Maurício
Brum e Lucas Berti: Eleições na América Latina em 2026 estão na mira das
intervenções de Trump
Semanas
antes de ordenar a invasão militar à Venezuela, bombardeando as ruas de
Caracas, que matou 77 pessoas, segundo levantamento
de jornalistas locais,
Donald Trump já mostrava que não pretende poupar esforços para interferir na
política latino-americana em 2026.
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Interferências norte-americanas na América Latina
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Argentina – outubro de 2025
Apoio
econômico de Trump é decisivo para garantir maioria nas eleições legislativas
ao partido de Milei, seu aliado.
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Honduras – novembro e dezembro de 2025
Nas
eleições presidenciais, Trump apoia o candidato conservador de oposição que,
após discussões jurídicas, é declarado eleito, 24 dias após o pleito, por
autoridades locais.
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Venezuela – janeiro de 2026
EUA
invade militarmente Caracas e captura o presidente Nicolás Maduro, que será
julgado em solo norte-americano, por narcoterrorismo.
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Colômbia – janeiro de 2026
Dois
dias após a invasão da Venezuela, Trump afirma em entrevista que ação militar
contra o presidente Gustavo Petro “lhe soa bem”.
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Cuba – janeiro de 2026
O país
caribenho também foi alvo do presidente dos Estados Unidos, que afirmou que o
governo em Havana “está pronto para cair”.
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Eleições na América Latina
>>> Costa Rica – fevereiro de 2026
Eleições
presidenciais podem ter segundo turno, marcado para abril.
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Peru – abril
O país
escolhe seus representantes legislativos e o presidente. No caso de um segundo
turno, ele acontece em junho.
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Colômbia – maio de 2026
Início
do processo eleitoral que vai escolher o novo presidente do país. A posse está
planejada para ocorrer em agosto.
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Haiti – agosto de 2026
As
eleições serão gerais e um possível segundo turno presidencial ocorre em
dezembro
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Brasil – outubro de 2026
Últimas
eleições presidenciais na região, ocorrem paralelamente ao pleito legislativo e
dos executivos estaduais.
Após condicionar o apoio
econômico à Argentina a
um voto em aliados de Javier Milei nas eleições legislativas de outubro, o
plano ficou ainda mais claro no final de 2025, durante um processo eleitoral
pouco comentado no Brasil: as eleições presidenciais em Honduras. Marcado por
uma lenta contagem de votos e acusações de golpe e fraude, o
pleito – realizado em turno único, em 30 de novembro – se arrastou por semanas,
mas acabou ganhando manchetes por outra razão: a flagrante ingerência da Casa
Branca.
Para
intimidar eleitores do país centro-americano, Donald Trump usou as redes
sociais para prestar apoio público ao candidato de direita Nasry “Tito”
Asfura – que, após reviravoltas, acabaria sendo declarado presidente
eleito pelas autoridades locais 24 dias após a eleição, em plena
véspera de Natal. No embalo do aceno trumpista, a conturbada vitória de Asfura
(bastante celebrada pelo alto
escalão em Washington) também significa o fim do governo socialista de Xiomara
Castro, que deve passar a faixa para o sucessor no final de janeiro. Em
dezembro, apoiadores de Castro foram às ruas para
protestar contra
o envolvimento dos EUA no ciclo eleitoral.
As
tentativas de Washington de interferir nessa eleição não se limitaram, no
entanto, a uma postagem na internet. De olho em dar um recado ainda mais
contundente à região, Donald Trump concedeu um indulto ao ex-presidente
hondurenho Juan Orlando Hernández, que governou o país entre 2014 e 2022. Do
mesmo partido de Asfura, e também de direita, ele foi condenado em 2024 a 45
anos de prisão por levar toneladas de cocaína aos EUA.
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Dois pesos, duas medidas
Trump
perdoa aliados de direita já condenados pelos mesmos crimes que diz combater na
Venezuela. Enquanto a Casa Branca se escora em acusações arbitrárias,
baseadas em medidas antinarcotráfico determinadas por seu
próprio governo para executar civis em
embarcações no Caribe,
a Procuradoria-geral dos EUA anuncia que Maduro será julgado por
narcoterrorismo, entre outros crimes.
No
sábado, 3 de janeiro, o líder republicano voltou a defender
Hernández,
mostrando que sua gestão não vê qualquer problema em definir os próprios
critérios para chutar o tabuleiro político do continente ao sabor de seus
interesses.
Contra
Maduro, a invenção de narrativas também ficou explícita. Após sua captura, o
Departamento de Justiça dos EUA retirou da denúncia
contra o venezuelano a
acusação de que ele seria o líder de um suposto grupo criminoso, o “Cartel de
Los Soles” – cuja existência os trumpistas não conseguiram provar. Mesmo assim,
Nicolás Maduro será processado por narcotráfico.
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Por que isso importa?
- Em 2026, cinco
países da América Latina escolherão seus presidentes e o governo de Donald
Trump já demonstrou que tentará interferir na política da região.
- A região
sul-americana já conta com quatro presidentes alinhados com Trump, na
Argentina, Equador, Paraguai e Bolívia. No Chile, a direita também venceu
as eleições.
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Trumpismo coloca Colômbia, Cuba e outros em linha de tiro
No
domingo, 4 de janeiro, quando mal se sabia o paradeiro de Maduro, a América
Latina já lidava com a possibilidade de outra invasão dos EUA
em um futuro próximo. Dessa vez, Trump ameaçaria Gustavo Petro, presidente da
Colômbia, dizendo que uma ação militar em território colombiano, similar à
ocorrida em Caracas, lhe “soa bem”. Ele também apontou
a mira para Cuba, dizendo que o governo em Havana estaria “pronto para cair”.
Apelando,
mais uma vez, à narrativa genérica do “combate às drogas”, e novamente, sem
mostrar as evidências de tais acusações, o mandatário chamou Petro de um “homem
doente, que gosta de fabricar cocaína e vendê-la aos Estados Unidos”.
Petro usou as redes
sociais para se defender e, em outra postagem, depois apagada, disse que as
acusações de Trump são fruto de um “cérebro
senil”.
Em
2026, a Colômbia pode estar diante de um ‘combo’ do que viveram Honduras e
Venezuela nos meses recentes: além de se tornar alvo de ameaças de invasão
territorial. O país sul-americano realizará eleições presidenciais com a
abertura das urnas entre maio e junho e a posse de um novo governante marcada
para 7 de agosto. Petro não pode se reeleger e a pressão de Trump deve
influenciar o eleitorado e dificultar a tarefa de fazer um sucessor.
Caso a
direita assuma o poder em Bogotá este ano, boa parte da América do Sul estaria
sob o comando de gestões conservadoras e também simpáticas a Washington. Além
de Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, do paraguaio Santiago
Peña e do recém-empossado Rodrigo Paz Pereira, na Bolívia, o extremista José
Antonio Kast tomará posse como presidente do Chile em março.
Para um
presidente que retira um adversário do assento presidencial à força – e, logo depois, diz
ser ele próprio o responsável por “mandar” no país que acaba de invadir –,
interferências em eleições são apenas uma pequena parte da caixa de
ferramentas. Em resposta à postura de Trump, governos da região têm se unido
para condenar os últimos eventos. Assim fizeram Brasil, Chile (ainda sob o
comando de Gabriel Boric), Colômbia, México e Uruguai, além da Espanha, por
meio de um comunicado
conjunto.
O
governo republicano, no entanto, não se importou com a mensagem: um dia depois,
o Departamento de Estado dos EUA publicaria uma
imagem com
a frase “este é o nosso Hemisfério”. O posicionamento preocupante se soma
à menção feita por
Trump à Doutrina Monroe, política externa estadunidense adotada nas primeiras
décadas do século 19 – e que seria uma das bases do modelo intervencionista e
expansionista de Washington na América Latina nos séculos a seguir. “Ela é
muito importante, mas nós a superamos por muito”, disse o governante,
referindo-se ao modelo como “Donroe Doctrine”, misturando o termo
original ao início do próprio nome.
O ano
que se inicia terá ainda eleições presidenciais na Costa Rica, onde o cenário
se desenha para uma provável vitória da atual gestão conservadora sem
necessidade de interferência estadunidense. No Peru, a disputa está
pulverizada, difícil de prever, com mais de 30 pré-candidatos. Mas lá, caso se
repita o cenário dos últimos pleitos, em que a ultraconservadora Keiko Fujimori
avançou ao segundo turno, contra um nome mais ao centro (ou até à esquerda,
como foi Pedro Castillo em 2021), não seria surpresa ver Trump pedindo votos
para a filha do ditador. Fujimori, morto em 2024, governou o país andino entre
1990 e 2000, um mandato de abusos que rendeu uma condenação por crimes contra a
humanidade anos
mais tarde.
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Brasil deve olhar para trás
Por
último, mas não menos importante, vem o Brasil.
O maior
país da região também irá às urnas com muita coisa em jogo no final do ano.
Ouvindo o eco de crises recentes, como a da Lei Magnitsky e o tarifaço,
deixaram o governo Lula em alerta. Autoridades eleitorais brasileiras devem
voltar o filme para lembrar de uma crise que poderia ter sido muito
maior em 2023, caso os ventos do norte soprassem diferente.
Há
cerca de três anos, no infame 8 de janeiro após a terceira posse de Lula,
bolsonaristas vandalizaram prédios públicos em Brasília, um episódio que ficou
conhecido mundialmente como um dos maiores atentados à democracia brasileira
desde o fim da Ditadura Militar. À época (e ainda que, em sua totalidade, não
tenha trazido grandes melhorias concretas para a região), a gestão de Joe Biden
fez o mínimo: condenou o ocorrido. É plausível
especular que Trump, se estivesse no poder à época, endossaria a narrativa
bolsonarista de que as eleições foram fraudadas – uma cartilha criada por ele
próprio dois anos antes, com os ataques ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.
Em
2026, caso apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) repitam as
cenas de terror diante de uma eventual reeleição de Lula (um cenário sustentado
por pesquisas de momento), o desfecho pode ser mais grotesco. Tanto no Brasil
como nos EUA, as respectivas rebeliões da extrema direita acabaram com muitos
sendo presos no processo. Mas, enquanto Bolsonaro foi condenado por seu golpe
fracassado, Trump seguiu impune e está outra vez na Casa Branca.
Lula
tem contado com uma boa relação pessoal com Trump, desde o encontro de ambos na
última Assembleia Geral da ONU, e que ajudou a desenrolar boa parte do
tarifaço. Os movimentos erráticos do presidente norte-americano, no entanto,
não permitem dar nenhum cenário por garantido. Quando, a hoje decapitada,
extrema direita brasileira finalmente se aglutinar em torno de um novo
candidato, é de se esperar que Trump repita o que já fez em outros processos
eleitorais da região, estendendo seu apoio, seja explícito, ou por meio de
pressões e sabotagens. Tal movimento pode dar aos herdeiros do bolsonarismo uma
nova aposta no caos urbano em nome de fraudes inexistentes e teorias sem base.
Apelos que, desta vez, podem encontrar nos EUA um apoio de intensidade inédita.
Basta lembrar como já foi impensável uma invasão norte-americana à América do
Sul como a que abriu o ano de 2026.
Fonte:
Agencia Pública

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