.

Trump ainda enfrenta uma baixa popularidade. Eleições em algumas cidades e estados norte-americanos em 2025 revelaram que existe um movimento para contestar o poder do presidente.

Mas nada indica que o republicano esteja disposto a simplesmente ver seu poder ser ameaçado. Nos últimos meses, ele passou a pressionar estados governados por aliados a reformularem seus mapas eleitorais para obter mais cadeiras republicanas e, assim, manter seu controle sobre o Congresso.

•        Washington Araújo: O que eles esperam em 2026 — Krugman, Friedman, Žižek e Sachs

Não é comum que economistas, filósofos e analistas geopolíticos tão distintos convirjam no diagnóstico de um mesmo horizonte histórico. Mas é exatamente isso que ocorre quando se lê, em sequência, as reflexões recentes de Paul Krugman, Thomas L. Friedman, Slavoj Žižek e Jeffrey Sachs. Vindos de tradições intelectuais diversas, publicados em plataformas igualmente diferentes — de newsletters autorais a fóruns globais de opinião —, eles desenham, cada um à sua maneira, um mesmo ponto de chegada: 2026 não será apenas mais um ano do calendário, mas um marco de exaustão política, econômica e moral.

O que se esgota não é apenas um ciclo econômico ou um mandato presidencial. O que entra em colapso silencioso é a crença de que o mundo ainda opera sob ajustes automáticos, correções graduais e consensos minimamente estáveis. As previsões para 2026, lidas em conjunto, formam um retrato inquietante: instituições cansadas, sociedades polarizadas, guerras prolongadas, tecnologia acelerada e uma perigosa normalização do improviso.

Paul Krugman, agora escrevendo com mais liberdade fora do New York Times, tem sido talvez o mais contido — e, por isso mesmo, o mais revelador. Em seus textos recentes, ele evita o alarmismo fácil. Não fala em colapso iminente nem em crise financeira clássica. Sua previsão para 2026 é mais sutil e mais corrosiva: uma erosão progressiva da confiança pública, especialmente nos Estados Unidos. Para Krugman, o problema central não será a inflação em si, nem o crescimento do PIB, mas a sensação difusa de que os números “não conversam” com a vida real. Custos de moradia, saúde, educação e energia continuarão pressionando a política, mesmo que os indicadores macroeconômicos sugiram estabilidade.

Krugman aponta ainda um risco pouco debatido: o impacto político do boom da inteligência artificial sobre o emprego qualificado e sobre a política monetária. A promessa de produtividade convive com ansiedade social, e essa tensão tende a se manifestar com força nas eleições de meio de mandato de 2026. Sua previsão é clara: não será um ano de rupturas espetaculares, mas de desgaste acumulado, aquele tipo de desgaste que mina governos e abre espaço para soluções simplistas.

Thomas L. Friedman, por sua vez, observa 2026 a partir do tabuleiro global. Em entrevistas e ensaios publicados fora de sua coluna regular, ele sustenta que o mundo caminha para uma fase de pragmatismo cru, quase cínico. A ideia de uma ordem liberal guiada por valores universais perde força, substituída por alianças funcionais, temporárias e negociadas caso a caso. Para Friedman, 2026 será o ano em que as potências deixarão de fingir que compartilham um mesmo projeto civilizatório.

Nesse cenário, conflitos como o do Oriente Médio, a guerra prolongada no Leste Europeu e a rivalidade sino-americana deixam de ser “crises”, no sentido clássico, e passam a ser condições estruturais. Friedman não prevê uma explosão global, mas um mundo permanentemente tenso, em que líderes se especializam mais em administrar riscos do que em construir futuros. O resultado é um sistema internacional menos ideológico, porém também menos confiável, no qual a improvisação se torna política de Estado.

É Slavoj Žižek, como era de se esperar, quem leva esse diagnóstico às últimas consequências simbólicas. Em seus textos recentes no Project Syndicate e em sua newsletter, o filósofo esloveno sugere que 2026 pode marcar a consolidação de um novo “normal” autoritário, ainda que sem ditaduras explícitas. Crises climáticas, escassez de água, emergências sanitárias e guerras prolongadas criam o ambiente perfeito para a suspensão contínua de direitos em nome da sobrevivência coletiva.

Žižek não fala em golpe clássico nem em retorno aos totalitarismos do século XX. Sua previsão é mais perturbadora: o autoritarismo do cotidiano, aceito sem choque, incorporado à rotina administrativa. Estados passam a decidir quem pode circular, consumir, migrar ou protestar com base em algoritmos, emergências e exceções permanentes. Para ele, 2026 será menos o ano do choque e mais o ano da resignação. O mundo seguirá funcionando — mas com menos ilusões sobre democracia, liberdade e escolha.

Jeffrey Sachs, por fim, oferece a leitura mais frontal e mais normativa. Em artigos recentes publicados fora da grande imprensa tradicional, Sachs trata 2026 como um prazo-limite. Seus textos falam abertamente em bifurcação histórica. Ou a comunidade internacional avança até lá em acordos concretos — especialmente em controle nuclear, clima e governança global —, ou entrará numa década de instabilidade sistêmica.

Sachs chama atenção para um dado pouco presente no debate público: a expiração ou fragilização de tratados estratégicos entre 2025 e 2026, especialmente na área nuclear. A ausência de novos acordos, combinada com a proliferação tecnológica e a deterioração da confiança entre potências, cria um ambiente propício a erros de cálculo. Para ele, 2026 pode ser lembrado como o ano em que o mundo escolheu a inércia — e pagou por isso.

Apesar das diferenças de tom e método, há convergências evidentes entre os quatro autores. Todos rejeitam a ideia de que 2026 será um ano de “retorno à normalidade”. Todos percebem que as instituições estão mais frágeis do que aparentam, mesmo quando seguem operando formalmente. E todos apontam, direta ou indiretamente, para a substituição de grandes projetos por gestão contínua de crises.

As divergências, contudo, são igualmente instrutivas. Krugman aposta no desgaste gradual; Friedman, no pragmatismo sem ilusões; Žižek, na normalização da exceção; Sachs, na urgência de decisões estruturais. Juntos, eles não oferecem uma profecia fechada, mas um alerta multifacetado: o mundo de 2026 exigirá mais lucidez e menos autoengano.

Talvez o traço mais inquietante dessas previsões seja justamente a ausência de surpresa. Não há aqui o anúncio de um evento cataclísmico único, mas a descrição de um processo em curso, visível, quase banal. O risco não está no imprevisto, mas na acomodação. Se 2026 marcará o fim de algo, não será o fim da história, mas o fim da ingenuidade. E isso, como a história costuma ensinar, é sempre um momento perigoso — e decisivo.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil 247

 

Nenhum comentário: