quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Samuel Penteado Urban: Os Estados Unidos no genocídio do povo palestino

Pouco se fala do papel dos Estados Unidos no genocídio palestino, mesmo que não faltem exemplos de como a política externa dos Estados Unidos tem promovido conflitos, golpes e genocídios pelo mundo, sobretudo se tivermos como base um contexto histórico que se inicia no pós-Segunda Guerra Mundial, quando os EUA assumiram em definitivo o espaço que outrora esteve sob domínio britânico.

A exemplo dessas ações estadunidenses pelo mundo, não podemos esquecer da guerra promovida contra o Vietnã; dos golpes e das tentativas de golpe promovidos pela CIA no contexto latino-americano, que atualmente tem se dado pelo discurso da guerra contra o narco terrorismo; da invasão por procuração do Timor-Leste, sob realização da Indonésia, o que resultou na morte de um terço da população leste-timorense. Enfim, não faltam exemplos de atrocidades promovidas pelos EUA, que considero serem fruto, sobretudo, dos interesses geopolíticos dos EUA, que só são possíveis por meio de uma política externa de caráter imperialista.

Na verdade, os Estados Unidos só chegaram a ser a principal potência mundial por causa das suas práticas imperialistas, da mesma forma que a Europa só se enriqueceu por meio da pilhagem realizada nos continentes americano, africano e asiático. No entanto, devido as crises do capitalismo e dos efeitos reversos da globalização, os EUA vêm perdendo o papel de principal potência mundial, o que tem ampliado os problemas internos do país como a desigualdade social, o problema de moradia, o acesso à saúde, dentre outras mazelas proporcionadas pelo capitalismo.

Com isso, em resposta a essa perda de hegemonia, os interesses geopolíticos dos EUA perpassam pela necessidade de redesenhar o Oriente Médio, que se dá pela questão do comércio de armas e pelo controle das reservas de petróleo, mas também como forma de confrontar a ascensão chinesa. Ascensão essa que é econômica e social, mas é, também, pelo aumento do poderio militar e pela aproximação da China com o Oriente Médio, além de sua já consolidada influência no sudeste asiático.

Assim, para podermos compreender as ações estadunidenses que resultam no genocídio do povo palestino, precisamos entender a relação entre EUA e Israel, bem como compreender a questão armamentista e a importância do petróleo nesse tabuleiro geopolítico.

Nesse sentido, a busca pela manutenção da hegemonia estadunidense, tem promovido ações imperialistas diretas e indiretas no Oriente Médio. De forma direta temos como exemplo a guerra do Iraque, e de forma indireta, as ações coloniais de Israel na região, sendo Israel, talvez, o maior representante dos EUA pelo mundo.

Desta forma, essa relação que vem de longa data, com destaque para o contexto pós-Segunda guerra, quando os EUA deram grande apoio à criação do estado de Israel. Mas para compreendermos essa ligação, precisamos entender que a relação existente entre Estados Unidos e Israel diverge das assimetrias que se apresentam nas relações entre os EUA e os países latino-americanos.

Isso porque, como apresentam Breno Altman e Luiz Alberto Moniz Bandeira, essa relação não é apenas unidirecional, pois internamente a política estadunidense, o estado de Israel possui uma significativa representatividade por meio do lobby sionista, responsável por eleger congressistas, através, sobretudo, da American Israel Public Affairs Committee (AIPAC).

Cabe destacar que esse grupo detém e comanda significativa fatia do sistema financeiro, dos meios de comunicação e da indústria cultural, entrando aqui uma longa lista de filmes e séries que retratam os Estados Unidos e Israel como mocinhos perante os “terroristas” árabes, não diferente de como eram retratados os vietnamitas nos filmes do Rambo. E isso tem a ver com o que Milton Santos apresenta como “máquina ideológica”. Essa, segundo o mesmo autor, “sustenta as ações preponderantes da atualidade feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema” (p. 18). E assim, o mundo é a presentado as pessoas como fábula.

Desta forma, a relação entre EUA e Israel perpassa pela comercialização de armamentos, bem como pelo apoio financeiro estadunidense para o desenvolvimento bélico-militar de Israel. A exemplo disso, tem-se o anúncio recente do secretário de defesa dos EUA, Peter Brian Hegseth, afirmando que em 2025, o orçamento para esse setor poderá ultrapassar mais de 1 trilhão de dólares.

Acerca do apoio financeiro, além dos EUA serem o maior fornecedor de armas para Israel, entre os anos de 1946 e 2024, os Estados Unidos foram responsáveis pelos 228 bilhões de dólares que financiaram o desenvolvimento e a produção armamentista em Israel. E isso tornou o estado de Israel o maior receptor da assistência militar dos Estados Unidos em termos cumulativos.

Com isso, Israel garante seu poderio militar adquirindo artefatos e sistemas bélicos, com o intuito de se expandir territorialmente, impondo uma hegemonia regional às custas das atrocidades realizadas contra o povo Palestino. E no caso dos Estados Unidos, eles lucram por meio da comercialização de armas, mas mais do que isso, se postam militarmente na região, de forma direta, ou seja, por meio das suas bases militares, e indireta, por meio de seus representantes regionais, como é o caso de Israel.

Cabe destacar que os interesses dos EUA na região onde se localiza a Palestina, o Oriente Médio, vão além da questão da produção e do desenvolvimento bélico-militar, pois as ações estadunidenses na região visam a manutenção de sua hegemonia, fortemente ameaçada pelo campo liderado pela Rússia e China, que segundo o ranking apresentado pela Global FirePower/World Military Strength, são, respectivamente, os dois países com maior poderio militar do mundo depois dos Estados Unidos.

Acerca do petróleo, como apresenta David Harvey, os Estados Unidos têm um interesse geopolítico bem antigo no Oriente Médio, visando “controle econômico, político e militar do globo – não sendo o motivo menos importante o fato de ser ele o repositório da maioria das reservas de petróleo comprovadas pelo mundo” (p. 26). Na mesma obra, David Harvey ainda aponta que para além de todo “apoio particularmente forte e quase irrestrito a Israel para criar ali um sólido posto avançado de poder norte-americano por procuração” (p. 26), os EUA “iniciaram então uma longa série de operações declaradas e encobertas na região durante a década de 1950, tendo a principal sido a derrubada em 1953 do governo iraniano democraticamente eleito de Mossadegh, que nacionalizara companhias de petróleo de propriedade estrangeira”.

E como resultado, “entre 1940 e 1967, empresas dos EUA aumentaram seu controle das reservas de petróleo do Oriente Médio de 10 por cento a algo próximo de 60 por cento” (p. 26).

A verdade é que há muitos outros exemplos acerca das ações estadunidenses no Oriente Médio, que num primeiro momento objetivaram a conquista e consolidação de sua hegemonia, e atualmente buscam manter esse poderio mundial.

Atualmente, aproximadamente 50% das reservas de petróleo do planeta estão localizadas, incluindo aqui as consideráveis reservas de gás natural e petróleo existentes na Faixa de Gaza e Cisjordânia. A exemplo disso, conforme estimativa apresentada pela Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), somente contabilizando o petróleo existente na Faixa de Gaza, a região possui 122 trilhões de pés cúbicos de gás natural e 1,7 bilhão de barris de petróleo.

Desta forma, seguindo a lógica do imperialismo estadunidense, o controle das reservas de petróleo é essencial para se combater a ascensão da China, pois como se sabe, o país asiático é o principal cliente de petróleo oriundo do Oriente Médio, importando, sobretudo, de Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Irã.

Cabe aqui destacar, que quando falamos em petróleo, estamos nos referindo à principal matriz energética do mundo, pois ele é a base da produção industrial do mundo e de extrema importância para o desenvolvimento do poderio bélico e militar. E desta forma,

Somado a isso, tendo o Oriente Médio uma população que ultrapassa 1 bilhão de habitantes, para a lógica capitalista, esse quantitativo de pessoas é útil para se integrarem na divisão internacional do trabalho, bem como são elas as potenciais consumidoras que poderão manter a expansão do capital através do imperialismo estadunidense.

Portanto, os interesses dos EUA no Oriente Médio têm proporcionado o genocídio do povo palestino. O interesse mais evidente é o da comercialização e apoio ao desenvolvimento e produção de armamentos. Mas precisamos entender que a questão armamentista tem íntima relação com as pretensões geopolíticas dos Estados Unidos no Oriente Médio, que se ligam a necessidade de controle das reservas de petróleo, para que a ascensão chinesa seja inviabilizada e os EUA possam gozar da manutenção de seu poderio pelo mundo.

Assim, na busca por não perder a sua hegemonia e consequentemente frear o crescimento e ascensão chinesa, como exemplo concreto dessa geopolítica estadunidense, conforme publicação do Ministério da Saúde da Palestina, entre os dias 7 de outubro de 2023 e 17 de setembro de 2025, somente contabilizando as mortes de Palestinos na Faixa de Gaza, o número de mortos atingiu a marca de 65.062 pessoas. Em 13 de outubro de 2025, esse número havia subido para 67.869; e em 29 de novembro, esse número atingiu os 70.100 palestinos mortos, com destaque para as mais de 20 mil crianças e mais de 10 mil mulheres que foram mortas pelas forças armadas israelenses em Gaza, com apoio irrestrito da Casa Branca, em termos práticos.

Mao Tsé-Tung estava certo em dizer que, sendo o imperialismo estadunidense uma contradição primária, ele precisa ser enfrentado!

¨      Trump fala em perdão a Netanyahu

Em sua residência na Flórida nesta segunda-feira (29/12), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer declarações contundentes ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante o quinto encontro entre os dois desde o retorno de Trump à Casa Branca, há quase um ano. Em meio a elogios mútuos, Trump sugeriu que Netanyahu pode receber um perdão presidencial em seu julgamento por corrupção e ameaçou novos ataques contra o Irã.

Ao comentar o processo judicial que Netanyahu enfrenta em Israel, Trump afirmou que conversou com o presidente israelense, Isaac Herzog, e disse acreditar que um perdão estaria “a caminho”. A fala provocou reação imediata: o gabinete de Herzog negou que qualquer decisão tenha sido tomada e afirmou que o tema ainda está em avaliação, sem prazo definido.

Benjamin Netanyahu classificou sua reunião com o republicano como “muito produtiva”. “Nunca tivemos um amigo como o presidente Trump na Casa Branca”, declarou. “Ele pode ser muito difícil”, mas Israel “talvez nem existisse” sem a liderança demonstrada por Netanyahu após os ataques sem do Hamas em 7 de outubro de 2023, elogiou Trump.

<><> Trump endurece discurso contra o Irã

O presidente afirmou que os Estados Unidos poderiam lançar novos ataques caso Teerã tente reconstruir seu programa nuclear ou ampliar sua capacidade de mísseis de longo alcance. Segundo Trump, se houver confirmação de novas atividades, “as consequências serão muito poderosas, talvez ainda mais fortes do que na última vez”. A advertência de Trump a Teerã, inimigo declarado de Israel, acontece seis meses após os ataques norte-americanos contra seu programa nuclear.

O Irã, por sua vez, insiste que não está enriquecendo urânio e afirma manter abertura para negociações diplomáticas. Um assessor próximo ao líder supremo iraniano reagiu imediatamente, declarando que “qualquer agressão” contra seu país seria “imediatamente seguida de uma resposta muito severa”. “A capacidade balística e de defesa do Irã não pode ser contida” e não requer “nenhuma autorização”, escreveu Ali Shamkhani na rede X.

<><> Genocídio na Faixa de Gaza

O tema também esteve ligado às discussões sobre Gaza. Trump disse querer avançar rapidamente para a segunda fase do acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mas voltou a defender o desarmamento do grupo palestino como condição central. O acordo, mediado pelos Estados Unidos, enfrenta dificuldades e divergências entre Israel, países árabes e a própria administração norte-americana.

Washington quer acelerar a implementação do frágil plano de cessar-fogo, em vigor desde outubro na Faixa de Gaza entre Israel e Hamas, que se acusam mutuamente de violações frequentes.

<><> Trump receberá o Prêmio Israel

No campo simbólico, o governo israelense anunciou que Trump receberá o Prêmio Israel, tradicionalmente concedido a cidadãos israelenses por contribuições nas áreas de artes e ciências.

O ministro da Educação de Israel, Yoav Kisch, destacou o caráter inédito da decisão e afirmou que esta será a primeira vez que a honraria será entregue a um chefe de Estado estrangeiro, em reconhecimento ao que chamou de “contribuição excepcional ao povo judeu”.

Analistas apontam que, apesar do tom de alinhamento total exibido publicamente, persistem divergências entre Trump e Netanyahu sobre temas sensíveis, como o futuro da Cisjordânia, o papel da Turquia no pós-guerra em Gaza e a situação na Síria. Ainda assim, para Netanyahu, a imagem de apoio explícito do presidente norte-americano pode ter peso político interno, especialmente diante das pressões judiciais e eleitorais que enfrenta em Israel.

¨      Israel matou mais de 700 familiares de jornalistas palestinos para 'silenciar a verdade', denuncia sindicato

Segundo o Sindicato dos Jornalistas Palestinos, Israel matou pelo menos 706 familiares de jornalistas palestinos desde o início da sua guerra genocida em Gaza, em outubro de 2023. O Comitê de Liberdades do sindicato afirmou em um relatório divulgado no final de sábado (27/12) que as forças israelenses estão sistematicamente atacando famílias de jornalistas como parte do que chamou de guerra destinada a silenciar o jornalismo palestino.

O relatório afirmou que os ataques representam uma estratégia deliberada, e não de mortes como resultado da guerra. Muhammad al-Lahham, chefe do Comitê de Liberdades, afirmou que o padrão de ataques entre 2023 e 2025 expõe a intenção de Israel de sufocar o jornalismo independente em Gaza.

Ele também declarou que os ataques contra famílias de jornalistas “revela-se que a ocupação israelense está travando uma guerra abrangente contra a verdade, sem fazer distinção entre a câmera e a criança, nem entre a caneta e o lar”.

O comitê afirmou que as forças israelenses mataram 436 parentes de jornalistas em 2023, 203 em 2024 e pelo menos 67 neste ano. As mortes continuaram mesmo depois que muitas famílias foram deslocadas à força e buscaram abrigo em tendas e acampamentos improvisados, acrescentou.

Ainda, segundo o documento, os ataques israelenses atingiram repetidamente casas de jornalistas, locais de deslocamento e áreas onde se sabe que residem profissionais da mídia e seus familiares. Em alguns casos, famílias inteiras foram dizimadas, deixando jornalistas vivos para testemunhar seu extermínio.

O comitê descreveu isso como uma “mudança qualitativa” no comportamento de Israel, passando da perseguição individual para a punição coletiva. “Ao transformar famílias em alvos, Israel visa intimidar a própria sociedade e eliminar o ambiente que nutre a mídia”.

De acordo com o Shireen.ps, quase 300 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos em Gaza durante a guerra ao longo de 26 meses – uma média de cerca de 12 jornalistas por mês. Em dezembro, um relatório da organização Repórteres Sem Fronteiras constatou que Israel matou mais jornalistas em 2025 do que qualquer outro país.

Apesar das condenações de grupos de defesa da liberdade de imprensa, Israel nunca prendeu ou acusou nenhum de seus soldados pelo assassinato de jornalistas.

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Fonte: A Terra é Redonda/The Guardian/Opera Mundi

 

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