quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Leonardo Stoppa: Feminicídio como capital político - quando a tragédia vira método

O feminicídio é uma tragédia real, brutal e cotidiana. Não há relativização possível. Mas é justamente por isso que ele não pode ser transformado em ativo eleitoral, em mercadoria discursiva, nem em pauta de gestão simbólica do horror. Quando isso acontece, algo se rompe no próprio campo progressista.

Parte da esquerda brasileira — especialmente a vertente identitária institucionalizada — passou a viver politicamente do feminicídio. Precisa dele alto, constante, crescente. Precisa do número. Precisa da comoção. Precisa da narrativa permanente de guerra entre homens e mulheres. E isso não é um acidente. É método.

A lógica é perversa: cria-se um arcabouço legal e discursivo que não resolve o conflito, não atua na prevenção real, não estrutura mediação social, não constrói proteção material efetiva. Ao contrário: produz humilhação, desagregação familiar, perda de identidade e isolamento social. Tudo isso em um país sem rede de saúde mental, sem política de mediação de conflitos, sem acolhimento psicológico gratuito e sem acompanhamento contínuo.

O resultado é explosivo.

O feminicídio não acontece no momento racional. Ele não ocorre quando o agressor pondera pena, consequência ou custo jurídico. Ele ocorre no instante de colapso subjetivo. No momento de fúria, humilhação extrema, sensação de perda total. E é exatamente esse estado que certas políticas produzem deliberadamente.

O Estado age com força máxima onde não tem inteligência social. A polícia, o Judiciário e o aparato punitivo entram como espetáculo de autoridade, mas saem de cena no momento em que a mulher mais precisa. A chamada “medida protetiva” é, na prática, uma abstração burocrática: depende de acionamento posterior, de tempo de resposta, de presença do próprio Estado que já falhou antes.

O homem humilhado, sem acesso ao poder que o reprimiu, não se vinga do sistema. Não enfrenta o juiz. Não enfrenta o delegado. Não enfrenta a polícia. Ele descarrega sua fúria sobre a parte mais vulnerável: a mulher. É aí que a engrenagem da tragédia se fecha.

E os operadores políticos disso sabem. Sabem exatamente o que estão fazendo. Não é ingenuidade. Não é erro de cálculo. É cinismo institucional. Quanto mais casos, mais verbas. Quanto mais mortes, mais discursos. Quanto mais pânico moral, mais capital eleitoral.

Há ainda um elemento ignorado deliberadamente: a destruição identitária. O sujeito perde trabalho, patrimônio, vínculos, reconhecimento social. O “eu” entra em colapso. Quando a identidade acaba, a vida perde valor. A própria vida e a do outro passam a valer o mesmo: nada. É nesse terreno que surgem os feminicídios seguidos de suicídio. Um gesto final de alguém que já se percebe fora do mundo.

Marx não defendia emancipações parciais dentro do capitalismo. Ele defendia o fim do capitalismo. Defendia que a opressão da mulher está diretamente ligada ao trabalho não remunerado, à reprodução social gratuita e à exploração estrutural da família como unidade econômica. Sem superar isso, não há libertação real. Há apenas gestão da miséria.

O identitarismo substitui luta de classes por guerra cultural. Substitui transformação estrutural por punição simbólica. Substitui política por moralismo. E, no caminho, alimenta exatamente a violência que diz combater.

A esquerda que abandonou suas pautas-raiz passou a administrar cadáveres. A esquerda que trocou economia política por engenharia de ressentimento tornou-se cúmplice da barbárie.

Combater o feminicídio exige coragem para ir além do discurso fácil. Exige enfrentar o capitalismo, reconstruir políticas públicas de cuidado, mediação, saúde mental e proteção material real. Tudo o que o identitarismo se recusa a fazer.

Enquanto isso não acontecer, haverá quem lucre politicamente com o sangue. E isso, sim, é uma desgraça histórica.

•        Feminicídios deixaram média de quatro novos órfãos por dia no Brasil em 2025

 Os feminicídios registrados no Brasil em 2025 não se traduzem apenas em estatísticas de mortes violentas de mulheres. Eles produzem, diariamente, novas vítimas indiretas: filhos e filhas que perdem suas mães de forma abrupta. Dados consolidados no primeiro semestre do ano indicam que a violência de gênero gerou, em média, quatro novos órfãos por dia no país, evidenciando um drama social contínuo e de longo prazo, relata o jornal O Globo.

A informação consta de levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina. Segundo o estudo, entre janeiro e junho de 2025, 683 crianças e adolescentes ficaram órfãos em decorrência do assassinato de suas mães. No mesmo período, o Brasil contabilizou 950 vítimas de feminicídio.

Para a socióloga Silvana Mariano, coordenadora do Lesfem, o impacto desses crimes vai muito além da perda imediata. "Essa perda irreparável causa revolta e indignação, podendo gerar ciclos de violência de outras formas. Muitas crianças vão morar com outros familiares e, às vezes, até em abrigos. O dano social transforma a trajetória da criança e do adolescente, e repará-lo exige a necessidade de serviços públicos, benefícios e estruturas do Estado".

O estudo também revela que a violência frequentemente acontece dentro do próprio ambiente familiar. De acordo com o Lesfem, 39% dos feminicídios tentados ou consumados ocorreram na residência da vítima, o que indica que muitos desses crimes podem ter sido presenciados pelos filhos. Em quase um quarto dos casos, os autores eram parceiros ou pessoas com vínculo íntimo com a mulher assassinada, além de centenas de crimes cometidos por ex-companheiros.

<><> Respostas do Estado ainda limitadas

Desde 2023, uma lei federal garante uma pensão especial de até um salário mínimo para filhos e dependentes de vítimas de feminicídio menores de 18 anos. A regulamentação do benefício ocorreu apenas em setembro de 2025, estabelecendo critérios e procedimentos para a concessão.

•        O que é feminicídio e como evitar esse crime

Desde que o feminicídio foi tipificado como crime, em 2015, os registros de ocorrências desse tipo de violência indicam que, no Brasil, este é um grave problema social e de segurança pública.

Feminicídio é o nome que se dá ao assassinato de mulheres em razão de seu gênero. O mais recente Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho, registra em 2023 mais um aumento no número de mulheres que foram vítimas desse crime: foram 1.467, 0,8% a mais em relação ao ano anterior.

Isso representa o assassinato de uma mulher a cada 6 horas e reforça a gravidade da violência de gênero no país.

Já em 2024, apenas no primeiro semestre, já foram notificadas mais de 2 mil mortes violentas de mulheres com indícios de feminicídio, de acordo com o Monitor de Feminicídios no Brasil.

<><> Por que o feminicídio acontece?

Essa resposta está ligada à combinação de fatores históricos, culturais e sociais que tornam o machismo uma característica estrutural da sociedade brasileira. Somos um país patriarcal, que desvaloriza mulheres, as considera propriedades dos homens e normaliza todo tipo de violência cometida contra mulheres – especialmente no ambiente doméstico. Violência doméstica e feminicídio são motivados por questões de poder e controle, e pela misoginia que perpetua a ideia da supremacia dos homens.

A desigualdade de gênero normalizada autoriza socialmente a subjugação das mulheres, que são controladas. Quando ousam se posicionar e enfrentar as violências, recebem respostas agressivas por parte dos homens que muitas vezes culminam no feminicídio. Mas o feminicídio não está necessariamente ligado à reação das mulheres. Mesmo as que nunca se levantam contra seus agressores são assassinadas.

Ausência ou ineficácia de políticas públicas para enfrentar essa situação, desde o apoio às vítimas até a efetiva punição aos agressores, tornam o cenário ainda mais complexo.

<><> Lei Maria da Penha

A Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, é um marco importante no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil. É considerada um avanço na garantia dos direitos das mulheres no Brasil.

A lei não contempla apenas os casos de agressão física. Também estão previstas as situações de violência psicológica como afastamento dos amigos e familiares, ofensas, destruição de objetos e documentos, difamação e calúnia. Prevê, além de punição ao agressor, também o acolhimento e assistência à vítima.

Mas, apesar desse inegável avanço, o feminicídio é uma realidade ainda distante de ser superada no Brasil, como mostram as estatísticas.

<><> Como identificar e evitar o feminicídio?

Feminicídios são mortes evitáveis, que resultam de um processo contínuo de violências contra as mulheres que tende a se agravar ao longo do tempo. Portanto, o feminicídio envolve um contexto de misoginia, ou seja, de ódio e menosprezo à mulher;

Embora naturalizados pela sociedade e considerados como atos de cuidado, comportamentos do homem como a postura controladora, os sinais de ciúme extremo, o tom de voz alterado, as críticas destrutivas em tom de brincadeira dirigidas à mulher, a culpabilização são sinais de alerta. Intimidações, ameaças e histórico de agressões e violência doméstica são fortes indícios de perigo. De que o desfecho pode ser mais uma mulher assassinada apenas por ser mulher.

Combater o feminicídio não é tarefa simples, pois é preciso uma abordagem multidisciplinar e um esforço conjunto na sociedade para educar e conscientizar sobre equidade de gênero, leis e direitos das mulheres.

Neste sentido, o Ministério das Mulheres lançou a campanha de sensibilização Feminicídio Zero – nenhuma violência deve ser tolerada, divulgada ao longo de todo o mês de agosto de 2024.

Além dos esforços de conscientização, é necessário divulgar o disque 180, número específico para receber denúncias de violência contra mulheres, garantir acolhimento e espaços seguros para que vítimas tenham condições de registrar denúncias, receber atendimentos jurídico e de saúde e acompanhamento posterior. Garantir a segurança da vítima após a denúncia é um dos grandes desafios.

Somente com ações integradas e contínuas, com participação efetiva de toda a sociedade, será possível eliminar o feminicídio e construir uma sociedade justa e segura para todas as mulheres.

Com o apoio de doadoras e doadores de todo o país, o Fundo Brasil de Direitos Humanos fortalece projetos de luta pela efetivação dos direitos básicos de todas as mulheres. Você pode se juntar a nós agora mesmo e apoiar essa causa. Faça uma doação e divulgue o Fundo Brasil e a campanha Feminicídio Zero.

 

Fonte: Brasil 247/Fundo Brasil.org

 

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