Leonardo
Stoppa: Feminicídio como capital político - quando a tragédia vira método
O
feminicídio é uma tragédia real, brutal e cotidiana. Não há relativização
possível. Mas é justamente por isso que ele não pode ser transformado em ativo
eleitoral, em mercadoria discursiva, nem em pauta de gestão simbólica do
horror. Quando isso acontece, algo se rompe no próprio campo progressista.
Parte
da esquerda brasileira — especialmente a vertente identitária
institucionalizada — passou a viver politicamente do feminicídio. Precisa dele
alto, constante, crescente. Precisa do número. Precisa da comoção. Precisa da
narrativa permanente de guerra entre homens e mulheres. E isso não é um
acidente. É método.
A
lógica é perversa: cria-se um arcabouço legal e discursivo que não resolve o
conflito, não atua na prevenção real, não estrutura mediação social, não
constrói proteção material efetiva. Ao contrário: produz humilhação,
desagregação familiar, perda de identidade e isolamento social. Tudo isso em um
país sem rede de saúde mental, sem política de mediação de conflitos, sem
acolhimento psicológico gratuito e sem acompanhamento contínuo.
O
resultado é explosivo.
O
feminicídio não acontece no momento racional. Ele não ocorre quando o agressor
pondera pena, consequência ou custo jurídico. Ele ocorre no instante de colapso
subjetivo. No momento de fúria, humilhação extrema, sensação de perda total. E
é exatamente esse estado que certas políticas produzem deliberadamente.
O
Estado age com força máxima onde não tem inteligência social. A polícia, o
Judiciário e o aparato punitivo entram como espetáculo de autoridade, mas saem
de cena no momento em que a mulher mais precisa. A chamada “medida protetiva”
é, na prática, uma abstração burocrática: depende de acionamento posterior, de
tempo de resposta, de presença do próprio Estado que já falhou antes.
O homem
humilhado, sem acesso ao poder que o reprimiu, não se vinga do sistema. Não
enfrenta o juiz. Não enfrenta o delegado. Não enfrenta a polícia. Ele
descarrega sua fúria sobre a parte mais vulnerável: a mulher. É aí que a
engrenagem da tragédia se fecha.
E os
operadores políticos disso sabem. Sabem exatamente o que estão fazendo. Não é
ingenuidade. Não é erro de cálculo. É cinismo institucional. Quanto mais casos,
mais verbas. Quanto mais mortes, mais discursos. Quanto mais pânico moral, mais
capital eleitoral.
Há
ainda um elemento ignorado deliberadamente: a destruição identitária. O sujeito
perde trabalho, patrimônio, vínculos, reconhecimento social. O “eu” entra em
colapso. Quando a identidade acaba, a vida perde valor. A própria vida e a do
outro passam a valer o mesmo: nada. É nesse terreno que surgem os feminicídios
seguidos de suicídio. Um gesto final de alguém que já se percebe fora do mundo.
Marx
não defendia emancipações parciais dentro do capitalismo. Ele defendia o fim do
capitalismo. Defendia que a opressão da mulher está diretamente ligada ao
trabalho não remunerado, à reprodução social gratuita e à exploração estrutural
da família como unidade econômica. Sem superar isso, não há libertação real. Há
apenas gestão da miséria.
O
identitarismo substitui luta de classes por guerra cultural. Substitui
transformação estrutural por punição simbólica. Substitui política por
moralismo. E, no caminho, alimenta exatamente a violência que diz combater.
A
esquerda que abandonou suas pautas-raiz passou a administrar cadáveres. A
esquerda que trocou economia política por engenharia de ressentimento tornou-se
cúmplice da barbárie.
Combater
o feminicídio exige coragem para ir além do discurso fácil. Exige enfrentar o
capitalismo, reconstruir políticas públicas de cuidado, mediação, saúde mental
e proteção material real. Tudo o que o identitarismo se recusa a fazer.
Enquanto
isso não acontecer, haverá quem lucre politicamente com o sangue. E isso, sim,
é uma desgraça histórica.
• Feminicídios deixaram média de quatro
novos órfãos por dia no Brasil em 2025
Os feminicídios registrados no Brasil em 2025
não se traduzem apenas em estatísticas de mortes violentas de mulheres. Eles
produzem, diariamente, novas vítimas indiretas: filhos e filhas que perdem suas
mães de forma abrupta. Dados consolidados no primeiro semestre do ano indicam
que a violência de gênero gerou, em média, quatro novos órfãos por dia no país,
evidenciando um drama social contínuo e de longo prazo, relata o jornal O
Globo.
A
informação consta de levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios
(Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina. Segundo o estudo, entre janeiro
e junho de 2025, 683 crianças e adolescentes ficaram órfãos em decorrência do
assassinato de suas mães. No mesmo período, o Brasil contabilizou 950 vítimas
de feminicídio.
Para a
socióloga Silvana Mariano, coordenadora do Lesfem, o impacto desses crimes vai
muito além da perda imediata. "Essa perda irreparável causa revolta e
indignação, podendo gerar ciclos de violência de outras formas. Muitas crianças
vão morar com outros familiares e, às vezes, até em abrigos. O dano social
transforma a trajetória da criança e do adolescente, e repará-lo exige a
necessidade de serviços públicos, benefícios e estruturas do Estado".
O
estudo também revela que a violência frequentemente acontece dentro do próprio
ambiente familiar. De acordo com o Lesfem, 39% dos feminicídios tentados ou
consumados ocorreram na residência da vítima, o que indica que muitos desses
crimes podem ter sido presenciados pelos filhos. Em quase um quarto dos casos,
os autores eram parceiros ou pessoas com vínculo íntimo com a mulher
assassinada, além de centenas de crimes cometidos por ex-companheiros.
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Respostas do Estado ainda limitadas
Desde
2023, uma lei federal garante uma pensão especial de até um salário mínimo para
filhos e dependentes de vítimas de feminicídio menores de 18 anos. A
regulamentação do benefício ocorreu apenas em setembro de 2025, estabelecendo
critérios e procedimentos para a concessão.
• O que é feminicídio e como evitar esse
crime
Desde
que o feminicídio foi tipificado como crime, em 2015, os registros de
ocorrências desse tipo de violência indicam que, no Brasil, este é um grave
problema social e de segurança pública.
Feminicídio
é o nome que se dá ao assassinato de mulheres em razão de seu gênero. O mais
recente Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho,
registra em 2023 mais um aumento no número de mulheres que foram vítimas desse
crime: foram 1.467, 0,8% a mais em relação ao ano anterior.
Isso
representa o assassinato de uma mulher a cada 6 horas e reforça a gravidade da
violência de gênero no país.
Já em
2024, apenas no primeiro semestre, já foram notificadas mais de 2 mil mortes
violentas de mulheres com indícios de feminicídio, de acordo com o Monitor de
Feminicídios no Brasil.
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Por que o feminicídio acontece?
Essa
resposta está ligada à combinação de fatores históricos, culturais e sociais
que tornam o machismo uma característica estrutural da sociedade brasileira.
Somos um país patriarcal, que desvaloriza mulheres, as considera propriedades
dos homens e normaliza todo tipo de violência cometida contra mulheres –
especialmente no ambiente doméstico. Violência doméstica e feminicídio são
motivados por questões de poder e controle, e pela misoginia que perpetua a
ideia da supremacia dos homens.
A
desigualdade de gênero normalizada autoriza socialmente a subjugação das
mulheres, que são controladas. Quando ousam se posicionar e enfrentar as
violências, recebem respostas agressivas por parte dos homens que muitas vezes
culminam no feminicídio. Mas o feminicídio não está necessariamente ligado à
reação das mulheres. Mesmo as que nunca se levantam contra seus agressores são
assassinadas.
Ausência
ou ineficácia de políticas públicas para enfrentar essa situação, desde o apoio
às vítimas até a efetiva punição aos agressores, tornam o cenário ainda mais
complexo.
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Lei Maria da Penha
A Lei
Maria da Penha, em vigor desde 2006, é um marco importante no combate à
violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil. É considerada um
avanço na garantia dos direitos das mulheres no Brasil.
A lei
não contempla apenas os casos de agressão física. Também estão previstas as
situações de violência psicológica como afastamento dos amigos e familiares,
ofensas, destruição de objetos e documentos, difamação e calúnia. Prevê, além
de punição ao agressor, também o acolhimento e assistência à vítima.
Mas,
apesar desse inegável avanço, o feminicídio é uma realidade ainda distante de
ser superada no Brasil, como mostram as estatísticas.
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Como identificar e evitar o feminicídio?
Feminicídios
são mortes evitáveis, que resultam de um processo contínuo de violências contra
as mulheres que tende a se agravar ao longo do tempo. Portanto, o feminicídio
envolve um contexto de misoginia, ou seja, de ódio e menosprezo à mulher;
Embora
naturalizados pela sociedade e considerados como atos de cuidado,
comportamentos do homem como a postura controladora, os sinais de ciúme
extremo, o tom de voz alterado, as críticas destrutivas em tom de brincadeira
dirigidas à mulher, a culpabilização são sinais de alerta. Intimidações,
ameaças e histórico de agressões e violência doméstica são fortes indícios de
perigo. De que o desfecho pode ser mais uma mulher assassinada apenas por ser
mulher.
Combater
o feminicídio não é tarefa simples, pois é preciso uma abordagem
multidisciplinar e um esforço conjunto na sociedade para educar e conscientizar
sobre equidade de gênero, leis e direitos das mulheres.
Neste
sentido, o Ministério das Mulheres lançou a campanha de sensibilização
Feminicídio Zero – nenhuma violência deve ser tolerada, divulgada ao longo de
todo o mês de agosto de 2024.
Além
dos esforços de conscientização, é necessário divulgar o disque 180, número
específico para receber denúncias de violência contra mulheres, garantir
acolhimento e espaços seguros para que vítimas tenham condições de registrar
denúncias, receber atendimentos jurídico e de saúde e acompanhamento posterior.
Garantir a segurança da vítima após a denúncia é um dos grandes desafios.
Somente
com ações integradas e contínuas, com participação efetiva de toda a sociedade,
será possível eliminar o feminicídio e construir uma sociedade justa e segura
para todas as mulheres.
Com o
apoio de doadoras e doadores de todo o país, o Fundo Brasil de Direitos Humanos
fortalece projetos de luta pela efetivação dos direitos básicos de todas as
mulheres. Você pode se juntar a nós agora mesmo e apoiar essa causa. Faça uma
doação e divulgue o Fundo Brasil e a campanha Feminicídio Zero.
Fonte:
Brasil 247/Fundo Brasil.org

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